Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Temer só perde na Câmara se houver 142 'traições'

Lula Marques/Folha

A dois meses da eleição para a presidência da Câmara, a contabilidade da disputa é francamente favorável ao candidato Michel Temer (PMDB-SP).

O deputado fechou a semana com o apoio declarado de 12 partidos. Além do PMDB, estão com Temer: PT, PSDB, DEM, PPS, PR, PTB, PV, PSC, PTC, PHS e PTdoB.

Juntas, essas legendas abrigam 398 deputados. Temer precisa de 257 votos para prevalecer já no primeiro turno. Sobram-lhe 141 votos.

Ou seja, para que Temer saia derrotado da sucessão de Arlindo Chinaglia (PT-SP), é preciso que haja 142 Silvérios do seu lado.

Como o voto é secreto, quem disser que põe a mão no fogo pelos aliados arrisca-se a sair chamuscado. Mas parece improvável que as traições cheguem a tanto.

Os dois principais adversários de Temer são Ciro Nogueira e Aldo Rebelo. Manejam os votos do PP e das legendas que integram o bloquinho: PCdoB, PSB, PDT, PRB e PMN.

Esses seis partidos somam 108 votos. Um quarto deputado, Osmar Serraglio (PMDB-PR) entrou na briga, como candidato "avulso", nesta sexta (19).

Para que Ciro, Aldo e Serraglio consigam empurrar a eleição para o segundo round, precisam angariar 258 votos.

Na ponta do lápis, teriam de pescar 150 traidores nas legendas que se acertaram com Temer. De resto, precisariam assegurar a fidelidade de 100% os seus aliados.

Temer se diverte: "Meus adversários falam das traições a que estou sujeito. E não contam com nenhuma traição do lado deles".

Precavidos, os estrategistas de Temer trabalham com uma espécie de "índice de traição". Fixaram-no em 30%.

Aplicando-se o índice ao cesto de votos de Temer (398), chega-se a uma traição potencial de 120 deputados.

Subtraindo-se esse contingente de quintas-colunas dos quadros dos 12 partidos fechados com Temer, ainda sobrariam 278 votos.

Ainda que se confirmasse essa torrente de traições, Temer ainda somaria 21 votos além do mínimo necessário de 257.

Os adversários de Temer enxergam no PT e no DEM os dois maiores ninhos de Judas do candidato favorito.

A bancada do PT soma 80 votos. Ciro Nogueira estima que vai pescar 40 votos na bancada do DEM. Façam-se as contas: 80 + 40 = 120.

Supondo-se que toda a bancada do PT traísse Temer e que Ciro conseguisse atrair a simpatia de quatro dezenas de 'demos', ainda não se chegaria às 142 defecções necessárias para arrancar a vitória de Temer.

Os adversários de Temer vão à disputa pendurados na aposta da traição. O candidato do PMDB vai à eleição com o apoio institucional da maioria dos partidos.

Organizada como um superbloco, a locomotiva de Temer negocia a repartição dos demais cargos da Mesa diretora da Câmara.

Algo que ajuda a amarrar os votos. Por exemplo: na última quinta (18), negociadores do PT fecharam com Temer a participação da legenda na mesa.

Para a vaga de primeiro-vice presidente, indicou-se Marco Maia (PT-RS). Para o posto de terceiro-secretário, Odair Cunha (PT-MG).

Nesse encontro, que contou com a presença do líder do PT, Maurício Rands (PE), o partido de Lula tratou de tranqüilizar Temer. O petismo jura que não vai trair.

Por duas razões: 1) A eleição de Temer interessa a Lula; 2) Ao PT não interessa criar desavenças com o PMDB, espécie de "namoradinha" de 2010.

Três dias antes, Temer estivera com o próprio Lula. Ouviu dele a seguinte frase: "Ô, Temer, não tenha a menor preocupação. O PT inteiro vai votar com você. Interessa para o governo".

Algo que destoa de comentários que lideranças do PSB dizem ter ouvido do presidente, que teria condicionado a fidelidade a Temer ao comportamento do PMDB no Senado.

De resto, a cúpula do DEM assegura a Temer que, na seara 'demo', as traições não passarão de dez. A direção do PSDB conta em três os traidores.

A se confirmar esse quadro, o jogo estaria jogado. Para que a taça seja arrancada da mão de Temer, os partidos teriam de se revelar aglomerados de trapaceiros.

