Notícia recria ambiente típico da velha Guerra Fria
Guardian
A coisa começou na última segunda-feira (21). Citando fonte bem-posta, o jornal russo Izvestia veiculou uma notícia cabeluda.
Informou-se que Moscou cogita usar instalações assentadas na ilha de Cuba para reabastecer aviões militares.
Aeronaves de um tipo estratégico: os bombardeiros Tupolev-160 (foto no alto). São conhecidos como “cisnes brancos”. Transportam ogivas nucleares.
Seria uma reação de Moscou aos planos dos EUA de instalar uma espécie de escudo antimísseis norte-americano no Leste Europeu.
O governo russo desmentiu a notícia. Havana, porém, guardou obsequioso silêncio. O presidente Raul Castro, irmão e sucessor de Fidel, não disse palavra.
E a notícia continuou ecoando pelo mundo. Nesta quinta (24), por exemplo, foi às páginas do diário britânico The Guardian.
Na última terça (22), indicado para comandar a Força Aérea dos EUA, o brigadeiro Norton Schwartz falou a uma comissão do Senado norte-americano.
Cavalgando a notícia do Izvestia, ele disse: a hipótese de reabastecimento de aviões russos em Cuba "é algo que cruza um limite, cruza uma linha vermelha para os EUA".
Em reação às palavras do brigadeiro, Fidel Castro animou-se a levar à rede um artigo de timbre provocativo. Saiu nesta quarta (23), no sítio Cuba Debate.
Fidel festeja o travar de mandíbulas do irmão: "Raúl fez muito bem em manter um silêncio digno (...). Não é preciso dar explicações nem pedir desculpas ou perdão.”
Aproveita para desancar o barulho do brigadeiro Schwartz. Disse que os comentários do novo comandante da Força Aérea dos EUA compõem a estratégia anti-Cuba.
Uma "estratégia maquiavélica (...). Se você disser que sim, eu te mato. Se disser que não, dá na mesma, te mato do mesmo jeito."
O caso traz do fundo para as beiradas do baú da memória o episódio da crise dos mísseis. Deu-se, como se recorda, em 1962.
Um ano em que os EUA e a velha União Soviética estiveram na bica de deflagrar a Terceira Guerra Mundial.
Sob Nikita Khurschov, os soviéticos plantaram mísseis em Cuba, que fica a escassos 170 km da Flórida.
O pedaço mais radical da administração John Kennedy defendia uma resposta drástica de Washington. O presidente deu ouvidos ao bom senso.
Arrancou-se de Khurschov o compromisso de retirar os mísseis de Cuba. Em troca, os EUA removeram os mísseis que haviam posicionado na Turquia.
Torça-se para que o desmentido de Moscou seja sincero. O mundo não merece reviver atmosfera tão fora de moda.