Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Entrevistas

Para líder tucano, só 'unidade' salva PSDB em 2010

Para líder tucano, só 'unidade' salva PSDB em 2010

José Aníbal atribui popularidade de Lula a três fatores

‘Tem a ver com sorte, astúcia e pragmatismo’, afirma

Acha que, em 2010, presidente será ‘um eleitor forte’

Considera ‘muito provável’ que Dilma vá ao ‘2º turno’

Condiciona o êxito do tucanato à unidade Serra-Aécio

 

  Folha
O líder do PSDB na Câmara falou ao blog na noite desta segunda (22), sob o impacto da pesquisa Sensus: popularidade de Lula em 77,7% e aprovação do governo em 68,8%. Vai abaixo a entrevista do deputado José Aníbal (PSDB-SP):
 

 

- A que atribui a alta popularidade de Lula?

Tem a ver com sorte, astúcia na propaganda e pragmatismo na economia.

- Como assim?

Na eleição passada o Lula criou o biocombustível. Agora, veio com o pré-sal. Ele percebeu, antes de todo mundo, que o pré-sal é um ovo do Colombo em termos políticos. E se não de em nada? Não tem a menor importância. Ele fica alimentando isso. Cria um clímax. Faz da mera possibilidade uma certeza absoluta de que o país será um dos maiores exportadores de petróleo do mundo no curto prazo. E fatura os dividendos políticos.

- Não atribui importâncias aos programas sociais?

Claro que sim. O Lula demorou pra perceber. Começou o governo perdendo tempo com o Fome Zero. Mas logo notou a importância da rede de proteção social iniciada no governo Fernando Henrique.

- Isso não foi correto?

Está certo. Ele pegou o cadastro dos quatro programas criados pelo Fernando Henrique: Bolsa Alimentação, Bolsa Escola, Vale Gás e combate ao trabalho infantil. E unificou tudo num único programa.

- E quanto ao desempenho da economia?

Nesse ponto entra o pragmatismo do Lula. Ele não tem nenhum compromisso de natureza ideológica, zero. É um pragmático.

- Isso é bom ou ruim?

Na economia foi bom. Essa qualidade o levou a se empenhar para preservar os fundamentos econômicos, contra tudo o que preconizava no passado. Isso não é coisa só do [Antônio] Palocci. É do Lula. Se não fosse o Palocci seria outro. O pragmatismo do Lula está na Carta ao Povo Brasileiro. Ali está o Lula por inteiro –um sindicalista objetivo, negociador, que busca resultados.

- Então, a seu juízo, a popularidade do presidente está fundada num tripé?

Exatamente. Empregou o pragmatismo na economia e na fusão dos programas sociais. Vale-se de uma intuição para a propaganda que nenhum outro tem. Além disso, teve sorte e não tem compromisso com nada e com ninguém, só com ele mesmo. Mistura tudo isso com o vento a favor que sopra na economia mundial e chega-se a esse índice de popularidade.

- A crise nos EUA não representa uma virada no ambiente favorável?

Claro que sim. Mas ainda não surtiu efeitos no Brasil. Além disso, o Lula, de novo, constrói o discurso à sua maneira. Num primeiro momento, ele disse: ‘Isso é problema do Bush.’ Depois, teve de admitir: ‘Bom, sempre que os EUA entram em crise devemos nos preocupar.’  É óbvio que se essa crise se aprofunda, acaba afetando o Brasil.

- Não acha que falta discurso ao PSDB para se contrapor ao Lula?

Discurso o PSDB tem. O que falta ao partido é unidade.

- Qual é o discurso?

Se você ligar para qualquer liderança nacional nossa, vai ver que todas têm uma boa reflexão. Com começo, meio e fim. O que falta pra nós é uma ação mais combinada, mais convergente. Precisamos nos comportar de modo mais unitário, em conjunto.

- Falta de unidade é problema para 2010, não?

Sim. O grande problema nosso para 2010 chama-se unidade.

- Refere-se a José Serra e Aécio Neves?

Exatamente. Não há outro caminho pra nós em 2010 que não seja a unidade entre Serra e Aécio.

- Lula prevaleceu duas vezes sobre um PSDB desunido –Serra, em 2002; e Alckmin, em 2006. O que o leva a crer que haverá unidade em 2010?

Vivemos nesse período a que você se refere uma fase em que a afirmação do projeto do partido ficou menos importante do que os candidatos. Não assumimos o que fizemos de bom. As duas campanhas foram importantes, mas se apresentaram dissociadas do que o partido tinha conquistado.

