Para Tarso, PT não tem como fugir do debate ético
Ricardo Nogueira/Folha Imagem
“Não podemos simplesmente apagar a nossa memória”, disse Tarso Genro em entrevista ao blog, na noite deste sábado (3). Para o ministro das Relações Institucionais, o PT não tem como fugir de um debate interno sobre os desvirtuamentos que produziram crises como a do mensalão. “A base do partido quer saber quem tem responsabilidades políticas”, disse.
Genro é autor da matriz do texto que deu origem a uma proposta de novos rumos para o PT. O documento, diz ele, incorpora contribuições de cerca de 30 petistas. Embora o texto critique métodos do chamado “Campo Majoritário”, integrado por José Dirceu, Genro refuta a tese de que se trate de um embate pessoal. Segue abaixo, subdividida em três textos, a entrevista do ministro:
- Qual é a origem do documento intitulado ”Mensagem ao Partido”?
O texto inicial foi feito por mim. Mas vários outros companheiros estão interagindo com o documento. Estão dando sugestões, agregando parágrafos. Hoje, temos 12 páginas. É uma produção coletiva.
- Quem são os co-autores?
São mais ou menos 30 pessoas do partido, do país inteiro.
- Qual é o objetivo do documento?
Nossa idéia é criar um novo espaço de diálogo no PT, que supere a dicotomia que preside as relações internas. Hoje, ou você é considerado uma pessoa da direita ou é da chamada esquerda do partido. Essa visão é equivocada. Não resolve as grandes questões partidárias e políticas que temos que enfrentar.
- Enfrentar os fantasmas da crise ética iniciada em 2005?
Não chamaria de fantasmas. Mas não há dúvida de que temos de enfrentar os problemas políticos que ocorreram. É algo que deve ser tratado como fato histórico. A grande maioria de nossa base ainda não tem um juízo sobre o que aconteceu.
- Refere-se ao caso do mensalão?
Refiro-me aos problemas todos, não só esse. A base não está informada sobre o que aconteceu. Não sabe que responsabilidades as pessoas tiveram, não conhece nem as suas justificativas. Os debates que passam pela imprensa são feitos no calor da hora. É necessário recuperar o que aconteceu. A base do PT quer saber quem tem responsabilidades políticas. Não estamos falando de responsabilidades penais.
- Mas responsabilidades penais também devem ser vistas, não?
Essas são tratadas em outras instâncias. Mas as questões políticas nós vamos ter que analisar, sem fazer pré-julgamentos, mas com profundidade. Ganhamos um voto de confiança quando, no calor da crise, nossa base foi em massa à votação que renovou a direção partidária. Ganhamos outro voto de confiança na reeleição do presidente Lula. Não podemos simplesmente apagar a nossa memória. Temos que estudar profundamente tudo o que ocorreu, para sairmos mais fortes desse processo.
- Revolver o passado reaviva feridas, não?
Não se trata, para nós que estamos numa fase de preparação para o congresso partidário [agendado para julho], de avaliar processos criminais. Trata-se de verificar métodos políticos, métodos de direção, relações partido-Estado. Não podemos deixar de fazer o debate sob a alegação de que isso está prejudicando o partido. Prejudica o partido é não debater, é obscurecer, é obstruir.

- Parte do PT vê na “Mensagem ao Partido” um