Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Governo tenta no STF limitar poder dos procuradores

Para Advocacia da União, MPF não pode fazer investigações 

Valter Campanato/ABr

 

Sem alarde, aportou no protocolo do STF, há nove dias, um parecer de teor inusitado. Assina-o José Antonio Dias Toffoli (na foto), advogado-geral da União.

 

No texto, Tofolli investe contra o Ministério Público. Defende a tese segunda a qual procuradores não tem poderes para realizar investigações criminais.

 

A prerrogativa do Ministério Público de abrir investigações está prevista na Lei Complementar número 75, de 1993. O artigo 8º dessa lei detalha as atribuições do Ministério Público.

 

O miolo da polêmica está em dois incisos desse artigo. Num deles, o inciso 5º, está escrito que o Ministério Público pode “realizar inspeções e diligências investigatórias”.

 

Noutro, o inciso 9º, está anotado que, no curso de suas investigações, o Ministério Público pode inclusive “requisitar o auxílio de força policial”.

 

Pois bem. No texto que enviou ao STF, o advogado-geral Toffoli pede ao tribunal que declare inconstitucional esse pedaço da lei.

 

Alega que investigações criminais são de atribuição exclusiva da polícia judiciária –a Polícia Federal, no caso da União; e as polícias civis, no âmbito dos Estados.

 

Datado de 18 de julho, o parecer de Tofolli chegou ao STF no dia 20. Foi anexado a uma ação movida pela Adepol (Associação dos Delegados de Polícia do Brasil).

 

A entidade protocolara no Supremo, no último dia 15 de julho, uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade). Leva o número 4271.

 

No documento, a Adepol se insurge contra várias prerrogativas do Ministério Público. Entre elas o poder de investigação conferido por lei aos procuradores.

 

A ação foi à mesa do ministro Ricardo Lewandowiski. Antes de decidir, o ministro optou, como manda a praxe, requisitar informações.

 

Em casos do gênero, a Advocacia Geral da União sempre é chamada a opinar. Suas atribuições estão previstas no parágrafo 3º do artigo 103 da Constituição.

 

Diz o seguinte: “Quando o STF apreciar a inconstitucionalidade, em tese, de norma legal ou ato normativo, citará, previamente, o advogado-geral da União, que defenderá o ato ou texto impugnado”.

 

Ou seja, o advogado-geral Toffoli deveria defender, com unhas e dentes, o texto da lei que a Adepol deseja ver impugnada pelo STF. Deu-se, porém, o oposto.

 

Toffoli se insurge contra todas os tópicos da ação proposta pela Adepol, exceto no ponto em que se questiona o poder investigatório do Ministério Público.

 

Nesse quesito, o advogado-geral é peremptório. Eis o que escreveu Toffoli num trecho do parecer enviado ao STF: 

 

“Revela-se fora de dúvida que o ordenamento constitucional não reservou o poder de investigação criminal ao Ministério Público, razão pela qual as normas que disciplinam tal atividade devem ser declaradas inconstitucionais”.

 

Para Toffoli, cabe ao Ministério Público exercer “o controle e a fiscalização da atividade policial”, não abrir investigações próprias.

 

Não considera “legítimo” que "o órgão controlador [Ministério Público] assuma as atribuições do órgão controlado [polícia]” a fim de investigar.

 

Acha que, mantido o poder dos procuradores de abrir investigações, a atividade do Ministério Público “estaria a salvo de qualquer controle externo”.

 

Não é a primeira vez que os poderes do Ministério Público são questionados. O que chama a atenção no caso é o fato de a Advocacia da União ter encampado a crítica.

 

Até aqui, o Ministério Público era alvejado por pessoas pilhadas em malfeitos, por advogados e por policiais enciumados. Nunca pelo advogado-geral da União.

 

O tema divide os ministros do Supremo. Há no tribunal decisões conflitantes. Parte a favor do Ministério Público. Parte contra.

 

Não há, porém, uma manifestação conclusiva do plenário, composto de 11 ministros. Algo que pode ser obtido agora, no julgamento da ação da Adepol.

 

Na página 15 de seu parecer, Toffoli menciona uma decisão tomada pela 2ª turma do STF. Texto de 2003, da lavra de Nelson Jobim, hoje ministro da Defesa de Lula.

