Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Arruda redigiu manuscrito com ‘acusações’ ao DEM

Documento tem 12  folhas e foi  entregue a  advogados
Entre os ‘alvos’ estão  Rodrigo,  Agripino e Demóstenes
Informados, parlamentares dizem não recear ameaças 

Elza Fiúza/ABr

 

Detido há 18 dias, o governador afastado do DF, José Roberto Arruda, dedicou parte de seu tempo na prisão à redação de um manuscrito.

 

Acomodado em 12 folhas, o texto contém “acusações” de Arruda contra seu ex-partido, o DEM. Menciona expoentes da legenda.

 

Entre eles o presidente da agremiação, deputado Rodrigo Maia (RJ); e os senadores Agripino Maia (RN), líder no Senado; e Demóstenes Torres (GO).

 

Neste sábado (27), segundo apurou o blog, Arruda entregou o documento a uma dupla de advogados que o visitou na superintendência da PF, em Brasília.

 

Os visitantes integram a equipe do escritório do criminalista Técio Lins e Silva, do Rio, contactado para reforçar a defesa do preso.

 

Encontraram um Arruda que, a despeito do convívio com a perpsectiva da detenção longeva e a ameaça de impeachment, revelou-se avesso à idéia da renúncia.

 

Ao contrário, Arruda pareceu pintado para a guerra. O manuscrito de teor acusatório foi ao cofre do escritório de advocacia.

 

Não há, por ora, informações nem sobre o teor da peça nem sobre os reais propósitos do autor, trancafiado numa sala da PF desde 11 de fevereiro.

 

Informados pelo repórter, na noite passada, acerca da existência do texto de Arruda, Rodrigo, Agripino e Demóstenes reagiram.

 

“Não faço idéia do que ele vai inventar”, disse Rodrigo Maia. “Não posso comentar algo que não sei o que é”.

 

Um dos autores do requerimento que levou Arruda a se desfiliar do DEM para evitar a expulsão, Demóstenes Torres foi à jugular:

 

“Em relação a mim, não há de ser nada além de um Fernandinho Beira Mar falando do juiz que o condenou. No meu caso, topo a briga”.

 

“A meu respeito, ele não tem o que inventar”, ecoou Agripino Maia, que também advogou a expulsão de Arruda. “Não tenho nenhuma relação com ele”.

 

As ameaças de Arruda frequentam os subterrâneos do DEM desde o dia em que o partido passara a considerar a idéia de expurgá-lo de seus quadros.

 

Pela primeira vez, o diz-que-diz ganha a forma de um texto. Mas a ausência de divulgação conserva as supostas denúncias ainda no campo da chantagem.

 

Nos últimos dias, Arruda estendeu as ameaças aos integrantes da pluripartidária bancada do panetone, com assento na Câmara Legislativa do DF.

 

Na sexta (26), uma comissão especial do legislativo brasiliense abriu, em votação unânime, o processo de impeachment contra Arruda.

 

Nesta semana, o pedido de cassação passará pelo segundo estágio, uma votação no plenário. A perspectiva é de aprovação.

 

Diante da evidência de abandono, Arruda mandou dizer aos aliados que claudicam que pode arrastá-los para o centro do escândalo, incriminando-os.

 

No que diz respeito à bancada distrital, os arroubos de Arruda fazem nexo, já que o impeachment é matéria ainda pendente de deliberação.

 

Dá-se o oposto em relação às baterias que Arruda aponta na direção da cúpula do DEM.

 

Agripino Maia realça o fato de que o partido não se dobrou às ameaças veladas que Arruda já fazia antes de redigir seu manuscrito, indicando-lhe a porta de saída.

 

Um sinal de que prevaleceu na legenda o grupo disposto a tratar Arruda com desassombro.

 

Na fase em que era festejado como único governador eleito pelo DEM no pleito de 2006, Arruda ajudou a fornir as arcas da legenda.

 

Na campanha municipal de 2008, direcionou doações de empresários com negócios no GDF para o diretório nacional do partido.

 

Quanto? O DEM informa que não foi muito, mas ainda não se animou a trazer a público uma cifra.

 

Dos cofres nacionais, a verba provida por Arruda foi rateada, junto com outras doações, entre diretórios de municípios nos quais o DEM disputava prefeituras.

 

A direção do partido sustenta que não recebeu um mísero centavo por baixo da mesa. Tudo teria sido feito como manda a lei: com recibo e escrituração formal.

 

Entre as prefeituras que disputou, o DEM priorizou 14, assentadas em cidades-pólo e capitais. Entre elas São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Arruda teria solicitado que as verbas obtidas por seu intermédio não custeassem nem a campanha de São Paulo nem a do Rio. Por quê?

 

O governador argumentara que o DEM detinha as prefeituras dessas duas praças. Por isso, teria codições de obter doações por conta própria, sem a ajuda dele.

 

Nos próximos dias, vai-se saber se o texto produzido por Arruda é coisa a ser tomada a sério.

 

Alerdeado como bala de prata, o documento pode se converter em mero festim se permanecer guardado nos cofres da banca advocatícia.

 

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Escrito por Josias de Souza às 05h16

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Crônica da renúncia que, anunciada, não aconteceu

  Marcello Casal/ABr
Três e meia da tarde desta quinta-feira (18). Agripino Maia acabara de descer do avião, no aeroporto de Natal. Súbito, ouviu soar a campainha do celular.

 

Olhou o visor. Era Paulo Octávio. Atendeu. O governador interino do Distrito Federal informou ao líder do DEM: dali a instantes, renunciaria ao cargo.

