Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Secos & Molhados

Feliz 2006!

Feliz 2006!

Estamos todos muitos próximos daquele momento invisível que separa um ano do outro. O instante mágico em que são erguidos os copos, em que um lábio é premido contra o outro, em que os corpos se encontram num abraço.

 

Ao cruzar a linha imaginária que separa o velho do pseudonovo, continuaremos carregando as nossas aflições pessoais. Agora mesmo, nesse exato átimo de segundo, enquanto você separa uma roupa elegante para festejar o recomeço da vida, alguém pode estar saltando do décimo andar por considerar que não vale mais a pena.

 

No âmbito privado, as neuroses serão as mesmas. A despeito da virada do relógio, não desaparecerão as calvas à procura de perucas, as barrigas espetadas à cata da dieta ideal, os estômagos ermos correndo atrás do prato de sopa, os peitos pequenos em busca do silicone, os peitos grandes sonhando com o bisturi...

 

Na esfera pública, os dramas também serão os mesmos. Inocentes culpados. Culpados inocentes. Espertos superados pelos mais espertos. Cofres sitiados. Gestores ineptos. Contribuintes indefesos.

 

Mas não há de ser nada. O que seria da esperança se não existisse o desespero? Assim, sem perder de vista o fato de que o passar dos anos sempre rouba-nos algo, o importante, diria Pope (1688-1744), é tentar impedir que o tempo nos roube de nós mesmos. Vá em frente. Solte os seus fogos.

 

Ah, sim, já ia me esquecendo. Antes de vestir aquela roupa especial, dê uma passada AQUI para ver imagens dos festejos ao redor do mundo.

Escrito por Josias de Souza às 19h25

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Perigo iminente!

Perigo iminente!

  Lula Marques/Folha Imagem
Há na entrada do Palácio do Planalto um detector de metais. É como aquelas geringonças instaladas nos aeroportos. Não chega a impedir que ministros entrem para audiências com o presidente munidos de idéias perigosas. Mas serve para deter visitantes armados. Ou servia.

 

Observe bem a foto. Note que, a poucos metros de Lula, está sentado um senhor munido de um tipo de artefato contra o qual o esquema de segurança do Planalto vem se revelando ineficaz.

 

Vai aqui um modesto alerta aos responsáveis pela integridade pessoal do presidente da República: convém precatar-se também contra certas armas brancas. Depois da imprensa livre, a coisa que mais ameaça o petismo no momento é a bengala. Na dúvida, perguntem ao José Dirceu.

Escrito por Josias de Souza às 02h44

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Rei caolho

Rei caolho

Lula Marques/Folha Imagem
 

 

A Bíblia ensina em Êxodo (21, 23-24): “Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”.

 

Abalroado pelas estripulias do PT, Lula padeceu no ano da graça de 2005 um “dano grave”. Ao dizer-se "traído", esboçou uma reação ao estilo “olho por olho, dente por dente.” Desistiu. Nem os nomes dos "traidores" dignou-se a comunicar.

 

Nesta quarta-feira, o presidente ostentou, em solenidade no Planalto, um olhar cansado. Para piorar, exibiu no olho direito uma estranha mancha vermelha. Tudo indica que se trata de conjuntivite. Péssimo presságio.

 

Se há algo que não convém a Luiz Inácio “Não Vi Nadinha” da Silva é entrar em 2006 com problemas oftalmológicos. Se com dois olhos o presidente portou-se como um cego, imagine-se com um só!

 

Tomara que o serviço médico do Planalto disponha de bons oculistas. Em terra de espertos, quem tem um olho não pode ser rei.

Escrito por Josias de Souza às 02h10

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Espelho de lama

Espelho de lama

Sérgio Lima/Folha Imagem
 

 

Nesses dias de antoconvocação, o Congresso prova à sociedade brasileira que a democracia participativa é um sistema que, em certos momentos, funciona com rara perfeição. Na hora de pagar a conta, por exemplo, todos os filhos dessa terra, pobres ou ricos, são chamados a participar.

 

Assim, vai se consolidando a impressão de que, no Brasil, a democracia é um regime que permite a uma legião de imbecis votar livremente numa minoria de espertalhões que, uma vez eleitos, sentem-se desobrigados de fazer sentido. Convocam-se para trabalhar, ao custo de R$ 100 milhões, e aderem gostosamente ao absenteísmo.

 

Por sorte há gente trabalhando no Congresso. São os funcionários da limpeza. Nesta terça-feira, dedicaram-se à limpeza dos espelhos d’água que circundam o belo edifício projetado por Oscar Niemeyer. Observando-se a imagem acima, nota-se que a lama acumulada do lado de fora já foi removida. Se quiser, o eleitor pode agora remover o lodo incrustado do lado de dentro do prédio. É só votar diferente em 2006.  