 

Ao tempo em que integrava o STF, Jobim escreveu que “a Constituição dotou o Ministério Público do poder de requisitar diligências investigatórias [...].” Mas “não contemplou a possibilidade” de o órgão “realizar e presidir inquérito policial”.

 

Há, porém, várias decisões em sentido contrário, que Toffoli se esquivou de mencionar. Uma delas da mesma 2ª turma, adotada em março de 2009, agora sem Jobim.

 

Está registrado na ata da sessão: “A 2ª turma do STF [...] reconheceu por unanimidade que existe a previsão constitucional de que o Ministério Público tem poder investigatório”.

 

Num país em que proliferam a corrupção e os malfeitos, parece disparatada a ideia de impedir que o Ministério Público investigue.

 

A prevalecer esse entendimento, iriam à lata de lixo, por exemplo, os autos do caso do juiz Lalau. Baseia-se fundamentalmente em investigações do Ministério Público.

 

Estaria comprometido também um pedaço do processo do mensalão, em cujas folhas misturam-se apurações feitas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.

 

Toffoli, não é demasiado recordar, foi advogado do PT em três campanhas presidenciais. Hoje, é homem de confiança de Lula, que cogita indicá-lo para um cadeira no STF.

Escrito por Josias de Souza às 05h58

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Delegado conta como ‘terrorismo’ se infiltra no Brasil

Antes, extremistas usavam o país como escala de viagem
Passaram a adotar filhos de prostitutas para ficar no país
Em seguida, seduziram brasileiros com ‘cantilena radical’
Agora, preparam daqui ações contra alvos no estrangeiro

 

 

As revelações acima foram feitas pelo delegado Daniel Lorenz. Até o início de julho, ele era diretor de Inteligência da PF. Uma semana depois de deixar o posto, falou numa audiência na Comissão de Segurança Pública da Câmara.

 

A sessão fora convocada por Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da comissão, com o propósito de esmiuçar a “atuação de membros de grupos terroristas” no Brasil. O repórter obteve, na semana passada, cópia da transcrição da audiência. Neste domingo (23), Jungmann levou a íntegra do texto ao seu blog.

 

Lorenz mediu as palavras –“Como a sessão é aberta, não vou detalhar esses assuntos”. Ainda assim, delineou um quadro revelador. Disse que a PF só passou a se preocupar com o terrorismo em 1995.

 

Desde então, o problema se agrava. Lorenz dividiu a encrenca em quatro ciclos. No início, o Brasil era usado por terroristas como escala de viagem. Hoje, disse o delegado, o país já serve de base para a preparação de ataques a alvos no exterior.

 

Vai abaixo um resumo das quatro fases descritas pelo delegado:

 

 

1. Primeiro estágio: Foi nessa fase que a PF se deu conta de que “extremistas” estrangeiros utilizavam o Brasil como escala de viagem. Passavam sobretudo pela região da tríplice fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai).

 

Lorenz confirmou algo que já fora noticiado. Em 1995, “entrou pelo Rio de Janeiro e saiu por São Paulo” Khalid Shaikh Mohammed, que viria a se converter no terceiro homem na hierarquia da Al Qaeda. O terrorista passou por Foz do Iguaçu.

 

O delegado desculpou-se por não poder “tecer detalhes”. Mas deixou claro que Shaikh Mohammed não viera a passeio. “Ele esteve lá, evidentemente, não para tomar uma geladinha e nem para participar do Carnaval, muito menos das festas do final do ano”.

 

Preso no Paquistão em 2003, Shaikh Mohammed foi levado à prisão norte-americana de Guantânamo, acusado de participar dos ataques do 11 de setembro.

 

 

2. Segundo estágio: Extremistas passaram a se servir das facilidades da legislação brasileira para “legalizar” sua permanência no país. “Não vou me deter nos detalhes, não posso conversar sobre isso”, desculpou-se, de novo, Lorenz. Porém, detalhou:

 

“Eles buscam uma legalização no país por meio da [...] adoção à brasileira. Ou seja, tomar como seu o filho de outrem. Então, eles se aproximavam de mulheres de vida fácil, assumiam aqueles filhos e ganhavam a condição de permanência no Brasil. Isso aconteceu, isso é acompanhado, está sendo acompanhado e foi muito acompanhado por nós. Esse seria o segundo momento”.

