Pela sétima vez, 'afanaram' os óculos de Drummond
No seu “Claro Enigma”, Carlos Drummond de Andrade usou como epígrafe um verso de Paul Valéry: “Lês événements m’ennuient”.
Em tradução livre: Os acontecimentos me entediam. Ou, se quiser, me chateiam.
Hoje, nada deve aborrecer mais o poeta do que o vandalismo a que vem sendo sistematicamente submetida a estátua de Drummond.
Assentada num banco do calçadão de Copacabana, a estátua amarga, pela sétima vez, o furto de seus óculos.
Nem sinal dos vândalos. Vai-se repetir a rotina:
Empresa contratada pela prefeitura restituirá a armação ao dono.
E ela será danificada e subtraída novamente.
No dizer de Machado de Assis, o sono é uma forma interina de morrer.
Adormecendo, o sujeito se afasta da canseira da vida.
Com a vantagem de levar para o leito um bilhete de volta.
No caso de Drummond, o sono é definitivo. E o retorno, eterno.
O poeta renasce cotidianamente nas dobras da genialidade de seus escritos.
A estátua de Copacabana deveria inspirar o respeito dos vivos a um morto que, por imortal, permanece em cena como um personagem insone.
Se lhe fosse dado falar, a estátua de Drummond talvez trocasse Paul Valéry por Joaquim Nabuco.
Em momento de rara inspiração, Nabuco inventou a Nossa Senhora do Esquecimento.
‘Notre Dame de l’Oubli’, como ele preferia dizer, em francês.
O Brasil tem fama de país sem memória. Talvez seja mesmo.
Só uma sociedade demente é capaz de tratar o seu passado ilustre com tamanha falta de respeito.

Encontra-se em Fortaleza, neste sábado (8), a nata financeira e política da nação.