Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Reportagens

Loucademia de encrencas

Loucademia de encrencas

Ao contrário do que sua razão social faz supor, a Academia de Tênis de Brasília tornou-se um estabelecimento comercial em cuja estrutura as quadras do esporte que deu projeção a Gustavo Küerten têm relevância marginal. Quem a conhece sabe que a “academia” tornou-se um misto de tudo com qualquer coisa.

 

Abriga uma mega-casa de espetáculos, a maior de Brasília; arrenda restaurantes que oferecem pastos para todos os gostos –do chinês ao italiano-; administra um conjunto de cinemas; e gere um complexo de hotelaria que hospeda um sem-número de congressistas de todas as tendências ideológicas.

 

A família proprietária dessa miscelânea empresarial é uma das mais influentes da Capital da República. Atende pelo sobrenome Farani. Mercê do seu prestígio, logrou acomodar os seus negócios à sombra dos generosos guarda-chuvas da filantropia. Em português claro: era isenta do pagamento de tributos, embora jamais tivesse se notabilizado por sua vocação para a caridade.

 

Em visita aos livros contábeis dos Farani, a Receita Federal desencavou uma dívida tributária que alça à casa dos R$ 7 milhões. O débito, referente ao período de 92 a 95, encontra-se pendurado no Refis.

 

Rola há anos na Justiça Federal um processo em que a Academia de Tênis tenta contestar o débito. Pois nesta quinta-feira, o TRF de Brasília impôs aos Farani uma decisão acerba. Acatando parcialmente um parecer elaborado pelo Ministério Público, o tribunal apimentou penas que haviam sido impostas em decisão de primeira instância a José Farani, o patriarca da família.

 

Farani fora condenado por sonegação fiscal a dois anos e 11 meses de cadeia. Mas a cana havia sido adocicada, transformando-se em prestação de serviços à comunidade e doação de cestas básicas. Ainda inconformado, o réu recorreu ao TRF.

 

Discute daqui, argumenta dali, a nova sentença do tribunal tonificou a pena de Farani para quatro anos e um mês de prisão, mais multa de R$ 116 mil. Ajustaram-se também as penas de Flávio Rocha, responsável pela escrituração dos livros do estabelecimento, e de Nilson Vitorino, fornecedor de notas frias.

 

A decisão ainda comporta recurso. Leia no sítio do Ministério Público um texto que resume o despacho do Judiciário.

Escrito por Josias de Souza às 01h35

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Azeredo está pela bola sete no PSDB

Azeredo está pela bola sete no PSDB

De Brasília, o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ) falava pelo celular com o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que se encontrava Belo Horizonte. A certa altura da conversa, Paes disse: “Agora que o senhor está saindo da presidência do partido...” Azeredo não deixou que o colega terminasse a frase. Atalhou-o: “Não estou saindo não”.

 

Ao ouvirem de Paes um relato sobre o diálogo, líderes tucanos foram tomados de desalento. A operação para apear Azeredo do posto de presidente nacional do PSDB, montada nesta segunda-feira, será mais custosa do que imaginavam os seus mentores. Azeredo pode resistir. Mas seu destino está traçado.

 

A cúpula do PSDB decidiu que continuará fazendo o que estiver ao seu alcance para poupar o ex-governador de Minas nas investigações das CPIs dos Correios e do Mensalão. Mas não ele conseguirá conservar o posto de presidente do PSDB. Terá de entregá-lo ao senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).

 

Ao desembarcar nesta quarta-feira em Brasília, Azeredo será envolvido por uma atmosfera envenenada. Já não conta nem com o apoio do prefeito José Serra (SP), a cujo grupo pertence. De olho numa provável candidatura à presidência da República em 2006, Serra enxerga na troca emergencial do comando partidário uma oportunidade para aparar em definitivo as arestas que ainda o separam de Tasso Jereissati.

 

Ouvido por telefone, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também deu o seu aval às articulações para a troca de Azeredo por Tasso. Para não impor um desgaste ainda maior a Azeredo, o PSDB não fará nenhuma reunião formal. Mas o senador mineiro será claramente intimado a desocupar a presidência da legenda.

 

Nos contatos telefônicos que manteve com Brasília nesta segunda-feira, Azeredo tentou tranqüilizar o tucanato. Disse ter obtido do ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, seu amigo pessoal, o compromisso de manter uma conversa com Lula.

