Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Entrevistas

‘Muito mais é possível’, anota o plano de Mercadante

  Fábio Pozzebom/ABr
O PT formaliza neste sábado a pré-candidatura de Aloizio Mercadante para o governo de São Paulo. Estarão presentes, além do candidato, Lula e a presidenciável Dilma Rousseff.

 

Será divulgado documento com as diretrizes do candidato. Traz na capa a inscrição: “Muito mais é possível”. Em discurso, Mercadante vai enunciar um lema: “São Paulo com tudo o que tem direito”.

 

O senador concedeu uma entrevista ao blog. Defende para o Estado algo que o PT tenta evitar na esfera federal: a alterbnância do poder. Aposta na transferência de prestígio de Lula para suplantar o favoritismo do rival tucano Geraldo Alckmin, dono de índice de intenção de voto ao redor de 50%.

 

Junto com Mercadante, o PT lançará Marta Suplicy para o Senado. Abaixo, a entrevista na qual Mercadante expôs sua estratégia e seus planos de governo:

 

 

- Na eleição de 2006, obteve 32% dos votos. De onde virão os outros 20%? Entrei com 12% e terminei com 32%, o melhor resutado da história do PT.

- O que o faz crer que pode vencer agora? Primeiro, a unidade do PT. Fato inédito. Segundo, construímos um leque de alianças que jamais tivemos no Estado. Isso vai nos dar tempo de TV muito maior. Teremos também o apoio de todas as centrais sindicias. E vivemos um momento em que o Lula tem a melhor avaliação que um presidente já teve na história.

- O prestígio de Lula será transferido para sua candidatura? É evidente que o apoio do Lula contribui. E muito. Entramos o ano com a economia crescendo a uma taxa de 7%. E Muitas das realizações ocorrem em São Paulo.

- Por exemplo. Há 72 mil casas contratadas, em fase de execução. Mais 80 mil em fase de análise na Caixa. A média do governo estadual é da ordem de 20 mil casas ano. Geramos 176 mil bolsas de estudo do Prouni em São Paulo. Cinco universidades federais. Expandimos a rede de escolas técnicas federais. Ampliamos as verbas da saúde e da educação.

- Geraldo Alckmin aparece nas pesquisas com 50%. Como convencerá o eleitor de que é uma opção melhor? Pesquisa mede o momento. Se olharmos a eleilção para prefeitura, em 2008, o Alckmin saiu de 45% e chegou 22%. Não foi ao segundo turno.

- Mas elegeu-se Gilberto Kassab, do DEM, apoiado por José Serra. É verdade, mas as pesquisas mostram que a avaliação do desempenho do governo municipal é, hoje, declinante. Há uma insatisfação profunda com a cidade.

- Será uma eleição fácil? É evidente que é uma eleição difícil. A nossa história mostra isso. Mas o Lula, que sempre teve dificuldades eleitorais no Brasil e em São Paulo tem os méritos reconhecidos por todos. Por que São Paulo não pode dar uma chance pra gente governar o Estado como deu pro Lula governar o Brasil?

- A popularidade de Lula já era alta em 2008. E o eleitor não deu a Marta Suplicy uma chance. Preferiu Kassab. É verdade. Mas ela foi para o segundo turno. Ela tinha uma experiência de governo em São Paulo que, hoje, é mais bem avaliada do que foi há um ano e meio. Várias coisas prometidas não aconteceram. Quando o governo federal desonerava a produção, São Paulo onerou a carga tributária. Tivemos um brutal aumento do IPTU. E a eleição para o governo não é a mesma coisa que o pleito municipal.

- Além do universo geográfico, o que há de diferente? A avaliação do governo Lula em São Paulo, em 2006, estava abaixo da média nacional. A taxa de ótimo e bom era inferiror a 40%. Hoje está em torno de 70%. Todos os dados nos favorecem.

- Que dados? Na área da saúde, governo FHC repassou, em 2002, R$ 383 milhões para o SUS em São Paulo. Lula está repassando R$ 3,9 bilhões. Um salto de 1000%. Entregamos 397 ambulâncias do Samu. E o governo do Estado não participa do co-financiamento. Fizemos 97 Unidades de Pronto Atendimento de Saúde. De novo, sem a co-participação do Estado. Queremos demonstrar que, em parceria, podemos fazer muito mais em São Paulo.

- Como defender a alternância de poder que o PT recusa no plano federal? Estamos falando de pouco mais de sete anos de Lula em Brasília e 27 anos de mesmice em São Paulo.

- Não são 14 anos de tucanato? Com o PSDB vem desde 1994. Mas o Aloísio [Nunes Ferreira] era vice do Fleury. O [Alberto] Goldman era secretário do [Orestes] Quércia, que está com eles agora. O Serra e o Paulo Renato foram secretários de Educação e Planejamento do [Franco] Montoro, em 1983. É o mesmo grupo político, que foi se alternando. O Alckmin ficou seis anos como vice do [Mario] Covas e mais seis anos como governador.

- O que deve ser mudado? Na área da educação, os indicadores de São Paulo estão abaixo da média nacional. Leitura, ciências, matemática... A insatisfação dos professores é latente. Não adianta tentar dizer que a greve foi política.

