Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Kroll espiona jornalistas a mando do Opportunity

Kroll espiona jornalistas a mando do Opportunity

Cabeçalho do relatório confidencial da Kroll

 

A pedido do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, a empresa Kroll, multinacional do ramo da espionagem, bisbilhotou o cotidiano de vários jornalistas durante o ano de 2004. Os alvos da investigação foram repórteres e jornais que apuraram e publicaram informações contrárias aos interesses comerciais de Dantas.

 

O blog obteve cópia de dois dos relatórios produzidos pela Kroll. Compõem um dossiê guardado nos arquivos do Opportunity. Foram lidos pessoalmente por Dantas e pela executiva Carla Cico, destituída recentemente do comando da Brasil Telecom.

 

Os documentos foram redigidos em inglês. Um deles tem o seguinte título: “Manipulação da Imprensa no Brasil pela Telecom Itália”. O texto aponta a existência de uma suposta “campanha” da mídia para denegrir a imagem de Dantas, da Brasil Telecom e do Banco Opportunity.

 

No relatório, a Kroll acusa Nelson Tanure, controlador do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, de ser “um dos autores” da campanha. Anota que o empresário, que hoje tenta assumir também o comando da Varig, agiu por encomenda da Telecom Itália, grupo que se esforçava para minar o controle que Dantas exercia na Brasil Telecom.

 

Segundo a Kroll, valendo-se de seu “grupo de mídia” e de “uma rede de jornalistas e outros contatos”, Tanure promoveu, a partir de 2001, a publicação contínua de reportagens com o objetivo de prejudicar a imagem do Opportunity e do banqueiro Daniel Dantas.

 

Além de Tanure, diz o documento, a estratégia encomendada pela Telecom Itália envolveria “outras pessoas”. O texto menciona os nomes do empresário Paulo Marinho, ligado a Tanure, e de Luis Roberto Demarco, um ex-sócio de Daniel Dantas no Opportunity, com o qual o banqueiro trava uma batalha judicial.

 

Com o “suporte de elementos do establishment brasileiro”, diz o relatório, a “campanha de imprensa” visava produzir um escândalo de corrupção contra Dantas e seu grupo. Seria “o último de uma série de esforços” da Telecom Itália para destituir o banqueiro do controle acionário da Brasil Telecom.

 

Em troca dos supostos ataques deliberados a Dantas e ao Opportunity, o Jornal do Brasil, uma das publicações geridas por Nelson Tanure, teria recebido da TIM, empresa de telefonia celular controlada pela Telecom Itália, vários aportes financeiros na forma de anúncios publicitários. Entre agosto e dezembro de 2002, diz o relatório, a Tim teria despejado no JB R$ 1,2 milhão em anúncios. Em 2003, o jornal teria recebido mais R$ 1,18 milhão. E, entre janeiro e março de 2004, mais R$ 964,4 mil.

 

Citando dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), a Kroll insinua que os investimentos publicitários da Tim no Jornal do Brasil seriam incompatíveis com a tiragem da publicação. O JB “publica uma média de 100 mil exemplares aos domingos e cerca de 70 mil em dias de semana”, diz o documento. “Vários executivos de publicidade disseram à Kroll que certos pagamentos publicitários feitos pela Tim (...) podem não ser justificáveis pela circulação do jornal”, anota o documento confidencial.

Escrito por Josias de Souza às 00h52

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Relatório diz que Tanure inspeciona reportagens

Relatório diz que Tanure inspeciona reportagens

No esforço para mapear os movimento de Nelson Tanure, a Kroll contou com o auxílio de funcionários do próprio Jornal do Brasil, uma das publicações controladas pelo empresário. Citando fontes anônimas do JB, o relatório da multinacional diz que Tanure requisitava pessoalmente a elaboração de reportagens contra Daniel Dantas e o Banco Opportunity. Depois, lia e autorizava as publicações.

 

“O repórter responsável por esses artigos é Gilberto Menezes Cortes”, diz o texto, “que age sob instruções explícitas de Tanure.” Outro jornalista “especializado em artigos anti-Opportunity é o colunista Ricardo Boechat, que foi admitido por Tanure em 17 de julho de 2001, depois de ser demitido pelo Globo (...)”.