 

Segundo Azeredo, Walfrido, que foi seu vice no tempo em que governou Minas, obteria do Palácio do Planalto o compromisso de que a bancada governista no Congresso não o hostilizaria. O tucanato ouviu-o sem dar-lhe crédito. Tachou-o de ingênuo.

 

O acordo de cavalheiros que mantém Azeredo à margem das investigações tem a simpatia do PT porque Lula receia que os tucanos reabram o debate sobre o financiamento de sua campanha em 2002 -parcialmente bancada com recursos amealhados por Marcos Valério e repassados ao publicitário Duda Mendonça.

 

Mas nada impede que Azeredo seja alfinetado, a pretexto de atrair o PSDB para o lamaçal que se formou a partir da descoberta da movimentação de Marcos Valério. No início, o tucanato manteve Azeredo na presidência do PSDB para evitar que fosse estigmatizado. Mas a descoberta de que recebeu um cheque de R$ 700 mil de Valério em 2002 pôs fim à paciência de seus colegas.

Escrito por Josias de Souza às 23h14

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Planalto tem munição contra CPI

Planalto tem munição contra CPI

Na guerra que empreende contra a CPI dos Bingos, o governo encontrou nos arquivos do Congresso algo que classifica como “munição” contra o senador Efraim Morais (PFL-PB), o presidente da comissão. Trata-se de um documento assinado por Efraim há três anos, em 21 de maio de 2002.

Efraim era deputado federal na época. Ocupava o posto de vice-presidente da Câmara e respondia interinamente pela presidência da Casa. Respondendo a uma questão de ordem formulada em plenário, anulou uma decisão tomada pela CPI do Banespa, que apurava supostas irregularidades praticadas no período em que a instituição esteve sob intervenção do Banco Central.

O autor da questão de ordem chamava-se Julio Semeghini. Questionara a convocação de pessoas que, na opinião dele, nada tinham a ver com os fatos investigados pela CPI do Banespa. Entre os convocados estava Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor do Banco do Brasil durante o governo FHC. Sua intimação, alegava Semeghini, feria o objeto da comissão.

Efraim respondeu à questão de ordem por escrito. Anotou: “Os fatos sobre os quais se pretende ouvir as testemunhas arroladas ocorreram em período anterior àquele abrangido no requerimento de constituição da CPI, ou seja, em desatendimento ao requisito constitucional de restringir-se a investigação a fato determinado”.

Disse mais: “Considerando que a criação de CPI depende de juízo prévio da Presidência com relação a esse requisito, assiste-lhe, em conseqüência, a competência de zelar pela observância dos limites constitucionais de atuação desse tipo de Comissão. Dessa forma dou provimento à questão de ordem, tornando (...) nula a convocação das testemunhas”.

O Palácio do Planalto acusa a CPI dos Bingos justamente de estar extrapolando as suas prerrogativas. Estaria se imiscuindo em coisas que não lhe dizem respeito. Foi convocada para apurar apenas a ação das casas de bingo e as denúncias contra Waldomiro Diniz, ex-assessor da Casa Civil durante a gestão de José Dirceu (PT-SP).

Lula está especialmente irritado com a convocação de seu secretário particular, Gilberto Carvalho. Ele será acareado na próxima quarta-feira com os irmãos do prefeito assassinado Celso Daniel.

Em testemunhos ao Ministério Público e à própria CPI dos Bingos, João Francisco Daniel e Bruno Daniel disseram ter ouvido de Gilberto Carvalho a revelação de que fora portador de dinheiro arrecadado ilicitamente na prefeitura de Santo André. Entregou-o, segundo os dois irmãos, a José Dirceu, então coordenador da campanha de Lula à presidência. Carvalho nega.

Para o governo, a decisão do Efraim de 2002, comprova a “má fé” do Efraim de 2005. Embora tenha ciência da ilegalidade da ação da CPI que dirige, o senador sacrifica a coerência em nome de uma “oposição inconseqüente” ao governo. A briga promete.

Escrito por Josias de Souza às 15h24

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Governo esquiva-se de corrigir um erro que cometeu

Governo esquiva-se de corrigir um erro que cometeu

Uma das coisas que se poderia esperar do PT se o partido autêntico houvesse chegado ao poder seria a abertura dos arquivos da ditadura. O país tem todo o direito de conhecer a sua história. Mas o PT inautêntico que chegou ao poder pensa diferente.