- Envergonharam-se da fase FHC?

É o que eu acho. Deixamos de agregar ao nosso discurso conquistas importantes e inegáveis. Aí entra o Lula com o estilo Carta ao Povo brasileiro. O que ele sinalizou: ‘Olha, pessoal, nós vamos fazer o nosso dever de casa direitinho.’

- Não acha que, mantida a popularidade, Lula chega a 2010 com chances de fazer o sucessor?

Ele é, sem dúvida, um eleitor forte.

- Dificilmente deixará de levar Dilma Rousseff pelo menos ao segundo turno, não acha?

Ele diz que vai eleger. É preciso considerar que o quadro será outro. Não sei se pior ou melhor pra ele. Mas é muito provável que ele consiga levar alguém para o segundo turno. Ele e a máquina que se formou em torno dele. O Lula exerce poder hegemônico sobre o PT. Os chamados partidos aliados estão totalmente dependentes dele, que negocia tudo. Juntando ele e essa máquina, evidentemente, dá densidade para uma candidatura presidencial.

- Como enfrentar?

Por isso falo de unidade. Para nós, hoje, competência tornou-se sinônimo de unidade. Se tivermos unidade, principalmente entre Serra e Aécio, juntamos o partido inteiro, agregamos outras forças políticas e ganhamos a eleição.

- Refere-se a uma chapa puro sangue?

Não necessariamente. O essencial é que os dois estejam juntos. E quando digo juntos, quero dizer juntos pra valer. Pra nós, não tem outro caminho.

- Que tipo de país acha que Lula vai entregar?

O Lula é extremamente conservador, não entra em bola dividida. Não fez e não fará nenhuma das reformas importantes. Vai entregar, ele sim, a herança maldita. É licencioso. Opera com o momento. Está entrando mais dinheiro? Então gasta mais, desbragadamente. E deixa a bomba para o próximo.

Escrito por Josias de Souza às 02h17

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Protógenes: ‘Poder de DD chega ao topo do Estado’

Protógenes: ‘Poder de DD chega ao topo do Estado’

‘Do apreendido, mais importância são os discos rígidos’

Contêm ‘segredos que podem marcar história do Brasil’

‘Eu espero que, um dia, o Brasil conheça esse material’

 

  José Cruz/ABr
Acossado pelo noticiário acerca dos métodos heterodoxos que usou na Satiagraha, o delegado Protógenes Queiroz tornou-se um homem loquaz.

 

Na última quinta, falara ao repórter Bruno Rocha Lima. Neste final de semana, ressurge nas páginas de Época (assinantes) em nova entrevista.

 

Ouviu-o, dessa vez, o repórter Rodrigo Rangel. Numa parte da conversa, Protógenes se defende. Repete que não há provas ilícitas na Satiagrahagrampos ilegais.

 

E se queixa das investigações abertas para escarafunchar os meandros da Satiagraha: “Há que apurar os ilícitos, e não tentar produzir provas para o bandido...”

 

“...A defesa está esperando o resultado para pedir a anulação da operação. Isso é deprimente. Para mim, quem protege bandido, bandido é.”

 

Noutro pedaço da entrevista, o delegado tenta devolver ao centro do palco o suspeito-geral da República. Não é, diz ele, “um simples banqueiro.”

 

“É poderoso banqueiro, com ligações extremamente estreitas com pessoas do topo do aparato estatal.” Vai abaixo a entrevista:

 

 

– Afinal, o senhor fez grampo clandestino ou não?

De maneira nenhuma. Isso é uma grande mentira, lançada levianamente, envolvendo o nome de pessoas importantes no cenário da República e de dois órgãos importantes, que são a Abin e a Polícia Federal. O objetivo daquela informação, engenhosamente montada, foi tirar o foco dos investigados e centrar nos investigadores.

– Com base em que o senhor afirma isso?

Cadê o áudio? Como se lança uma conversa entre duas pessoas importantes da República – o presidente do STF, Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres – e não se apresenta o áudio? Não se pode deixar de lado a figura central de uma investigação que abalou as estruturas do país. Está se discutindo todo o arcabouço legislativo do Brasil por causa de uma investigação contra um banqueiro. Não um simples banqueiro, mas um poderoso banqueiro com ligações extremamente estreitas com pessoas do topo do aparato estatal. Isso foi demonstrado durante a investigação. Não posso entrar no mérito, porque a investigação ainda está sob sigilo.