 

Ouvido pelo blog, Tanure disse, por meio de sua assessoria, que nem sequer comparece à redação do Jornal do Brasil. Boechat classificou o relatório da Kroll de “uma bobagem monumental”. O repórter Menezes Cortes, colaborador eventual do JB, não foi localizado (leia texto abaixo).

 

Nos artigos e editorias do Jornal do Brasil, prossegue o relatório da Kroll, Daniel “Dantas é freqüentemente associado a adjetivos relacionados ao demônio”. O documento menciona um texto supostamente publicado em 20 de agosto de 200, sob o título “Dantas e seu inferno na Terra.” Pela contabilidade da Kroll, o JB publicou 38 textos sobre o banqueiro do Opportunity em 2002. Só um continha uma “visão positiva”.

 

Em 2003, teriam sido publicadas 30 “artigos”, todos contendo, segundo o documento, a mensagem de que Dantas seria “inescrupuloso”. O mesmo teria ocorrido com 18 textos impressos entre janeiro e maio de 2004. A cobertura da Gazeta Mercantil, avalia a Kroll, teria sido mais “equilibrada”.

 

Num segundo relatório confidencial obtido pelo blog, a Kroll faz pesadas acusações a um veículo de comunicação da internet. É gerido por uma pessoa que, segundo o relatório responde a processo judicial. Além disso, teria tentado vender para jornais brasileiros uma versão do chamado “Dossiê Caiman”, documento comprovadamente falso com acusações ao alto tucanato.

 

O mesmo personagem teria veiculado também informações sobre supostos vínculos empresariais da filha de um político do PSDB com o grupo Opportunity. Como não conseguiu ouvir o espionado, o signatário do blog se exime de citar-lhe o nome.

Escrito por Josias de Souza às 00h50

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Citados refutam acusações da Kroll

Citados refutam acusações da Kroll

O empresário Nelson Tanure disse ao blog, por meio de sua assessoria, que os investimentos publicitários da empresa de telefonia celular Tim no Jornal do Brasil são absolutamente normais. Classificou de “ridículas” e “improcedentes” as afirmações da Kroll de que ele fiscalizaria a execução das reportagens do jornalista Gilberto Menezes Côrtes, colaborador do jornal, sobre o Opportunity. Disse que nem mesmo comparece à redação.

 

Cortes Menezes, em mensagem eletrônica enviada ao blog, classificou o documento preparado pela Kroll de “um dossiê típico de arapongas”. A diferença entre os agentes da multinacional e os do extinto SNI, diz ele, é que os primeiros “são regiamente pagos em dólar.”

 

Quanto ao método de trabalho, diz ainda Menezes Côrtes, “é o mesmo: reúnem recortes de jornais e tentam construir uma história.” O repórter informa que vai “exigir da Kroll e do Opportunity uma retificação do que foi divulgado.” Caso não seja atendido, tomará as “medidas legais” para buscar reparação pelas “acusações mentirosas e desprovidas de qualquer fundamento.”

 

“Jamais em 33 anos de profissão recebi instruções de um dono de jornal de como deveria proceder em matérias que fiz. Quando muito, os editores (e foram vários e importantes em minha carreira) conversavam comigo dando boas dicas e discutindo a edição da matéria, mas a responsabilidade, na maioria dos casos, era minha”, afirma Menezes Côrtes. “Não seria, portanto, o senhor Nelson Tanure quem iria me orientar direta ou indiretamente sobre minhas matérias.”

 

Ricardo Boechat, o outro jornalista mencionado no relatório, hoje já desvinculado do JB, disse o seguinte: “Não sou especialista em grampos e espionagens. Se a Kroll está afirmando essas coisas, quem pagou para ela fazer isso é que deve explicar em que medida vê fundamento.”

 

“O que posso dizer”, acrescentou Boechat, “é que todas as notas que eu publiquei, em relação aos muitos conflitos nos quais o Opportunity ou o Daniel Dantas eram protagonistas, foram notas factuais. Quem tiver qualquer dúvida é só pegar os arquivos e verificar o que está lá.”