Escrito por Josias de Souza às 04h54

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Aldo lança candidatura e complica a vida de Temer

Adversários de Temer firmam nesta 4ª um pacto de reciprocidade

Sérgio Lima/Folha

Ex-presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) decidiu concorrer de novo ao cargo.

Com a novidade, cresce a hipótese de a disputa ser definida apenas no segundo turno.

Um complicador para Michel Temer (PMDB-SP), tido como candidato favorito.

Para envenenar ainda mais a refrega, os três adversários de Temer firmarão um pacto.

O trato será anunciado às 11h desta quarta (17), na sala da liderança do PSB.

Prevê a reciprocidade entre Aldo, Ciro Nogueira (PP-PI) e Milton Monti (PR-SP).

Quem for ao segundo turno contra Temer terá o apoio automático dos outros dois.

Trafega pelos subterrâneos uma quinta candidatura: a de Osmar Serraglio (PMDB-PR).

Em diálogos privados, Serraglio mostrou-se simpático à idéia do pacto.

Mas não se comprometeu em dar as caras no ato de anúncio formal do acordo.

Nesta terça (16), os oposicionistas PSDB, DEM e PPS aderiram a Michel Temer.

A notícia da entrada de Aldo na briga empanou as comemorações.

Aldo é movido pelo ânimo da revanche. Quer dar o troco no esquema que o derrotou.

Quando presidente, tentou a reeleição. Foi batido por Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Atribui a derrota à parceria PT-PMDB, reproduzida agora em torno de Temer.

Para tornar-se presidente da Câmara, um deputado precisa obter ao menos 257 votos.

Os apoiadores de Aldo estimam que ele terá algo como 100 votos no primeiro turno.

A turma de Ciro Nogueira acha que ele não sai da eleição com menos de 150 votos.

E o pessoal de Milton Monti estima que o PR dará a ele pelo menos 35 votos.

Se a conta estiver certa, os três controlam um cesto de 285 votos.

São 27 além do necessário para empurrar a disputa para o segundo turno.

"Será uma outra eleição", anima-se Ciro Nogueira. "O Michel pode ter menos votos do que terá no primeiro turno".

Os rivais de Temer tratam as três candidaturas alternativas como se fosse uma.

"É a chapa ACM -Aldo, Ciro e Monti", brinca Márcio França (SP), líder do PSB. Ele acrescenta:

"Nós, do bloquinho [PSB, PCdoB, PDT, PRB e PMN], éramos os franco derrotados contra o franco favorito. Agora, junto com os outros candidatos, entramos no jogo..."

"...Na prática, formou-se um blocão, que inclui a gente [Aldo], o PP [de Ciro Nogueira] e o PR [de Milton Monti]". 

No final de semana, Temer parecia convencido de que Aldo não comprometeria o prestígio que granjeou como presidente da Câmara nessa disputa.

Temer fazia duas contas. Na pessimista, estimava que teria 278 votos.

Na outra soma, mais otimista, previa uma eleição folgada: 340 votos.

A natureza secreta do voto injeta na disputa da Câmara uma incômoda fluidez.

Tome-se o exemplo da bancada do DEM. Possui 55 deputados. A cúpula prometeu entregar 40 votos a Temer.

"Se eu tiver menos de 40 votos no DEM, renuncio ao meu mandato", desdenha Ciro Nogueira.

Pela contabilidade dos aliados do candidato do PP, Temer não dispõe de mais de 180 votos.

Seria o bastante para passar ao segundo turno. Mas insuficiente para vencer a eleição.

Escrito por Josias de Souza às 02h04

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Candidata, Dilma não dispensa nem 'jantar musical'

Valter Campanato/ABr

A noite foi animada por uma dupla de músicos gaúchos. A certa altura, Dilma Rousseff encomendou a execução de um tango: El Dia Que Me Quieras.

Estimulada por Lula, Dilma apressa o passo de presidenciável. Tenta abreviar a chegada do dia em que a queiram como candidata à sucessão do chefe.

Antes reclusa, a ministra agora recebe um número crescente de políticos em seu gabinete. Mais: ela vai gostosamente ao encontro deles.

Na noite de quarta (10), a sisuda Dilma desfilou sorrisos num jantar. Foi organizado com o propósito de prestigiar Tião Viana (AC), candidato do PT ao comando do Senado.

Deu-se no Lago Norte, bairro chique de Brasília, na casa de um assessor petista do Senado, o gaúcho José Pinto.