- Quem diz é o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Durante cinco anos, de 2006 a 2010, os professores só tiveram reajuste linear de 5%. Não cobre nem a inflação. Como dizer que a greve é política?

- Serra instituiu o reajuste por metas. Acha ruim? Pagar um aditivo salarial por desempenho é um caminho que deve ser valorizado. A divergência não está aí. Não é aceitável que o professor tenha em São Paulo o 14º piso salarial do Brasil. Além disso, só 20% da categoria pode receber o bônus. Recebeu, só pode receber de novo dali a quatro anos. Conosco, haverá uma mesa de diálogo permanente. Educação é obra coletiva. A outra face desse problema, é o agravamento da criminalidade.

- Faz uma ligação entre escola e violência? A ligação é óbvia. A falta de escola atraente empurra o jovem para a droga, principalmente o crack, que abre caminho para o crime. Todos os indicadores de segurança pública do Estado pioraram em 2009. Os delegados voltaram a fazer operação padrão. Falta policiamento ostensivo. Temos 159 mil presos. Um excedente de 59 mil acima da capacidade. E a polícia prende mais dois presídios por mês.

- Qual é a solução? Separar os presos por grau de periculosidade: primários, reincidentes não perigosos, perigosos e chefes do crime organizado. Prover trabalho e educação como critérios para progressão de pena. E introduzir monitoramenteo eletrônico de presos. Sob monitoramento, os que não oferecem risco à vida não precisam ficar presos aguardando o julgamento.

- E quanto à área de transportes? É outro problema dramático. Pesquisa Ibope mostra que, na capital, as pessoas perdem, em média, 2h43m no trânsito por dia. Algo como 35 dias por ano. A solução passa pelo investimento pesado em transporte sobre trilhos, metrô e ônibus. Sob o PSDB, em 14 anos, construiu-se uma méida de 1,2 km de metrê ano. Temos, hoje, 63 km de metro. Santiago tem 80 km. A Cidade do México, 230 km. Junto com o Rodoanel, deveria ter sido feito o Ferroanel. Cerca de 28% da população anda de ônibus. E não construíram os corredores exclusivos. Sobra o automóvel. Há 7 milhões de carros na cidade. É preciso combinar os investimentos em transporte a uma política urbana.

 

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Escrito por Josias de Souza às 07h58

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PSDB sugeriu o fim da reeleição, mas Lula disse ‘não’

‘Era a tese do  FHC para  convencer o Aécio  a ser  o vice’

Ciro: ‘Eleição também significa a possibilidade de perder’

Temer: ‘Não dá voto, mas proporciona a governabilidade’

Minas: ‘Se PT precipitar decisões, vai ao beco sem saída’

São Paulo: PT tem 30%, precisa arrumar os outros 20%’

Transferência: ‘Engraçadíssimo, Aécio transfere, eu não’

Campanha: ‘Eu não vou ficar esperando a banda passar’ 

Sérgio Lima/Folha

 

Um dia depois de José Serra ter defendido mandato de cinco anos e o fim da reeleição, Lula revelou: “Vieram me propor que, se o PT e o PSDB estivessem juntos numa reforma política para aprovar cinco anos, [...] a gente aprovaria...”.

 

“Eu falei para meu companheiro interlocutor: ‘Olha, eu era contra a reeleição, agora eu quero que tenha a reeleição’." Lula não quis dizer se o interlocutor foi Serra. Insinuou ter percebido que a proposta escondia uma manobra: “Era a tese do ex-presidente [FHC], para convencer o Aécio a ser vice. Então, em política não vale ingenuidade”.

 

Lula concedeu entrevista a uma trinca de repórteres: Denise Rothenburg, Josemar Gimenez e Silvia Bessag. A íntegra está disponível aqui. Abaixo os principais trechos:

 

 

- Relação PT-PMDB em Minas: As coisas em Minas Gerais tinham tudo para acontecer normalmente, sem nenhum trauma, sentar PT e PMDB e tentar conversar. Tínhamos e temos chance de ganhar na medida em que o Aécio não é candidato e ninguém pode conseguir transferir 100% dos votos. Tudo isso estava na minha conta. De repente, o PT resolve fazer uma guerra interna sem nenhuma necessidade. [...] Acho que nossos companheiros, Patrus e Pimentel, vão ter que fazer um esforço incomensurável para fazer uma chapa lá. Sinceramente, não acho que a prévia resolva. [...] Se o PT precipitar suas decisões, vai ficando cada vez mais num beco sem saída

- Ciro Gomes: Na última conversa que tive com o presidente do PSB nos colocamos de acordo que deveríamos esperar passar o mês de março para que a gente voltasse a conversar. Estamos em abril. [...] Pretendo conversar com Ciro na medida em que a direção do PSB entenda que já é momento de conversar. Achei interessante quando transferiu o título para São Paulo porque era uma probabilidade. [...] Disse para o Ciro que jamais pediria para uma pessoa ou partido não ter candidato a presidente da República se não tiver um argumento sólido para convencer as pessoas. Ser candidato significa a possibilidade de fortalecer os partidos, mas também significa a possibilidade de você perder uma eleição. [...] A tendência que está acontecendo até agora é a de que caminhamos para uma eleição plebiscitária.
- Ciro Gomes 2: [...] Às vezes, você vai enxergar o erro depois que passou as eleições. [...] O momento político agora me diz que as eleições serão plebiscitárias, que dificilmente haverá espaço para uma terceira candidatura. Agora, tem gente que não acredita. A Marina Silva é candidata porque acredita que pode ganhar. O Ciro Gomes pode querer ser candidato e o PSB entender que deva ser. Agora, para ser candidato é preciso saber qual a composição que você vai fazer, qual o tempo de TV, com quem estará aliado regionalmente. Na hora que o time entra em campo, você precisa ter jogador. Eleição é difícil. No Brasil, é complicado.