 

 

3. Terceiro estágio: A PF descobriu que cidadãos brasileiros começaram a ser cooptados pelos “extremistas”. Encantaram-se, no dizer de Lorenz, com a “cantilena radical de que tudo é possível, de que se poderia, ao praticar um ato insano, terrorista, ter 72 virgens” no céu. Lorenz foi enfático: “Isso aconteceu, isso acontece”.

 

A certa altura, Jungmann perguntou se era verdade que brasileiros foram ao Irã para treinar táticas de terror. E o delegado: “[...] Posso lhe dizer que não somente ao Irã. Não somente. O senhor me desculpe, mas eu não poderia me estender [...]”.

 

 

4. Quarto estágio: É, por ora, “o último grau” da ação de “extremistas” em solo brasileiro. Envolve, segundo Lorenz, “a preparação” de ataques terroristas a alvos localizados no exterior. O delegado mencionou o caso do “Senhor K.”

 

Trata-se de um cidadão libanês residente em São Paulo. É casado com uma brasileira, com quem teve uma filha. Em maio, o repórter Jânio de Freitas revelara que K. fora preso, acusado de envolvimento com a Al Qaeda.

 

O ministro Tarso Genro (Justiça) apressara-se em dizer: "Não há nenhum foco terrorista organizado" no Brasil. O libanês K., disse ele, fora à garra pela prática de “racismo”. Lorota.  

 

A PF enquadrara-o como racista porque a legislação brasileira não contempla o crime de terrorismo, explicou Lorenz na Câmara. Por isso teve a prisão relaxada depois de 21 dias de cana. A julgar pelo que disse o delegado, o caso do libanês K. nem seria o único. Lorenz expressou-se no plural:

 

“Temos a percepção desses estrangeiros que agora estão no Brasil e estão a executar não, evidentemente, ações extremistas no país, mas, a exemplo do que foi o Sr. K, iniciando ações de recrutamento, apoio, treinamento, logística e reconhecimento para ações terroristas ainda fora do país”.

 

Acrescentou: “Utilizam nosso país como um local tranquilo. A partir dele, saem e vão ajudar essas organizações extremistas, notadamente, nesse caso [do Sr. K.], a Al-Qaeda”. Segundo Lorenz, o libanês K. agia na internet. Seus arquivos eram criptografados. Mas a PF logrou acessá-los, remotamente, nos instantes em que, manuseados pelo autor, estavam abertos. Ouça-se Lorenz:

 

“Esse Sr. K. tinha duas lan houses em São Paulo e coordenava o que chamamos de batalhão de mídia da Jihad. Inicialmente, aquilo que era somente um proselitismo da causa defendida pela Al Qaeda transformou-se num espaço para recrutamento, apoio, treinamento em comunicações e segurança operacional, um local de apoio e também um local de onde emanavam o que eles chamavam de ordens de batalha para ações fora do país”.

 

 

A exposição de Lorenz contrastou com declarações feitas pelo ministro Jorge Félix (Segurança Institucional da Presidência). Também convidado para a audiência na Câmara, o general minimizou a ação de extremistas em solo brasileiro.

 

O próprio Félix, porém, reconheceu: “[...] Mesmo que apareça algum problema [relacionado ao terrorismo], vamos resolvê-lo — essa é uma atribuição e uma competência nossa — e não vamos admitir que o problema existiu”. Ou seja, nessa matéria, o que general afirma não dever ser tomado a sério.

 

- PS.: Pressionando aqui, você chega à reportagem veiculada no blog na madrugada de sábado (22). Trata de outro tema abordado na audiência da Câmara: a proliferação do crime cibernético.

Escrito por Josias de Souza às 04h41

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Governo enfrenta dois mil ‘ataques’ por hora na web

PF investiga invasão feita por quadrilha do Leste Europeu
Grupo ‘sequestrou’ senha e  exigiu  resgate:  US$  350 mil
Presidência detecta 200 softwares de infiltração por  mês
Portais de prefeituras exibem fitas  pornográficas  à noite

 

Orlandeli

 

A Comissão de Segurança Pública da Câmara realizou, 47 dias atrás, uma audiência pública sobre terrorismo. Deu-se numa tarde de terça-feira, 7 de julho. Durou pouco mais de três horas. Começou às 14h39. E se arrastou até 17h53.

 

Hipnotizados pela crise do Senado, os repórteres deram de ombros para a reunião. Entre os deputados, de 513 apenas cinco deram as caras. Na primeira hora e meia, só Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da comissão e autor do pedido de audiência, emprestou os ouvidos aos convidados.