Dilma viu e foi vista por cerca de 25 senadores do consórcio governista. Entre eles um generoso Eduardo Suplicy (PT-SP).

Passos mansos, Suplicy aproximou-se dos músicos. Apoderou-se do microfone. E, súbito, pôs-se a cantar.

Entoou o clássico de Bob Dylan: 'Blowin' in the Wind. Uma peça que costuma despejar sobre platéias as mais variadas -de participantes de uma assembléia no Iraque a estudantes beneficados com o Prouni.

Antes de soltar a voz, Suplicy pespegou: "Dedico essa música à futura presidente do Brasil". O riso de Dilma, que já fluía com naturalidade, jorrou-lhe em catadupas.

Ao lado da ministra-candidata, um senador festejou: "Pelo menos o risco de uma prévia no PT já está afastado".

Suplicy soou mais afinado do que o "cantor" que assomou ao palco depois dele: o ministro José Múcio, coordenador político de Lula.

Múcio enfiou tímpanos abaixo um "pout-pourri" de Roberto e Erasmo Carlos. Incluiu "Amigo". Começa assim: "Você meu amigo de fé, meu irmão camarada..."

A presença do ministro num jantar dedicado a Tião Viana causara certa surpresa. À boca pequena, diz-se que Múcio torce o nariz para o senador petista.

"Agora quero ver se alguém se anima a dizer que não estou com você", disse Múcio a Tião. O ministro não era a única presença inusitada.

Foram ao jantar cinco senadores do PMDB: Garibaldi Alves (RN), Valdir Raupp (RO), Romero Jucá (RR), José Maranhão (PB) e Leomar Quintanilha (TO).

Exceto por Jucá, fechado com Tião, os demais defenderam, em reunião da bancada do PMDB realizada na semana passada, o lançamento de um candidato do partido.

Sentado na mesa de Tião, Garibaldi disse: "O Sarney está doido para ser [presidente do Senado]. Mas ele só quer se for ungido".

Depois, acrescentou: "Se a legislação me amparasse, eu também poderia ser". Entre risos, Tião Viana atalhou a prosa de Garibaldi: "Não pode".

Referia-se ao veto à reeleição de presidentes do Senado em meio de legislatura. A recondução ao cargo só é permitida na virada de uma legislatura para outra.

Para sorte de Dilma, também Lula convive com limitações de ordem legal. A Constituição proíbe a re-reeleição.

Daí o desejo do presidente de converter a ministra em continuadora de sua obra. Um projeto que faz surgir em Brasília uma nova Dilma.

Nesta sexta (12), a preferida de Lula volta a se vestir de presidenciável. Ela vai discursar na abertura de um encontro de prefeitos do PT.

Dilmar está no ar. Quer ver e ser vista. Sonha com o dia em que a queiram. A julgar pelo último Datafolha, faltam-lhe, por ora, votos. Mas pelo menos de uma prévia com Suplicy a ministra já se livrou.

Escrito por Josias de Souza às 05h07

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Governo anuncia pacote para estimular o consumo

Samir Baptista

Lula decidiu dar à classe média um presente de Natal. O governo deve anunciar nesta quinta (11) um pacote de redução de impostos.

As medidas recebiam os retoques finais na noite desta quarta (10). Visam aquecer o consumo, para atenuar os efeitos da crise.

O governo tenta evitar que a economia decresça demasiadamente no ano de 2009. Eis algumas das providências que devem ser anunciadas:

- Imposto de Renda das Pessoas Físicas: Hoje, vigoram duas alíquotas de IR: 27,5% e 15%. Devem ser criadas mais duas faixas.

Na manhã desta quinta, Lula baterá o matelo em relação aos percentuais. Pelas informações disponíveis, uma das novas alíquotas será de algo como 10%.

A outra deve ser fixada num percentual entre 22% e 25,5%. Essas novas faixas figorariam a partir do exercício fiscal de 2009.

- IPI de automóveis: O valor do Imposto sobre Produtos Industrializados varia conforme o modelo do carro. Hoje, as alíquotas vão de 7% (veículos populares) a 25% (de luxo).

O governo deve reduzir essas alíquotas. Coisa temporária, concebida para socorrer um dos setores mais afetados pela crise.

Em novembro, a venda de automóveis despencou 26%. Queda atribuída sobretudo à escassez de crédito ao consumidor.

Nesta quarta (10), em reunião com o ministro Guido Mantega (Fazenda), representantes das principais centrais sindicais fizeram um pedido.