- PT X PSDB em São Paulo: O PT não precisa provar para ninguém que tem 30% dos votos em São Paulo. Precisamos arrumar os outros 20%. Eu disse a Mercadante: É preciso que você arrume o teu José Alencar. Porque o José Alencar para mim teve uma importância que não é a da quantidade de votos que ele trouxe só. É a da quantidade de preconceito que ele quebrou. [...] O PT de São Paulo precisa arrumar esse José Alencar. Temos que arrumar um vice que não seja mais à esquerda que o PT, uma pessoa que fale para um segmento da sociedade.
- Michel Temer: A Dilma tem cartão de crédito de oito anos de administração bem-sucedida no Brasil, da qual ela foi uma gerente excepcional. [...] O vice não dá voto. Agora, o Temer eu acho que dará a segurança de um homem que se dedica a vida pública já há muito tempo e tem uma seriedade comprovada dentro do Congresso Nacional. Hoje está mais fortalecido dentro do PMDB e nós trabalhando olhando também o pós-eleição. [...] Então, acho que o Temer, se for ele o indicado pelo PMDB, dará a tranquilidade de que nós não teremos problemas de governabilidade no país.

- Serra e o fim da reeleição: Em política não vale você ficar falando para inglês ver. [...] É importante ter em conta que eles reduziram o mandato de cinco para quatro anos pensando que eu ia ganhar as eleições, em 1994. Aí eles ganharam, e, em 96, aprovaram a reeleição. Aí, para tentarem convencer o Aécio a ser o vice, vieram até me propor que, se o PT e o PSDB estivessem juntos numa reforma política para aprovar cinco anos, sabe, seria o máximo, a gente aprovaria. Eu virei para meu companheiro interlocutor, falei: ‘Olha, eu era contra a reeleição, agora eu quero que tenha a reeleição, mesmo se você ganhar, porque em quatro anos você não consegue fazer nenhuma obra estruturante nesse país, nenhuma’.

- A data da conversa? Faz algum tempo, já.
- Quem era o interlocutori? Não, porque era a tese do ex-presidente [FHC] para convencer o Aécio a ser vice. Então, em política não vale ingenuidade. Ou seja, ninguém vai acreditar que o mesmo partido que criou a reeleição, venha agora querer acabar com a reeleição. [...] Ninguém está pedindo isso. Só o Aécio está pedindo.
- Acha que Aécio será vice de Serra? Não. Acho que o Aécio está qualificado politicamente para ser o que ele quiser ser. Agora, se ele for vice, vai se desgastar muito porque é só pegar o que o Estado de Minas escreveu das divergências de Aécio com Serra. [...] O Aécio vai colocar muita dúvida na cabeça do povo mineiro.
- O PT vai monitorar Dilma? Não existe nenhuma hipótese. [...] Eu vou poder ajudar muito mais a Dilma dentro do PT não sendo presidente da República do que sendo presidente da República. Eu, fora da Presidência, estarei mais nos eventos do PT, estarei participando mais das coisas do PT.

- Transferência de votos: É engraçado, porque as pessoas que acham que eu não vou transferir voto para a Dilma acham que o Aécio vai transferir para o Serra. É engraçadíssimo porque as pessoas olham o seu umbigo e dizem ‘o meu é o mais bonito de que todos’. [...] O que me dá uma segurança é que o mesmo povo que me dá o voto de confiança há sete anos vou pedir para dar um voto de confiança para Dilma.

- Campanha: Eu vou fazer campanha. Não pensem que vou ficar parado vendo a banda passar. Eu quero estar junto da banda, até porque acho que a campanha da Dilma é parte do meu programa de governo para dar continuidade às coisas que nós precisamos fazer no Brasil.
- Taxa de desconhecimento de Dilma nos grotões: Há tempo suficiente [para torná-la conhecida]. É lá que eu vou chegar. Lá eu não vou nem chegar, lá eles são Lula. Lá eu estou representado, lá eles são eu. Eu quero ir é nos lugares onde estou...

- Prevê vitória no primeiro turno? Não acho nem que sim, nem que não. Vamos trabalhar para ter o máximo. [...] A única coisa que não quero é que tenha terceiro turno. E que quem perca, exerça a democracia acatando o resultado eleitoral. E não tente dar golpe, como tentaram me dar em 2005.

- Volta em 2014? [...] Quando o político é canalha, ele não quer eleger o seu sucessor. O velhaco quer voltar. Indica alguém que não pode ser candidato em 2014 e alguém que ele sabe que é fraco. Eu não. Estou indicando o que tenho de melhor. Para ganhar. E , se ganhar, ter o direito de governar mais quatro anos.