 

O blog obteve a íntegra das notas taquigráficas da sessão. Ocupa 63 folhas. Quem lê dá de cara com informações surpreendentes. Parte delas foi relatada por Raphael Mandarino Jr., diretor de Segurança da Informação do GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência).

 

Levado à comissão pelo ministro Jorge Félix, chefe do GSI, Mandarino contou que as redes de computadores do governo sofrem 2 mil ataques por hora.

 

“Nós temos 320 grandes redes”, disse Mandarino. “E quando digo grande rede, refiro-me às redes do Banco do Brasil, do Serpro, da Justiça, etc...”

 

“...Em uma das maiores dessas redes, tivemos, somente no ano passado, 3,8 milhões de incidentes”.

 

Que tipo de incidentes? “Vírus, tentativa de invasão, spam, tudo aquilo que atrapalha o funcionamento normal da rede...”

 

“...E 1% de todos esses 3,8 milhões de incidentes diz respeito àquilo que nos preocupa muito: tentativa de invasão”.

 

Levando-se em conta as 2 mil incursões criminosas que, segundo Mandarino, assediam as redes do governo a cada hora, os ataques diários somam 48 mil.

 

O assessor de Jorge Félix contou que seu departamento é obrigado a analisar cerca de 200 novos “malwares” todos os meses.

 

“Malware" é um neologismo que resulta da fusão de dois vocábulos da língua inglesa: “Malicious software”.

 

São programas criados com o propósito de se infiltrar clandestina e ilegalmente em computadores alheios. Mandarino esmiuçou os alvos dos invasores.

 

Disse que 70% buscam nas redes oficiais “informações bancárias”; 15% tentam capturar “informações pessoais”.

 

Outros 10% dos ataques são feitos com o propósito de extrair informações da rede INFOSEG, gerida pelo Ministério da Justiça.

Trata-se de uma base que armazena dados das secretarias estaduais de Segurança Pública e da Justiça.

Coisas assim: informações sobre inquéritos, processos, armas de fogo, veículos e mandados de prisão.

“Todos os outros tipos” de ataques, Mandarino informou, somam 5%. Ele relatou na comissão da Câmara quatro casos.

Como a audiência era pública e os dados são sigilosos, Mandarino discorreu sobre os milagres sem mencionar os nomes dos santos:

1. O caso “mais sério” envolveu um servidor de computadores de um “órgão público”. Ouça-se o que disse Mandarino:

 

“Uma quadrilha do Leste Europeu entrou no servidor, trocou a senha e pediu um resgate de US$ 350 mil para devolver a senha” antiga.

 

Com a ajuda de técnicos da Abin e de especialistas de fora do governo, conseguiu-se “quebrar a senha” da quadrilha. E o servidor foi recuperado.

 

Segundo Mandarino, “o caso está sob investigação” da Polícia Federal. Ele se eximiu de revelar detalhes do inquérito.

 

2. O segundo ataque revelado por Mandarino na Câmara “ocorreu no site de um órgão brasileiro no exterior”.

 

“De repente, houve um grande aumento no número de acessos a esse site. O órgão ficou muito feliz, mas...”

 

“...Mas descobrimos que, dentro do site havia ferramentas de ataques bancários internacionais, vindas de países com muito conflito com seus vizinhos”.

 

3. O terceiro episódio transpôs para dentro dos computadores do governo brasileiro o embate travado, no Oriente Médio, entre judeus e palestinos.

 

“[...] O servidor de um grande órgão público foi usado como difusor de propaganda, tanto para um lado como para o outro...”

 

“...Como era um servidor muito grande, com imensa capacidade, ele foi invadido por um dos lados para difundir propaganda...”

 

“...O outro lado descobriu, pelo IP, o endereço, invadiu também e fez uma contrapropaganda. [...] Esse servidor serviu aos dois lados”.

 

4. Por último, Mandarino revelou “uma coisa novíssima”, detectada pelo GSI na semana anterior.

 

Disse que portais de prefeituras vêm sendo sistematicamente invadidos entre 11 da noite e quatro da madrugada. São, “em média, seis invasões por noite”.

 

Vindos do exterior, esses ataques injetam nos computadores das prefeituras “filmes piratas, fitas pornográficas e de pedofilia”, além de propaganda política.

 

“O que percebemos são os hits muito altos. Quando se consegue chegar perto, a coisa já desapareceu”, encerrou Mandarino.

