Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Senado: Jader conviverá com Taques, ex-algoz do MP

Tharson Lopes/Jornal do Tocantins

A foto acima, clicada em fevereiro de 2002, registra um momento raro da cena pública brasileira: um político graúdo a caminho da cadeia.

Detido no Pará, seu Estado, Jader Barbalho desembarcava no Tocantins. Com um livro, ocultava as algemas.

Conduzido a uma sala de 20 m2 amargou uma cana de 13 horas na carceragem da Polícia Federal na cidade de Palmas.

Entre os signatários do pedido que levou Jader ao cárcere estava Pedro Taques, à época procurador da República lotado no Mato Grosso.

Taques integrava a força-tarefa do Ministério Público Federal que esquadrinhou os malfeitos da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia).

Sob Fernando Henrique Cardoso, a Sudam ganhou notoriedade parecida com a que tem agora o Dinit, central de desvios do Ministério dos Transportes.

Na Era tucana, Jader mandava e, sobretudo, desmandava nos guichês da Sudam, de onde escorriam as verbas dos incentivos fiscais amazônicos.

Brindado com um habeas corpus do TRF-1, tribunal sediado em Brasília, Jader ganhou o meio-fio. Mas ainda responde ao processo.

É acusado de formação de quadrilha, peculato e lavagem de dinheiro.

Na última conta fechada pela Procuradoria, agora pendente de atualização monetária, os desvios da Sudam foram estimados em R$ 3 bilhões.

Em 2007, o procurador Taques obteve na Justiça Federal do Mato Grosso um segundo pedido de prisão de Jader.

Ele fugiu. E o habeas corpus que anulou o mandado saiu antes que a ordem de prisão pudesse ser executada.

Prestes a retornar ao Senado, Jader (PMDB-PA) vai cruzar nos corredores e no plenário com o personagem que ajudou a expurgá-lo da Casa em 2002.

Pedro Taques (foto ao lado) demitiu-se da Procuradoria, filiou-se ao PDT e elegeu-se senador por Mato Grosso. Como pretende conviver com Jader?

Diante da pergunta do repórter, Taques escorou-se na filosofia cristã: “Um filósofo católico dizia: não tenho nada contra o pecador, tenho contra o pecado…”

“…Na minha opinião, o pecador precisa se redimir de seus pecados. Não tenho nada pessoal contra o Jader, mas não posso passar uma borracha no meu passado”.

Vai dar bom dia ao neocolega? “Não sei. A democracia impõe a convivência civilizada, mas existem limites até para a convivência.”

Deve-se a uma decisão do STF o retorno de Jader ao Senado. No pleito de 2010, ele obteve votos para se eleger. Mas fora abalroado pela Lei da Ficha Limpa.

No caso de Jader, aplicara-se o artigo da lei que torna inelegíveis os políticos que renunciaram aos madatos para fugir de processos de cassação.

Mercê do escândalo da Sudam e de outros malfeitos –desvios no Banpará e negócios suspeitos na Reforma Agrária— Jader renunciara ao mandato de senador em 2002.

Em março, o Supremo decidiu que a exigência de prontuários higienizados só vale para eleições futuras. E Jader ressuscitou.

Separa-o da posse no Senado uma derradeira decisão do STF. A deliberação de março, aquela que anulou a Ficha Limpa para 2010, impôs a análise de cada caso.

Além de Jader, aguardam na fila da posse outros dois senadores que haviam sido alcançados pela lei: João Capiberibe (PSB-AP) e Cassio Cunha Lima (PSDB-PB).

Depois de renunciar à presidência do Senado e ao próprio mandato de senador, Jader elegeu-se deputado federal.

A reconquista de um mandato o manteve a salvo de novos pedidos de prisão. O processo da Sudam foi enviado ao STF.

Na Câmara, Jader tornou-se um deputado obscuro. Em meio à multidão de 513 deputados, sua presença mal foi notada.

Jader fugiu dos alaridos do plenário, esquivou-se dos refletores, recusou pedidos de entrevista.

No Senado, ainda que quisesse, Jader não teria como manter a invisibilidade. A multidão é menor, só há 81 senadores.

Por uma dessas ironias que só a história sabe tecer, o PMDB de Jader e o PDT de Taques integram o mesmo condomínio que dá suporte congressual ao governo.

No palco em que se converteu a política, o convívio entre desiguais por vezes exige a instalação de cortinas de hipocrisia defronte do rosto. Para Jader, vai faltar pano.

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Escrito por Josias de Souza às 19h01

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No Rio, PT prepara desembarque do projeto de Cabral

  Fotos: Folha e Divulgação
O PT do Rio de Janeiro decidiu se dissociar do projeto político do PMDB do governador Sérgio Cabral.

Discute-se agora se o desembarque ocorrerá em 2014 ou se deve ser antecipado para a eleição municipal de 2012.

Empurrado por Lula para o colo de Cabral, o petismo fluminense esboça a ruptura num instante em que a popularidade do governador declina.

