Delúbio, Valério e Mister Wong
Lula Marques/Folha Imagem
Mario Quintana, o poeta gaúcho, ensinou que a alma humana é coabitada por três entidades: além do ponderado Doctor Jekyll e do destrambelhado Mister Hyde, há dentro de todas as pessoas um chinês desencanado: Mister Wong.
Mister Wong não é nem bom nem mau. É apenas gratuito. Num camarote de teatro, por exemplo, Doctor Jekyll, compenetrado, seria todo ouvidos; Mister Hyde esticaria o olhar até o decote da senhora vizinha; e Mister Wong, alheado, se poria a contar carecas na platéia.
Numa sessão de acareação de uma CPI como a do Mensalão, Doctor Jekyll decerto coraria de vergonha se estivesse sentado no banco dos suspeitos; Mister Hyde contemplaria os inquisidores com ar de despudorado desdém; e Mister Wong, nosso chinês aloprado, tiraria uma gostosa soneca.