 

Sentado sobre os papéis secretos do ciclo militar, o governo contenta-se em protagonizar, de tempos em tempos, manobras diversionistas. Uma delas foi patrocinada, em maio, pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

 

O órgão era chefiado à época pelo petista Nilmário Miranda. Ele anunciou, com alarde e pompa, que haviam sido localizados no Chile os restos mortais de Jane Vanini, uma militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) morta em 1974 num confronto com agentes da polícia secreta do ditador Augusto Pinochet.

 

Além de alardear para a imprensa a suposta descoberta, veiculada por vários jornais, Nilmário discou para a família de Vanini. Informou que o governo providenciaria a repatriação da ossada da guerrilheira que, antes de exilar-se no Chile, militara também no Molipo (Movimento de Libertação Popular), uma dissidência da ALN que tinha em seus quadros o ex-ministro José Dirceu.

 

Era tudo o que os familiares de Vanini queriam ouvir. Aguardavam há três décadas pelo dia em que poderiam proporcionar a Vanini um enterro cristão. Pois bem, lá se vão seis meses. E nada da ansiada chegada dos ossos.

 

Deu-se o seguinte: Nilmário propagandeou uma falácia. O corpo encontrado no Chile não era de Vanini. A família foi informada do erro. Mas a sociedade brasileira não mereceu a mesma consideração. Foi tratada de modo desrespeitoso pelo governo.

 

Desalojado da Secretaria de Direitos Humanos na última reforma ministerial, Nilmário não se dignou a corrigir publicamente o equívoco, fruto de uma precipitação. Sonegou ao país uma informação de que dispõe desde maio.

Escrito por Josias de Souza às 15h51

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PT expulsa Delúbio, mas poupa deputados

PT expulsa Delúbio, mas poupa deputados

Ficará restrita à expulsão do ex-tesoureiro Delúbio Soares a “limpeza” que o PT prometera fazer em seus quadros depois que estourou o escândalo do mensalão. Não serão punidos os sete deputados da legenda pilhados recebendo dinheiro e favores de Marcos Valério, a quem Delúbio terceirizara a coleta de fundos do caixa dois petista.

 

Ao transferir-se, a pedido do presidente Lula, do Ministério da Educação para a presidência do PT, Tarso Genro prometera que os petistas colhidos pelo escândalo receberiam tratamento implacável. Além de punidos internamente, seriam impedidos de concorrer pelo PT nas eleições de 2006 caso renunciassem a seus mandatos parlamentares.

 

Nem serão punidos nem a legenda lhes será negada. Ex-líder do PT na Câmara, Paulo Rocha (PA), que renunciou para fugir à cassação, recebeu garantias de Ricardo Berzoini de que poderá concorrer a uma nova cadeira na Câmara.

 

Eleito novo presidente do PT, Berzoini assumiu o lugar de Tarso Genro neste sábado, em solenidade realizada após a reunião em que Delúbio foi expulso. Ex-ministro da Previdência e do Trabalho, ele é um braço de Lula no comando do PT.

 

Berzoini cedeu aos argumentos dos petistas enrolados. Argumentaram que uma punição no partido jogaria lenha na fogueira da cassação na Câmara. Cassação que alguns deles ainda esperam reverter. Especialmente o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, que sacou R$ 50 mil nas contas de Valério, e Professor Luizinho, beneficiário de um saque ainda menor: R$ 20 mil.

 

Passou-se a argumentar que o partido não tem como investigar as peripécias de seus deputados. Cabe ao Congresso fazê-lo, por meio das CPIs e do Conselho de Ética da Câmara.

 

Lágrimas

 

Antes da votação que sacramentou, com 37 votos, a expulsão de Delúbio, o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu (SP), tentou articular uma proposta alternativa. Tramou na reunião do diretório uma pena mais branda para ex-tesoureiro: suspensão de três anos.

 

Dirceu enfrentou uma contra-ofensiva comandada por Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia (assessor internacional de Lula) e Aloísio Mercadante (líder do governo no Senado). A trinca conseguiu minar a idéia da suspensão, que só obteve 16 votos, um deles de Dirceu.

