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Secos & Molhados
Sobre seres do oceano e criaturas do mar de lama
Vermes tubulares
Assim como nas profundezas do mar de lama que margeia a política brasileira, também nos trechos insondáveis do oceano há seres de aparência estranhíssima. A diferença é que, graças aos avanços da tecnologia, as criaturas oceânicas vêm sendo descobertas mais rapidamente do que os monstros do mar de lama.
Foi lançado neste mês de maio, no Reino Unido, um livraço. Chama-se “The Deep”. Traz 220 fotos de seres bizarros do oceano. Seres como o exibido na foto lá do alto, batizado de “Vermes Tubulares”. Deve se parecer com o “Vermes Empreiteiros”, muito encontradiço no mar de lama.
As imagens de “The Deep” foram captadas pela jornalista e cineasta francesa Claire Nouvian. Manejando moderníssimos equipamentos digitais de fotografia, ela obteve cenas reveladoras. Considerando-se que, por ora, apenas 5% do leito do oceano foram mapeados detalhadamente, pode-se imaginar o que ainda está por ser descoberto.
Embora também disponham de equipamentos sofisticados, a Polícia Federal e o Ministério ainda não lograram roçar nem 5% da fauna que se esconde na escuridão do mar de lama brasileiro. Por mais que avancem, os investigadores ainda não conseguiram identificar, por exemplo, um ser que a sociedade anseia encarar: um bicho chamado “Últimas Conseqüências”.
Diz-se que a incursão atual levará o país a exemplares da família das “Últimas Conseqüências”, que têm no “Doa a quem Doer” o seu parente mais próximo. Receia-se, porém, que uma outra criatura do mar de lama, o mostro da “Conveniência”, arme, de novo, barreiras de proteção para impedir que se chegue às “Últimas Conseqüências”.
Enquanto não alcançamos as profundezas do mar de lama, resta-nos contemplar os inofensivos seres trazidos à tona por Claire Nouvian. É possível que alguns deles guardem semelhanças com os seus congêneres enlameados. Note-se, por exemplo as duas criaturas exibidas abaixo.
A primeira, chamada de “Água Viva gigante”, deve ter a mesma cara de cogumelo das criptógamas parasitas que se espalham pelas rubricas do Orçamento da União. A segunda, o “Polvo Dumbo”, há de assemelhar-se aos congressistas que fazem de seus mandatos balcões de aportunidade$. Note que o “Dumbo” tem orelhas e pés enormes. Falta-lhe, porém, a boca. Com as orelhonas, capta propostas indecentes. Com os pezões, arromba as portas do erário. Quando pilhado, guarda obsequioso silêncio.

