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Secos & Molhados
Móveis e utensílios
Antonio Palocci vai se transformando no que Mario Quintana chamaria de ministro-cômoda. Uma incômoda cômoda. Com muitas gavetas. Do tipo que ocupa bastante espaço. E que tem o ar aristocrático das pessoas ricas. Nas gavetas guarda coi$as de toda a Esplanada só para si. Assim é o ministro-cômoda: gordo, fechado, egoísta.
Escrito por Josias de Souza às 18h38
Arte uterina
Diz-se que arte é vida. E a vida o que é? Um filme encenado desde o nascimento. O roteiro tem produção quase sempre independente. Não comporta happy-end. Pois enquanto a sua morte não chega, aproveite um naco de seu domingo para descobrir um tipo diferente de arte. Uma arte que, por uterina, tem origem na vida. Clique aqui para ver outras peças como a que foi exposta aí no alto. São produções feitas a partir de ultra-sonografias.
Escrito por Josias de Souza às 03h02
Sombra de mau agouro
Lula Marques/Folha Imagem
Marisa Letícia compareceu ontem à solenidade de lançamento do Tele-mulher, programa governamental de socorro às mulheres vítimas de agressão. No mesmo horário, o marido discursava no sertão do Ceará.
Lula queixou-se das “aves de mau agouro” que, tendo perdido uma eleição, “ficam torcendo para que quem é eleito não faça nada, não dê certo, erre o máximo possível.” É a turma do “tomara que não dê certo”.
Curiosamente, à direita da primeira-dama, projetou-se uma sombra esquisita. Reflete a silhueta do ministro Saraiva Felipe (Saúde). Mas repare como a imagem lembra a de outra pessoa. Sim, ele mesmo: o tucano Fernando Henrique Cardoso.
É, entre todas, a ave mais agourenta. Note que a sombra olha para a palavra "TERMINA". PonTo final.
Escrito por Josias de Souza às 03h06
Quem pagou?
Sérgio Lima/Folha Imagem
Tornou-se impossível chegar ou sair de Brasília por via aérea sem dar de cara com José Dirceu.
Às vésperas do encontro do ex-chefão da Casa Civil com a guilhotina, os "militantes do PT" assentaram no trajeto que leva ao Aeroporto Internacional Juscelino Kubistchek um protesto que realça a "injustiça" que a Câmara está prestes a cometer.
Sabendo-se que foi justamente a alegada penúria da militância petista que empurrou Delúbio Soares para os braços de Marcos Valério, uma pergunta se impõe como inevitável: quem pagou o outdoor?
Escrito por Josias de Souza às 02h20
Sem saída
Sérgio Lima/Folha Imagem
De saída, ele se firmou como o todo-poderoso do governo. Mas seu desempenho não deu para a saída. Criou em torno de si um sem-número de grupos de trabalho. E a encrenca saiu pior do que a encomenda. Toda a Esplanada teve de acorrer ao Gabinete Civil, num entra-e-sai de ministros que amarrou a gestão pública.
Súbito, Roberto Jefferson saiu-se com a história do mensalão. Lançou-lhe um repto: “Sai daí rápido, Zé. Ou você vai transformar em vítima um homem inocente”. Ficou num beco sem saída. Não teve alternativa. Em meio à crise, saiu às pressas do Planalto. Não foi, porém, uma saída de fininho. Em discurso triunfante, saiu atirando. Disse que desceria à planície para guerrear.
À medida que as investigações foram saindo do limbo, ele foi ficando sem armas. Descobriu-se que Delúbios e assemelhados não saíam de seu gabinete. E o prometido combate foi saindo pela culatra.
Tentou, então, sair pela tangente. Apresentou-se como vítima de perseguição política. Mas o discurso não teve grande saída no Congresso. Em seguida, apelou para as saídas jurídicas. Interpôs um recurso atrás do outro. Ganhou tempo. Mas não desmontou a guilhotina.
Diz-se que seu saimento (funeral, segundo o Aurélio) não passa desta quarta-feira. Não haveria mais saída. A não ser uma: a porta para o amargo ostracismo da inelegibilidade de oito longos e arrastados anos.
