Moído pelo PT em três sucessivas derrotas presidenciais, o tucanato ensaia um reposicionamento em cena.

Sob o nome do evento –“A Nova Agenda: Desafios e Oportunidades para o Brasil”— esconde-se um objetivo ambicioso.

Com atraso de dez anos, o PSDB tenta absorver o acontecido. Ingressa, finalmente, na fase do metabolismo. Depois da tempestade, encara a cobrança.

Para usar o vocábulo da moda, é como se, em meio à ressaca de uma época em que a filosofia tucana desandou, a legenda promovesse sua própria faxina.

Antes que a festa de 2014 comece, os tucanos tentam sacudir as plumas, recolocar o abajur em pé, devolver o lustre ao teto, reafinar o piano, desentortar o trombone…

Tenta-se, sobretudo, retirar o passado representado pela Era FHC de dentro do sofá. Ironicamente, o PSDB projeta o seu futuro redescobrindo o seu passado.

Nesse esforço para se reconectar à realidade, o partido arrastou para o seminário personagens que participaram da concepção e da execução do Plano Real.

Economistas como Edmar Bacha, Persio Arida, Gustavo Franco e Armínio Fraga, protagonistas em períodos marcantes dos dois reinados de FHC.

Ao lado das caras de ontem, vão à mesa rostos de um PSDB que se anuncia como renovado –ou em processo de renovação.

Personagens como Monica de Bolle, Armando Castelar, Claudio Beato, Marcelo Caetano e André Medici.

O seminário tucano está impregnado de simbolismo desde a concepção. Organizou-o o Instituto Teotônio Vilella.

Trata-se de um órgão que, na estrutura partidária, cuida da realização de pesquisas e da formação política.

Preside a entidade o ex-senador Tasso Jeresissati –uma das mais vistosas vítimas do infortúnio tucano, arrancado do Senado, na eleição passada, pela onda Lula.

Tasso convidou para assessorá-lo a economista e advogada Elena Landau. Ex-diretora de Desestatização do BNDES (1993-1996), ela participou do processo de privatização.

Nada mais emblemático, considerando-se que o PSDB se absteve de defender a venda de estatais, convertida em munição eleitoral pelo PT em 2002, 2006 e 2010.

De resto, o seminário tucano ocorre nas pegadas de um rififi cibernético que expôs uma trinca que ameaça converter em pantomima a prometida renovação.

Aliado de José Serra, o senador Aloysio Nunes (SP) pendurou no twitter um lote de notas nas quais criticou a direção do partido, acusando-a de falta de rumo.

Fechado com Aécio Neves, o deputado Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, refutou o senador em nota veiculada na página da legenda na internet.

É assim, arrastando atrás de si o casulo pegajoso do passado indefeso e de insanáveis desavenças, que o PSDB  contrói a “nova agenda” que dirá ao páis que diabo de partido deseja ser.

O seminário ocorre em endereço chique: o Hotel Sheraton, no bairro carioca do Leblon. Começa às 8h30 e vai até 14h.

O debate foi subdividido em dois blocos. No primeiro, a macroeconomia (estabilidade, gastos públicos, poupança interna, infraestrutura…).

No segundo, o social (os rumos da educação, remédios para a saúde pública, saídas para a segurança, um modelo sustentável para a previdência…).

Num painel, o esforço para mostrar que o Brasil não foi descoberto em 2003. Noutro, a tentativa de exibir à nova classe média algo que vá além do Bolsa Família.

No encerramento, um discurso de Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente que o PSDB enfiou dentro do sofá por uma década e agora quer reexibir.

- Em tempo: Ilustração via Orlandeli.

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