Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Entrevistas

Jarbas: grupo anti-Sarney ‘pode ser reduzido a dez’

José Cruz/ABr

 

Dissidente do PMDB e ferrenho opositor de José Sarney, Jarbas Vasconcelos (PE) ruminava na noite passada “o gosto amargo da derrota”.

 

Em entrevista ao blog, revelou-se decepcionado com o esfriamento dos ânimos da oposição. “É claro que o arrefecimento é ruim. Pode levar à desmotivação”.

 

De sua parte, diz que vai “continuar falando”. Acha que não ficará só. Mas reconhece:

 

“Pode ser reduzido a algo como dez senadores” o grupo disposto a continuar deblaterando conta o bloqueio às investigações no Senado.

 

“O importante é que esse grupo, ainda que não chegue a uma dezena, vai fazer tudo para que as coisas não passem em branco”.

 

Abaixo, a entrevista:

 

 

- Houve acordo?

Até onde pude acompanhar o processo, não vi acordo. Até porque havia uma consciência de que isso levaria a oposição à desmoralização.

- Mas houve um recuo no discurso, não?

Houve. Atribuo esse recuo à desarticulação da oposição. Temos uma organicidade reduzida demais.

- Se não houve acordo, o que aconteceu?

A gente ficou na dependência do PT, que ziguezagueou o tempo todo. A vitória de Sarney deve ser creditada ao PMDB e a Lula. O PMDB fez ameaças a Lula, que interveio no PT.

- E quanto ao comportamento da oposição?

Ela continua tímida e desorganizada. Isso também influenciou muito. Essa onda de acordão não surgiu do nada. A oposição deu ensejo a isso quando arrefeceu e permitiu que fossem criados hiatos no processo. O esforço precisa ser contínuo.

- Que análise faz do resultado?

Com esse Conselho de Ética, estava claro que a gente não conseguiria nada. Tínhamos cinco votos num universo de 15. E do lado de Sarney havia uma tropa de choque agindo fora de todos os limites.

- A ação da tropa de choque levou à contemporização, não?

Tive essa impressão também. Mas a nossa desorganização contribuiu muito para o desfecho. E veio a tibieza do PT. Hora nenhuma o PT deixou claro que se insubordinaria às ordens de Lula. O PT jogou muito mal.

- Poderia ter jogado de outro jeito?

Claro que sim. Veja a situação da bancada do PT. Ficou em frangalhos. A manifestação do senador Flávio Arns [PT-PR], homem tradicionalmente moderado, diz tudo. Ele não suportou o quadro que viu.

- A crise vai murchar?

Não. Esse resultado expôs ainda mais as entranhas do Senado. A estratégia de Sarney pode dar a ele alguma sobrevida, não vida eterna.

- Por que não?

As denúncias não vão parar. Boa parte das notícias foi feita com base em investigação da Polícia Federal. Não foi a oposição que inventou. Mantendo-se esse quadro de denúncias, o Senado ficará em situação mais vexatória.

- Acha que a oposição está disposta a esticar a corda?

Não creio. O DEM, para chegar onde chegou, não foi fácil. O Agripino [Maia] fez das tripas coração. O partido tem muitas pessoas ligadas a Sarney.

- Não se sente frustrado?

Muito frustrado. É uma decepção profunda. Um gosto amargo de derrota. Mas tenho a consciência de que estamos contribuindo para expor o que é o Senado, uma Casa que clama por reformulação.

- Não receia ficar falando sozinho?

Vou continuar falando. Acho que sozinho eu não fico. Mas mesmo que fique com alguns poucos, acho que é importante a gente continuar falando. Isso não é ser cavalo do cão nem dom Quixote. É claro que o arrefecimento é ruim. Pode levar à desmotivação. Mas não creio que um pequeno grupo continuará na briga.

- Vai assinar o recurso contra o arquivamento das ações?

Já assinei. Seria muito importante que DEM e PSDB também assinassem. Mesmo que não fossem todos, mas a maioria das duas bancadas.

- Não acha curioso que a iniciativa do recurso tenha partido do PSOL?

O ideal era que não fosse comandado pelo PSOL. A iniciativa deveria ter sido de um grande partido.