 

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Escrito por Josias de Souza às 04h55

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‘Com Dilma ou Serra, a defesa não muda’, diz Jobim

  Lula Marques/Folha
Titular da pasta da Defesa, Nelson Jobim é, hoje, uma espécie de ministro anfíbio. Deve subordinação a Lula. Mas mantém relações estreitas com a oposição.

 

Sob FHC, serviu como ministro da Justiça. É padrinho de casamento de José Serra, o rival de Dilma Rousseff na corrida presidencial.

 

Graças a esse, digamos, ecletismo político, Jobim não hesita em afirmar: vença Serra ou Dilma, a política de Defesa que põe em prática será mantida.

 

O ministro falou ao repórter Eumano Silva. A conversa foi às páginas da última edição de Época. Vão abaixo alguns trechos:

 

 

– Como vai ficar a defesa nacional do Brasil no futuro?
Os políticos e os governos civis viam a defesa com certa distância. Na época da Constituinte, a defesa se confundia com repressão política. Com isso, militares tinham de tomar certas decisões que, a rigor, eram decisões de governo civil. Exemplo: quais as hipóteses de emprego [das Forças Armadas] que politicamente interessam ao país? Isso é um misto de política internacional com defesa. Cabe ao poder civil definir o que os militares devem fazer em termos de defesa. Os militares decidem a parte operacional.

– Isso aconteceu no governo Lula?
Tudo é um processo. Não acontece assim, bum! Começou no governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, nas condições possíveis naquele momento. No governo Lula, avançou-se um pouco no início. [...] Quando assumi, decidi que precisávamos realizar uma mudança de concepção para dar mais musculatura ao Ministério da Defesa.

– Como assim?
O orçamento, por exemplo. Antes, as Forças [Marinha, Exército e Aeronáutica] se acertavam entre si dentro do limite fixado pelo Ministério do Planejamento. O ministro [da Defesa] não tinha participação. Também foi aprovado na Câmara o projeto de alteração da Lei Complementar nº 97. O Estado-Maior de Defesa passa a ser o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Será chefiado por um oficial de quatro estrelas escolhido pelo presidente, indicado pelo ministro da Defesa. Vai ter a mesma precedência dos comandantes de Força [...].

– São planos de longo prazo?
Ah, uns 20 anos...

– O senhor, então, não espera grandes mudanças se o próximo presidente for Dilma Rousseff ou José Serra?
Eu não espero.

– A Defesa está acima das questões políticas?
Tudo que estou falando foi discutido com todos os partidos. Fiz reuniões com o PT, o PMDB e com o DEM. Fui ao Instituto Fernando Henrique Cardoso [...].

– Não há ideologia nessa área?
[...] Não é um programa do governo. É um programa do Estado.

– O que, de fato, interessa ao Brasil em termos de defesa?
O Brasil não é um país com pretensões territoriais, não vamos atacar ninguém. Então, devemos ter um poder dissuasório. Temos três coisas fundamentais. Uma é energia, que tem o pré-sal e também energia alternativa, energia limpa, entre elas a energia nuclear. Segundo, o Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo: a Amazônia e o Aquífero Guarani. E, terceiro, temos a maior produção de grãos. São coisas que, progressivamente, o mundo vai demandar mais.

– Na América do Sul, quais são as maiores preocupações?
A estabilidade política e econômica. [...] Quando o Brasil paga mais pelo excedente de energia elétrica do Paraguai, ajuda a criar condições para que o Paraguai se estabilize. Um país que tem a dimensão do nosso não pode botar o pé em cima dos outros.

– Qual é sua opinião sobre a relação do Brasil com a Venezuela?
É boa. A Venezuela viveu sempre do óleo. A elite se apropriou dessa riqueza e não investiu no país. Ficou um conjunto de pessoas muito pobres. Aí, surgiu o presidente Hugo Chávez, que lidera esse setor. Está conseguindo avançar. Agora, o Chávez é um homem, digamos, de uma retórica forte. Isso não atrapalha. Faz parte do hispano-americano. É preciso ter paciência. Boa sorte à Venezuela.

– E com os EUA?
Estamos muito bem. Com a vitória do presidente Obama, mudou muito. Concluímos um acordo de defesa para criar novas perspectivas de cooperação bilateral. Vai nos permitir, por exemplo, vender aviões da Embraer para eles sem licitação.

– O Irã é o maior ponto de divergência entre Brasil e EUA? A posição do presidente Obama não é nesse sentido. Há setores nos EUA, principalmente no governo Bush, que demonizam o islã. O islã é pacífico. A posição do Brasil é assegurar a legitimidade do enriquecimento do urânio para fins pacíficos. Nós temos tecnologia para isso e temos urânio. Ainda precisamos completar a parte industrial.

– Quais são os interesses do Brasil na área de defesa em Israel? Temos interesses em Veículos Aéreos Não Tripulados, os Vatns, para fazer monitoramento. Algumas empresas israelenses produzem. Estou examinando a possibilidade de produzirmos no Brasil, com uma empresa brasileira associada a uma israelense.

