Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Entrevistas

Líder do PT diz que Dilma é ‘um assunto resolvido’

‘Ministra já não é  candidata apenas do Lula, mas do PT’
‘Trabalhamos para juntar o PMDB e o bloco’ no 1º turno’
‘Eu Defendo que o [candidato a] vice seja Michel Temer’
‘O problema de saúde  da  ministra não altera os planos’
‘Gilberto Carvalho é o favorito  para a presidência do PT’ 

Diógenes Santos/Ag.Câmara

 

Líder do PT na Câmara, o deputado Cândido Vaccarezza é um entusiasta da candidatura presidencial de Dilma Rousseff.

 

Diz que o nome de Dilma está consolidado em todas as correntes do petismo. Declara que a revelação de que a ministra arrosta um câncer não muda o quadro.

 

Há três semanas, o líder reuniu sua bancada em torno da ministra. Dilma falou sobre a crise. A certa altura, perguntaram-lhe sobre a candidatura. Desconversou.

 

A ministra “disse que, na hora em que ela se colocasse como candidata, não poderia mais ser ministra”, conta Vaccarezza.

 

Em entrevista ao blog, o líder petista discorreu sobre a estratégia do PT. Passa pela troca da direção, pela costura de alianças e pela elaboração de um programa.

 

Vai abaixo a entrevista:

 

 

- Há dúvidas no PT quanto à candidatura de Dilma?

Não. Esse é um assunto resolvido para todas as correntes do PT: os deputados federais, os senadores, os dirigentes e até os sindicalistas. A ministra já não é candidata apenas do Lula. Ela agora é candidata também do PT.

- A notícia de que a ministra luta conta o câncer não muda  essa realidade?

Não altera em nada. O linfoma é, hoje, perfeitamente tratável. Sobretudo quando detectado em estágio inicial, como no caso da ministra Dilma. Isso tudo será superado. E a candidatura mantida.

- O partido já definiu a estratégia?

Não. Nesse ano de 2009, o PT vive um processo de mudança de sua direção. Além disso, o partido montará um programa de governo. Não dá para definir estratégia antes de ter um projeto de longo prazo.

- O projeto já foi ao forno?

Atravessamos uma fase peculiar. É como se trocássemos de roupa andando. Temos de mudar a direção, discutir o programa e responder à crise financeira. Então, diria que está tudo em gestação.

- O sucessor de Ricardo Berzoini será Gilberto Carvalho?

Gilberto Carvalho tem o apopio de 80% dos deputados federais, 70% dos senadores e 80% da base do partido.

Falta apenas o presidente Lula liberá-lo. Ele é o favorito. Creio que ficará muito difícil o presidente da República não liberar. A troca da direção vai ocorrer no final do ano.

- Dilma Rousseff partilha dessa preferência pelo Gilberto?

A minsitra teve uma reunião com a bancada do PT há três semanas. Nesse encontro, ela disse que prefere que Gilberto Carvalho seja o presidente do partido. Estavam presentes 67 dos 77 deputados federais do PT.

- Discutiu-se a candidatura presidencial nessa reunião?

Não. O encontro foi para debater a conjuntura econômica.

- Com todos esses deputados não se falou de 2010?

Quando foi instada a falar sobre a candidatura, a ministra fez questão de dizer que ainda não é candidata. Disse que estava ali como militante do partido.

- E a bancada acreditou?

A ministra desenvolveu um raciocínio lógico. Disse que, na hora em que ela se colocasse como candidata, não poderia mais ser ministra. Afirmou também que esse é um tema que o partido tem que resolver, não ela.

- A formalização se dará apenas em 2010?

Para o PT, já está resolvido. Para a base aliada do governo, ainda não. Temos que construir a candidatura junto com os nossos aliados. O PMDB tem o direito de lançar o seu nome. O bloco [PSB, PDT e PCdoB] também tem direito de ter o seu nome. Nós trabalhamos para juntar o PMDB e o bloco em torno da candidatura de Dilma.

- De onde viria o vice?

Nesse ponto, vou expressar a minha posição. Defendo que o [candidato a] vice da ministra seja o deputado Michel Temer [presidente do PMDB e da Câmara].

- Por quê?