- Fica claro o arrefecimento da oposição, não?

Sim, claramente. O que é uma pena. Sempre externei esse receio nas nossas minhas conversas. Disse que, se a leitura da imprensa fosse a de que tinha havido um acordo, isso nos desmoralizaria. Se a gente não tivesse jogado todas as fichas no PT, esse cheiro de acordão não teria chegado perto da oposição. Perdemos porque o PT, sob ordens de Lula, negou seus três votos no conselho.

- Não lhe parece que o cheiro de acordo se deve ao recuo da oposição diante das ameaças do PMDB de Renan Calheiros?

Ficou, de fato essa impressão. O próprio discurso de Tasso Jereissati, feito há 15 dias, deixou essa impressão. Ele foi à tribuna para pedir desculpas. Chegaram a noticiar que tinha se desculpado com Renan. Uma inverdade. Ele se desculpou à sociedade por ter se deixado envolver num episódio lamentável. A investida de Renan e Collor contra Simon também deixou amedrontada muita gente. Tudo isso somado à nossa desorganização e às intervenções antiéticas de Lula levaram a esse resultado desastroso.

- Sarney disse que o Senado voltará ao normal. Concorda?

O Sarney diz cada coisa! É claro que não vai voltar ao normal. Não creio que ele vá presidir a Casa como se nada tivesse acontecido. As denúncias não vão estancar.

- Que tamanho terá agora a bancada anti-Sarney?

Nesse ‘day after’, não podemos fingir que nada aconteceu. Pode ser que alguém desapareça do processo. Certamente teremos perdas. Mas não creio que haja recuo de pessoas como Demóstenes Torres, eu e Pedro Simon, Tião Viana, Cristovam Buarque, Álvaro Dias, José Nery e outros.

- Sua lista traz sete nomes. Não é pouca gente?

Torço para que o grupo seja maior, mas reconheço que pode ser reduzido a algo como dez senadores. O importante é que esse grupo, ainda que não chegue a uma dezena, vai fazer tudo para que as coisas não passem em branco. Insisto: Não se pode fingir que nada aconteceu.

Escrito por Josias de Souza às 04h44

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Mercadante: ‘Minha disposição é de sair da liderança’

  Fábio Pozzebom/ABr
Desautorizado pela direção do PT e sob críticas de Lula, Aloizio Mercadante é, hoje, um líder em litígio com a cadeira.

 

Em menos de 48 horas, pôs o cargo “à disposição” da bancada duas vezes. Acena com a hipótese de tomar uma decisão nesta quinta (20).

 

Na noite passada, falava como um quase-ex-líder. Em entrevista ao blog, Mercadante declarou:

 

“A minha disposição é de sair da liderança. Pra mim, o posto de líder tornou-se um sacrifício político e pessoal muito grande”.

 

Abaixo, a entrevista:

 

 

- Por que se recusou a ler a nota do PT no Conselho de Ética?

Queriam que eu lesse a nota. Poderia ter lido. Mas a nota está assinada pelo [Ricardo] Berzoini [presidente do PT] e não expressa a minha posição.

- Qual é a sua posição?

Minha posição é a da maioria da bancada do PT. Éramos contra o arquivamento de todas as ações em bloco. Defendíamos a apuração dos casos que dizem respeito ao Senado, como os atos secretos.

- Essa fórmula é endossada por quantos senadores?

Na reunião da bancada [realizada nesta quarta (20)], seis senadores sustentaram essa posição. Antes, havia também a Marina, que deixou o partido, e o Flávio Arns, que sinalizou a saída.

- Por que não renunciou à liderança?

Eu expus à bancada a minha avaliação política de que deveria deixar a liderança. A posição da bancada foi desconsiderada no final. O partido tinha apoiado o nosso encaminhamento. Depois, houve essa mudança importante.

- Por que permanece líder?

Eu disse à bancada: não quero mais ficar na liderança, não me sinto em condições. Os sete senadores presentes me pediram: Não faça isso, especialmente nesse momento de crise da bancada.

- Cedeu aos apelos?