 

“Muitas dessas notas”, disse ainda Boechat, “constituíram-se em furos, com informações inéditas, que tiveram grande repercussão. Uma delas antecipou o rompimento do Citibank com o Opportunity. Assumi a chefia de redação do JB em 7 de setembro de 2001. Saí em outubro de 2002. Posso afirmar categoricamente que meus últimos contatos telefônicos com o Tanure se esgotam entre o fim de 2002 e a alvorada de 2003. Desde então não tenho nenhum contato com ele.”

Escrito por Josias de Souza às 00h47

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Folha revelou espionagem da Kroll em 2004

Folha revelou espionagem da Kroll em 2004

O relatório da Kroll sobre Nelson Tanure e o jornalistas do Jornal do Brasil tem cinco páginas. É datado de 24 de setembro de 2004. Endereçado a Carla Cico, executiva do Oportunity que geria a Brasil Telecom, o documento foi redigido dois meses depois de a Folha de S.Paulo ter publicado, em 22 de julho de 2004, uma reportagem de Marcio Aith sobre outra operação de espionagem conduzida pela Kroll.

 

A notícia produzida por Aith relatou que a Kroll bisbilhotara os passos, as mensagens e as contas de funcionários do primeiro escalão do governo Lula. Baseada em documentos sigilosos, a reportagem revelou que a investigação, encomendada por Carla Cico, atingiu personagens do governo Lula e de administrações municipais controladas pelo PT.

 

Informou-se que a Kroll obteve mensagens eletrônicas do então ministro Luiz Gushiken, eleito em 2004 como alvo de "máxima prioridade" da operação de espionagem. Nesses e-mails, anteriores à posse do governo Lula, Gushiken trocou informações com Luiz Roberto Demarco, ex-sócio e desafeto de Daniel Dantas no Opportunity.

 

A reportagem de Aith informou também que a Kroll obteve dados pessoais e monitorou encontro secreto, em Portugal, do então presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, com executivos da Telecom Italia.

 

“O monitoramento de Gushiken e de Casseb pela Kroll”, informou a notícia publicada na Folha, “deve-se ao fato de ambos terem formulado a orientação, já sob o governo Lula, para que os cinco fundos de pensão de estatais que são acionistas da Brasil Telecom (Sistel, Telos, Funcef, Petros e Previ) desfizessem, em outubro de 2003, os acordos de acionistas que permitem ao Opportunity controlar a companhia mesmo sendo Dantas apenas um sócio minoritário.”

 

Em decisão do último dia 21 de novembro, a juíza federal Margarete Sacristan censurou a divulgação, na Folha Online, do conteúdo da reportagem de 2004. Posteriormente, a juíza abrandou a sentença, limitando a censura aos conteúdos de interceptações telefônicas e de e-mails, além de dados bancários e fiscais contidos em processo judicial aberto depois da publicação da notícia.

 

O blog apurou que, além do relatório divulgado aqui nesta quarta-feira, foram produzidos outros documentos confidenciais com relatos sobre a atuação de jornalistas. Mencionam os nomes de profissionais de outros órgãos de imprensa, além do Jornal do Brasil. O repórter não logrou obter cópias desses relatórios.

Escrito por Josias de Souza às 00h45

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Incra acusa autoridades de grilagem

Incra acusa autoridades de grilagem

O Incra está promovendo uma cruzada para tentar reaver terras da União ocupadas ilegalmente na região Norte do país. Na última sexta-feira, foi protocolada na Justiça Federal do Amapá uma ação para retomar terras supostamente griladas por Jorge Emanuel Amanajás Cardoso. Ele é deputado estadual do PSDB. Preside a Assembléia Legislativa do Amapá.

 

Nas próximas semanas, o Incra vai ajuizar novas ações. Relatório reservado de 231 páginas aponta como supostos ocupantes irregulares de nacos de terra da União um outro deputado estadual, Elder Pena (PDT-AP); um deputado federal, Gervásio Oliveira (PMDB-AP); um procurador de Justiça aposentado, Hernandes Lopes Pereira; e um juiz de direito, César Augusto Scapin.

 

O blog obteve cópia da ação movida contra o presidente da Assembléia Legislativa do Amapá. Os planos do Incra em relação aos demais personagens foram confirmados pela superintendente do instituto no Amapá, Maria Cristina do Rosário Almeida.