– E a compra dos caças para a FAB, quando se resolve?
Pretendo terminar em abril uma exposição de motivos para o presidente, com uma opção. O presidente convoca o Conselho de Defesa Nacional, que emite um parecer e, aí, o presidente decide.

– O sr, foi nomeado para resolver o caos aéreo. A missão foi cumprida?
Vou falar o que fizemos. A primeira medida foi substituir a direção da Infraero, despartidarizar. Formulamos a Política Nacional de Aviação Civil. Ela foi aprovada. Pretendemos oferecer um tratamento diferente para a aviação regional. Vamos enviar um projeto de lei ao Congresso. Em 2005, instituímos liberdade de rota e liberdade tarifária. Esse sistema funciona para a aviação doméstica, mas não para a regional, que precisa de estímulos. Vamos investir nos aeroportos regionais.

– Os aeroportos estarão preparados para as Olimpíadas do Rio em 2016?
Sim. Tem um calendário da Infraero para as obras necessárias. Temos um crescimento anual médio de 10% na aviação civil. Na Copa do Mundo, terá um aumento de 2% em dois meses. Mas nossa preocupação não é só com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem muito mais gente viajando, os preços caíram. Em 2002, o quilômetro voado custava R$ 0,71. Em 2009, custa R$ 0,49.

– E em relação aos passageiros?
Incentivamos uma resolução da Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] sobre a responsabilidade das empresas em relação a atrasos, overbooking. É o que a Anac podia fazer dentro da legislação. Paralelamente, nós mandamos para o Congresso um projeto que cria um dever de indenização por parte das empresas se os atrasos forem devidos a qualquer agente. Se o atraso for decorrente da Infraero, a empresa se ressarce do que entregou ao passageiro.

– E se for culpa da meteorologia?
Nesse caso, não tem ressarcimento.

– Dá trabalho ser ministro da Defesa?
Na época das demissões da Infraero, recebi críticas de amigos meus porque eu demiti pessoas indicadas por eles. Fiz exatamente o que eu precisava fazer. Como não sou candidato a coisa nenhuma e sempre gostei de confusão, não teve problema.

 

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Escrito por Josias de Souza às 04h39

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Dilma vê ‘campanha insidiosa’ e nega ‘ação armada’

Fora do ministério, candidata diz sentir ‘saudade’ de Lula

‘O que me consola é que ele sente muita saudade minha’

Afirma ter aprendido com  ex-chefe a lidar com eleitores

‘Sou boa aluna. Ando com ele pelo país há 7 anos e meio’

Avoca para si um pedaço da  popularidade do  presidente

‘Nesses 76% tem  meu trabalho,  uma parte eu contribuí’ 

Wilson Dias/ABr

 

Dilma Rousseff expõe sua candidatura na vitrine que a projetou para a política, o Rio Grande do Sul.

 

Dedicou as primeiras horas da incursão gaúcha a um compromisso familiar que ajuda a suavizar-lhe a imagem.

 

Acompanhou a filha, Paula, grávida de quatro meses, numa ecografia. Enxergou o vulto de Gabriel, o neto que vai nascer um mês antes da eleição.

 

Depois, foi ao microblog. Agradeceu o presente que recebera no jantar da véspera, em São Paulo:

 

“Ana Maria Braga, minha filha adorou o boneco do Louro José. O bebê, que acabei de ver na ecografia, te agradece”.

 

Almoçou com empresários, na federação das indústrias do Estado. Para atenuar a fama de estatizante, disse que jamais lhe passou pela cabeça “destituir o setor privado”.

Concedeu uma entrevista a empesas de comunicação do grupo RBS. Referindo-se a um dossiê que despeja na internet dados não comprovados de seu passado guerrilheiro, disse estar sendo vítima de “campanha insidiosa”.

 

Vão abaixo trechos da entrevista, cuja íntegra pode ser lida aqui e aqui.

 

 

–Circula na web dossiê que lhe atribui assaltos a bancos e atos de terrorismo no regime militar. Sente-se preparada para a campanha eleitoral? Ninguém participa de governo sem aprender a conviver com críticas, deturpações e difamações. Há uma campanha insidiosa porque as pessoas pouco lembram daquela época. [...] Não tive nenhuma ação armada. Se tivesse ação armada, não teria recebido condenação de dois anos. Cumpri três anos de cadeia, mas fui condenada a dois.
–Quem estaria por trás dessa campanha? Acho que as reações são de setores inconformados com a abertura democrática e que acham que uma pessoa que esteve presa [...], durante todo o período da ditadura, não pode ser hoje vitoriosa.
–Adversários levantam dúvidas sobre o que seria o seu governo em matéria de liberdade de expressão. Qual é o seu compromisso? Adversário só não fala que a gente é bonita, o resto tudo fala. Eu sei o que é viver na ditadura, e sei a pior parte dela. Não acho que faz bem para nenhuma geração o que a minha passou...
–Como a senhora pretende reverter no RS os índices desfavoráveis?  Nós Começamos agora. Pesquisa retrata o momento. [...] Todo mundo que sentou na cadeira antes se danou.
–Acha possível subir nos palanques de Tarso Genro e José Fogaça? Não vou trabalhar hipótese, até porque não é prudente. Quando a gente tiver feito aliança nacional [PT-PMDB], eu posso responder isso...

a não causar problema.
–Trabalha com a possibilidade de ter o PMDB gaúcho todo a seu lado? [...] Acredito que a grande maioria do PMDB fica conosco.
–Já consegue fazer com naturalidade o que o presidente faz, como entrar na casa dos eleitores? Perfeitamente, sou uma boa aluna. Nessa relação com ele, tenho anos de praia. Ando pelo Brasil afora com ele há sete anos e meio...