Minha impressão é de que o melhor é que o vice seja do PMDB e de São Paulo. Esse Estado precisa estar representado na chapa.

- Essa sua posição encontra guarida no partido?

Creio que ela encontra muita guarida no partido. Trabalho para que essa posição prevaleça.

- Já conversou com Temer a respeito?

Não poderia falar publicamente se não tivesse tratado com o deputado Michel Temer.

- E ele?

Bem, ele é presidente do PMDB. Está licenciado. Mas é o presidente. Precisa costurar, primeiro, alternativas do PMDB. No momento apropriado, eles terão a definição deles.

- Toda essa protelação favorece a oposição, não?

Não vejo assim. Primeiro, há um rito a seguir. A lei impõe limites. Só podemos oficializar a candidatura no ano que vem. E os nossos rivais estão divididos. Só vejo vantagens em deixar para depois.

- Qual é a vantagem?

Nossa vantagem decorre do fato de que nós já estamos resolvidos. Nossos adversários, ao contrário, estão com muitos problemas. Além de não ter discurso, estão divididos.

- O que acha da tese do PSB de Ciro Gomes segundo a qual o governo deve ter mais de um candidato, sob pena de perder para José Serra no primeiro turno?

Não concordo de jeito nenhum. Creio que, se formos à disputa com a base unida, temos todas as condições de construir a vitória no primeiro turno.

- De onde viria essa facilidade?

Se estivermos unidos, fica muito mais fácil fazer a campanha, será mais fácil defender a continuidade do governo Lula na figura da ministra Dilma. Juntos, daremos mais solidez ao discurso da continuidade.

- Discurso de continuidade ganha eleição?

O que digo é que vamos defender a manutenção dos acertos e a correção dos erros do governo. A gestão do presidente Lula é um sucesso. Mas ninguém governa oito anos sem cometer erros. O próprio presidente acha que tem coisas que poderiam ter sido feitas e não foram. Tem ajustes para fazer.

- Não soa otimista demais dizer que Dilma pode prevalecer no primeiro turno?

Se tivermos apenas dois candidatos fortes –um do governo e outro da oposição—, a definição virá no primeiro turno. Os outros candidatos que eventualmente apareçam dificilmente somarão votos sucificientes para levar a disputa para o segundo turno.

- As pesquisas atribuem favoritismo a José Serra, não?

Se você lembrar dos índices do [Gilberto] Kassab e do [Geraldo] Alckmin no início da disputa do ano passado, em São Paulo, vai ver que, numa eleição majoritária, pesquisas feitas com mais de um ano de antecedência não tem importância nenhuma.

Nessa mesma época, na eleição municipal de São Paulo, a vitória de Alckmin era dada como certa no primeiro turno. E o Kassab não existia do ponto de vista eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 03h37

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Câmara vai expor gastos com passagens na internet

Sob críticas, Mesa diretora faz nova reunião após feriado
Vão à web também as despesas com telefone e Correios
Estudo pedido por Temer veda bilhetes para os parentes
Discute-se ainda poda nos gastos e unificação das cotas 

José Cruz/ABr

 

Rafael Guerra (PSDB-MG) é o primeiro-secretário da Mesa da Câmara. Opera como uma espécie de “prefeito” da Casa. Pela mesa dele passam todas as despesas.

 

Foi ao deputado Rafael que Michel Temer (PMDB-SP) encomendou o estudo que deve levar “à reestruturação geral e definitiva de todos pagamentos” feitos pela Câmara.

 

Na noite desta segunda (20), Rafael Guerra esmiuçou ao blog as providências que serão debatidas em reunião que a Mesa da Câmara fará depois do feriado.

 

Nesse encontro, a direção da Casa deve fazer por pressão o que não fez por obrigação na semana passada. Abaixo, em duas partes, a entrevista do primeiro-secretário:

 

- Que mudanças estão em estudo?

Não posso adiantar muito. Seria uma descortesia com os demais membros da Mesa. Posso dizer que estamos fazendo uma análise profunda. Buscamos inclusive dados relativos a outros países.

 

- Quais países?

Tenho comigo um documento sobre o Congresso dos EUA. Nesta quarta-feira me chegam dados sobre Parlamentos de Portugal, Espanha, Itália e três países da América Latina: Argentina, Chile e Uruguai. São iformações que nos oferecem parâmetros. Ajudam na tarefa de estabelecermos regras definitivas.

