Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Secos & Molhados

‘Minha vida com a Al Qaeda, história de um espião’

‘Minha vida com a Al Qaeda, história de um espião’

Os amantes das histórias de espionagem não podem perder o livro que acaba de ser lançado nos Estados Unidos. Chama-se “Inside the Jihad: my life with Al Qaeda, a spy’s story” (Por dentro do Jihad: minha vida com a Al Qaeda, história de um espião). Foi escrito por um morroquino, que se identifica pelo pseudônimo Omar Nasiri.

O livro é autobiográfico. Nasiri conta ter espionado grupos terroristas islâmicos, incluindo o de Osama Bin Laden, entre 1994 e 2001. Diz ter agido a soldo dos serviços secretos francês, britânico e alemão. O relato impressiona pela profundidade.

 

Esparramado ao longo de 440 páginas, o texto assemelha-se ao de uma novela. Mas o autor sustenta que só retratou verdades. Exceto um ou outro detalhe, que teve de modificar para proteger a vida de seus personagens. Incluindo a dele próprio. Escondido atrás de uma nova identidade, Omar Nasiri vive hoje na Alemanha.

 

Deu-se na Argélia o primeiro contato de Nasiri com um grupo extremista. Infiltrou-se no GIA Argelino. Elaborava o boletim informativo interno do grupo terrorista. Despachava, de resto, ordens para a compra de armas. Em seguida, transferiu-se para o Afeganistão.

 

Ali, submeteu-se a treinamentos e logo viu-se sob as ordens de alguns dos lugar-tenentes de Bin Laden. Era acompanhado à distância pelo serviço secreto francês, que não o imaginava capaz da façanha. Foi enviado à Europa, com a missão de ajudar a pôr de pé uma célula concebida para atacar bancos e sinagogas.

 

Em Londres, passou a circular entre estrelas do radicalismo islâmico como Abu Qattaba e Abu Hamza. Reportava-lhes os passos ao serviço secreto britânico. A despeito do esforço do autor para mostrar-se contrário ao terrorismo, Nasiri deixa entrever nas páginas do livro que não passou incólume pelo convívio.

 

Como no trecho em que retrata os terroristas como “valentes defensores de uma ideologia/religião agredida.” Ou na passagem em que anota: Nos acompamentos, me ensinaram que se deve respeitar os civis, a começar das crianças, das mulheres e dos velhos, que é preciso preservar os edifícios civis, etc.” Em seguida, reconhece: “É verdade que, no campo, cometem-se excessos.

 

O texto de Nasiri, por detalhista, despertou inúmeras suspeitas. Especialistas ouvidos pela revista Time ruminam uma dúvida: não sabem se estão diante de um personagem real ou de um farsante. Antes de mandar o livro à prensa, a editora Perseus Books submeteu os originais a Michael Scheuer. Trata-se de um ex-diretor da unidade da CIA incumbida de caçar Bin Laden.

 

“Nunca tinha visto nada sobre esse período (1994 a 2001) que estivesse tão completo e que soasse tão verdadeiro, disse Scheuer ao The New York Times. Referia-se à descrição dos acampamentos de treinamento de terroristas no Afeganistão.

Escrito por Josias de Souza às 17h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Último suspiro de um velho moço no mar de Brasília

Último suspiro de um velho moço no mar de Brasília

Lula Marques/Folha Imagem
 

 

O mar de Brasília é o céu. O azul oceânico convida todos os olhares ao mergulho. Seco, o mar de Brasília não é dado a tormentas. Mas há meses do ano em que ele se encapota. O dia termina mais cedo. Sabe-se que ainda não é noite porque o Sol, embora recolhido, deixa na atmosfera o hálito de fornalha.

 

Nesta quinta, o repórter Lula Marques pilhou o mar de Brasília num de seus raros instantes de rebeldia. Com o mau tempo a rosnar sobre os prédios dos ministérios, ondas de nuvens penumbrosas recobriram de cinza a praia de uma Esplanada na bica de ser reocupada.

 

Curiosa coincidência. É como se o mar de Brasília desejasse antecipar a visão do novo ministério que Lula II, em dores de parto, prepara-se para dar à luz. Por trás da penumbra, vislumbra-se o arco-íris do futuro. Tem as cores da fatalidade.

 

Prevalecem os tons de PMDB. Embora esmaecidas, percebem-se também as pitadas de PT, PP, PL e PTB. São as tonalidades de ontem. Prenúncio de que o amanhã se resumirá a uma troca de cúmplices. Pena. O novo governo arrisca-se a morrer jovem. Afogado nas nuvens do mar de Brasília.

 

“Ah, como dói viver quando falta a esperança!” –suspirava, tísico, um Manuel Bandeira de 1912. Tão antigo e fora de moda quanto o gramofone. Tão atual e contemporâneo quanto a “coalizão.”

Escrito por Josias de Souza às 01h21

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

BUSCA NO BLOG


Twitter RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.