– O presidente tem dado conselhos sobre a campanha? Graças a Deus, dá. O presidente é uma pessoa experiente. Temos uma longa caminhada juntos, a nossa relação é de quem priva da intimidade...

– Sente falta da preseença de Lula nas viagens? Sempre falo que tenho muita saudade dele. O que me consola é que acho que ele também tem muita saudade minha. Porque convivíamos o dia inteiro.
– Acha que o eleitorado sente diferença com a ausência do presidente? Andei por esse país afora sozinha quantas vezes? O pessoal está inventando. Ser governo e decidir todo dia é muito difícil. Eu cuidei do PAC, de R$ 636 bilhões, da execução, tinha de discutir isso do Oiapoque ao Chuí. O presidente ia para um lado e eu, para o outro.
– Até que ponto a popularidade de Lula pode resultar em votos? Se pode resultar em votos para alguém, imagino que seja para mim. Por quê? Porque entrei no Ministério de Minas e Energia, depois fui para Casa Civil, participei de cada um desses programas. Eles têm meu esforço pessoal. [...] Então posso reivindicar a continuidade do governo Lula. O povo não acredita em promessa, acredita que quem faz pode fazer mais. Podemos fazer mais, porque fizemos. [...] Tem meu trabalho nisso, eu me sinto absolutamente legitimada para achar que nesses 76% [de aprovação de Lula] tem uma parte que eu contribuí.
– O PMDB se encaminha pra indicar Michel Temer para vice. Qual é a sua relação com o deputado? Tenho uma ótima relação com Michel Temer, respeito bastante o deputado, acho ele uma pessoa talentosa, bom articulador político, excelente presidente da Câmara, uma pessoa tranquila, não aposta no conflito, trabalha no acordo e no consenso. [...] Considero o Michel Temer uma pessoa de qualidades excepcionais.

 

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Escrito por Josias de Souza às 04h52

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Aécio: ‘Grande incógnita é relação de Dilma com PT’

  Folha
Aécio Neves diz que a “grande incógnita” embutida na candidatura de Dilma Rousseff é a relação da preferida de Lula com o PT.

 

Sobretudo a relação com dois pedaços do petismo: “O ideológico, do Estado máximo” e o PT “dos problemas éticos”.

 

Candidato a uma cadeira no Senado, o ex-governador mineiro falou à repórter Christiane Samarco.

 

Durante a conversa disse que Dilma terá de explicar “qual será a presença desses setores ideológicos do PT e dos aloprados no seu eventual futuro governo”.

 

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui. Vão abaixo algumas das principais declarações de Aécio:

 

 

- O discurso inaugural de Serra: Foi um discurso conceitual. Ele precisava abordar vários temas, fez críticas objetivas à ação do governo - jamais pessoais, o que achei muito positivo. Eu procurei falar antes dele, para superar constrangimentos de setores do PSDB que se atemorizam com a proposta do debate FHC x Lula. Há razão para temer comparação? Ao contrário. Vamos para o embate. [...] Não tenho dúvida de que nós do PSDB sempre tivemos muito mais generosidade para com o país do que o PT. Busquei despersonalizar a disputa, refazer o passado. A partir daí vamos discutir o presente.

- O discurso de Aécio, um tom acima do habitual: Acho importante que o Brasil saiba qual é e qual foi a postura do PT nos momentos mais graves até aqui. O que me incomoda é ver o PT tentando vender aos brasileiros a ideia de que o Brasil das virtudes e do desenvolvimento foi construído por eles, quando, em vários momentos cruciais, eles preferiram priorizar o projeto partidário ao nacional. Negaram voto a Tancredo, apoio a Itamar Franco, porque Lula já aparecia em posição boa nas pesquisas para presidente, e na construção da estabilidade, no governo FHC.

- Falou do PT, mas omitiu o nome de Dilma. Por quê? Eu tenho respeito pessoal pela Dilma e acho que esta campanha não pode ser personalizada. Se formos por este caminho, ela perde a essência, se amesquinha. Quero dizer o que o PT no governo representa. Principalmente o PT sem o pragmatismo e a autoridade de Lula, que o enquadrou na manutenção da política econômica atual.

- A relação de Dilma com o PT: Esta é a grande incógnita. Ela terá que demonstrar durante a campanha como será a relação com o PT, como virá o PT ideológico do Estado máximo e que presença o PT dos problemas éticos terá no governo. Foram todos absolvidos e, no lançamento da candidatura dela, estavam muito sorridentes.

[...] A Dilma terá dificuldades e esta é uma preocupação que permeará a campanha.