 

Os acusados de grilagem de terras contestam as informações do governo. Alegam ter comprado as propriedades, em transações registradas em cartório. Transações que, para o Incra, são "irregulares" e foram feitas graças à conivência de funcionários da repartição. A direção do Incra em Brasília deslocou para o Amapá um procurador especialmente destacado para cuidar do caso. Chama-se Nezio Néri de Andrade.

 

A operação no Amapá repete procedimentos adotados nos Estados do Pará e Rondônia, onde políticos e empresários também estão sendo acusados de grilagem. As investigações vêm sendo conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.

 

O problema de grilagem de terras públicas na região Norte é antigo. Ali, o governo é o maior proprietário de terras. Só no Amapá, a União detém 34,5% das território do Estado. De acordo com os arquivos do Incra, as terras públicas amapaenses estão divididas assim: 14% para assentamentos de trabalhadores sem-terra; 8% em poder de posseiros cujos títulos de propriedade encontram-se em fase de regularização; 3% em áreas de quilombos; e 9,5% em “terras a destinar”.

 

As “terras a destinar” esparramam-se por 1,359 milhão de hectares. São propriedades que deveriam estar desocupadas, para uso no projeto de reforma agrária. Mas não estão. O governo briga para reavê-las. Tenta desocupar também propriedades adquiridas irregularmente de posseiros que, pela lei, estavam proibidos de vender fazendas ainda em fase de regularização.

 

Os deputados estaduais Jorge Amanajás e Elder Pena teriam dividido entre si a Fazenda Lagoa Azul, reclamada agora pelo Incra. A propriedade mede cerca de 5 mil hectares. É utilizada para extração de madeira e plantio de soja.

 

O deputado federal Gervásio Oliveira, o procurador Lopes Pereira e juiz Scapin controlariam, segundo o Incra, terras localizadas numa área que havia sido adquirida ilegalmente pela Amcel (Amapá Celulose), braço da multinacional norte-americana International Paper. Acionada, a empresa devolveu as terras ao governo. Descobriu-se, porém, que há na área outros “intrusos”, que o Incra briga para desalojar.

Escrito por Josias de Souza às 01h53

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Serra fecha acordo com PFL para 2006

Serra fecha acordo com PFL para 2006

O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), fechou uma aliança com o PFL para concorrer à presidência da República em 2006. O acerto foi viabilizado há uma semana, em almoço de Serra com o prefeito do Rio, César Maia. Presidenciável oficial do PFL, Maia disse que abrirá mão de sua postulação em favor do tucano.

 

Em entrevista ao blog, César Maia revelou que já comunicou a decisão à cúpula do seu partido. “A sensação do PFL é a de que o Serra é um candidato fortíssimo. Eu já disse oficialmente ao partido: não seria candidato contra o Serra em hipótese nenhuma”, afirmou o prefeito do Rio. A afinidade entre os dois é antiga. Conheceram-se nos tempos de exílio no Chile, na década de 60.

 

Em público, Serra faz mistério quanto às suas pretensões presidenciais. Na conversa que teve com Maia, porém, disse estar seguro de que o PSDB o escolherá como candidato oficial à Presidência, em detrimento dos governadores Geraldo Alckmin (São Paulo) e Aécio Neves (Minas), os outros dois tucanos que postulam o direito de disputar a sucessão de Lula.

 

Para César Maia, as chances de vitória com Serra são bem maiores do que com Alckmin. “Acho que a candidatura do Alckmin é muito frágil. Ele não participou de nenhuma campanha pesada. Não foi testado na sua capacidade de resistência.”

 

“A próxima campanha vai ser violenta”, prevê César Maia. “O PT não vai deixar passar isso. Vai bater forte, vai buscar tudo o que tem e o que não tem. O PSDB saiu salpicado nessas CPIs. Foi salpicado com o (Eduardo) Azeredo, vai ser salpicado nos fundos de pensão e ele vai apanhar muito. Uma coisa é um quadro testado como o Serra, que já foi candidato a presidente, candidato a prefeito de São Paulo, outra coisa é o Alckmin.”

 

Na opinião de César Maia, “Serra tem a pele mais grossa.” O mesmo raciocínio não se aplicaria ao atual governador de São Paulo. “Não sei qual é a textura da pele do Alckmin. Não gostaria de correr esse risco. Receio que ele apanhe na campanha eleitoral e não resista.” Quanto a Aécio, Maia avalia que pode disputar a presidência em eleições futuras.