 

- Na comparação com os EUA, nossos parlamentares custam mais ou menos?

Custam bem menos. Mas quero deixar claro que estamos recolhendo essas informações apenas a título de subsídio. É evidente que não podemos tomar os EUA como referência.

 

- Quanto custa um parlamentar para o Tesouro americano?

Há diferenças. Lá, os assessores parlamentares não são contratados pelo Congresso, mas pelos próprios congressistas. No nosso caso, a Câmara disponibiliza a cada parlamentar R$ 60 mil mensais para o pagamento de assessores.

 

- A despeito das diferenças é possível traçar algum paralelo?

Fiz uma conta em reais. Nos EUA, o custo de um parlamentar é de algo em torno de R$ 260 mil por mês. Aqui, incluindo os assessores dos gabinetes, fica em torno de R$ 120 mil. Agora teremos os dados de outros países. Até porque não dá para a gente basear as nossas contas na realidade americana, que é muito diferente da nossa.

 

- Há algo que já esteja definido?

Uma coisa que já está clara é que, a exemplo do que já foi feito com a verba indenizatória, todos os gastos vão para a internet a partir de agora.

 

- Inclusive as cotas de passagens aéreas?

Tudo na internet. A verba indenizatória, que já está, e as cotas de passagens, de postagem e de telefone. A divulgação é uma proteção para nós mesmos. Definimos as normas e levamos à internet. Quem fizer alguma coisa que não esteja de acordo, vai responder.

 

- Isso está decidido?

Está praticamente certo. Já conversei inclusive com o Michel [Temer, presidente da Câmara]. Vamos fazer uma reuniao da Mesa, nesta semana, para formalizar isso. Mas pelo que já ouvi, conversando com outros membros da Mesa, todos concordam que não tem mais condições de trabalharmos sem transparência.

 

- Como se chegou a essa conclusão?

Estamos na era da internet. E não parece razoável que o Parlamento brasileiro queira se manter como se estivéssemos no tempo Império. Hoje, o brasileiro tem direito à informação. E esse acesso tem de ser facultado por nós.

 

- Os 513 deputados concordam com esse raciocínio?

Quem observa o plenário percebe que o Parlamento vive um momento delicado. Os deputados estão desestimulados, estão de cabeça baixa, estão querendo que a gente faça alguma coisa que dê certo. Sinto isso. Ninguém agüenta mais.

 

(Continua no texto abaixo...)

Escrito por Josias de Souza às 04h59

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‘Passagens só para uso do parlamentar, em serviço’

  Antônio Cruz/ABr
-
Acha que a imprensa exagera?
A imprensa faz um bom trabalho. Essa cobrança por transparência é correta. É a partir da denúncia que a gente conserta as coisas erradas.

 

- A cessão de passagens a terceiros é prática generalizada. O próprio Temer, em nota, admitiu ter cedido bilhetes a parentes. A disseminação não produz resistência à mudança?

Acho que, ao contrário, vai facilitar a mudança. Ninguém quer isso mais. Veja o meu caso. Tenho dez anos de mandato. Minha esposa não gosta de ir a Brasília. Mas, nas poucas vezes em que ela foi, usou passagens da cota do meu gabinete. Sempre achei que era uma coisa mais do que natural. Agora, já estou achando que não podemos continuar assim.

 

- Essa prática vai ser alterada também?

Acho que essa cota de passagens é só para o uso do parlamentar, em serviço. E acabou.

 

- Não utilizou para viagens ao exterior?

Não. Minha família jamais viajou ao exterior com esse recurso.

 

- A Mesa aprovará esse entendimento mais restritivo?

Essa coisa da família vem um pouco da tradição. Quando o Congresso era no Rio de Janeiro, o parlamentar mudava com a família para o Rio, uma cidade agradável. Veio a mudança da capital para Brasília. Se não dessem nenhuma compensação, o Congresso não aceitava a mudança. Hoje, temos de dar outra solução. O deputado vai ter de assumir a despesa da família. Terá de usar a passagem apenas em serviço. Para ele e para o assessor que viaje a serviço, com justificativa. Creio que ninguém vai contestar.