Escrito por Josias de Souza às 00h36
Safadeza barata

O signatário do blog recebeu de um leitor fiel a foto acima. O Congresso, como se sabe, converteu-se mesmo num mistura de mercado persa com bordel. Ainda assim, o repórter acha que o outdoor do Motel “Fantasy” exagera na comparação. A safadeza do Parlamento passa longe dos R$ 33 anunciados na placa.
Escrito por Josias de Souza às 03h03
20 anos em quatro
Sérgio Lima/Folha Imagem

No íntimo, Lula acalenta um sonho. Quer passar ao verbete da enciclopédia como um novo Juscelino Kubitschek. Volta e meia cita o ex-presidente. Voltou a fazê-lo num discurso que pronunciou nesta terça-feira.
Lula diz que, “desde o governo JK”, não havia uma “combinação de fatores tão positivos neste país”. Referia-se à economia. Acha que construiu “uma base sólida para este país deixar de ser eternamente um país emergente e se transformar num país definitivamente grande e desenvolvido.”
Esquivou-se de mencionar certos detalhes. Juscelino pilotou uma plataforma desenvolvimentista, resumida no lema “50 anos de progresso em cinco de governo”. Assumiu gostosamente o papel de pai e a mãe da inflação brasileira. Mas fez Brasília e impulsionou a indústria. Sobretudo a automobilística, em cujo rastro Lula tonificaria a sua liderança na região do ABC.
De resto, presidente modelo deixou o governo sob intenso tiroteio. Jânio Quadros, o desastre que o sucedeu, escalou a cadeira de presidente agarrado a uma vassoura. Amealhou votos prometendo varrer a corrupção que grassava sob o antecessor.
No caso de Lula, o desenvolvimentismo à JK é um vir a ser. Dá-se prioridade ao combate à inflação nascida lá atrás. Por ora, a comparação possível repousa no campo da ética. O petismo afunda em suas próprias perversões. Oferece em holocausto o patrimônio moral que levou duas décadas para erigir. É como se estivesse aferrado ao lema “20 anos de retrocesso moral em quatro de governo.”
Escrito por Josias de Souza às 02h29
Neo-Darwinismo

Quem observa os depoimentos e as inquirições que vão transmudando o Congresso de templo da política em chefatura de polícia, fica com a sensação de que o homem público brasileiro já parou de evoluir. Só o que lhe cresce agora é um pedacinho da cara. Bem a propósito, pesco do excelente blog STOCKADAS a tirinha acima. Retrata bem os efeitos do neo-darwinismo que nos infelicita. Saímos do macaco para chegar ao Pinochio.
Escrito por Josias de Souza às 12h06
República sem valores
Sérgio Lima/Folha Imagem
Festeja-se neste 15 de novembro a proclamação da República. Fundou-a o marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista convicto. Deu-se em 1889, no rastro de uma crise que roeu a autoridade de D. Pedro II.
Sob a monarquia, dizia-se à época, o Estado interferia nos assuntos da Igreja, cerceava as liberdades políticas e, sobretudo, dava azo à corrupção. Daí a revolta. Uma revolta sem sangue, como é próprio do Brasil.
Homenageado em busto que repousa no corredor do Senado, sugestivamente apelidado de “Túnel do Tempo”, D. Pedro I, pai do monarca deposto e pioneiro da encrenca nacional, contempla, impassível, o presente.
Diante do seu nariz, passam semanalmente os suspeitos convocados a depor nas CPIs do Congresso. Se vida tivesse, o busto de Pedro I, o pai, decerto reclamaria de volta o trono usurpado de Pedro II, o filho. Invocaria em favor da Casa de Oleans e Bragança a falência dos ditos valores republicanos, hoje tão cultuados quanto vilipendiados.
Escrito por Josias de Souza às 03h23
Brasília virou mar
Sérgio Lima/Folha Imagem
Ao apossar-se do governo central, o PT tonificou uma suspeita que há muito atormenta a cabeça do brasileiro. A desconfiança de que o combate à corrupção é o objetivo central de todos os partidos que ainda não lograram chegar ao poder.
Sob o PT, o solo brasiliense anda tão enlameado quanto antes. E a culpa não é das chuvas, comuns nesta fase do ano. O lodaçal chegou antes da temporada das águas. De modo que não resta ao brasiliense senão subir pelas paredes.
Por sorte, há na Capital da República o Teatro Nacional. Como tudo em Brasília, foi projetado por Oscar Niemeyer. Tem a forma de uma pirâmide. E traz na fachada uma composição de cubos e retângulos idealizados pelo artista Athos Bulcão.