Para a prefeitura da cidade do Rio, o PT cogita lançar o deputado federal Alessandro Molon, contra o prefeito Eduardo Paes (PMDB), candidato à reeleição.

Para a corrida ao governo do Estado, o partido de Lula já decidiu empinar o nome do senador petista Lindbergh Farias –apoiado, hoje, por cerca de 80% da legenda.

No exercício de seu segundo mandato, Cabral procura um nome para sucedê-lo. O preferido é seu vice-governador, Luiz Fernando de Souza (PMDB), o Pezão.

Em princípio, o PT não trabalhava com a hipótese de dissociar-se de Cabral em 2012. O partido já havia inclusive selecionado um nome para a vice de Paes.

Seria acomodado na segunda posição da chapa reeleitoral do atual prefeito o vereador petista Adilson Pires.

Súbito, farejou-se um movimento do grupo de Cabral para apear o PT da futura chapa de Paes. Trama-se a escolha de um vice do próprio PMDB.

Por quê? Na leitura do PT, Cabral deseja dispor de uma alternativa para 2014. Se o nome de Pezão não vingar, o governador lançaria Eduardo Paes à sua sucessão.

Supondo-se que Paes obtenha um segundo mandado, teria de renunciar à prefeitura, legando ao vice dois anos de gestão na prefeitura.

Daí a cogitação dos operadores de Cabral de compor para 2012 uma chapa “puro sangue”, sem o PT na posição de vice.

Diante do cheiro de queimado, o petismo reagiu. Manteve sobre a mesa o nome do vereador Adilson Pires, o escolhido para ser vice de Paes. Porém…

…Porém, o PT decidiu levar ao palco, simultaneamente, o projeto da candidatura de Alessandro Molon à prefeitura do Rio.

Com esse gesto, o PT informa a Cabral que não se dispõe a apoiar Eduardo Paes a qualquer custo. Sem a posição de vice, nada feito.

Ao PT interessa reter Paes na prefeitura. Imagina-se que o nome dele chegará a 2014 mais bem posto que o de Pezão, o preferido de Cabral.

Dito de outro modo: na visão do PT, as chances de Lindbergh triunfar na disputa pelo governo do Estado serão maiores se Pezão for o candidato de Cabral.

No cenário esboçado pelo PT, depois do escolhido de Cabral, o principal adversário de Lindbergh em 2014 será o ex-governador Anthony Garotinho (PR).

Dá-se de barato que Garotinho, cujo prestígio eleitoral mistura-se a altas taxas de rejeição, tentará retornar ao Executivo estadual.

Afora o candidato do PMDB e Garotinho, o principal adversário do PT fluminense é Lula. O ex-soberano mantém com Cabral uma relação que extrapola a política.

Imagina-se que, movido pela amizade, Lula tentará novamente impor ao PT do Rio a condição de linha auxiliar do PMDB de Cabral.

O repórter procurou Lindbergh. Perguntou: E se Lula pedir para que desista de sua candidatura? O senador petista respondeu assim:

“Serei candidato a governador. As condições são muito favoráveis para o PT. Uma eventual intervenção do Lula seria uma violência muito grande…”

“…Não haverá de minha parte nenhuma posição de passividade. A retirada de minha candidatura levaria a um cenário de terra arrasada.”

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Escrito por Josias de Souza às 04h42

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PT e PMDB avaliam que Lula será candidato em 2014

Alan Marques/Folha

Algumas das principais lideranças do PT e do PMDB, os dois sócios majoritários da aliança governista, avaliam que Lula tentará voltar à Presidência em 2014.

Nos últimos cinco dias, o blog conversou reservadamente com cinco políticos de expressão –três pemedebês e dois petês.

Manifestaram em privado opiniões que não ousam verbalizar em público. Ressalvadas sibilinas diferenças quanto à enfase, todos enxergam em Lula um candidato.

Apenas um dos entrevistados, integrante da direção do PT federal, condicionou a re-re-recandidatura de Lula ao desempenho de Dilma.

Os demais disseram crer que o patrono de Dilma irá às urnas em qualquer cenário. Escoraram a aposta na movimentação de Lula.

“Típica de candidato”, disse um ex-ministro, filiado ao PMDB. “Voltou à cena mais cedo do que todos previam”, ecoou um senador do mesmo partido.

Um petista que priva da intimidade de Lula contou que, mesmo nas conversas mais íntimas, o amigo não se declara candidato.

Ao contrário, Lula repisa a tese segundo a qual não faz sentido sonegar a Dilma o “direito” de disputar a reeleição. O problema é que ninguém –ou “pouca gente”— o leva a sério.

Um governador do PT mencionou ao repórter o que chama de “efeito etário”. Lembrou que Lula fará aniversário de 66 anos em outubro.

“Em 2014, terá 69. E não parece razoável que ele se disponha a esperar até 2018, quando fará 73 anos”.

Outro entrevistado disse que a volta de Lula começa a ser desejada também pelos partidos que o apoiaram e que agora dão suporte a Dilma.