 

- Essa regra é bem mais restritiva do que a aprovada na semana passada, não?

Bem mais restritiva. Agora, só a serviço. E só o parlamentar e o assessor credenciado, sob a responsabilidade do parlamentar e em missão de serviço.

- Isso passa na Mesa?

 

A impressão que tenho é de que vamos chegar a esses pontos: limitação da cota, estabelecimento de uma mesma sistemática para todos os gastos e exposição de tudo na internet.

 

- O que significa fixar uma mesma sistemática para todos os gastos?

Tínhamos discutido isso na reunião da semana passada. Eu disse que nós podíamos adotar para as passagens áreas o mesmo critério da cota de postagens, da cota telefônica e da verba indenizatória. Nesses outros casos, o parlamentar realiza a despesa e só depois pede o reembolso. A Câmara confere o comprovante. Se estiver tudo certo, reembolsa. Caso contrário, não reembolsa.

 

- Esse critério passaria a valer para as passagens?

Na semana passada, o pessoal não se opôs. Mas achou que seria um passo meio grande para aquele momento. Creio que podemos avançar, adotando a mesma sistemática para todas as verbas. No caso das passagens, há ainda uma outra possibilidade: o parlamentar fica autorizado a empenhar uma despesa, a Câmara confere. E paga direto à companhia aérea. Acabaria o adiantamento do dinheiro ao parlamentar.

 

- Como funcionaria o empenho?

Seria um empenho para cada viagem. O parlamentar requisitaria o empenho de uma passagem, por exemplo, para o trecho Brasília-São Paulo. A empresa fornece o bilhete e apresenta a conta à Câmara. Uma fatura única. E a Câmara, em vez de pagar ao parlamentar, paga no final do mês à companhia. É uma hipótese.

 

- Unificando-se a sistemática, não seria razoável unificar todas as despesas numa única cota?

Pessoalmente, defendo a unificação das cotas. Mas esse é um assunto sobre o qual a Mesa ainda precisa deliberar. Suponha que a gente evolua, no caso das passagens, para a sistemática em que o deputado paga e pede o reembolso. Seria um procedimento igual ao da verba indenizatória e ao das cotas postal e telefônica. Então, essas cotas todas, se unificadas, levariam a uma simplificação do sistema de controle. Do ponto de vista administrativo, é muito melhor. Na semana passada, o Michel [Temer] me pediu para apresentar um detalhamento maior. É nessa fase que nos encontramos.

 

- E quanto ao auxílio moradia [R$ 3 mil mensais]?

Esse é outro tema que a Mesa irá discutir. É outra herança da época da mudança da Capital. Criou-se, no Executivo e no Legislativo, a figura do apartamento funcional. Há 50 anos convivemos com isso. No nosso caso, virou uma batata quente.

 

- Por quê?

Temos, na Câmara, mais de 400 apartamentos. Vários deles estão bem estragados. E há parlamentares que optam pelo auxílio moradia. Se vendêssemos os apartamentos e ficássemos só com o auxílio moradia, sairia mais em conta. Mas vender essa quantidade de apartamentos não é coisa simples. Se vende danificado, vai à bacia das almas. Se reforma antes de vender, surgirão as denúnicas de que esse ou aquele foi beneficiado. Estamos na situação do brocardo: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

 

- Vão correr ou vão ficar?

Nesse ponto, vou expressar uma opinião pessoal, não da Mesa. A meu ver o auxílio moradia tem que acabar. Insisto: é posição pessoal, ainda não discutida em detalhes. Creio que ficar com mais de 400 apartamentos e ainda pagar auxilio moradia são coisas incompatíveis. Creio que deveríamos fazer uma reforma nos imóveis que estiverem muito danificados. Reforma emergencial, o mais barata possível. Algo que torne os imóveis habitáveis. Em seguida, acabaríamos com o auxílio moradia.

 

- De tudo o que conversamos, o que está mais próximo de uma definição?

A Mesa vai discutir tudo: redefinição das passagens aéreas, eventual unificação com as demais cotas e o problema do auxílio moradia. Quanto à transparência, em relação à exposição de todos os gastos na internet, não me parece haver mais dúvidas.

Escrito por Josias de Souza às 04h50

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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