Escrito por Josias de Souza às 05h24

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Lula amansa PT, Renan acua oposição e Sarney fica

Fotos: ABr, Folha e Ag.Senado

 

Passou a fase do heroísmo afirmativo no Senado. Vive-se agora a etapa da covardia, só exposta no recôndito dos gabinetes, com o buraco da fechadura tapado. Entre quatro paredes, ouve-se das vozes que tem peso uma opinião unânime: José Sarney fica.

 

É uma unanimidade à moda de Nelson Rodrigues. Uma unanimidade que, por ululante, “está a um milímetro do erro, do equivoco, da iniquidade”. Sarney trata de virar a página: “Todo mundo deseja que o Senado volte a seus trabalhos, à convivência...”

 

Todos desejam que o Senado “possa realmente realizar as reformas pendentes”, dizia o morubixaba do PMDB na manhã de quinta (13). Ao final de uma semana em que tentara pôr de pé a tese da inevitabilidade do desarquivamento de uma ação contra Sarney, Aloizio Mercadante prostrou-se.

 

“Fiquei totalmente isolado. Estou tomando porrada sozinho. Sumiu todo mundo”, desabafou, na tarde de sexta (14), o líder do PT. Mercadante falava a um amigo, pelo telefone. Parecia rendido à evidência de que, no PT, o pior tipo de solidão é a companhia dos companheiros de bancada.

 

Ideli Salvatti, Delcídio Amaral e João Pedro, os petês que votam no Conselho de (a)Ética recusam-se a levar adiante os planos de Mercadante. Pior: acusam o líder de fazer jogo de cena. Sabe que Sarney safou-se. Mas faz média com o eleitorado esclarecido de São Paulo.

 

“O partido tinha apoiado a minha tese. Retirou o apoio. Fiquei numa situação difícil”, Mercadante se lamuriava ao amigo. Ele antevê as manchetes do dia seguinte: “Se o Sarney caísse, a culpa seria minha. Se o Sarney fica, a culpa é do PT”.

 

Logo o PT, que, na refrega de fevereiro, oferecera ao plenário do Senado um nome alternativo ao de Sarney: Tião Viana. O que mais exaspera Mercadante é o timbre do noticiário: “Arrancaram a oposição do debate. Os jornais só falam do PT. Não mencionam o jogo de cena da oposição”.

 

O petismo tornou-se vítima de uma frase de José Agripino Maia: “Nós estamos nas mãos do PT”, repete à exaustão o líder do DEM. Logo o DEM que, com seus 14 votos, foi decisivo no placar que impôs ao Senado a terceira presidência de Sarney.

 

A semana de Agripino começara tensa. Recebera a visita do ex-senador Jorge Bornhausen, presidente de honra do DEM. A pedido de Sarney, seu velho amigo, Bornhausen encareceu a Agripino que não impusesse à bancada ‘demo’ um fechamento de questão contra Sarney.

 

Agripino disse que não há, tecnicamente, um fechamento de questão. Mas foi claro: no Conselho de (a)Ética, entregaria a mercadoria que combinara com o PSDB. Os três votos ‘demos’ no colegiado opinariam a favor de desengavetar as ações contra Sarney. Na quarta (12), Agripino recebeu telefonema de Renan Calheiros.

 

O líder do PMDB, chefe da milícia congressual que quebra lanças por Sarney, pediu um encontro reservado. Agripino o recebeu à noite, em seu apartamento. Renan sondou Agripino sobre os votos do DEM. Ouviu o mesmo que Bornhausen: os ‘demos’ votarão pelo desarquivamento. Perdendo, o partido recorrerá ao plenário.

 

Agripino gere uma bancada cujo ânimo anti-Sarney tem a consistência de um pote de gelatina. Porém, decidido a acomodar todas as culpas no colo do PT, acautelou-se.

 

Heráclito Fortes, um dos ‘demos’ com assento no conselho, disse que não vota contra Sarney. Agripino encomendou a ausência de Heráclito, que assentiu. No lugar dele, vai votar Rosalba Ciarlini.

 

Suplente no conselho, a senadora é unha e cutícula com Agripino, que planeja fazer dela governadora do Rio Grande do Norte. Eliseu Resende, outro ‘demo’ do conselho, também balança por Sarney.