Água Viva Gigante

Polvo Dumbo
Escrito por Josias de Souza às 15h58
O ‘pendão da esperança’ jaz num canto do Congresso
Lula Marques/Folha
A cena foi captada pelas lentes do repórter Lula Marques. Deu-se às 19h40 desta quarta-feira (24). O auriverde símbolo desta terra em que já nem o sabiá se arrisca a cantar, com receio de que o pio seja captado pela escuta ambiental da PF, jaz, amarfanhado e esquecido, num canto ermo do Salão Nobre da Câmara. Em pensar que Olavo Bilac um dia escreveu:
“Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da pátria nos traz”.
O pendão, é certo, continua lindo. Mas a esperança, até ela, já nos foi roubada. O símbolo, por mais augusto e nobre, já não consegue evocar senão a grandeza da vergonha. Um sentimento penoso, que emerge das vísceras, expostas a golpes de navalha e humilhação.
Escrito por Josias de Souza às 03h59
Plante uma vela em Nazaré pela pechincha de US$ 20
Deus, como se sabe, está em toda parte. Ainda não aprendeu a lidar, porém, com a internet. Ali, Ele permite que alguns de seus filhos mercadejem os valores da fé com tal desfaçatez que muitos crentes podem ficar tentados a crer que Deus, na verdade, não existe.
Criou-se agora, veja você, um sítio que oferece um serviço inusitado: em troca de US$ 20, acende-se uma vela na Igreja da Anunciação, em Nazaré, região norte de Israel. Foi em Nazaré, informam as sagradas escrituras, que o arcanjo Gabriel anunciou à Virgem Maria o nascimento de Jesus.
A coisa é sofisticada: postado diante de seu computador, o comprador da reza poderá testemunhar, em tempo real, a cena do sacerdote acendendo a vela e preferindo o seu nome no altar-mor do templo da Anunciação. Depois, receberá, por e-mail, uma cópia da gravação.
Diz-se que a grana amealhada será revertida às arcas da igreja local. A dúvida que remanesce é: se o Todo Poderoso é mesmo onipresente, por que diabos alguém precisa pagar US$ 20 para ter seu nome mencionado em Israel? O Deus da capela da esquina é menos eficiente?
Escrito por Josias de Souza às 14h48
Em meio ao mau humor, uma homenagem ao riso
Abstraindo a perversão que os eleitores de outros Estados despacham para Brasília, a Capital da República é uma cidade que pulsa como todas as outras. Quem se dispõe a olhar por sobre os muros da Praça dos Três Poderes arrisca-se a enxergar coisas interessantes do outro lado.
Uma delas é a companhia de teatro “Os Melhores do Mundo”. Até bem pouco, era um grupo de Brasília. Hoje, é do Brasil. O signatário do blog oferece a seus 22 leitores a oportunidade de uma risada neste final de noite de domingo.
Vai acima uma amostra do tipo de humor produzido pelos “Melhores do Mundo”. Trata-se de quadro exibido no Programa do Jô. Conta a saga de um personagem notável: Joseph Climber. Se você já viu, veja de novo. Se não viu, se apresse. Se não rolar de rir, procure um psicólogo porque o seu caso é grave.
Escrito por Josias de Souza às 20h56
Oscar da fotografia está em exposição em São Paulo
Akintunde Akinleye/Nigéria
Explosões nos pipilines na Nigéria
Encontram-se expostas no Sesc Pompéia, em São Paulo, as 205 fotos premiadas na edição de 2006 do World Press Photo. Trata-se de uma fundação holandesa. Anualmente, reúne um júri internacional para eleger as melhores fotos produzidas pela imprensa mundial. Tornou-se uma espécie de Oscar do fotojornalismo.
Feita a eleição, organiza-se uma exposição itinerante, que percorre 80 países. No momento, faz escala no Brasil. Se você reside em São Paulo, não perca (Rua Clélia, 93). Começou em 10 de maio. Vai até 10 de junho. Se mora em outros Estados, pode contentar-se com as quatro peças exibidas aqui (no alto e abaixo). Ou pode visitar a galeria disponível no sítio da fundação holandesa. Basta pressionar aqui. Vale o desperdício de um naco do seu tempo neste final de semana.
Jan Grarup/Dinamarca

