PSDB esteve a um passo de fechar acordo com Lula

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O presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), revela, em entrevista ao blog, os bastidores das negociações do tucanato com o governo. Diz que Lula perdeu a CPMF em função dos erros do governo. Relaciona quatro. Conta que, na madrugada do dia da votação, os tucanos estiveram a um passo do entendimento. Afirma que seu partido está disposto a voltar à mesa de negociação, desde que Lula abandone "os argumentos bobos e a demagogia" e que o governo não proponha remendos como a recriação da CPMF. Abaixo, a entrevista:

 

 

- O que levou o PSDB a rejeitar a CPMF?

A CPMF foi rejeitada por uma sucessão de erros do governo. O início do debate da emenda na Câmara coincidiu com um seminário que o PSDB fez em Belo Horizonte. Estavam todos lá: Fernando Henrique, Alckmin, governadores, deputados e senadores. Decidimos tomar uma posição. Propusemos reduzir a alíquota de 0,38% para 0,20% e destinar tudo para a saúde. O governo considerou a proposta inadequada, idiota, risível, absurda –todos os adjetivos que você possa imaginar. Primeiro erro.

- Por isso não houve negociação na Câmara?

Nessa fase, não queriam negociar conosco. A emenda ficou durante quase três meses enrolando na Câmara. Duas semanas só na gaveta do Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que só queria saber de Furnas. O governo não quis saber da oposição. Foi tudo na base do toma-lá-dá-cá. Segundo erro. O PSDB e o DEM não tinham outro caminho senão votar contra.

- E no Senado, por que o entendimento não prosperou?

Primeiro, o governo estava convencido de que iria ganhar com o mesmo método do toma-lá-dá-cá. Mas no Senado isso não é tão fácil. Quando viram que não tinham votos, abriram negociação conosco. Começou com aquelas reuniões no Ministério da Fazenda –do lado de lá, o Romero Jucá, o Aloizio Mercadante e o Guido Mantega; do nosso lado, o Tasso Jereissati, o Arthur Virgílio e eu.

- Por que não deu certo?

Não funcionou porque o governo fez propostas completamente medíocres. Foi o terceiro erro deles. Na última conversa, eu disse ao Mantega: com essa proposta de vocês, nós não conseguimos andar nem dez centímetros no Senado. Levamos a proposta à bancada. Provocou irritação. E foi rejeitada.

- Foi voto vencido?

A rejeição foi por nove a quatro. Fomos vencidos eu, o Tasso, o Eduardo Azeredo e a Lúcia Vânia. Propus que governadores fossem ouvidos. O pessoal não quis: ‘não adianta mais. Não está vendo? Melhor fechar contra. E nós fechamos contra.

- Por que a negociação foi retomada na última hora?

O governo continuava atrás de três ou quatro votos. Tudo na base do toma-lá-dá-cá. Insistiram nisso por um longo período. Quando perceberam que poderiam perder, eles nos procuraram de novo. Mas já era tarde. Foi o quarto erro deles.

- Mas o PSDB não era obrigado a negociar de novo.

Eles começaram a recompor propostas que a gente tinha apresentado antes. Passado o final de semana que antecedeu a votação, o governo percebeu que não conseguiria os votos. E veio com essa idéia de botar todo o dinheiro da CPMF na saúde, que a gente tinha proposto no início e eles haviam dito que era ridículo. Nessa fase, conversavam muito mais com os nossos governadores do que com a gente.

- Se a proposta coincidia com o desejo do partido, por que não aceitar?

A solução que nos trouxeram era limitada. Os 100% da CPMF para a saúde não seriam assegurados no primeiro ano, como tentam insinuar. Só estaria garantido no terceiro ano, em 2010. Ainda assim, não seria 100%, mas 80% porque 20% seriam comidos pela DRU. A idéia foi examinada e a gente recusou.

- Serra e Aécio consideravam um avanço.

Os governadores não ficaram satisfeitos. Achavam que podíamos ter aprovada a CPMF, destinando tudo para a saúde. Normal. Mas parcela grande de senadores dizia que não havia mais oportunidade. Não dá para voltar atrás na última hora. Alguns diziam: ‘A gente vai ficar desmoralizado.’ Foram argumentos fortes. E mantivemos os nossos 13 votos contra, sem precisar fechar questão. A proposta era inoportuna primeiro por uma razão geral: seríamos mal compreendidos. Segundo por razões específicas: as promessas eram vagas. Não havia tempo de assegurar efetividade prática, por meio de instrumentos legais. Tínhamos de acreditar na palavra de um governo que não tem o costume de honrar a palavra.

- É verdade que fecharam um acordo na madrugada do dia da votação?

Houve uma reunião na minha casa. Estávamos eu, o Arthur [Virgílio], o Eduardo Campos [governador de Pernambuco], o [Antonio] Palocci... A gente já tinha terminado a conversa quando o Palocci falou: ‘E se a gente voltasse com a aquela proposta de vocês de vigorar a CPMF só por um ano só, fazendo reforma tributária e botando o dinheiro todo na saúde. Eu disse: acho proposta razoável. Arthur disse: é uma boa proposta. É verdade que, do nosso lado, houve aceitação prévia da proposta. Mas era preciso dizer como seria a viabilidade legal. Eles ficaram de ver como podiam nos dar garantias. E nós ficamos de pensar o assunto. Não estava totalmente fechado. Decidimos não fechar. Por isso chegaram aquelas cartas desesperadas do governo, na última hora da votação. Cartas que não garantiam nada. O governo perdeu por causa dos seus erros: ignorou a oposição na Câmara, não segurou a sua própria base no Senado, negociou conosco sem seriedade e, quando viram que perderiam, aceitaram as nossas teses. Mas o jogo já estava a poucos minutos do final.

- É verdade que Arthur Virgílio peitou os governadores?

Há muito exagero nisso. A bancada, no primeiro, no segundo e no terceiro momento de negociação decidiu que não ia se dividir. Na hora em que alguns disseram que não topavam de jeito nenhum, estava decidido que não haveria acordo. Nós só íamos se fossem todos juntos. O problema é que fizemos essa discussão aberta, à luz do dia. O Arthur é muito vocal. A palavra tem um papel relevante no gesto político dele. Mas não houve nenhuma divergência relevante. Não ficou rusga nenhuma. Amadurecemos.

- O PSDB vai ou não retomar a negociação com o governo?

Primeiro, o presidente precisa deixar de lado os argumentos bobos e a demagogia. Nesse momento, Lula deveria estar dizendo que deseja normalizar suas relações com o Senado. Até agora ele não aceitou que perdeu. De nossa parte, estamos dispostos a colaborar desde que o governo não venha com remendos e soluções precárias. Não dá, por exemplo, para falar em recriação de CPMF. Precisamos partir para coisas definitivas. Já se diz que 2008 é ano eleitoral e não dá apara aprovar nada no Congresso. Tem de tomar providencias seguras na direção da reforma.

- Já foi procurado por alguém do governo?

O José Múcio [coordenador político de Lula] me procurou. Disse: ‘Vamos sentar para pensar tudo de novo’. Não tratou de nada objetivo, mas foi positivo. Vamos conversar entre nós também. Teremos uma posição das bancadas na Câmara e no Senado, dos governadores. Somos construtivos, não queremos o pior para ninguém. Mas também não se pode admitir que o presidente diga uma coisa hoje e outra amanhã. De manhã bate na gente e de tarde diz que quer conversar. Como pode prosperar uma negociação conseqüente nesse ambiente?