 

O assédio do tucanato a César Maia é intenso. Além de Serra, estiveram com o prefeito do Rio nos últimos dias o próprio Alckmin e Aécio. A romaria é justificável. Integrantes da cúpula do PFL, entre eles os senadores Jorge Bornhausen, presidente da legenda, e o senador Antonio Carlos Magalhães, condicionam o fechamento da aliança com o PSDB à desistência da candidatura presidencial do prefeito, lançada formalmente no ano passado.

 

Ao informar à direção do PFL que abrirá de sua postulação em favor de Serra, César Maia deixou claro que não fará o mesmo se o candidato do PSDB for Alckmin. Acha que, num embate com o governador paulista, tem chances de chegar à frente.

 

“Se o Alckmin for o candidato, o PFL fica mais assanhado. Eu tenho tido em pesquisas em torno de 5%, o Alckimin tem 13%. De cinco para treze a diferença não é grande. Se você tirar São Paulo dele e tirar o Rio de mim, ele tem cinco pontos e eu tenho quatro. Estamos empatados fora de São Paulo e fora do Rio. Com a candidatura do Serra o PFL caminharia para se somar. O Serra era há algum tempo personagem difícil no PFL. Hoje não é mais.”

Escrito por Josias de Souza às 20h01

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Lula apóia Mercadante na sucessão de Alckmin

Lula apóia Mercadante na sucessão de Alckmin

Lula confidenciou a um auxiliar e a um dirigente do PT que o seu candidato ao governo de São Paulo será o petista Aloisio Mercadante, líder do governo no Senado. Pesquisas internas do PT indicam que ele é hoje o candidato mais competitivo da legenda no Estado. O presidente planeja anunciar publicamente a sua opção no início do próximo ano. Não quer melindrar a ex-prefeita Marta Suplicy, também pré-candidata do PT à sucessão do governador Geraldo Alckmin (SP).

 

Em almoço realizado ontem no Planalto Lula pediu ao generalato petista que evite a realização de prévias para a escolha do candidato em São Paulo. Quer que o nome de Mercadante seja viabilizado por consenso. O mecanismo das prévias está previsto no estatuto do PT. Marta defende a sua realização. Mercadante prefere evitar.

 

Entre os petistas que dividiram a mesa de almoço com Lula estavam o próprio Mercadante; os deputados Ricardo Berzoini (SP), presidente da legenda, e Arlindo Chinaglia (SP), líder do governo na Câmara; e Paulo Frateschi, presidente do PT em São Paulo. Comprometeram-se a tentar um consenso que evite as prévias.

 

Ao argumentar contra as prévias, Lula citou o exemplo do Rio Grande do Sul. Em 2002, Olívio Dutra e Tarso Genro travaram renhida disputa pelo direito de disputar o governo gaúcho pelo PT. Sem acordo, foram às prévias. Genro venceu. Mas o partido foi às urnas dividido. E cedeu a Germano Rigoto, do PMDB, uma vitória que todos davam como certa. “Não podemos correr esse risco em São Paulo”, disse.

 

Candidato não-declarado à reeleição, Lula atribui grande importância a São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Quer que o PT apresente um candidato com chances reais de vitória. Enxerga em Mercadante “um bom puxador de votos”. Foi eleito para o Senado com 10,5 milhões de votos.

 

Ouvido pelo blog, Mercadante não quis se manifestar sobre a preferência eleitoral de Lula. “Sobre isso eu não falo”. Falou só sobre as présvias: “O presidente gostaria que chegássemos a um candidato por consenso, sem prévias. Ele argumenta que, muitas vezes, as paixões da disputa deixam fissuras que sacrificam a unidade partidária. Eu concordo com ele.”

 

“A prévia”, acrescentou Mercadante, “é um direito previsto no estatuto do PT. Mas avalio que, no momento que nós atravessamos, se construíssemos uma candidatura de unidade poderíamos contribuir mais para a vitória. Por isso acho que o presidente tem razão.”