- O senhor se refere a quem quando fala em “topo do aparato estatal”?

Eu me refiro às cúpulas do sistema. Ao topo do aparato estatal.

– O Poder Executivo ou não só?

Eu diria em termos de Estado. Não classificaria se é Executivo, Legislativo e Judiciário, mas a desenvoltura com que aparecem fatos para obstar as investigações tem um resultado prático. E aí são reveladas as pessoas que estão comprometidas com esse sistema.

– Mas a investigação que o senhor fez é alvo de pelo menos quatro procedimentos para apurar possíveis desvios.

Há que apurar os ilícitos, e não tentar produzir provas para o bandido. Com todo o respeito pelos encarregados dessas investigações, a defesa está esperando o resultado para pedir a anulação da operação. Isso é deprimente. Para mim, quem protege bandido, bandido é.

– Quem acompanha o caso tem a impressão de que há um jogo de ameaças nessa história. Isso está acontecendo?

Tudo o que foi colhido na Operação Satiagraha está nos autos.

– E qual o potencial desse material?

No material apreendido, considero da maior importância os discos rígidos da residência do investigado Daniel Dantas, porque ali pode haver segredos que podem marcar a história do Brasil.

– São os discos que estavam na tal parede falsa?

Positivo. Eu reputo ser esse o material mais importante da operação.

– E o que há nesses discos?

O conteúdo está sendo analisado pela equipe que assumiu a investigação e espero que, um dia, o Brasil conheça esse material.

– O senhor considera natural recorrer à ajuda dos serviços secretos das Forças Armadas?

Não vejo problema. Esses órgãos fazem parte do Sistema Brasileiro de Inteligência. A cooperação é prevista em lei.

Escrito por Josias de Souza às 04h37

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Opportunity cogita fechar banco, mantendo fundos

Opportunity cogita fechar banco, mantendo fundos

El Roto/El Pais
 

 

O banco Opportunity vive uma fase da transição. Acossado pela Satiagraha, decidiu transferir a administração de sua carteira de fundos de investimento para o BNY Mellon Serviços Financeiros, braço do The Bank of New York Mellon Coporporation.

 

Seis dos cerca de 40 fundos administrados pelo banco já foram repassados ao BNY Mellon. Entre eles o de R$ 535,8 milhões, que foi bloqueado pela Justiça na última quarta (10). Os outros seguirão o mesmo caminho.

 

Concluída a operação, a casa bancária fundada por Daniel Dantas e hoje controlada por Dório Ferman perderá a razão de ser. O blog perguntou a Ferman: O Opportunitty pode fechar? E ele: “Em relação à instituição financeira, é uma hipótese.”

 

Neste caso, explicou Ferman, sobreviveriam as gestoras de fundos do grupo. São três. Uma controlada por ele e duas por Daniel Dantas. Continuarão ditando a linha dos investimentos submetidos à administração do BNY Mellon.

 

O movimento tem muito a ver com a Satiagraha. Antes da prisão de Dantas, de Ferman e de outros executivos do grupo, em julho, a carteira de fundos do Opportunity era de cerca de R$ 16 bilhões. Hoje, soma R$ 13,087 bilhões.

 

Atribui-se um pedaço da diferença à fuga de investidores (R$ 1,834 bilhão). O resto é debitado na conta do movimento de queda na Bolsa de Valores. Vai abaixo a entrevista de Dório Ferman:

 

 

- Por que transferiu  o fundo de R$ 535,8 milhões para o BNY Mellon?

Não houve transferência de um fundo do Opportunity para outro fundo. Mudou apenas o administrador, não o gestor. Tudo transparente. Publicamos dois ‘fatos relevantes’ no jornal Valor. Um, no dia 1º de agosto, avisando sobre a conclusão das negociações para a transferência da administração dos fundos do Opportunity para o BNY Mellon DTVM. Outro, em 8 de setembro, informando sobre o início do processo, com a transferência dos primeiros seis fundos.

- O Opportunity Special Fundo, retido pela Justiça, estava entre os seis?

Sim. Esse fundo de ações, o Special, e cinco fundos mais simples. Por que o Special? Ele deve ter uns 20 cotistas. E a gente conseguiu a unanimidade. No caso de fundos com um número maior de cotistas, a gente tem que fazer uma assembléia com dez dias e, depois, esperar mais 30 dias.

- Por que está sendo feita essa transferência de administração?