 

No instante em que fazia sua defesa perante o diretório, Delúbio verteu lágrimas. Chorou copiosamente. Disse que pensara em se desfiliar da legenda antes do julgamento. Mas alegou que, depois de receber o telefonema de uma irmã, desistiu.

 

“Não consigo assinar a minha desfiliação”, disse ele, aos prantos. “Tenho 25 anos de militância no PT. É metade da minha vida”. A mulher de Delúbio, Mônica Valente, também militante petista, chorou junto com o marido. A cena comoveu vários dos presentes, mas não evitou a expulsão.

Escrito por Josias de Souza às 23h46

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PSDB e PFL inclinam-se para Serra

PSDB e PFL inclinam-se para Serra

PSDB e PFL esboçam nos bastidores os termos de uma  parceria para enfrentar Lula em 2006. Em reuniões realizadas nas últimas semanas, discutem-se nomes e datas. O prefeito José Serra (SP) desponta como favorito. O PFL pode indicar o vice. O nome mais forte é o do senador Marco Maciel (PE).

 

Lançado no ano passado como pré-candidato do PFL à Presidência, o prefeito César Maia (RJ) deve abrir mão da postulação no início de 2006, até fevereiro. No próximo domingo, Maia se reúne com o presidente do partido, Jorge Bornhausen (SC), no Rio. Vão trocar idéias sobre sucessão.

 

O PFL tem um compromisso com Maia. Ao aceitar apresentar-se como presidenciável, impôs uma condição: seria dele a palavra final sobre a conveniência de manter ou não a candidatura. Só trocaria a prefeitura do Rio pela aventura presidencial se decolasse nas pesquisas. Algo que não ocorreu.

 

O nanismo de Maia nas pesquisas fez com se amiudassem os encontros entre líderes do PFL e do PSDB. Em reuniões separadas, Bornhausen e o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) estiveram, mais de uma vez, com os tucanos Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, e com José Serra.

 

Em conversa com um correligionário, ACM resumiu as impressões que colhera nos encontros. Sobre Alckmin, disse: “Ele está louco pelo poder”. Afirmou ter ouvido de Serra o seguinte: “O candidato do PSDB será quem o Fernando Henrique indicar”.

 

Há cerca de dois meses e meio, no auge do escândalo do mensalão, FHC pensou em ser, ele próprio, o adversário do PT em 2006. Imaginava-se à época que Lula emergiria da crise com a popularidade irremediavelmente avariada. Não foi o que ocorreu. O presidente parou de cair nas pesquisas. E reúne condições de recuperar-se, avaliam pefelistas e tucanos.

 

A cúpula do tucanato compartilha da impressão de que a definição do nome do PSDB está nas mãos de FHC. Privadamente, o ex-presidente diz que o nome do partido emergirá das pesquisas. Ou seja, inclina-se para Serra.

 

Em desvantagem, Alckmin aumenta o seu nível de exposição. Já admitir a condição de candidato. Nesta quinta-feira disse: “Acho que o caminho é não ter disputa. O PSDB tem tradição de bom entendimento”.

 

Engana-se se imagina que o consenso caíra no seu colo. Beneficiado pela pelo “recall” de duas campanhas –a presidencial de 2002 e a municipal de 2004- Serra apara arestas internas. Tinha diferenças com o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Contornou-as manobrando para ceder a presidência do partido ao ex-governador do Ceará. Tasso será aclamado presidente na próxima reunião do diretório nacional do partido.

 

Bornhausen quer que o PSDB abrevie para fevereiro a escolha de seu candidato. Os tucanos preferem março. De resto, Bornhausen condiciona a aliança a entendimentos em torno das disputas estaduais. O PFL deseja lançar, por exemplo, um candidato à sucessão de Alckmin. O nome é Guilherme Afif Domingos.

Escrito por Josias de Souza às 23h06

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Planalto articula cancelamento de acareação em CPI

Planalto articula cancelamento de acareação em CPI

O fantasma de Celso Daniel voltou a assombrar o governo. O Palácio do Planalto deflagrou uma operação subterrânea para tentar evitar que Gilberto Carvalho, secretário particular do presidente Lula, seja acareado na CPI dos Bingos com os irmãos do ex-prefeito assassinado de Santo André.