 

Agripino chamou-o aos brios. Lembrou-o de que assinara os recursos pró-desarquivamento. Disse a Eliseu não ficaria bem votar contra os papéis que traziam o seu jamegão. E obteve do liderado claudicante a promessa de se manter firme.

 

Na manhã de quinta (13), Agripino tocou o telefone para o tucano Sérgio Guerra. Contou ao parceiro de oposição o teor da conversa que tivera com Renan. Presidente do PSDB, Guerra disse os dois votos do tucanato no conselho se mantêm inalterados, pelo desarquivamento.

 

A oposição dos subterrâneos contrasta com a oposição dos holofotes. O fora Sarney sumiu do plenário. Ali, ainda ecoam as escusas de Tasso Jereissati.

 

O grão-tucano cearense escalara a tribuna na terça (11). Desculpara-se com a sociedade brasileira pelos pontapés retóricos que trocara com Renan. O “coronel de merda” assegurou que manteria o embate com a tropa do “cangaceiro de terceira categoria”. Seguiu-se, porém, um embainhar coletivo de espadas.

 

O dissidente peemedebista Jarbas Vasconcelos passou a semana defendendo o bloqueio das votações. Pregou no deserto. Pedro Simon, outro desgarrado do PMDB, ainda fala de renúncia. Não de Sarney, que já engoliu e digeriu. Simon ameaça agora abdicar do próprio mandato.

 

Renan também trocou a boca do palco pelas coxias. Amainara o discurso do tucano Arthur Virgílio, levando-o à grelha do Conselho de (a)Ética. Constrangera Tasso, Guerra e Álvaro Dias plantando denúncias no noticiário. E submergiu.

 

Antes de reunir-se com Agripino, fora a Lula, na terça (11). Queixara-se de Mercadante. E ouvira palavras tranqüilizadoras. O petismo, o presidente lhe assegurara, não abandonaria Sarney.

 

Lula repetiria o mantra ao senador que não merece ser tratado como cidadão comum. À noite, na Granja do Torto, diria a Sarney que o governo não lhe faltaria. Na conversa telefônica desta sexta (14), Mercadante acusou o golpe:

 

“O governo veio com a mão pesada pra cima da bancada. Os partidos da base, inclusive o PT, não sustentaram a nossa posição. O PMDB radicalizou. A oposição sumiu do cenário”.

 

Acordão? Sim. Um acerto tácito e silencioso, que dispensa conversas. A conveniência reuniu-se com o compadrio e concluiu que o melado do Senado já escorrera o bastante. Ou fechavam-se os dutos ou todos seriam engolfados. Mercadante recordou uma interrogação que ouvira de Sarney: “Por que só eu?”

 

Em privado, Agripino Maia pronunciou, na noite de sexta, uma frase que ainda não ousa ditar aos gravadores e às câmeras de TV: “O Sarney fica. Mas será um presidente em farrapos. Renovação do Senado, só na eleição de 2010”. As manchetes, Mercadante lamenta, estão contratadas: “A culpa é do PT”.

Escrito por Josias de Souza às 05h33

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Lula ao PSB: ‘Oposição não tem discurso’ para 2010

Sobre Ciro: disse que respeitará se quiser  disputar Planalto
Sobre Marina: não pedirá para que desista de ser candidata
Sobre Senado: não há um substituto natural  para o Sarney

 

Sérgio Lima/Folha

 

Durou cerca de três horas e meia a reunião-jantar de Lula com as cúpulas do PSB e do PT. Deu-se na noite passada, no Palácio da Alvorada.

 

Começou por volta de 21h30. Terminou perto de 1h, já na madrugada desta sexta (13). Afora o anfitrião, participaram dez pessoas (veja lista lá no rodapé).

 

Além dos dirigentes partidários, foram ao Alvorada os presidenciáveis Ciro Gomes (PSB) e Dilma Rousseff (PT).

 

Lula conduziu os convidados à sala de jantar. Conversaram enquanto degustavam duas opções de prato: peixe e carne. Vai abaixo um resumo do que foi dito:

 

1. Vencida a fase da conversa mole, Lula foi ao ponto: 2010. Estava informado sobre a posição do PSB, divulgada à farta nos últimos dias.

 

2. Primeiro, disse o que os interlocutores queriam ouvir: se o PSB decidir que Ciro Gomes deve disputar a presidência, vai “respeitar”.