Por quê? Diferentemente de Lula, um “animal politico”, Dilma trata seus aliados “na base da ameaça”. Algo que, imagina, “não vai acabar bem”.

Entre todas as legendas, avalia o autor do raciocínio, a que mais deseja a volta de Lula é o próprio PT.

Disseminou-se no condomínio governista a avaliação de que Dilma exagerou na faxina do Ministério dos Transportes. Sobretudo no método.

Como que receosos de receberem da presidente um tratamento à moda do PR, os aliados acham que ela portou-se de modo precipitado e injusto.

De acordo com a visão majoritária, Dilma teria afastado pessoas contra as quais pesavam fundadas suspeitas e também servidores cuja culpa não está provada.

Menciona-se, de resto, o fato de Dilma ter sido a gerente da Casa Civil de Lula, sob cuja gestão já vicejavam os malfeitos dos Transportes. 

“Ela joga pra platéia”, disse o ex-ministro pemedebê de Lula. “Pode ficar bem nas pesquisas, mas gera uma instabilidade política desnecessária no início do governo.”

Dito de outro modo: ao saciar a fome ética da opinião pública, Dilma ateou pânico entre os aliados, que passaram a ter saudades inauditas do estilo acomodatício de Lula.

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Escrito por Josias de Souza às 05h11

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Maioria dos americanos desaprova a ‘guerra’ da dívida

 Divulgação

Pesquisa feita pelo Gallup em parceria com o diário USA Today revela: a maioria dos americanos desaprova o comportamento dos partidos na batalha da dívida dos EUA.

O presidente Barack Obama reivindica no Congresso autorização para elevar o teto de endividamento do Tesouro americano, hoje fixado em R$ 14,3 trilhões.

A decisão precisa ser tomada até 2 de agosto. Do contrário, o Tesouro americano não terá como rolar sua dívida, inaugurando um calote de reflexos planetários.

O Gallup perguntou aos pesquisados se os personagens da batalha acomodam os interesses do país acima dos seus próprios interesses políticos.

Para 72%, os membros do Partido Republicano, antagonista de Obama, comparecem ao debate da dívida mais interessados em suas conveniências políticas que no país.

Para 65%, também o Partido Democrata, legenda de Obama, debate o teto da dívida mais preocupado com a política do que com o interesse dos EUA.

Quanto ao papel desempenhado por Obama no front da dívida, o eleitorado americano dividiu-se praticamente ao meio.

Na opinião de 47% dos entrevistados, o presidente move-se pelo país. Para 49%, Obama não mira senão propósitos políticos.

Ou seja: no confronto estatístico, Obama fica mais bem posto na foto do que os congressistas republicanos e democratas.

Realizada entre os dias 15 e 17 de julho, a sondagem foi divulgada nesta terça (19). A margem de erro é de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos.

A exposição dos dados coincidiu com a aprovação, na Câmara dos Representantes dos EUA, de projeto de lei que autoriza, sob condições, a elevação do teto da dívida.

O texto aprovado na Câmara, de maioria republicana, vai na contramão do que pede Obama. Carrega nos cortes de gastos, inclusive os sociais, e inibe a elevação de impostos.

Porém, costura-se uma proposta diferente no Senado, Casa em que os democratas dispõem de maioria frágil.

Com a participação dos republicanos e sob aplausos de Obama, os senadores empinam um projeto que combina cortes e aumentos de impostos.

A pesquisa Gallup/USA Today ajuda a compreender a súbita busca pela harmonia no Senado.

Afora a percepção de que os políticos pensam mais em si mesmos do que nos EUA, os pesquisados atribuíram aos atores da guerra baixos índices de aprovação.

Os republicanos amealharam taxa de aprovação de 28%. Os democratas, 33%. E Obama, 45%.

Nada muito diferente da média captada pelo Gallup nas pesquisas realizadas desde agosto do ano passado. São taxas muito baixas, contudo.

Desde que tomou posse, em 2009, o índice de aprovação mais miúdo de Obama fora de 41%.

O prestígio dos partidos começou a ser medido em junho de 1999. Desde então, a menor taxa de aprovação dos republicanos fora de 25%. Dos democratas, 30%.

Quer dizer: em meio ao debate sobre o pé direito do endividamento dos EUA, os partidos roçam o piso da aprovação junto ao eleitorado.

Obama, embora não tenha motivos para soltar fogos, emerge da pesquisa em posição menos incômoda do que a dos congressistas.

No geral, O Gallup revela que o eleitor americano não ignora o essencial: a discussão sobre a rolagem da dívida está intoxicada pelo veneno sucessório.

A sucessão dos EUA está agendada para 2012. Os republicanos enxergaram no embate da dívida uma oportunidade para fragilizar Obama, candidato à reeleição.

A julgar pelos dados colecionados pelo Gallup, o eleitor americano, assediado pela crise, acha que os políticos deveriam esquecer as urnas.

Vem daí o cheiro de consenso que começa a exalar dos debates travados no Senado. Melhor para os mercados mundiais.

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Escrito por Josias de Souza às 05h50

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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