Bulcão diz ter injetado as figuras geométricas nas paredes externas do teatro para que as pessoas pudessem interagir com o prédio, escalando-o. A iniciativa tem sido de enorme serventia nos dias que correm. A escalada do teatro pode não atenuar a raiva. Mas mantém os sapatos acima do nível do mar de lama.
Escrito por Josias de Souza às 03h15
Passeio dominical
"As Meninas", de Velázquez
O repórter sugere aos seus leitores um programa alternativo para este domingo. Sem levantar da cadeira, visite o Museu do Prado, em Madri. É, como se sabe, um dos grandes templos da arte no mundo.
O passeio virtual priva o “visitante” da bela visão do prédio em que se encontra assentado o museu –uma edificação em estilo neoclássico, projetada em 1785 pelo arquiteto Juan de Villanueva, e inaugurado em 1819. Não se pode ter tudo.
Diga-se, a título de consolo, que o Prado não é como o Guggenheim de Bilbao, cujo prédio é, em si mesmo, uma obra de arte. Ali a coisa é diferente. Goyas, Velázquez e El Grecos prevelacem sobre a arquitetura.
Cumpre também informar que o sítio do Prado na internet não faz jus ao renome da casa. É fraco, se comparado ao de outros grandes museus. De novo, não se pode ter tudo.
Para poupar-lhe tempo, o blog recomenda que vá direto à conexão eletrônica que leva às 50 pinturas "essenciais" do acerco do Prado. O passeio não vai lhe consumir mais do que 30 minutos, incluindo paradas eventuais para ler biografias dos autores e dados sobre suas obras.
A seleção sugerida inclui “As Meninas” (veja aí acima). Foi pintado em 1656 por Diego Velázquez (1599-1660). Está entre as dez maiores pinturas de todos os tempos. Retrata uma cena trivial da corte de Felipe IV. À esquerda, aparece o próprio Velázquez, executando sua obra.
Ao centro, surgem as meninas que dão nome ao quadro: a infanta Margarida sendo paparicada por duas damas de companhia. À direita, a anã cabeçuda Maribarbola e o anão Pertusato, pisando um cachorro. Repare no olhar de tristeza do cão.
Ainda à direita, mais ao fundo, outra dama de companhia e um homem com a face recoberta pelas sombras. A figura que sai pela porta, bem lá atrás, é Jose Nieto, o tapeceiro do rei de Espanha Felipe IV.
Note que há um espelho ao lado da porta. Aqui não se vê direito, mas reflete a imagem do rei e de sua mulher, Mariana. Na perspectiva de Velázquez, os dois estariam em pé, postados ao lado do público, divisando o quadro.
Não percamos mais tempo com digressões. Há mais lá no Museu do Prado. Veja você mesmo. Depois me conte o que achou. Bom passeio.
Escrito por Josias de Souza às 02h26
A lenda de FHC, o menino ruinoso

A amazônida Naíde Silva Cardoso, mãe de Fernando Henrique Cardoso, gostava de contar para os filhos as lendas dos rios e das florestas da sua infância. Jamais imaginou que a residência em que o seu garoto mais ilustre deu os primeiros passos se tornaria, ela própria, uma peça digna de suas narrativas.
A casa que a árvore está engolindo fica no bairro carioca de Botafogo, na altura do número 40 da Rua Bambina. Foi erguida em fins do século 18. Foi sob seu pé-direito generoso que FHC viveu até os oito anos, quando seu pai, o oficial do Exército Leônidas Fernandes Cardoso, decidiu mudar-se com a família para São Paulo.
Hoje, o imóvel, abandonado, flerta com o risco de desabamento. Seus últimos proprietários, os irmãos Georges e Raimundo Alexis Geammal, morreram em 2003. No ano passado, fiscais da Secretaria de Urbanismo da prefeitura do Rio descobriram que estava sendo demolida ilegalmente. As obras foram embargadas.
Embora a prefeitura tenha anunciado a intenção de preservá-la, encontra-se entregue à deterioração. Diz-se que, à época em que foi habitada pelos Cardoso, escondia no quintal um galinheiro. Seus porões, com janelas gradeadas, antes haviam servido de senzala.