 

Está marcada para o próximo dia 26 de outubro a acareação entre Gilberto Carvalho e os irmãos João Francisco Daniel e Bruno Daniel. A articulação que tenta evitar o confronto mobiliza do senador petista Tião Viana (AC) ao ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça).

 

O repórter ouviu um senador oposicionista, titular da CPI dos Bingos. Ele contou que recebeu um telefonema de Thomaz Bastos, que fez uma sondagem sobre a possibilidade de cancelamento da acareação. O senador disse ao ministro da Justiça que a idéia não tinha a menor chance de vingar.

 

Conversando com colegas, o senador soube que não fora o único a ser assediado pelo governo. Os apelos do Planalto chegaram a pelo menos mais dois congressistas de oposição.

 

Os emissários de Lula sustentam que Carvalho é uma pessoa singela. Estaria psicologicamente abalado com a perspectiva de sentar-se num banco de CPI. Por ora, a articulação não surtiu efeito.

 

O governo tem sólidas razões para recear a acareação. Inquiridos na CPI, João Francisco e Bruno Daniel reafirmaram acusações que haviam feito em depoimentos ao Ministério Público.

 

Disseram que, logo depois da morte de Celso Daniel, Gilberto Carvalho confidenciou-lhes detalhes de uma suposta caixinha que fora montada pelo PT em Santo André. Segundo a versão dos irmãos de Celso Daniel, Gilberto Carvalho contou que ele próprio teria sido portador de dinheiro sujo amealhado pelo esquema de Santo André. Entregava pessoalmente os recursos para o deputado José Dirceu, então presidente do PT.

 

As acusações vêm sendo sustentadas por João Francisco desde janeiro de 2002, época em que ninguém ousava questionar a integridade moral do PT. Bruno associou-se à cruzada do irmão depois que as palavras dele passaram a ser ridicularizadas pelo petismo.

 

O ex-ministro José Dirceu, por exemplo, diz que os irmãos “estão delirando”. Em nota, Gilberto Carvalho negou peremptoriamente a versão de ambos. Para a CPI dos Bingos, a acareação tornou-se inevitável. O eventual cancelamento desmoralizaria a comissão.

 

Em sua edição de hoje, a Folha informa que o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais) disse que o governo pode questionar, em ação no STF, o comando da CPI dos Bingos. Para o Planalto, a comissão exorbitando de suas atribuições ao perscrutar as suspeitas de corrupção em prefeituras do PT, como a de Santo André.

Escrito por Josias de Souza às 02h17

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Sobe para R$ 504 milhões o rombo orçamentário do Congresso

Sobe para R$ 504 milhões o rombo orçamentário do Congresso

A atmosfera de Brasília, já turvada pelos desdobramentos da crise do mensalão, ficou ainda mais envenenada. Legislativo e Executivo travam uma queda de braço por dinheiro. Aqui se revelou no último domingo que a Câmara, sem verba para pagar os salários de seus funcionários em dezembro, pediu socorro ao governo. O repórter descobriu nesta segunda-feira que faltam recursos também ao Senado. Juntos, os buracos orçamentários das duas Casas compõem uma cratera de impressionantes R$ 504 milhões.

 

O grosso da conta deriva do aumento de 15% concedido aos funcionários do Legislativo. Lula vetara o aumento. Mas, em sessão conturbada realizada no dia 31 de setembro, o Congresso derrubou o veto. Alegou-se à época que havia recursos para pagar o aumento. Descobre-se agora que era mentira.

 

O Congresso passou o chapéu na Esplanada. Deseja espetar a conta do seu descontrole nas arcas do Tesouro Nacional. Responsável por gerir o orçamento da União, o ministro do Planejamento, deputado Paulo Bernardo (PT-PR), bateu o pé. Disse que não há previsão orçamentária para cobrir o rombo.

 

Bernardo tem o apoio do Palácio do Planalto. Por ordem expressa de Lula, a Advocacia Geral da União protocolou nesta segunda-feira no STF uma ação em que pede a anulação do aumento. Argumenta-se que a Constituição veda a criação de novas despesas sem a devida previsão orçamentária.

 

Também por ordem de Lula, o ministro Jaques Wagner (Coordenação Política) discou para os presidentes da Câmara e do Senado, Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Renan Calheiros (PMDB-AL). Avisou a ambos que o dinheiro pedido pelo Congresso não será liberado.