Escrito por Josias de Souza às 02h45

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Arte sem trapaças

Arte sem trapaças

 

 

Em tempos pré-eleitorais, o noticiário começa a ficar envenenado pela pregação de candidatos versados na arte de transformar conceitos concretos em vagas abstrações. Para livrar os seus (poucos) leitores dessa encrenca, o signatário do blog aproveita a lassidão do domingo para propor uma rápida imersão no mundo da arte genuína, sem trapaças.

 

A londrina Marlborough Fine Art, uma das mais prósperas casas de comércio de arte contemporânea do mundo, promove uma exposição de gravuras do mestre Pablo Picasso. Foi aberta em 15 de novembro. Vai até 7 de janeiro. Reúne 32 das cem peças que compõem a famosa Suíte Vollard, criada por Picasso entre setembro de 1930 e março de 1937.

 

O grosso da coleção, rabiscada na fase que antecede Guernica (1937), foi feita por encomenda do marchand Ambroise Vollard, morto num acidente de carro em julho de 1939. Daí o nome Suíte Vollard. O traço mais marcante da série de gravuras é a presença constante da silhueta de Marie-Thérèse Walter. Vem a ser a segunda mulher de Picasso. Aquela que despertou no artista sua mais voluptuosa paixão sexual.

 

Picasso conheceu Thérèse em Paris, no ano da graça de 1927. Loira, 17 anos, olhos celestes, ela conseguiu esnobá-lo por seis meses. Ao completar 18 anos, conheceu os famosos lençóis do pintor. Dali, migrou para 48 das cem gravuras da notável suíte. Gravuras como essa exposta aí acima.

 

A Suíte Vollard pertence à Fundação Bancaja, de Valência (Espanha). Passou por São Paulo em 1998. Foi exposta entre 11 de agosto e 11 de outubro na Pinacoteca do Estado. Se você perdeu e não tem dinheiro para ir até o número 6 da Albemarle Street, onde está sediada a Marlborough Fine Art, pressione na imagem lá no alto para visitar a exposição assentada em Londres.

 

A conexão o conduzirá a um texto com explicações sobre a Suíte Vollard. Infelizmente, foi escrito na língua inglesa. Descendo na barra de rolagem, você chegará às 32 gravuras. Clique sobre as imagens para ampliá-las. Bom proveito.

Escrito por Josias de Souza às 03h12

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Terra Brasilis

Terra Brasilis

Paulo Stocker
 

 

Recolho a “stockada” acima do blog de Paulo Stocker. Evoca a cena do descobrimento. Aquela em que Cabral veio dar nas costas desta terra de índios, palmeiras e sabiás por obra e graça do acaso.

 

Desde então, o brasileiro tornou-se um ser condenado a viver no país da esperança. Espera... Espera... Espera... Espera... Espera...

Escrito por Josias de Souza às 03h32

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Tsunami de Lama

Tsunami de Lama

Lula Marques/Folha Imagem

 

Brasília esteve sob intenso temporal durante toda a tarde desta quinta-feira. O dilúvio invadiu a garagem do prédio do Congresso na forma de uma mini-tsunami de lama.

 

Era como se na natureza tentasse corrigir o grande erro de Noé, que permitiu o ingresso na famosa arca de um casal de ratos. Funcionários abnegados suaram para conter a enxurrada.

 

A despeito do esforço, parte da lama logrou invadir as dependências da garagem do Senado. Mas não chegou a escalar os salões da Câmara e do Senado, no primeiro andar do prédio de Niemeyer. Ainda não foi dessa vez.

Escrito por Josias de Souza às 01h59

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Só falta a juba

Só falta a juba

Alan Marques/Folha Imagem
 

 

José Alencar reinou absoluto nesta quarta-feira. Em viagem à Colômbia, Lula  ausentou-se momentaneamente da selva. E o leão interino investiu contra sua presa habitual:

 

“O regime de juros não atende ao interesse nacional”, bramiu ao final do dia, durante a solenidade de posse da nova diretoria da CNA (Confederação Nacional de Agricultura). Pela manhã, no Congresso, havia se referido à política monetária como um "crime".

 

Dessa vez o rugido soou mais pretensioso. "Nunca houve uma palavra minha contra o Copom (Conselho de Política Monetária). O Copom é um órgão eminentemente técnico. E a decisão não é técnica, é política. Você pode delegar autoridade a um ministro ou ao Copom, mas não transfere a responsabilidade pelos resultados”, urrou Alencar.

 

Ou seja, o alvo do leão dos juros não foi, dessa vez, a equipe de ovelhas da Fazenda e do Banco Central. Ele mirou no Tarzan do Planalto, a quem cabe “delegar autoridade”. Nesta quinta-feira, o homem-macaco estará de volta a esta selva de palmeiras e sabiás.

 

É improvável que Alencar se atreva a tentar devorá-lo. No tête-à-tête, o leão de fábula do Palácio do Jaburu sempre mia como gatinho domesticado. Falta-lhe juba para o exercício da caça aberta e franca. Moral: leão que muito ruge não morde. 