A casa da Rua Bambina, cuja foto me foi enviada por um grande amigo do Rio, parece estar com os dias contados. Antes que vá abaixo, talvez se consolide em torno dela uma nova lenda. A história do menino ruinoso. Aquele que transforma em ruínas tudo o que toca.
Escrito por Josias de Souza às 01h59
Amigos irreparáveis
Sérgio Lima/Folha
São densas e arrasadoras as amizades que Antonio Palocci estreitou em Ribeirão Preto ao tempo em que era prefeito da cidade. Tome-se, por eloqüente, o caso do advogado Rogério Buratti. Tornou-se mais do que mero assessor. Muito mais.
Palocci e Butatti entabularam estratégias conjuntas. Dividiram confidências. Freqüentaram a casa um do outro.
Tornaram-se tão próximos que a ascendência italiana denunciada por seus sobrenomes passou a soar providencial. Entre eles, a julgar pela escalada do noticiário, não havia nem meu nem seu. Era tudo "cosa nostra".
Súbito, desentenderam-se. Se pudesse, Palocci apagaria Buratti do seu passado. E Buratti vice-versa. É tarde demais, porém. Viraram amigos irreparáveis.
Escrito por Josias de Souza às 01h40
Volta às origens
Alan Marques/Folha Imagem
Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente da Câmara, foi homenageado nesta quarta-feira por um grupo de repentistas nordestinos. Enfiaram-lhe na cabeça um chapéu de vaqueiro. Por um instante, voltou às origens.
Aldo nasceu numa fazenda da pequena Viçosa, na zona da mata alagoana. Pelo gosto do pai, José Figueiredo Lima, estaria até hoje laçando bois.
Foi salvo pela providência divina, que plantou uma escola na fazenda onde veio ao mundo, uma antiga propriedade do velho Teotônio Vilela. Mercê do empenho pessoal, o menino tornou-se cabra da peste. Tendo se livrado dos bois, hoje tange deputados.
Há de lhe bater em certas horas um arrependimento arretado.
Escrito por Josias de Souza às 02h12
Túnel do Tempo
Lula Marques/Folha Imagem
José Dirceu (PT-SP) saboreava nos corredores do Congresso a entrevista de seu ex-chefe ao Roda Viva. Acha que as palavras de Lula reforçaram o discurso de que não há provas que justifiquem a sua cassação.
A comemoração de Dirceu é impalpável como o vento. Os elogios que recebeu de Lula deram-lhe argumentos para o enredo da inocência. Mas não acrescentaram à sua existência parlamentar um único minuto. O próprio presidente foi taxativo ao dizer que o ex-chefão da Casa Civil será degolado.
A despeito do palavrório que desfiou nas sucessivas entrevistas que concedeu no dia seguinte à entrevista de Lula, Dirceu segue a vida pensando na morte política que o aguarda no plenário da Câmara. A data está marcada: 23 de novembro.
Na foto do repórter Lula Marques, Dirceu faz sinal de positivo ao percorrer um corredor conhecido no Congresso como "Túnel do Tempo". No seu caso, convém que cuide bem dos minutos. As horas já passaram. O seu já está prestes a se transformar em agora.
Escrito por Josias de Souza às 02h35
A ditadura do breu
Sérgio Lima/Folha Imagem
Uma legião de corpos privados de luz espreita as cuias da Câmara e do Senado. Projetam sobre as estruturas do Congresso os reflexos do poder irrefletido.
São reflexos sombrios. Precisam ceder lugar à reflexão. Sob pena de implantar-se em Brasília uma nova e incômoda ditadura: o absolutismo do breu.
Escrito por Josias de Souza às 01h33
Para Chauí, com estima
A protopetista Marilena Chauí voltou a vociferar contra a mídia (leia despacho das 12h33 de sábado). Acusou-a de usar táticas da Inquisição. "A Igreja católica operava pela produção visível, direta e clara do medo", afirmou. "Já a mídia opera não só por meio da destruição de instituições e da destruição de pessoas. Ela opera pela acusação sem provas." Vai abaixo, em homenagem à filosofia torta, um amontoado de (contro)versos:
Jornal
Papel pintado
Pra guerra
Rascunho do dia
Passado a sujo
Vira-letra sarnento
Fuça estrumeira
Rosna a esmo
Destila fel
Pé-de-vento
De mão em mão
Arranca véus
Fabrica réus
Criatura única
Custa um níquel
Prende por uma hora
Dura um sol
Cedo, é malsão
À tardinha, ancião
À noite, despetala-se
Malmequer, malmequer
Cruza do instante
Com o circunstante
Flerta com o erro
Não cabe na estante
Chauí o acha fútil
Ora, não se queixe
Logo será útil
Enrolará peixe
Escrito por Josias de Souza às 03h02
Pé Grande
Lula Marques/Folha Imagem
Um dia José Dirceu viu-se forçado a deixar o Olimpo. As circunstâncias devolveram-no à planície.
