Sobre política, políticos e outros bichos

A chuva de escândalos também tem o seu lado positivo. Aguça a criatividade da Polícia Federal. E proporciona ao país aulas quase que diárias de zoologia. Com direito a especialização em entomologia e ornitologia.

 

Eterno pato, o brasileiro já conheceu dos gafanhotos -ortópetros que atacavam a folha salarial do Estado de Roraima- às sanguessugas -anelídeos que se apossaram do Orçamento da República-, passando pelas toupeiras - mamíferos que, cavoucando, chegaram aos subterrâneos do Banco Cental.

 

Como que desejosos de aperfeiçoar os conhecimentos zoológicos dos patrícios, Lula e ACM envolveram-se numa contenda animal. Em comício na Bahia, no domingo, o presidente chamou o morubixaba baiano de “hamster do Nordeste. Foi a forma, por assim dizer,  carinhosa que encontrou de chamar ACM de roedor.

 

Mamífero da família dos cricetídeos, o hamster é a versão soft do rato. Mede no máximo 30 cm e é adornado com uma bolsa na parte interna da face que lhe confere uma aparência bochechuda. Há até quem se anime a mantê-los em casa, como animaizinhos de estimação.

 

Pôde-se medir a deferência de Lula para com ACM no instante em que o presidente referiu-se, num comício em Belém, aos tucanos. Mostrando ser versado na matéria, chamou-os de “aves predadoras”. Os tucanos, aves ranfastídeas, vivem em pequenos bandos e, de fato, costumam pilhar os ninhos de outros ovíparos.

 

Ingrato, ACM deu de ombros para a condescendência de Lula. “Não conheço hamster, só ouvi falar”, disse ele, preferindo se auto-definir como “gato caçador”. Enxerga no presidente uma presa, digamos, idealizada –um “rato gordo e etílico, cujos furtos no Palácio do Planalto eu tenho denunciado no Congresso Nacional."

 

Embora roedor como o hamster, o rato diferencia-se pela cor –a espécie “rato-preto” é a mais encontradiça—e pelo formato dos dentes molares, pontiagudos. ACM nem precisaria ter sido tão específico. Os dicionários já consagram acepções metafóricas e pouco honrosas: “ladrão”, “larápio” e “amigo do alheio”, por exemplo.

 

Como se vê, o linguajar “barato” (com trocadilho, por favor) da política vai proporcionando ao distinto público aulas memoráveis e involuntárias do mundo inumano. Convém prestar atenção e tirar o máximo proveito. As lições parecem gratuitas. Mas não são. Vêm custando muito caro ao país.