Insisto: o fundo continua custodiado no mesmo lugar, tem os mesmos cotistas, o mesmo CNPJ e o mesmo gestor. Muda só o administrador –do banco Opportunity para a BNY Mellon DTVM.

- Então por que tirar a administração das mãos do Opportunity?

Já era uma idéia nossa. Antes da Operação Satigraha, em 2004, tivemos nosso escritório invadido numa busca e apreensão da Polícia Federal.

- Refere-se à Operação Chacal?

Exatamente. O computador foi levado. Eles abriram o computador e divulgaram nomes e os saldos de clientes. Vários jornalistas ligaram para clientes nossos. Ficamos sem condições de resguardar a privacidade das pessoas. Nessa situação, passamos a pensar em mudar, ficando apenas como gestores.

- A mudança alcançará todos os fundos do Opportunity?

Sim, todos os fundos hoje administrados pelo Opportunity passarão para o BNY Mellon.

- Completando-se o processo, o que será do Opportunity?

Vamos pensar.

- Vai mudar a natureza do negócio?

Do banco, possivelmente sim. A gente vai pensar.

- Pode fechar?

Em relação à instituição financeira é uma hipótese.  

- De quem é o banco Opportunity?

O banco é meu. Tenho 99,9% do controle.

- E o Daniel Dantas?

O banco opera como administrador de recursos. Não é gestor, só administrador. E temos as gestoras dos fundos. Uma é minha e duas são do Daniel. A maioria dos fundos é de gestoras dele. Mas o banco é apenas meu.

- Fechando-se o banco, ficaria o quê?

As gestoras dos fundos. Operaríamos como todos os demais gestores de fundos do Brasil.

- A carta patente do BC não seria mais necessária, é isso?

Exatamente. Já não somos um banco de fato. Não fazemos empréstimos. Não emitimos CDB. Somos um prestador de serviço de administração de fundos. Mudaria a atividade. Seria uma empresa de investimento. Pode caminhar pra isso. O Icatu, por exemplo, caminhou nessa direção. Mas é só uma hipótese.

- Isso está ocorrendo por conta da Satiagraha?

Eu diria que já era uma hipótese que considerávamos. Nenhuma ‘Asset’ tem banco para prestar serviços só para ela. Voltamos ao tema por conta da exposição e da agressão que estamos sofrendo.

- Quantos fundos de investimentos são geridos pelo Opportunity?

Temos entre 35 e 40 fundos.

- Só seis tiveram a administração transferida para o BNY Mellon. E o resto?

A maioria depende ainda da anuência dos cotistas. E há também dificuldades técnicas. Nós somos muito grandes. Vamos representar um aumento de 20% no total que o BNY administra.

- Quanto dá isso em dinheiro?

Eles administram R$ 62 bilhões e vão somar mais R$ 13 bilhões.

- Então, a carteira do Opportunitty é de R$ 13 bilhões?

Para ser exato, R$ 13,087 bilhões.

- Qual o tamanho da fuga provocada pela Satiagraha?

Perdemos 11,3%. O total resgatado dá R$ 1,834 bilhão. Há uma diferença aí que ocorre porque a Bolsa caiu muito.

- A que atribui a conclusão do COAF de que a transferência do fundo de R$ 535,8 milhões foi uma "atuação irregular no mercado financeiro"?

Na melhor das hipóteses foi uma avaliação equivocada.

- E na pior...

Não sei, não sei.

- Para o COAF, os senhores sumiriam com esse dinheiro.

Não sei porque imaginar uma coisa dessas. Tenho convicção de que vão constatar que a transferência foi regular e que o dinheiro tem origem lícita.

- Está seguro de que a origem não é questionável?

É impossível questionar a origem desse dinheiro. São posições muito antigas. Tudo declarado, tudo certinho.

- Que providências jurídicas o Opportunity tomará para liberar os recursos?

A gente vai tomar providências como pessoas físicas O advogado [Nélio Machado] pediu acesso aos autos e não obteve ainda.

 

PS.: Leia mais no texto abaixo.

Escrito por Josias de Souza às 04h01

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Ferman: ‘Sofremos perseguição quase monstruosa’

Ferman: ‘Sofremos perseguição quase monstruosa’

Dório Ferman, o controlador do banco Opportunity atribui as investigações que rodeiam o grupo a “perseguição.”

 

Uma “perseguição injustificável, quase monstruosa”, diz ele. Mas, questionado, não consegue apontar nenhuma razão objetiva para o tratamento que considera injusto.