Eu disse: meu cargo continua à disposição. Ficou em aberto. A minha disposição é de sair da liderança. Pra mim, o posto de líder tornou-se um sacrifício político e pessoal muito grande. O líder tem que pagar um preço pela situação criada. Sou responsável pela indicação dos membros do Conselho de Ética.

- Sente-se desautorizado?

Houve uma decisão partidária que se sobrepôs à bancada.

- É normal?

A bancada é uma instância partidária. Estatutariamente, ela é subordinada à direção partidária. E a direção tomou uma decisão diferente da nossa.

- Em nome da ‘governabilidade’, o governo interveio. Havia alternativa?

Acho que havia um risco grande para o governo, que tem maioria precária no Senado. Haveria abalos à base de sustentação. Mas havia uma saída, que lutei para construir. Durante um período, tive apoio de muitas lideranças da base do governo e do partido.

- Lula errou ao sair em socorro de Sarney?

Não falo do presidente. Digo que o governo tem uma coligação de 11 partidos. Precisa de estabilidade, que vem com os votos no parlamento. A correlação de forças é muito difícil. Mas a bancada do PT é uma instância do partido e precisa ser respeitada. Nem sempre a posição do governo tem que ser a posição da bancada. Nesse episódio não foi.

- Flávio Arns disse que o PT jogou a ética no lixo. Concorda?

Não concordo com essas expressões. Elas simplificam o problema. Estão motivadas por uma decisão política do Flávio Arns de sair do partido. Decisão que já estava sendo construída antes desse episódio. Do mesmo modo que a Marina [Silva] saiu hoje, mas a decisão não está vinculada a esse episódio.

- A oposição diz que o PT salvou Sarney. O que acha?

A oposição mudou de atitude ao longo da crise. Fez uma inflexão no comportamento. Alguns senadores sequer foram votar. Fizeram um entendimento em relação a encaminhamentos.

- Houve um acordo?

Lógico que houve um entendimento entre a oposição e o PMDB. As decisões do Conselho de Ética são resultado desse entendimento. Não conheço os termos. Não participei.

- Mas, efetivamente, os três votos do PT salvaram Sarney, não?

A oposição tenta fazer desse episódio uma luta político-eleitoral, para desgastar o governo.

- Está funcionando, não?

Há dificuldades. O DEM é parceiro do PMDB em toda a gestão do Senado. Nos últimos 14 anos, eles sempre estiveram ou na presidência ou na primeira-secretaria. A administração da Casa sempre esteve sob a responsabilidade do DEM e do PMDB. Além disso, o DEM elegeu o Sarney. Quem se opôs ao Sarney fomos nós e o PSDB.

- Faz uma distinção entre DEM e PSDB?

A oposição está dividida nesse processo, sempre esteve. A base do governo também está dividida. É preciso distinguir o PSDB do DEM em todo o processo.

- Qual é a diferença?

A diferença é que os tucanos não votaram no Sarney e nunca tiveram uma responsabilidade direta na administração do Senado.

- Mas o PSDB não fez também uma inflexão no discurso?

Sim. Aconteceu. Eles ficaram muito expostos e fragilizados.

- Que futuro antevê para o Senado?

Vejo um cenário de muitas dificuldades. A crise não será superada com esse encaminhamento. Por isso defendíamos que houvesse investigação daquilo que diz respeito ao Senado. Identificaríamos responsabilidades e construiríamos caminhos.

- Para Sarney, o Senado retomará a normalidade. Concorda?

Não. Arquivar todos os processos e imaginar que a crise passou é um grande equívoco. O tempo vai mostrar. Para resolver a crise precisava investigar, identificar responsabilidades, cortar despesas e reformar. A normalidade só vai voltar quando o Senado restabelecer as suas relações com o sentimento do povo brasileiro. Com essa decisão, a relação não está reconstituída.

- Receia que a crise do Senado lhe imponha custos eleitorais?

A crise impõe custos a todos os senadores. Mais para aqueles que defendem a saída que prevaleceu. Mas, como disse, a crise não acabou. É um processo em curso. Muita coisa vai acontecer.

- Mantendo-se na liderança do PT, o custo não aumenta?

Politicamente e do ponto de vista pessoal, o melhor caminho é me afastar da liderança. E essa não é uma hipótese descartada.

Escrito por Josias de Souza às 03h09

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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