 

Agripino perguntou ao interlocutor se ele comunicara a decisão Lula, E Paulo Octávio: “Comuniquei”. Tudo parecia correr como planejado.

 

Na véspera, ainda em Brasília, Agripino recebera Paulo Octávio em seu apartamento. “Renuncie”, o senador aconselhara.

 

“Se você ficar no governo, vai enfrentar dez meses de calvário diário. Isso não vai parar. Sua vida pública já está destroçada. Agora, as consequências serão pessoais, na sua vida, na rotina das suas empresas”.

 

Informado de que Paulo Octávio solicitara audiência a Lula, o senador sugerira: “Não vá lá para pedir proteção, não faça isso. Se o Lula te receber, comunique a ele que você está renunciando”.

 

Paulo Octávio concordara com cada palavra. Deixara o apartamento de Agripino decidido a abdicar do governo. Sua saída seria formalizada no dia seguinte.

 

Ainda na noite de quarta, redigiu a carta de renúncia. Escreveu um, dois rascunhos. Na terceira versão, deu o documento por acabado. De manhã, foi ao encontro de Lula.

 

Um assessor do presidente ligara à noite. Avisara que o presidente, depois de lhe dar o “bolo”, finalmente o receberia. Na conversa com Lula, mencionou a renúncia.

 

Ao deixar o gabinete do presidente, pendurou-se ao telefone. Contou a amigos e partidários o que depreendera da conversa. Lula torcia o nariz para o pedido de intervenção federal no DF.

 

Nada que o fizesse, porém, desistir da idéia de renunciar. Almoçou com o jornalista Mario Rosa, gerenciador de crises. Discutiram o formato da renúncia.

 

Depois, informou aos secretários de governo sobre a saída. Entregou a carta redigida na noite anterior à líder do DEM na Câmara do DF, Eliana Pedrosa.

 

Antes de tocar para Agripino, ligou para o seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Concovou-o à sede do GDF. Queria ouvi-lo sobre as repercussões da renúncia no inquérito do panetonegate.

 

Kakay tranqüilizou o cliente. Disse-lhe que, fora do governo, sairia das manchetes. “Diminui a pressão política. Não há coisa melhor para um advogado do que o cliente fora da mídia”.

 

E quanto ao pedido de intervenção?, o quase ex-governador interino quis saber. E Kakay: “A tese cresce. Aumentam as chances de acontecer a intervenção”.

 

Paulo Octávio isolou-se numa sala contígua. Ao retornar de uma reflexão solitária de 15 minutos, a reviravolta: “Não vou renunciar, vou para o enfrentamento”.

 

Àquela altura, uma legião aguardava, na sala de entrevistas, o anúncio da saída. Repórtres, secretários de governo, deputados distritais. Em vez da renúncia, sobreveio o “fico”.

 

A carta está pronta, disse. Porém, “eu aguardo mais alguns dias, como me recomendou o presidente Lula”.

 

Ao injetar Lula na pantomima, Paulo Octávio irritou o presidente. E levou a cúpula do DEM à exasperação. Lula ordenou um desmentido. Desautorizado, Paulo Octávio se desdisse, em nota. O presidente não recomendara que ficasse, admitiu.

 

“O Lula que carregue o Paulo Octávio no colo”, reagiu Agripino Maia, alheio aos desmetidos. “Não entendi nada. Depois da comunicação tácita que ele me fez, uma presapada dessas! Estou perplexo.”

 

Agripino comprometera-se com Demóstenes Torres (DEM-GO), a acomodar a assinatura no pedido de expurgo de Paulo Octávio do partido.

 

Mas não se juntara ao pedaço do DEM que advoga a expulsão sumária do filiado encrencado. Defenderia na reunião da Executiva a abertura de prazo para a defesa.

 

O processo rolaria durante meses. E o futuro de Paulo Octávio na legenda seria condicionado à evolução das denúncias.

 

Ao renunciar à renúncia, o governador interino retirou da boca dos que o defendiam no partido a última réstia de argumento.

 

O deputado Rodrigo Maia (RJ), que também não aderira à turma do “mata e esfola”, ecoou Agripino: “Estou perplexo. Hoje, a situação é pior do que era ontem. Esse ziguezague da renúncia levou a uma deterioração. A situação dele no partido piorou”.

 

Em novo telefonema a Agripino, Paulo Octávio pediu desculpas. E informou que decidira antecipar-se ao vexame da expulsão. Vai se desfiliar do DEM até segunda-feira.

 

À estupefação seguiu-se o alívio. Livre do problema principal, o DEM vai cuidar, na reunião da Executiva, apenas do dissabor secundário. Será dissolvido, na próxima quarta, o diretório do DEM no DF, hoje controlado por Paulo Octávio.

 

Na Câmara Legislativa, a bancada do panetone, que já flertava com uma súbita conversão à probidade, terminou de esfacelar-se.

 

Pela manhã, aprovara-se na Comissão de Justiça a abertura do processo de impeachment contra Arruda, o titular preso.

 

No final da tarde, em reunião de emergência, colocou-se para andar também o processo de cassação de Paulo Octávio, o vice da “desrenúncia”.

 

Afora o governador interino, não há em Brasília muitas vozes que se aventurem a apostar na longevidade da administração provisória de Paulo Octávio.

 

Ecoam sobre a cidade as palavras de Agripino da última quarta: “Se você ficar no governo, vai enfrentar dez meses de calvário diário. Isso não vai parar”.

Escrito por Josias de Souza às 06h58

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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