Quem que o governo exija das empresas socorridas a contrapartida da preservação do emprego.

A Fazenda analisava na noite passada a hipótese de condicionar o benefício proporcionado pela redução de IPI de carros à manutenção da folha de salários.

- IOF: O Imposto sobre Operações Financeiras foi um dos que o governo aumentou em janeiro de 2008, para compensar as perdas que teve com a derrubada da CPMF.

A alíquota subiu de 1,5% para até 3,38%. Agora, submetido à nova realidade imposta pela crise global, o governo deve reduzir o percentual nas operações de crédito ao consumidor.

O objetivo não é senão o de estimular o brasileiro a contrair dívidas para satisfazer as suas pulsões consumistas.

Antes de ser divulgadas ao público, as medidas serão expostas por Lula em reunião com a nata do empresariado nacional.

Conforme já noticiado aqui, o presidente recebe em Brasília, nesta quinta (11), duas dezenas de pesos pesados do PIB.

Lula dirá aos convidados que o governo está fazendo a parte dele. E pedirá aos empresários que abandonem o catrastrofismo, retomando os investimentos.

As novas providências constituem uma parte do "armamento pesado" que Guido Mantega diz estar à disposição do governo para enfrentar a crise.

Se confirmado, o refresco tributário deve render, noves fora o pretendido tônico do consumo, um subproduto político: Lula afagará a classe média, um pedaço da sociedade que se julga preterido pelo governo.

A generosidade terá um preço. Vai custar uma redução na coleta de tributos de 2009. O valor não foi, por ora, divulgado.

Escrito por Josias de Souza às 01h51

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Verba federal para SC continua retida na burocracia

 
 

Verba federal para SC continua retida na burocracia

Neiva Daltrozo/Secom

O excesso de chuva não é o único problema de Santa Catarina. Os flagelados catarinenses enfrentam um outro inimigo, invisível: a burocracia.

Nem o governo do Estado nem as prefeituras dos municípios inundados enviaram a Brasília os papéis necessários à liberação de verbas prometidas por Lula.

Em ofício datado de 26 de novembro, o ministério da Integração Nacional informou às autoridades catatinenses que reservara R$ 40 milhões.

Dinheiro para a assistência emergencial. Que seria acrescido de novas cifras à medida que a tragédia fosse exigindo.

Para pôr a mão no dinheiro, a equipe do governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e os prefeitos catarinenses teriam de enviar a Brasília um lote de documentos.

Até a semana passada, eram 39 os papéis exigidos. Esse número caiu para quatro depois que Lula editou um decreto concebido para tornar mais ágil o processo.

O decreto saiu junto com a medida provisória em que o governo destinou R$ 1,6 bilhão para a assistência às vítimas de enchentes nos Estados do Sul e do Sudeste.

Pois bem, nem mesmo esse lote de quatro documentos chegou às mãos do minsitro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional).

São dois os documentos mais importantes: uma avaliação de danos e um plano de trabalho que deixe claro o que será feito com o dinheiro público.

Nesta quarta (3), Geddel expôs o seu drama à líder do PT no Senado, a catarinense Ideli Sanvatti. Geddel repetiu algo que dissera na véspera ao blog.

Sem o cumprimento das exigências mínimas, está impossibilitado de mandar para Santa Catarina o dinheiro reservado ao socorro dos flagelados.

Nesta sexta (5), haverá em Itajaí e Blumenau, dois dos municípios mais afetados pela enchente, um par de reuniões multisetoriais.

Vão à mesa o governador e prefeitos catarinenses; congressistas; e o ministro Márcio Fortes (Cidades). Ideli vai ao encontro armada para cobrar.

"Entendo a posição do ministro Geddel. É impossível colocar dinheiro público na mão de qualquer pessoa sem ter um detalhamento mínimo de como será aplicado..."

"...Vamos pressionar o governador e os prefeitos. Tem muita gente reclamando. Mas ninguém tem autoridade para reclamar se não cumpre antes a sua obrigação básica".

Nos próximos dias, a inepcia dos gestores públicos vai impor aos flagelados cararinenses um infortúnio adicional.

Lula está na bica de assinar um decreto que facilita às vítimas das enchentes o acesso ao FGTS. Porém...

Porém, esse dinheiro também permanecerá retido até que todo o processo burocrático do ministério da Integração Nacional esteja concluído.

