Ciro Gomes, o presidenciável do PSB, voltou a expor a cara na vitrine. E o fez à sua maneira, em timbre estrepitoso.
Quebrou o silêncio que se auto-impusera em relação à política econômica da era Lula.
Um silêncio obsequioso, que durou, pelas contas do próprio Ciro, seis anos.
Num encontro do PSB, no Recife, Ciro sentiu-se à vontade para mover os lábios.
Num instante em que o governo reage à crise podando impostos e preservando os juros, Ciro disso o seguinte:
"Reduzir tributos é uma resposta errada, aumentar juros é uma resposta estúpida. Acrescentou um concorrente interno que não precisava existir".
Vão abaixo trechos de uma entrevista do presidenciável veiculada pelo Diário de Pernambuco:

- O Brasil responde bem à crise? Ainda não. Gosto de ver o que o presidente Lula está fazendo ante uma crítica destrutiva dos velhos e de sempre setores aliados da mídia do Sudeste. O papel do presidente da República é animar a sociedade, porque uma fração central dessa crise é subjetiva, é uma crise de confiança [...]. O componente físico da crise também lá fora não tem a ver com o Brasil, porque o juro brasileiro é tão cronicamente alto há tanto tempo que neste mercado louco de derivativos que deu origem à crise internacional os bancos do Brasil não entraram. Porque aplicação financeira é um misto de segurança e rentabilidade. No Brasil, essa política ruinosa de juros ao longo de 25 anos garante segurança e altíssima rentabilidade. Então, os bancos brasileiros não foram e estão especulando com a crise. Essa primeira parte está correta, de tomar iniciativas, mas tem uma questão de modelo. Reduzir tributos é uma resposta errada, aumentar juros é uma resposta estúpida - acrescentou um concorrente interno que não precisava existir.
- Efeitos da crise no Brasil: Desta vez, não quebraremos. Graças ao Lula, nestes dois séculos, dada uma crise de liquidez internacional, pela primeira vez o Brasil não quebra. O efeito será que nós vamos cair para menos da metade a taxa de crescimento econômico. Não acredito que nós iremos crescer a mais de 2,5%. O que não é suficiente para garantir os ganhos de produtividade e a chegada de 2,6 milhões jovens ao mercado de trabalho. O que quer dizer que a taxa de desemprego que caiu em todos os meses do governo lula vai voltar a subir.
- Será candidato em 2010? 2009 vem depois de 2008 e 2010 só depois de 2009.
- E quanto a Dilma? A Dilma é uma pessoa extremamente qualificada, o PT é o principal partido do Brasil, com todos as suas virtudes e mazelas. Então, que eles se preparem para disputar a candidatura e que o capital político do Lula seja emprestado a esse ou aquele candidato e a ministra Dilma tem todas as qualidades. Para mim está dentro do normal, do previsto.
- E o PSB, não terá candidato? O partido tem o Eduardo Campos, que tem todos os talentos e tem uma vantagem com relação a mim, que é essa juventude extraordinária que não tenho mais. Enfim, nós temos vários nomes e o bom é isso, que nenhum de nós está obsessivamente querendo ser candidato. E todos nós, sendo chamados, teremos que ser.
- Qual será o desafio do próximo presidente? Tem o desafio de modelo econômico, que só é possível discutir com paz e com tranqüilidade pelo avanço extraordinário que o governo Lula representou. Por que o Brasil não vai quebrar desta vez? Todas as vezes ao longo de dois séculos, já no governo Fernando Henrique, nós quebramos três vezes. Todas as vezes que a liquidez internacional contraiu uma crisezinha qualquer, o brasil quebrava. Dessa vez, o Lula inverteu a equação. Nós temos mais reservas.
- O que acha da coalização PT-PMDB? A política que o Brasil precisa é volume? Eu acho que não. O PMDB tem grandes virtudes, mas ao mesmo tempo, grandes competições como base. Se essa coalisão PT-PMDB se dá pela contradição e não pelas virtudes, eu me preocupo. Aliás é antiga a minha preocupação, eu fiz essa mesma crítica com Fernando Henrique e a rigor é a mesma turma.
- Por que poupa Lula das críticas? Todos os grandes avanços do Brasil foram Lula contra (a própria máquina do) governo. O Banco Central do Brasil trabalha para contrair o crédito e Lula, para expandir o crédito do BNDES, da construção civil, do Pronaf (agricultura familiar), empréstimos consignados para os aposentados e assalariados do país.