Ao descer os degraus em direção ao rés da realidade, percebeu que muitos o olhavam de esguelha.
Decidiu disfarçar-se. Pôs no rosto uma máscara de gente. Não adiantou. O poder o tornara um ser indisfarçável.
Reconheceram-no pelos pés. Natural. Muitos já haviam sentido o peso daquela sola.
Mas o ex-chefão da Casa Civil, gerentão de Lula, é um sujeito de sorte. Seus inimigos não são vingativos. Não guardam rancores de seus pés. Reivindicam apenas o seu pescoço.
Escrito por Josias de Souza às 03h06
Gran Circo Brasília
Sérgio Lima/Folha Imagem

Certa vez, o Congresso foi comparado a um circo. Um desrespeito aos circenses de verdade, que nada têm a ver com o espetáculo em cartaz no Gran Circo Brasília.
No circo genuíno, não há lugar para mais do que dois, três palhaços. Sob a lona brasiliense, para cada trapezista que se equilibra tentando salvar o próprio mandato, há algo como 180 milhões de palhaços.
Escrito por Josias de Souza às 02h28
Buraco negro
Sérgio Lima/Folha Imagem
Existe o Congresso e existe o “Congresso”. Existe o prédio e existe tudo o que soa implícito quando se diz “Congresso”.
Afirma-se, por exemplo, que o “Congresso” é o templo da fisiologia. Ou que o “Congresso” é um mercado persa. “Congresso” virou um coletivo pejorativo.
Eram felizes os tempos em que o Congresso, assim, sem aspas, significava apenas casa legislativa. Um lugar onde os conflitos eram resolvidos pela via da política altiva.
Com o tempo, o “Congresso” foi assumindo significados perversos. Virou sinônimo de corrupção, de promiscuidade. Tornou-se um buraco negro em cujas entranhas o significado perdeu o sentido.
Pode-se lidar com um buraco de duas maneiras. Saltando fora dele ou aprofundando-o. Por ora, o “Congresso” perde-se na fase da escavação.
Escrito por Josias de Souza às 02h05
Gastos pardos
Sérgio Lima/Folha Imagem
A luz que falta no fim do túnel de Brasília sobra nos céus da cidade. Como nos mostra o repórter Sérgio Lima em sua foto, mesmo o prenúncio da noite, durante a qual todos os gastos na Capital são pardos, é iluminado.
Pena que Niemeyer tenha plantado no cerrado brasiliense tantos monumentos dependentes de iluminação artificial. Veja-se o caso do Congresso Nacional. É um monólito de concreto quase sem janelas. Um túmulo onde a perversão campeia à sombra.
Escrito por Josias de Souza às 02h31
A pátria em frangalhos
Alan Marques/Folha Imagem
O gigantesco mastro foi plantado na Praça dos Três Poderes em 1972, sob o general Emílio Garrastazu Médici, como símbolo da pujança viril da era do “Brasil grande”. Brasília já lhe deu vários apelidos. Todos impublicáveis.
Projetado pelo arquiteto carioca Sérgio Bernardes, o mastrão tem um formato circular. Compõe-se de 24 tubos metálicos, em alusão ao número de Estados existentes à época (hoje são 26, mais o Distrito Federal).
No seu pico, a cem metros do chão, tremula uma mega-bandeira nacional. Tem 280 metros quadrados. Figura no Guinnes Book como a maior bandeira hasteada do mundo.
Nesta segunda-feira, depois de um final de semana em que o noticiário parecia tramar a demolição da pátria, a bandeirona amanheceu em escombros.
Embora confecionada em material resistente -nylon de pára-quedas- exibiu-se de modo incompatível com a pujança que se propõe a representar.
No início da tarde, foi substituída às pressas. Melhor assim.
Escrito por Josias de Souza às 02h14
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