Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Secos & Molhados

Veja a quem o governo confiou a reforma tributária

Veja a quem o governo confiou a reforma tributária

Escrito por Josias de Souza às 04h18

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Collor, o tempo, a razão e a tintura para cabelos

Collor, o tempo, a razão e a tintura para cabelos

Lula Marques/Folha
 

 

Escorraçado do Planalto numa fase em que suas horas mais preciosas eram as mais rápidas, Collor trazia no pulso um relógio com espadas no lugar dos ponteiros.

 

Enredado por malfeitorias, vaticinou: “O tempo é o senhor da razão.”

 

Devolvido à insignificância pré-presidencial, Collor passou a cuidar dos minutos. Suas horas pareciam já ter passado.

 

Em decisão fora de hora, a imprudência do eleitor alagoano arrancou Collor do ostracismo. Devolveu-o ao Senado.

 

Retornou a Brasília com ares de quem não sentira o passar do tempo. Mulher nova a tiracolo. Cabelos negros como as asas da graúna.

 

Parecia igualzinho ao jovem presidente. Na aparência, não melhorara nada. Era como se quisesse converter o presente caído do céu num pretérito que não passa.

 

No Legislativo, pôs-se a matar o tempo. Aderiu a Lula, a besta-fera de seu passado; reivindicou, da tribuna, um prontuário limpo; e abraçou a causa da ecologia.

 

Súbito, Collor decidiu radicalizar. Mandou ao lixo a tinta de cabelo. As fotos acima, captadas pelo repórter Lula Marques, mostram, finalmente, o que o tempo está fazendo com ele.

 

São fotos recentes: uma é da posse no Senado. Outra, dos dias que antecederam o recesso do meio do ano. A última, de quatro dias atrás.

 

Descobre-se que o tempo ainda não entregou a Collor a “razão” que ele reivindicara. Mas já lhe deu os cabelos de um sexagenário.

 

Pois é, aquele presidente que fingia ser imortal, agora não é senão um projeto de memória. Triste memória.

 

Resta a Collor o consolo proporcionado pela única certeza imutável: com o tempo, todos serão fósseis. Mesmo os que não têm os pecados "delle". Até os que são mais bonitos do que "elle" -a Patrícia Pillar, por exemplo.

Escrito por Josias de Souza às 20h23

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Sobre Bush, direitos humanos, vidraças e telhados

Sobre Bush, direitos humanos, vidraças e telhados

 


Ao ser derrotado numa eleição para governador da Califórnia, Richard Nixon reuniu a imprensa para se despedir da política.

 

“Vocês não terão mais Richard Nixon para chutar”, disse ele aos repórteres que acorreram à coletiva.

 

Na bica de deixar a Casa Branca, George Bush experimenta situação análoga à de Nixon. Logo, logo será cachorro morto.

 

As coisas não serão mais as mesmas quando não houver um Bush para ser chutado. Assim, convém apressar os pontapés.

 

Por sorte, Bush ainda não renunciou ao papel de alvo. E jamais decepcionou como provedor de matéria-prima para justas indignações.

 

Na semana passada, de passagem pela China, Bush aproveitou a vitrine da abertura dos Jogos Olímpicos para jogar pedras no regime político do anfitrião.

 

Bush cobrou da China respeito aos direitos humanos. Era a bandeira certa empunhada pela pessoa errada.

 

Era o telhado de vidro apontando para a vidraça. Era o sujo deitando falação contra o mal lavado. Era o velho cachorro pedindo para ser chutado antes de morrer.

 

Pois bem. Vai-se chutar Bush com sapatos alheios: os mocassins do jornalista britânico Christopher Hitchens.

 

Ele decidiu se oferecer como voluntário para uma experiência inusitada. Recrutou um grupo de veteranos das Forças Armadas e...

 

E entregou-se como cobaia de uma simulação de afogamento. Trata-se de uma técnica que onze em cada dez entidades de direitos humanos classificam como tortura.

 

Nos EUA da era Bush, ganhou um nome edulcorado: “interrogatório extremo”. E passou a ser infligida a prisioneiros no Iraque, no Afeganistão e na base de Guantánamo.

 

Funciona assim: o prisioneiro é deitado sobre uma prancha de madeira. Capuz na cabeça, é atado à maca por correias apertadas nos pés e na barriga.

 

Sobre o rosto encapuzado, vai uma toalha dobrada em três. Em seguida, despeja-se água sobre a boca e o nariz da vítima.

 

Os efeitos costumam ser instantâneos. Submetido à técnica, o sujeito confessa até as peraltices da infância.

 

O bravo Hitchens resistiu o quanto pôde. O que, no seu caso, não foi muito tempo: escassos 11 segundos.

 

Ao submeter-se ao suplício, Hitchens queria verificar, de modo cabal, se a simulação de afogamento é ou não uma forma de tortura.

 

A experiência foi documentada em imagens –fotos e vídeo (disponível lá no alto)— e registrada num texto do próprio Hitchens, escrito na primeira pessoa.

 

O artigo foi às páginas da edição de agosto da revista americana Vanity Fair. Para sorte dos leitores brasileiros, a repórter Dorrit Harazim descreveu a saga de Hitchens na última edição da revista Piauí.

Dona de elegância vernacular que injeta sabor em cada frase que escreve, Dorrit poupa o tempo do signatário do blog. Não resta senão encaminhar você para o texto da repórter.

De resto, esclareça-se que o depoimento de Hitchens não deixa margem para dúvidas. O veredicto é explicitado já no título do artigo: “Acreditem, é tortura.”

 

Evocando uma frase de Abraham Lincoln –“Se a escravidão não é crime, não há crimes”—Hitchens arranca o véu diáfano de hipocrisia que recobre o “interrogatório extremo” dos torturadores de Bush.

 

“Se isso não constitui tortura, então a tortura não existe”, anota Hitchens. Aqui, cabe acrescentar um derradeiro raciocínio:

 

Se os EUA não violam os direitos humanos, então as violações atribuídas à China também não existem.

Escrito por Josias de Souza às 01h36

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Selva urbana!

Selva urbana!

Escrito por Josias de Souza às 12h41

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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