 

“Pode haver algum outro interesse, que desconheço”, limita-se a declarar. Leia abaixo a conclusão da entrevista de Ferman ao blog:

 

 

- Como vem lidando com as investigações?

O que está havendo é perseguição injustificável, quase monstruosa.

- Por que haveria perseguição?

Só posso atribuir a outros interesses.

- Que interesses?

Não sei, sinceramente. Não tenho certeza. Estamos sendo vitimas de arbitrariedades impensáveis no regime democrático. Estamos vivendo uma democracia. Nosso caso, graças a Deus é uma exceção. É algo que não sei como explicar.

- Não acha que a justificativa vem do histórico de passivos que se acumularam em torno de Daniel Dantas?

Não creio. Tem algum interesse aí.

- Mas que interesse?

Alguma luta societária, alguma coisa...

- A grande luta societária girava em torno da Brasil Telecom. Com a concordância de Daniel Dantas de vender a parte dele, a coisa não foi resolvida?

Não sei.

- É certo que o fechamento da venda da BrT para a Oi depende da mudança no Plano de Outorgas do governo. Mas tudo parece encaminhado, não?

Aparentemente sim. Não sei mesmo o que motiva a perseguição. Até gostaria de saber. Afora as questões societárias, havia as questões cíveis. Mas foram todas zeradas, todas acabaram. E isso independe da venda da Brasil Telecom. Então, pode haver algum outro interesse, que desconheço.

- Mas o que o leva a supor que há perseguição deliberada?

Há exageros impensáveis. Cito um caso: minha irmã tinha dinheiro depositado num fundo administrado por nós: R$ 15 milhões herdados da minha mãe, que morreu há dois anos e deixou uma herança para os quatro filhos. Foi essa a origem do dinheiro de minha irmã. Ela ficou apavorada com essa Operação Satiagraha. E pediu o resgate de uma parte, R$ 10 milhões, do que tinha aplicado conosco. O dinheiro foi mandado por ela para o banco Itaú, em Recife, onde ela mora. A interpretação dos investigadores foi de que eu, Dório, estava escondendo recursos na conta de minha irmã. Ora, o dinheiro saiu de um fundo em que ela tinha aplicações, no nome dela, foi para uma conta em nome dela. A despeito disso, decretaram o bloqueio desse valor. Está bloqueado. Soube disso na segunda-feira. É impensável uma coisa dessas.

 

PS.: Ilustração via sítio do Orlandeli.

Escrito por Josias de Souza às 03h55

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Protógenes: criam investigação para ajudar bandido

Protógenes: criam investigação para ajudar bandido

  Lula Marques/Folha
Na opinião do delegado Protógenes Queiroz, o inquérito aberto pela Polícia Federal para apurar a suspeita de grampos ilegais está enviesado.

 

Acha que tem cheiro de “retaliação” a ele, como investigador. E parece convicto de que vai resultar em socorro a Daniel Dantas, o investigado:

 

“A retaliação vem, mas a própria sociedade já identifica. A coisa ficou tão notória, tão absurda, que se criam investigações para produzir prova para o bandido”, disse.

 

Protógenes falou ao repórter Bruno Rocha Lima. A entrevista está publicada na edição desta quarta do diário goiano O Popular.

 

O delegado confirma ter recorrido aos préstimos do espião aposentado Francisco Ambrósio Nascimento, mas nega que a Satiagraha esteja contaminada por grampos ilegais.

 

Chega mesmo a lançar dúvidas quanto ao monitoramento de diálogo de Gilmar Mendes, do STF, com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO):

 

“Cadê o áudio? Só aparece uma transcrição? Cadê o áudio?”. Vai abaixo a entrevista:

 

- Sofreu retaliações dentro da PF pelo trabalho na Satiagraha?
A retaliação vem, mas a própria sociedade já identifica. A coisa ficou tão notória, tão absurda, que se criam investigações para produzir prova para o bandido. Não vou entrar no mérito se as investigações atuais da Polícia Federal estão destinadas a isso, mas a pretensão da defesa é que se colete os dados obtidos nas investigações que foram produzidas paralelamente que porventura venham a beneficiá-los no futuro, na investigação principal e na ação penal. Inclusive os advogados do Daniel Dantas já afirmaram que vão usar a participação de Francisco Ambrósio do Nascimento (servidor aposentado da Aeronáutica) nas investigações para invalidar as provas colhidas. Alegam que ele não faz parte dos quadros da Polícia Federal. Ele participou sim da operação, mas existe um dispositivo legal que prevê a figura do colaborador eventual. Mas ele ficou pouco tempo na operação, é um analista e desempenhou o papel dele a pedido nosso. A todo tempo ele cumpria expediente na sede da PF.

