Romano vê má-fé em ação de intelectuais pró-Lula
El Roto/El Pais
Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp, enxerga uma diferença na tentativa de artistas de justificar desvios éticos na política e no manifesto assinado por 213 intelectuais em apoio à candidatura Lula. Acha que os artistas apenas exercitam a sua “ignorância crassa”. Avalia que o caso dos intelectuais é mais grave. Sabem do estão falando. E agem movidos por “oportunismo e má-fé”. Menciona especificamente Marilena Chauí, de quem foi aluno. “Ela não é jejuna em matéria de filosofia”. Leia abaixo a entrevista:
- O que achou da tentativa de artistas de justificar transgressões à ética e do encontro em que Lula recebeu um manifesto de apoio de 213 intelectuais?
Há que distinguir os dois grupos. As manifestações do Paulo Betti –‘Não dá para fazer política sem botar a mão na merda’— e de Wagner Tiso –‘Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética (...). O PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”—são toscas. Mostram uma ignorância crassa. Eles vivem no universo do slogan, no mundo das palavras de ordem. Isso é uma herança que vem da prática totalitária, tanto de direita como de esquerda. Tenta-se justificar o injustificável. O custo desse discurso é o estímulo à imbecilidade geral.
- Por que distinguir os intelectuais?
No caso dos intelectuais, não se trata de ignorância. Conheço os personagens, sobretudo a professora Marilena Chauí, que foi minha professora. Ela não é uma jejuna em matéria de filosofia. Conhece a ética de Spinoza melhor do que eu, conhece a ética cartesiana, conhece a ética de São Thomás de Aquino, conhece Aristóteles. Quando uma pessoa tem esse grau de conhecimento se alia a uma coisa dessas, está agindo com oportunismo e pela má-fé. Não tenho outra qualificação.
- Que conseqüências podem advir do gesto dos intelectuais?
Lula e todos esses intelectuais vão desaparecer. Quem vai responder por tudo o que está ocorrendo no Brasil no momento em que os costumes hoje abençoados por eles –o mensalão, a ocultação da verdade, a perseguição à imprensa— quando tudo isso tiver se transformado em costume? É um mau irreparável. O intelectual sabe que um ato pode se transformar em costume. Sabe também que um costume é difícil de ser mudado. Esse intelectual tem a obrigação de verificar as conseqüências dos atos. Não poderão dizer depois que são inocentes. Eles sabem o que estão fazendo. Abençoar desvios éticos, brincar de militante é o mesmo que abdicar da função essencial do intelectual, que é a crítica, a análise, a discussão.
- Um intelectual não pode apoiar o presidente Lula?
Acho perfeitamente lícito que apóie. Mas acho que o apoio só é razoável até o ponto em que o intelectual não se transforme numa espécie de ventríloquo do partido ou do indivíduo a quem ele apóia.
- No caso específico chegou-se a esse ponto?
Sem dúvida. Diria que a reunião dos intelectuais com Lula foi uma espécie de encontro mediúnico. Quem falou foi o Lula, pela boca dos intelectuais. Os presentes racionalizaram o discurso do presidente. Aí eu me lembro de Sartre, para diferenciar o filósofo do ideólogo. O filósofo é aquele que critica, que analisa, que se informa, que coloca matizes, que procura a diferença. O ideólogo é aquele que repete as palavras de ordem. Tem a função de tentar racionalizar o que é irracional. (Continua abaixo...)

Continuação da entrevista do professor Roberto Romano:
Em protocolo divulgado na sua página na internet, a