- A alegada falta de empenho que resultou na derrota de Alckmin em Minas, em 2002: Isso é falso. Está na cabeça de um ou outro áulico que não conhece Minas. Recebi um telefonema do governador Alckmin na quinta-feira, para dizer que não se lembra de ninguém que tenha se empenhado tanto na eleição dele como eu. O resultado da eleição você não define. O empenho sim, e este Serra terá. Alckmin e Serra, em 2002, tiveram. Só que disputavam com Lula, que era muito popular. Será que Alckmin teria os 40 e muitos por cento que teve em Minas não fosse o empenho muito grande nosso?

- Com Dilma a vitória em Minas é mais fácil? Lula é um adversário muito mais difícil. Agora, não prometo vitórias. Prometo o empenho, que será de todos nós. Ninguém fez mais gestos em favor da unidade do partido e demonstrou mais desprendimento do que eu. E não fiz isto com má vontade, contrariado. Apostei em uma proposta, apresentei ao país. Quando vi que o PSDB caminhava em outra direção e que insistir poderia provocar um cisma no PSDB, privilegiei o projeto de país porque acho extremamente importante que este ciclo que está aí se encerre.

- O ciclo do PT não foi positivo? Reconheço virtudes no presidente Lula, mas acho que o PSDB está muito mais preparado hoje para acabar com esse aparelhamento absurdo da máquina pública. E a ministra Dilma, com os méritos que tem, terá que entrar no debate de forma muito clara sobre o espaço desse PT ideológico, estatizante, que aparelha o Estado em razão da filiação partidária, o coloca a serviço de seus interesse, e muitas vezes insinua ações de restrição à liberdade de imprensa e às conquistas democráticas.

- O debate Serra x Dilma: Esse é bom para nós também porque os nossos modelos de gestão vão estar em debate. Vamos demonstrar que a meritocracia é o antídoto ao messianismo, porque ela te permite dados objetivos de avaliação dos resultados na vida das pessoas. Os que apostam no messianismo, nos discursos e na autoproclamação da própria bondade temem essa comparação. [...] Lula será sempre reconhecido pelo Brasil como um presidente extremamente importante em um momento da nossa história. A perpetuação do PT no poder não é boa para o País.

- A comparação das biografias de Serra e Dilma: São duas pessoas dignas, com histórias de vida respeitáveis e nós temos que partir deste pressuposto. O Serra resgata a eficiência na gestão pública como instrumento dos avanços sociais e representa uma política externa muito mais afim aos interesses do Brasil, inclusive os comerciais e pragmáticos, e não uma aliança meramente ideológica. Não há hipótese de interromper programas que estão dando certo, mas podemos aprimorá-los.

- E quanto a Dilma? O grande senão que se coloca em relação a ela - e aí é um preço que ela paga exatamente por não ter tido a experiência de comando no Executivo, nem mandato eletivo - é qual será a presença desses setores ideológicos do PT e dos aloprados no seu eventual futuro governo. Ela terá que dizer aos brasileiros exatamente o que pensa de modelo de Estado, das instituições democráticas, da liberdade de imprensa, do aparelhamento do Estado e desse inchaço da máquina pública.

 

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Escrito por Josias de Souza às 05h33

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Serra: ‘Tema da eleição é o futuro, não é o passado’

‘Lula não é  candidato, e  a Dilma  Rousseff  não é o  Lula’
Governo Lula ‘trouxe  alguns avanços.  Foi  ágil na  crise’
‘Brasil não é país construído.  Há muita coisa a ser  feita’
‘O Estado  no Brasil é  obeso.  Defendo um Estado  ativo’
‘Sou a  favor da  existência de  Banco do  Brasil e  Caixa’
‘Defendo concessão de aeroportos,  não a  privatização’
‘Tripé [inflação-câmbio-responsabilidade] veio pra ficar’
‘Os  escândalos,  no Brasil,  não  são  exclusivos  do  PT’ 

  Marcello Casal/ABr
Neste sábado (10), José Serra entra oficialmente na corrida presidencial. Vai à disputa com a disposição de produzir algo parecido com uma mágica. Candidato de “oposição”, foge do figurino do anti-Lula. Esquiva-se de fazer críticas frontais ao presidente superpopular.

 

Promete, na essência, algo muito próximo da “continuidade”. Com uma diferença: declara-se mais preparado do que a rival Dilma Rousseff. Esmiuçou suas ideias numa entrevista aos repórteres Alberto Bombig, Guilherme Evelin e Helio Gurovitz.

 

O resultado foi às páginas da última edição da revista Época, que começa a circular neste sábado. A íntegra pode ser lida aqui. Na conversa, em vez de criticar, Serra elogia Lula. Reconhece que o país avançou em várias áreas.

 

Ao situar as conquistas na linha do tempo, cuida de recuar a um período que inclui as duas gestões do amigo Fernando Henrique Cardoso: “25 anos”. Vai abaixo o que há de essencial sobre o pensamento de Serra:

 

- Por que um brasileiro deve votar em Serra? Eu me considero preparado para esse desafio. É algo para o qual eu talvez tenha me preparado a vida inteira. [...] Você se candidatar e chegar à Presidência, além de uma decisão pessoal, envolve muito destino.