- E quanto às suspeitas de que grampo ilegal em Gilmar Mendes?
Posso lhe afirmar que a reportagem que foi lançada nos órgãos de imprensa afirmando que houve escuta ilegal e que as suspeitas recaem nos agentes que integraram a Satiagraha é mentirosa. Todas as escutas que fizemos foram autorizadas e nosso sistema é inclusive auditado. Todas nossas escutas estão de posse da Justiça Federal e são controladas pelo Ministério Público Federal. O próprio órgão de imprensa que deu o furo de reportagem não demonstrou o áudio. Cadê o áudio? Só aparece uma transcrição? Cadê o áudio? E envolve duas pessoas importantes da República, o presidente do STF e o senador Demóstenes Torres. Como que lança o nome de duas pessoas dessa forma e não aparecem as provas?

- Acha a divulgação do diálogo foi uma manobra para desmoralizar a Satiagraha?
Se você observar historicamente os dados que a imprensa vem lançando no caso do Daniel Dantas, é um processo progressivo. Não vou entrar no mérito, porque isso é alvo de investigações, mas posso lhe dar um caminho, porque é de fonte aberta. É só você entrar no Google e pesquisar as investigações do Daniel Dantas em Nova York, em Cayman e na Itália, e ver como se comportaram o Judiciário e as procuradorias destes países. Você pode ver como ele realizou a defesa dele nesses países. Então não é supresa pra mim o que está ocorrendo aqui no Brasil.

- Daniel Dantas usou manobras desta natureza em outras ocasiões?
O que está ocorrendo aqui não é surpresa. Inclusive, isso é bem retratado na investigação. Mas não posso dar detalhes porque está coberto pelo sigilo. E para as autoridades que trabalham no caso, como o juiz Fausto de Sanctis, e outros, não é surpresa nenhuma esse tipo de artifício.

- Dantas teria poder para produzir fatos dessa magnitude?
Não vou lançar esse tipo de indício, que teria sido A, B ou C, porque não há identificação. Agora, que é grave, isso é. Existe o nome de duas pessoas importantes envolvidas. Entendo que isso, (enfático) isso que tem que ser investigado. Não a intenção, porventura, da defesa de buscar dados que possam favorecer o processo principal do Daniel Dantas e também a investigação que está em curso. O que a investigação tem que mostrar é a gravidade do nome de duas pessoas importantes ser lançado na imprensa sem nenhum critério de verdade.

- Acha que houve inversão no debate sobre as investigações?
Hoje, o que se discute é a conduta dos investigadores. Não se discute mais o investigado principal. E nem os fatos que porventura estão em torno dele, que são mais graves que a figura central dele. E o próprio investigado tem noção disso, senão não estaria fazendo toda uma estratégia de trabalho nesse sentido. Estava já voltando o foco para o investigado e os fatos em torno dele e aí se criou outro fato. E acredito que outros virão.

- Debate sobre algemas também foi foco de distração?
Prefiro não entrar no mérito. Recomendo a você fazer a pesquisa em fonte aberta sobre o que ocorreu com relação aos processos do Daniel Dantas em outros países e você verá nitidamente o que está acontecendo no Brasil.

- Concorda com as restrições ao uso das algemas?
Entendo que é uma decisão da Suprema Corte e tem de ser respeitada. Mas, como cidadão, entendo que foi uma decisão casuística. Foi na semana que se discutia a investigação do Dantas, o uso ou não de algemas com ele. Quando pobre é algemado, não se discute. Mas quando rico é algemado, aí cria isso. A população não foi consultada.

- Como se viu saindo da condição de herói para um quadro em que seu trabalho passou a ser duramente questionado?
Dá um pouco de tristeza de ver algumas posições sem muita clareza e sem muita explicação para o que se pretende. Mas, por outro lado, são atitudes que cada vez mais me enchem de vontade de persistir no trabalho de combater a corrupção. Na Satiagraha, fiquei uma semana trancado numa sala à base de biscoito e café. Fiquei com seqüelas da operação, passei alguns dias gago e com perda temporária de memória. Mas, se me dediquei muito naquela ocasião, agora vou trabalhar dobrado.

Escrito por Josias de Souza às 20h15

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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