 

3. Depois, expôs a estratégia que considera ideal: uma disputa “plebiscitária” entre Dilma e o candidato do PSDB, provavelmente José Serra.

 

4. Para Lula, são “grandes” as chances de triunfo. Por quê? O governo terá muito a mostrar. As “realizações” ganharão mais visibilidade no ano que vem.

 

5. Soou otimista quanto à economia. Esboçou um cenário de superação da crise. Prevê um 2010 melhor do que o 2009. Não mencionou números.

 

6. De resto, acha que a oposição “não tem discurso”. Avalia que o tucanato levará ao palanque a plataforma da “ética”. Não vai colar, acredita.

 

7. Mencionou o fato de o PSDB ter ocupado a presidência por oito anos. Insinuou que, nesse período, também acumulou o seu contencioso ético.

 

8. Falou sobre a hipótese de Ciro concorrer ao governo de São Paulo. Uma alternativa que, no dizer de Lula, merece ser “muito bem avaliada”.

 

9. Nas pegadas de Lula, falou o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB. Expôs um compromisso e várias inquietações.

 

10. O compromisso: a prioridade do PSB é preservar o projeto conduzido por Lula, um empreendimento ao qual o partido se associou desde o início, em 2003.

 

11: As inquietações: acha que, aos olhos de hoje, a tática da disputa presidencial plebiscitária é arriscada. Pode levar a uma derrota no primeiro turno.

 

12. Disse que a hipótese de mais de uma candidatura governista pode ser conveniente a Lula. Daí a conveniência de manter Ciro no páreo.

 

13. Defendeu a tese de que convém observar a evolução da conjuntura por um período mais alongado. Definições, só no início de 2010, até março.

 

14. Em reforço à sua tese, Eduardo Campos disse que a disputa plebiscitária depende de variáveis que fogem ao controle do governo.

 

15. Citou a novidade Marina Silva, prestes a mudar-se do PT para o PV, para virar, também ela, candidata à presidência da República.

 

16. A esse respeito, Lula disse que não lhe passa pela cabeça apelar a Marina para que não seja candidata.

 

17. Lula recorreu à própria história. Disse que, tendo disputado a presidência tantas vezes, não tem "o direito de pedir a alguém para não ser candidato”.

 

18. Ciro Gomes não excluiu a hipótese de disputar o governo paulista, como prefere Lula. Mas falou como presidenciável. Ecoou Eduardo quanto aos riscos da tática do plebiscito.

 

19. Os mandachuvas do PSB se comprometeram a avaliar a conveniência de mudança do domicílio eleitoral de Ciro do Ceará para São Paulo.

 

20. Uma avaliação que terá de ser feita até o final de setembro, prazo limite. Mas, mesmo que opte pela mudança, o partido continuará com os olhos voltados para o Planalto.

 

21. Ficou estabelecido que só no ano que vem Ciro decidirá se vai às urnas como candidato ao Palácio dos Bandeirantes ou ao Palácio do Planalto.

 

22. Combinou-se que, até lá, PSB e PT farão avaliações periódicas da conjuntura. Se possível, mensais. Quando der, com a presença de Lula.

 

23. Embora não tenha sido o prato de resistência do jantar, a crise do Senado foi mencionada à mesa.

 

24. Lula não revelou aos presentes o teor da reunião secreta que mantivera na noite da véspera com José Sarney, na Granja do Torto.

 

25. O presidente tampouco repisou as defesas enfáticas que costuma fazer da manutenção de Sarney no comando do Senado.

 

26. A alturas tantas, Lula pronunciou uma frase que denota preocupação com o dia seguinte: “O problema é que não tem um substituto natural para o Sarney”.

 

27. No mais, repetiu um lero-lero encontradiço no discurso do PMDB: a oposição faz da crise do Senado plataforma para 2010.

 

28. Dilma estava descontraída. Mas falou pouco. E o pouco que disse foi para reforçar raciocínios do chefe.

 

- Eis a lista dos presentes ao jantar do Alvorada- Pelo PT: Ricardo Berzoini, presidente; José Eduardo Cardoso, secretário-geral; Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula; e Dilma Rousseff. Pelo PSB: Eduardo Campos, presidente; Roberto Amaral, vice-presidente; Renato Casagrande, secretário-geral; Rodrigo Rollemberg, líder na Câmara; Beto Albuquerque, vice-líder; e Ciro Gomes.

Escrito por Josias de Souza às 04h35

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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