 

Segundo Mercadante, o assunto começará a ser debatido neste final de semana, num encontro estadual do PT. Cerca de mil delegados de todo o Estado se reunirão no Sindicato dos Bancários, na capital. Passarão o sábado e o domingo debatendo conjuntura política e as questões relacionadas à disputa pelo governo do Estado, incluindo a forma de escolha do nome do candidato.

 

Além de Mercadante e Marta, o PT tinha um terceiro pretendente à sucessão de Alckmin: João Paulo Cunha. Foi engolfado, porém, pela crise do mensalão. Está mais preocupado agora em explicar o que fez com os R$ 50 mil que admite ter sacado das contas de Marcos Valério, para tentar escapar da cassação na Câmara.

Escrito por Josias de Souza às 19h35

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Descoberta movimentação de US$ 1,1 bilhão em dinheiro sujo brasileiro num banco dos EUA

Descoberta movimentação de US$ 1,1 bilhão em dinheiro sujo brasileiro num banco dos EUA

O escândalo do Banestado produziu um filhote. Investigações conjuntas do Ministério Público brasileiro e da promotoria dos EUA detectaram uma movimentação de recursos ilegais provenientes do Brasil de mais de US$ 1,1 bilhão. Transitaram por contas abertas por doleiros numa instituição chamada Merchants Bank. Funciona no número 275 da elegante Avenida Madison, em Manhattan, Nova York.

 

No momento, o Ministério Público tenta impedir o movimento de valores ainda depositados nas contas. Uma parte já foi retida pela Justiça dos EUA. Entre verbas já bloqueadas e importâncias por bloquear, autoridades brasileiras esperam pôr a mão em pelo menos US$ 30 milhões. Há uma semana, deram entrada na Justiça Federal do Paraná petições em que são oferecidas denúncias contra 17 brasileiros envolvidos no novo escândalo.

 

A conexão Merchants Bank foi detectada a partir das investigações em torno do Banestado. Com o auxílio da Polícia Federal e de autoridades norte-americanas, a Força Tarefa do Ministério Público que se dedica ao caso descobriu que doleiros brasileiros direcionaram os seus negócios para o novo banco depois que os EUA decretaram, em março de 99, o fim das atividades da sucursal do Banestado em Nova York.

 

Abriram-se no Merchants Bank duas contas. Chamam-se Braza e Best. Foram inauguradas respectivamente em 99 e 2002. Vinculam-se a outras cinco subcontas: Activel, Wipper, Taos, Durant e Watson. Juntas, movimentaram mais de US$ 1,1 bilhão. O dinheiro transitou por empresas sediadas nos EUA, Caribe, Uruguai, Brasil e Europa.

 

Só nas contas Braza e Best há um saldo de US$ 3,6 milhões. Foram bloqueados pela Justiça americana, que reivindica o “perdimento” dos valores em favor do Tesouro dos EUA. Por meio das ações abertas no Brasil, o Ministério Público tenta reverter os valores em favor do governo brasileiro.

 

O braço brasileiro da investigação teve o seu trabalho facilitado por apurações conduzidas nos EUA. O governo norte-americano começou a varejar o conduto de dinheiro sujo do Merchants Bank a partir de operação realizada em janeiro de 99 pelo DEA, o departamento norte-americano de investigação de crimes de tráfico de drogas.

 

Entre 2003 e 2004 recolheram-se documentos que agora embasam a apuração brasileira. Os papéis vieram para o Brasil graças a um tratado chamado MLAT (Mutual Legal Assistance Treaty). Prevê o intercâmbio de dados entre os governos brasileiro e norte-americano. A cooperação foi feita sob a chancela da Secretaria Nacional de Justiça, órgão da pasta chefiado por Márcio Thomaz Bastos (Justiça).

 

O conteúdo dos papéis é tonificado por depoimentos prestados pela gerente das contas nos EUA. Chama-se Maria Carolina Nolasco. É uma portuguesa naturalizada norte-americana. Concordou em colaborar com as investigações graças à legislação norte-americana de delação premiada.

  

O blog teve acesso aos autos. Mencionam nomes de doleiros, empresários e correntistas usados como “laranjas”. Muitos têm residência em São Paulo. O repórter deixa de mencionar os nomes porque não conseguiu ouvi-los. Informada, a Receita Federal conduz auditorias para cobrar dos responsáveis impostos sonegados no Brasil.

Escrito por Josias de Souza às 23h16

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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