Escrito por Josias de Souza às 01h31

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Nem com reza

Nem com reza

Alan Marques/Folha Imagem
 

 

O Congresso realizou nesta quinta-feira a sua tradicional missa de final de ano. O parlamento foi representado na homilia pelo comunista Aldo Rebelo (PCdoB-SP), presidente da Câmara, e pelo ex-comunista Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado.

 

Aldo é ateu. Renan, egresso do mesmo PC do B, já perambulou por outras legendas. Foi do PRN de Collor ao PMDB de Sarney. Não se sabe, porém, se aderiu ao catolicismo.

 

Não há dúvida de que o Congresso precisa de muita reza para exorcizar de seu corpo os mensaleiros infiéis. Mas a pregação desta quinta deve ter soado inútil para Aldo e Renan.

 

Partindo-se do pressuposto de que cada um carrega uma cruz nesse mundo de meu Deus, os presidentes da Câmara e do Senado, por incréus, devem trazer os ombros leves. Alguém há de estar carregando duas cruzes. Deve ser o eleitor.

Escrito por Josias de Souza às 02h34

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Os humores do tempo

Os humores do tempo

Lula Marques/Folha Imagem
 

 

Política, ensinava Magalhães Pinto, a velha raposa felpuda de Minas, é como nuvem. No momento, Lula torce para que os ventos levem para longe as nuvens turvas que pairam sobre o Planalto há quase seis meses. Nesta quarta-feira, porém, o repórter Lula Marques traduziu em foto os humores do tempo. Os céus parecem tentados a aderir às causas oposicionistas. Para complicar, a depender da previsão do tempo, os ares de Brasília continuarão conspurcados por “muitas nuvens”.

Escrito por Josias de Souza às 01h26

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Abrindo a janela

Abrindo a janela

Periodista Digital/Espanha
 

 

Você está de saco cheio da crise? Não suporta mais as composições entre Serra e PFL? Não entende de política monetária? Não gostou da lista dos fundos de pensão bichados? Pois o signatário do blog abre aqui uma janela para que você tome uma lufada de ar.

 

O sítio espanhol Periodista Digiltal divulga nesta terça-feira uma lista diferente daquela  que foi apresentada pelo deputado ACM Neto. Traz os nomes das dez atrizes mais bem remuneradas do cinema nos EUA. Foi recolhida pelo Hollywood Reporter. A campeã é Julia Roberts (na foto).

 

Abaixo, os nomes das top ten, seguidos das cifras que cobram para apor a assinatura num contrato:

 

1. Julia Roberts: US$ 20 milhões;

2. Nicole Kidman: US$ 17 milhões;

3. Reese Whiterspoon: US$ 15 milhões;

4. Drew Barrymore: US$ 15 milhões;

5. Renee Zellweger: entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões;

6. Angelina Jolie: entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões;

7. Cameron Diaz: entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões;

8. Jodie Foster: US$ 12 milhões;

9. Charlize Theron: US$ 10 milhões;

10. Jennifer Aniston: US$ 9 milhões.

Escrito por Josias de Souza às 17h55

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Um assalto aos céus

Um assalto aos céus

Sérgio Lima/Folha Imagem
 

 

Nas páginas de "A Luta Contra a Ditadura", livro que escreveu em parceria com Vladimir Palmeira, José Dirceu anotou: "É difícil reproduzir o que foi o espírito de 68, mas posso dizer que havia uma poderosa força simbólica impulsionando a juventude (...). O mundo parecia estar explodindo. Na política, no comportamento, nas artes, na maneira de viver e de encarar a vida, tudo precisava ser virado pelo avesso. Para nós, o movimento estudantil era um verdadeiro assalto aos céus".


No poder, Dirceu também viu o mundo explodir à sua volta. A coisa, de fato, virou do avesso. Mas, mesmo depois de ter sido apeado de seu mandato, o ex-ministro diz não ter enxergado o assalto que, praticado à sua volta, conspurcou o sonho da juventude. O convívio com a luta armada parece não desenvolvido em Dirceu a dimensão da morte. Daí o fracasso da tentativa que empreende para mostrar-se como figurante em meio ao caos.


Dirceu tornou-se um dos inocentes mais culpados da história política brasileira. Por trás do cenho de fachada que passou a exibir, repousa a cara de um chefe escondido atrás da crise. Por sorte, a Câmara concedeu-lhe a ventura da ociosidade política. Livre do paletó e da gravata, dispõe agora tempo de sobra para expiar as culpas que diz não ter.

Escrito por Josias de Souza às 03h09

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Arena pós-moderna

Arena pós-moderna

Sérgio Lima/Folha Imagem
 

 

Com seu formato circular, o plenário da Câmara assemelha-se a uma daquelas arenas romanas em que os leões só entravam em cena para devorar pobres e indefesos cristãos.

 

Em meio à decadência do império brasiliense, o circo fugiu aos padrões. Nesta quarta-feira, os leões mastigaram um César. Ou um Zé Dirceu, o que, aqui entre nós, dá no mesmo.

Escrito por Josias de Souza às 02h31

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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