 

Aparentemente, o Planalto fala sério. O governo já enviou ao Congresso um projeto prevendo suplementação orçamentária para várias repartições públicas. Esse tipo de projeto, preparado todos os anos em meados de outubro, é chamado em Brasília de “jumbão”. Não há no projeto nenhum vestígio do dinheiro pedido pela Câmara e pelo Senado.

 

Para ampliar a encrenca, tramita na Câmara, conforme noticiado aqui, também no domingo, um projeto que prevê um novo aumento salarial para o funcionalismo da Câmara. Argumenta-se que visa a equiparação com o funcionalismo do Senado, que ganha mais. No mesmo embalo, pretende-se ampliar de 20 para 25 o número de assessores parlamentares empregados nos gabinetes de cada deputado.

 

Em declarações a este blog Aldo Rebelo disse que, embora o projeto de novo aumento tenha recebido a tarja de “urgente”, com o assentimento das lideranças partidárias, não pretende coloca-lo em votação tão cedo. Dará prioridade a outra proposta, que concede aumento de 13% aos militares.

 

Pelas contas do Ministério do Planejamento, o salário médio do funcionalismo das Forças armadas é de R$ 3 mil, contra R$ 9 mil pagos aos servidores do Legislativo. Teme-se que a transferência do reajuste dos militares para o final da fila ateia fogo nos quartéis.

 

Há na folha de salários do Congresso cerca de 35 mil funcionários, entre ativos e aposentados. Todos foram beneficiados com o reajuste de 15% que Lula vetara e que os parlamentares reabilitaram. O segundo reajuste, pretendido pela Câmara, beneficiaria os seus cerca de 20 mil servidores.

 

Em tempo: o salário dos deputados e senadores não está ameaçado. Se o governo mantiver a disposição de reter os R$ 504 milhões solicitados pelo Congresso, apenas o funcionalismo será prejudicado.

Escrito por Josias de Souza às 00h14

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Entidade do MST usa mal verba pública, diz TCU

Entidade do MST usa mal verba pública, diz TCU

Acaba de aportar na CPI da Terra relatório em que o TCU informa que o Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária), vinculado ao MST, “vem sendo financiado com recursos públicos”.  Entre 98 e 2005, recebeu do governo R$ 9,4 milhões.

 

Segundo o TCU, R$ 3,4 milhões precisam ser devolvidos ao erário. Foram aplicados em ações alheias aos convênios governamentais. O tribunal pede, de resto, a suspensão de liberações ainda não efetivadas, no valor de R$ 1,4 milhão.

 

Chamam-se Anca e Concrab os sócios do Iterra. A inspeção do TCU foi feita depois que se descobriu que as duas entidades, também ligadas ao MST, movimentaram nos últimos seis anos R$ 29,9 milhões em verbas públicas e doações do exterior.

 

Só os repasses feitos sob Lula somam R$, 8,7 milhões. Daí o interesse em saber como o dinheiro vem sendo empregado. Da auditoria no Iterra resultaram os seguintes achados:

 

  1. os R$ 9,4 milhões amealhados entre 98 e 2005 vieram de quatro ministérios: Reforma Agrária, Saúde, Educação e Trabalho. O grosso bancou cursos a assentados e a professores que atuam nos assentamentos rurais;
  2. ao prestar contas, o Iterra apresentou notas fiscais emitidas por ele mesmo. Documentos “precários”, diz o TCU;
  3. os custos dos cursos do Iterra são “significativamente inferiores aos valores” expressos nas notas fiscais. Mas o governo, em ação “temerária”, vem aprovando as contas;
  4. além de recomendar a devolução de R$ 3,4 milhões e a suspensão do repasse de R$ 1,4 milhão, os auditores defendem o aprofundamento das investigações, com a oitiva da direção do Iterra e de autoridades governamentais.

Repasse$ do governo para ONGs não são ilegais. O que constitui crime é o desvio das verbas. O MST alega que seus braços monetários agem dentro da lei. Reclama de perseguição política. Ao exercer o sagrado direito ao contraditório no TCU, uma arena neutra, o movimento terá a oportunidade de provar o que diz.

 

Para além do blá-blá-blá, a prova terá de ser documental. A atmosfera de crise moral que permeia a realidade brasileira não comporta espaço para a dúvida.

Escrito por Josias de Souza às 18h10

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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