Refugiados do Darfur
Lorenzo Ciccon Massi/Itália

Escola de futebol em Pequim
Peter Schols e Dagblad De Limburger/Holanda

A cabeçada em Materazzi, desfecho sombrio da carreira de Zidani, na Copa-2006
Escrito por Josias de Souza às 22h40
Uma jóia mundana para quebrar a overdose de papa
As Senhoritas de Avignon/Pablo Picasso
Num instante em que o noticiário encontra-se monopolizado pela visita e pela pregação moralista do papa, o signatário do blog oferece aos seus 22 leitores a oportunidade de rever uma jóia mundana. “As Senhoritas de Avignon” (acima), pintura concluída por Pablo Picasso em 1907, completa o seu centenário neste ano da graça de 2007.
O MoMa (Museu de Arte Moderna de Nova York), como sói, não deixou a data passar em branco. Dono da obra de Picasso há 70 anos, o museu promove uma exposição em que realça o histórico das “Senhoritas” de Picasso, representação de cinco prostitutas. Não deixa de ser, à maneira do autor e na visão dos apreciadores da boa arte, uma obra sacra.
Escrito por Josias de Souza às 19h13
Assediadas pelas mazelas do mundo, as almas humanas dividiram-se em três grandes categorias: há as esperançosas que, por crédulas, entregaram tudo a Deus. Há as desesperadas, que acham que Deus não existe. E há as que, não podendo mais acreditar em coisa nenhuma, dispõem-se até a crer em Deus.
Deus, evidentemente, existe. Mas anda cochilando muito ultimamente. Permitiu, por exemplo, que fosse criado um sítio chamado GodTube. Trata-se de uma versão cristã do badalado Youtube. Destina-se a disseminar na rede mundial de computadores mensagens religiosas, escoradas nos valores do Evangelho.
O sítio dispõe, por ora, de cerca de 4,8 mil vídeos. Desponta como um dos mais vistos o clipe “Baby Got Book” (Ela tem a Bíblia). Está disponível lá no alto. Trata-se de uma paródia de um famoso rap norte-americano. Coisa chata, muito chata, chatíssima.
De duas uma: ou Deus intervém imediatamente neste sítio criado em seu Santo nome ou logo o mundo vai acabar se convencendo de que Ele não merece existir.
Escrito por Josias de Souza às 16h42
Guernica ‘revisitada’ 70 anos depois da tragédia
Pablo Picasso
Em 27 de abril, quatro dias atrás, o bombardeio de Guernica, cidade santa dos bascos, completou 70 anos. A Espanha encontrava-se sob Franco. A Alemanha, sob Hitler. E a Itália, sob Mussolini. Transformada num misto de exemplo e campo de experimentos nazi-fascistas, Guernica, habitada por cerca de 7.000 pessoas, foi bombardeada e metralhada por 42 aviões. Ficou reduzida a chamas, destroços e corpos.
Em Crime e Castigo, Dostoievski (1821-1881), como que antevendo atrocidades à Guernica, anotara: “Decididamente, não compreendo por que é mais glorioso bombardear de projéteis uma cidade assediada do que assassinar alguém a machadadas.” Pois bem, ainda hoje o homem continua vendo glória onde não há senão atrocidades.
Há no mapa um sem-número de neo-Guernicas. O jornalista Faust Giudice contabiliza pelo menos sete: Gaza, Tel Afar, Faluja, Samarra, Najaf, Grosny e Kandahar. Assim, nada mais apropriado do que rememorar o flagelo espanhol. Convocados pelo sítio Tlaxcala, que abriga uma rede de tradutores voluntários, sete artistas produziram imagens que atualizam a tragédia de 70 anos atrás, transpondo-a para os dias que correm.
Os trabalhos não têm a vitalidade plástica da Guernica original, a famosa pintura de Picasso (veja lá no alto). Mas servem para reiterar que, depois de sete décadas, o homem continua dando as “machadadas” de que falara Dostoievsk. A Guernica de Picasso –com seus oito metros de largura por três e meio de altura—, foi um grito. As sete miniaturas de 2007 são evidências de que o berro ainda ecoa.
No Brasil, as peças inspiradas em Guernica foram reproduzidas pelo sítio Via Política. Vão abaixo três exemplares. Pressionando aqui, você vê todas elas. O sítio Tlaxcala providenciou, de resto, a tradução, para seis idiomas, de um texto histórico. Trata-se da reportagem escrita em 1937, em inglês, pelo jornalista sul-africano George Steer, enviado especial a uma Guernica devastada pela esquadrilha nazi-fascista.
O texto foi publicado no dia seguinte ao bombardeio pelos diários The Times e New York Times. Leia aqui a versão em português, produzida por Sylvia Bojunga. E aqui o memorável texto original de Steer.
Juan Kalvellido

Ben Heine

Amer Siomali e Basel Nasr

Escrito por Josias de Souza às 16h04
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