Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Secos & Molhados

Ecos da expulsão que inaugurou uma ‘época despida’

  Fábio Braga/Folha
Formalizada em anúncio veiculado neste domingo (8), a expulsão da estudante Geisy Arruda dos quadros da Uniban inaugurou uma época despida.

 

Ao punir a estudante do minivestido e livrar a cara dos "talibãs" que a agrediram, a Unibam expôs uma nudez que ninguém queria ver: o nu acadêmico.

 

Vão abaixo alguns ecos que entrecortaram a pasmaceira de um domingo modorrento:

 

- Esclarecimentos: Insatisfeito com as explicações providas pela Uniban, o MEC vai oficiar a escola. Quer saber, tintim por tintim, o que motivou a expulsão.

 

Ouça-se a secretária de Ensino Superior do ministério, Maria Paula Dallari: "Vamos analisar o que ocorreu...”

 

“...Em vista dos esclarecimentos, o MEC pode recomendar que a universidade se comporte como uma instituição de educação".

 

- De vítima a ré: A ministra Nilcéa Freire (Políticas para as Mulheres) veio aos holofotes para realçar o “absurdo” que a transparência do episódio deixou à mostra:

 

“A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente”.

 

Nilcéa cogita acionar, além do MEC, o Ministério Público. Falou num seminário do qual participava também a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que a endossou:

 

"Mesmo que ela fosse uma prostituta, qual seria o problema da roupa? Temos que ter tolerância com a decisão e postura de cada um", disse Erundina.

 

- Repercussão: Na era do cristal líquido, a exposição das entranhas ganhou as versões on-line de veículos de comunicação do estrangeiro.

 

O caso foi penduradado nos sítios de agências internacionais –Associeted Press e Efe—; de jornais –NY Times, Guardian e Daily Telegraph—; e de TV –CBS.

 

- Solidariedade: A UNE levou ao seu portal uma nota. Termina assim: “Exigimos que a matrícula­ da estudante seja mantida...”

 

“...Que a Universidade se retrate publicamente e que todos os agressores sejam julgados e condenados não somente pela Uniban, mas também pela Justiça”.

 

Presidente da UNE, Augusto Chagas comparou: "É como nos casos em que se responsabiliza a vítima de um assalto por estar segurando a carteira...”

 

Ou quando “...se diz que uma mulher é culpada quando sofre um assédio ou abuso por causa da sua roupa. Isso nos parece lamentável".

 

- Perplexidade: Nehemias Melo, advogado de Geisy, declarou-se “perplexo” e “atordoado” com a expulsão de sua cliente.

 

O advogado reúne-se com a estudante nesta segunda (9). Nesse encontro, vai definir as providências a adotar.

 

Como se vê, ao lidar com o episódio de modo enviesado, a Uniban colhe o pior tipo de exposição.

 

Descobriu-se que, sob o manto diáfano que recobre as entranhas da universidade, esconde-se um moralismo fora de época.

Escrito por Josias de Souza às 22h09

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Estudante do minivestido é expulsa de universidade

Geyse Arruda, 20, foi excluída do quadro de alunos da Uniban, universidade privada de São Bernardo do Campo (SP).

 

Sindicância da instituição responsabilizou a aluna pelo tumulto ocorrido no campus, na noite de 22 de outubro.

 

Geyse ganhara fama nacional graças ao registro da confusão em vídeo. Pendurada na web, a peça tornara-se um hit.

 

Corpo recoberto por um minivestido vermelho, pernas à mostra, a aluna tivera de deixar a universidade, sob xingamentos, escoltada por policiais.

 

A expulsão foi decidida em reunião realizada na madrugada deste sábado (7) e publicada em anúncio veiculado pela universidade nas edições dominicais de em jornais de São Paulo. Concluiu-se que Geyse “procovou” os colegas.

 

Alegou-se que era usual que ela comparecesse às aulas com roupas curtas e decotes generosos.

 

Ouça-se o assistente jurídico da Uniban, Décio Leonci Machado: A aluna “sempre gostou de provocar os meninos”.

 

Como assim? “O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar”.

No dia da algaravia, disse o advogado da universidade, Geyse teria subido deliberadamente seu microvestido com as mãos.

 

Segundo o assessor jurídico, o gesto possibilitou “a quem vinha atrás” enxergar as “partes íntimas” da moça.

 

De resto, disse Décio Machado, Geyse teria entrado numa sala que não era a dela, interrompendo a aula pelo meio. Tudo porque um rapaz desejava conhecê-la.

 

Ao tomar conhecimento da decisão, Geyse reagiu com espanto:

 

“Como me expulsaram? Que absurdo! Eu fui a vítima, quase fui estuprada, como puderam fazer isso?” Ela rebateu as acusações:

 

“Eu estava segurando uma bolsa enorme na mão e um fichário na outra, como conseguiria levantar o vestido? Entrei na outra sala porque fui chamada”.

 

Afora a expulsão de Geyse, nenhuma outra providência foi adotada. Os colegas que a hostilizaram saíram incólumes da sindicância.

 

A universidade só teve olhos para o par de pernas. No mais, fez ouvidos moucos para os uivos e impropérios da legião de bocas desabridas.

 

Aluna com vestido curto não pode. Estudantes com comportamento de talibãs são admitidos. A decisão ainda vai dar muito pano para a barra.

Escrito por Josias de Souza às 19h18

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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