Escrito por Josias de Souza às 03h46

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Dinheiro que Lula prometeu a SC ainda não chegou

James Tavares/Secom
Inspecionada por Lula, Itajaí é um dos municípios que aguardam a verba federal 
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Há uma semana, depois de um sobrevôo de Lula a quatro cidades de Santa Catarina, o governo anunciou a edição de uma medida provisória de R$ 1,6 bilhão.

Dinheiro para socorrer as vítimas de enchentes em Estados do Sul e do Sudeste. A fatia destinada a Santa Catarina soma R$ 679 milhões.

Até o momento, não foi liberado nenhum tostão. Só nesta quarta (3), o ministro Geddel Veira Lima (Integração Nacional) começa a esboçar um cronograma.

"Vou ouvir o relato da Secretaria Nacional de Defesa Civil e começo a liberar efetivamente o dinheiro para Santa Catarina", disse Geddel ao blog.

Nesta terça (2), em aparte a um discurso de Ideli Salvatti (PT-SC), o senador José Agripino Maia (RN), líder do DEM, cutucou o governo.

Lembrou que o governo anunciara a liberação de R$ 90 milhões para Estados do Nordeste infelicitados por enchentes em abril de 2008.

"No Rio Grande do Norte, até agora, o dinheiro não chegou", disse Agripino a Ideli. "Conte com o nosso apoio para pressionar pela liberação da verba de Santa Cararina".

Na conversa com o repórter, Geddel admitiu que o dinheiro destinado aos flagelados das cheias nordestinas, de fato, ainda não chegou ao seu destino.

"O dinheiro está empenhado. O problema é que os Estados, o Rio Grande do Norte inclusive, não cumpriram as exigências previstas em lei..."

"...O Agripino ajudaria se mudasse a lei. A burocracia é excessiva? Eu diria que sim. Mas não fui eu que criei. O que não posso é agir fora da lei".

Geddel assegura disse que a coisa agora será diferente. Na semana passada, junto com a MP de R$ 1,6 bilhão, Lula assinou um decreto.

Segundo o ministro, esse decreto torna mais ágil o processo de liberação de verbas emergenciais. Reduziu-se a burocracia à apresentação de um único documento.

Chama-se Avadan (Avaliação de danos). Confirmados os prejuízos, o ministro pode liberar o dinheiro imediatamente.

"Para Santa Catarina, ninguém tem dúvidas de que o dinheiro será necessário. E nós vamos começar a liberar. O mesmo vale para a cidade de Campos, no Rio de Janeiro".

Porém, nem todo o dinheiro previsto na medida provisória de Lula está submetido a esse rito de liberação sumária.

A cifra anotada na MP (R$ 1,6 bilhão) foi alocada em quatro ministérios. A maior parte foi para a pasta de Geddel: R$ 720 milhões.

Desse total, apenas uma terça parte -cerca de R$ 240 milhões- destina-se às despesas ditas emergenciais.

Coisas como a reconstrução de casas, a realocação de famílias e gastos com a contratação de máquinas para a remoção de lama e entulho.

Todo o resto do dinheiro -algo como R$ 480 milhões- será submetido à burocracia tradicional.

Metade vai para a aquisição de cestas básicas, lençóis, colchões, barracas, remédios, etc. Compras que dependem da realização de pregões eletrônicos.

A outra metade será investida na prevenção de tragédias. O que exige a celebração de convênios da União com Estados e municípios.

"Esses convênios seguem os trâmites normais", diz Geddel. "Exige-se a apresentação de uma série de documentos". Em muitos casos, é encrenca para mais de um ano.

"As pessoas dizem que há muita demora. Esquecem que a necessidade de combater a corrupção impôs uma burocracia à liberação de dinheiro público..."

"...É muito documento. É muita exigência. Mas está na lei. E eu, como ministro, não posso e não vou desrespeitar a lei".

Nesta terça (2), Geddel participou, junto com Lula, de uma reunião com governadores do Nordeste. Deu-se no Recife (PE).

O ministro aproveitou para informar a alguns deles que, escorado no decreto assinado por Lula na semana passada, vai liberar agora as verbas da enchente nordestina de abril.

Pelo celular, Geddel foi alcançado pelos governadores Luiz Henrique (Santa Catariana) e Sérgio Cabral (Rio). Ambos pediram pressa.

Ouvida a Secretaria Nacional de Defesa Civil, nesta quarta (3), Geddel diz que vai "começar a soltar o dinheiro" reservado para os gastos emergenciais das enchentes atuais.

Escrito por Josias de Souza às 02h59

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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