– O que mudou em relação à derrota na campanha presidencial de 2002? Aprendi bastante desde lá. Aprendi com a derrota. Aprendi com a reflexão. Aprendi com a prefeitura, aprendi com o governo de São Paulo. [...] Eu me considerava preparado em 2002. Mas hoje eu estou mais preparado que em 2002.

– Lula tem altíssimos índices de aprovação. Como convencer o eleitor a votar em Serra?O tema da eleição é o futuro, não é o passado. As pessoas vão eleger quem vai dirigir o país nos próximos anos. O Lula não é candidato, e a Dilma não é o Lula. [...] Nós vamos dar um passo para o futuro a partir de um diagnóstico atual sobre o que pode ser feito para o Brasil ter mais. Basicamente isso.

– Que avaliação faz do governo Lula? Trouxe alguns avanços, sim. Acho que, por exemplo, foi bastante ágil durante a crise internacional.

– A impressão é que o país nunca esteve tão bem. O sr. diz que o Brasil pode mais. O que é esse mais? O Brasil não é um país construído. Há muita coisa a ser feita. [...] Você tem muitas coisas por fazer. A retomada do crescimento é promissora, mas ela tem de ser sustentável ao longo dos anos...

– O Brasil hoje, na comparação com o país da sua juventude, melhorou na oferta de oportunidades? Nos últimos 25 anos, o Brasil avançou bastante. Nós tivemos a redemocratização, uma Constituição que garantiu a democracia, a pluralidade e avanços sociais significativos. Nós tivemos também um fortalecimento da agricultura, um avanço de eficiência na indústria. Temos um sistema financeiro muito sólido. Conseguimos domar a superinflação com o Plano Real. Entramos numa era de responsabilidade fiscal. Avançamos muito na área da saúde, com o SUS, e na da educação, no que se refere à inclusão. Reduzimos a pobreza. Isso tudo é fruto desses 25 anos. Mas falta muito ainda, né? [...] Que o Brasil pode mais, eu tenho certeza. O problema é como fazer.

– Qual é sua posição sobre o papel do Estado? O Estado no Brasil é um pouco obeso. Eu defendo um Estado ativo, que se contrapõe ao Estado paternalista e produtor do passado e ao Estado da inércia e da pasmaceira. Minha opção não é intermediária, mas nova. [...] Se você incha o Estado, você até o enfraquece. A obesidade é uma doença. Não é uma virtude física...

– Na prática, um Estado ativo significa o quê? Eu não sou a favor do Estado produtor como ele era no passado, mas isso não significa que você vai retirar o Estado de tudo. Sou a favor do Estado eficiente naquilo que faz e ativista, insisto. É o Estado que regulamenta, em vez de intervir. [...] Agora, eu sou a favor da existência de banco nacional, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica...

– Vai manter o tripé baseado em metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal? Olha, sem ser pretensioso, eu tenho a impressão de que quem fez a denominação “tripé” fui eu. [...] Esse tripé está aí para ficar.

– Não não há o que mexer? Não. Agora, a forma como você aplica cada uma das coisas não é única, sempre é determinada. Nós não estamos falando de ciências matemáticas ou físicas. E mesmo as físicas, hoje, já são relativas.

– O que acha da idéia de dar autonomia para o BC? O BC brasileiro já tem bastante autonomia na prática. Quando falam que querem fazer um banco igual ao FED [banco central americano], isso, na verdade, implicaria ter de mudar totalmente o BC, porque o FED, por exemplo, não tem a função de supervisão bancária. Você teria de fazer uma legislação muito complexa. Não creio que seja necessário.

– Privatização virou palavrão no Brasil. Mas há casos, como o dos aeroportos, em que ela parece ser indispensável, não? O termo correto não é privatização, é concessão. Concessão tem um contrato, regras, pode ser quebrada. É completamente diferente de privatização. Eu defendo a concessão de aeroportos. [...] Não é que a concessão é a salvação da lavoura. Mas, quando você faz uma concessão, você tem um cronograma. É a via mais rápida e mais eficiente.

– O governo Lula se aproximou de Cuba, Venezuela e do Irã. Qual é sua opinião sobre essa política externa? Defendo a política de autodeterminação. Você não deve interferir nos assuntos de outros países. Por outro lado, nós temos também uma responsabilidade com direitos humanos e com democracia. O Brasil deve fazer ativamente todas as gestões que puder fazer no sentido de serem respeitados os direitos humanos. Um princípio tem de ser claro. Onde há preso por opinião, não há uma democracia. Isso não significa que não vamos ter relação com esse ou aquele país...

– Como o senhor vê sua principal adversária, Dilma Rousseff? Fica meio despropositado como competidor analisar agora cada uma das pessoas. Sempre tive relações cordiais com ela. Espero que a campanha seja cordial dentro do possível.

– Ao se despedidir do governo de São Paulo, disse que não permitiu “roubalheira”. Foi uma referência aos governos petistas?  [...] Eu estava sublinhando a importância desse valor. A imprensa deu uma ênfase ao que era uma parte restrita do discurso, e alguns vestiram a carapuça sem que minhas palavras tivessem sido direcionadas. Você vai olhar os escândalos no Brasil. Não são exclusivos do PT.

 

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Escrito por Josias de Souza às 04h53

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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