Josias de Souza - Nos bastidores do poder
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Entrevistas

PP janta com Dilma, mas não formaliza o apoio a ela

José Cruz/ABr

 

Nos últimos dias, os partidários de Dilma Rousseff venderam a tese de que a candidata já dispõe do apoio de sete partidos governistas. Não é bem assim.

 

Pelo menos um dos partidos incluídos na lista de supostos apoiadores da candidata oficial informa que sua decisão não está tomada.

 

Trata-se do PP, cujos congressistas participam de um jantar com Dilma na noite desta quarta (28).

 

Em entrevista ao blog, o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), definiu assim o jantar:

 

“É um encontro político e social com a Dilma. Nem ela está esperando que o partido vá declarar apoio a ela. Isso não está na agenda do partido”.

 

Segundo Dornelles, a deliberação final do PP sobre a sucessão de Lula só será tomada em convenção, marcada para junho de 2010. Vai abaixo a entrevista:

 

 

- Está confirmado o jantar com a ministra Dilma?

Sim, está confirmado.

- O encontro pode resultar em apoio à candidata?

É um encontro político e social com a Dilma. Nem ela está esperando que o partido vá declarar apoio a ela. Isso não está na agenda do partido.

- O PP não tem posição sobre 2010?

Se tivéssemos que tomar uma decisão hoje, algo como 18 diretórios iriam. Outros não iriam. Então, é preciso dar tempo ao tempo. Mesmo porque o país é, hoje, do ponto de vista político, uma confederação. Os problemas estaduais tem um reflexo muito grande sobre o quadro federal.

- Portanto, o jantar não significará declaração de apoio.

Vamos reiterar à Dilma a nossa maior admiração, o nosso respeito e a nossa satisfação de fazer parte da base de apoio ao governo. Mas diremos que ainda não estamos discutindo sucessão presidencial.

- Quando o partido vai tomar uma decisão a respeito?

Você só pode tomar uma posição definitiva do partido em convenção. No momento, alguns grupos podem até fazer uma proposta ou outra. Mas quem decide é a convenção.

- PMDB e PT, que firmaram um pré-acordo de apoio a Dilma, tem a intenção de constituir com os demais partidos do governo, um grupo para participar, desde logo, da elaboração do programa da candidata. O PP não vai participar?

Não, não vai participar. O PP não pode se incorporar a nenhum grupo que vá fazer o programa da candidata antes de definir o apoio a ela.  

Escrito por Josias de Souza às 19h58

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Geddel convida oposição a repetir a caravana de Lula

Valter Campanato/ABr
Geddel sobre caravana do São Francisco: 'Todo ato público gera dividendo eleitoral'

 

O ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) fará um convite aos líderes da oposição. Coisa formal, por escrito.

 

Deseja levar congressistas do PSDB e do DEM às obras da transposição das águas do Rio São Francisco. “O presidente Lula me deu carta branca”, diz.

 

Geddel concedeu entrevista ao blog na noite deste domingo (18). Respondeu à crítica de que Lula foi à obra para fazer campanha, não para vistoriá-las.

 

Disse que a viagem foi “de trabalho”. E enxergou um quê de hipocrisia na gritaria da oposição:

 

“Todo ato público, administrativo, sempre vai gerar dividendo eleitoral. Vamos rasgar a fantasia da hipocrisia...”

 

“...Quem está na vida pública e participa de eleições evidentemente deseja que seus atos administrativos caiam no gosto da população”. Vai abaixo a entrevista:

 

 

- O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, diz ter feito em 40 minutos o trajeto que Lula fez em três dias. Por que tanto tempo?

Sérgio Guerra, como senador da oposição, deveria percorrer a obra com mais tempo, para fiscalizá-la. O presidente Lula passou um dia verificando as obras de revitalização do rio, um dia visitando o eixo norte da obra e outro dia para o eixo leste. Foi correta a programação de três dias.

- A viagem teve propósitos eleitorais?

Não vejo assim. O presidente foi vistoriar obras. Não se pode imaginar que um presidente da República, sobretudo com a popularidade do presidente Lula, possa passar em qualquer evento sem ser chamado a se manifestar.

- O que houve de técnico na viagem?

Houve reuniões com engenheiros, técnicos e empresários. Foi uma viagem de trabalho.

- Essas reuniões não poderiam ter sido feitas em Brasília?

Não. Na visita às obras, o presidente viu que é razoável a nossa cobrança para que o Ministério da Integração disponha de mais engenheiros. Ele verificou onde é preciso reforçar a estrutura, para que as obras tenham sequência. Vislumbrou, in loco, a necessidade de desapropriações de terras em volta da obra...  

- E quanto às manifestações políticas do presidente?

Na medida em que o calendário vai avançando e fica mais próximo da eleição, toda participação do presidente vai gerar essa interpretação de que se trata de algo eleitoral. Mas note que os próprios jornalistas se encarregaram de priorizar a política em detrimento dos aspectos técnicos da obra. Eles fizeram perguntas políticas. Quem estava lá viu. Ninguém perguntou o que ele achou da obra. As perguntas eram: Dilma é candidata? O que o Ciro está fazendo aqui? Ou o presidente faz uma grosseria ou responde. Ele respondeu. No dia seguinte, o administrativo dava lugar ao eleitoral no noticiário. A cobertura da mídia sinalizou para a política.

- Havia palanques ao longo do trajeto. Na primeira cidade, Buritizeiro (MG), Lula disse que, embora não estivesse previsto ‘fazer comício’, ele falaria mesmo assim. Comício é coisa de campanha, não?

A palavra pode ter sido mal colocada. O presidente poderia ter dito que não estava prevista aquela reunião. Mas onde o presidente vai, em torno dele junta-se uma multidão. Há naquelas obras quase 8.500 trabalhadores. Quando o presidente chegava, as pessoas pediam que ele se manifestasse. Sem exagero, diria que o presidente Lula virou um astro pop. O que fazer numa situação como essa? Ele termina tendo que falar. Não tem jeito.      

- O que acha dos protestos da oposição?

Acho absolutamente natural. É o papel da oposição. Se a oposição, por estar fora do governo, não tem obras para vistoriar, só resta criticar. É o papel dela. Já vivi os dois papéis. Fui oposição. Agora sou governo.

- O presidente disse que governos anteriores não fizeram obras. Como ex-aliado do governo FHC, concorda com a crítica?

Creio que o presidente Lula não se referia a Fernando Henrique. Ele defende a tese de que a última vez que o governo teve um amplo programa de obras foi na gestão de Ernesto Geisel. Depois disso, por uma série de circunstâncias, não houve um grande programa de realizações na área de infra-estrutura. Nunca vi ele se referir especificamente a Fernando Henrique. Ele fala dos últimos 25 anos.  

- Num dos pernoites do presidente e de sua comitiva, havia no canteiro de obras coisas como bufê francês e camas king size. Não houve exagero?

Não. Estamos falando do presidente da República do Brasil. Não poderiam querer que nós o acomodássemos numa rede. Quando Juscelino Kubitscheck foi fazer Brasília, construiu-se no cerrado o Catetinho, com tudo o que havia de mais confortável naquela época. Se você recebe uma visita na sua casa, você a prepara melhor. Se eu o convidar para jantar na minha casa, não vou lhe oferecer um cardápio trivial do dia-a-dia. Será um cardápio especial. É natural isso.

- Quanto custou a viagem?

Não tenho idéia. Era uma comitiva presidencial. O Centro de custo é a Presidência, não o ministério.

- A oposição pretende recorrer ao TSE. Acha que a ação prospera?

Tenho convicção de que não prospera. Do contrário, o presidente e seus ministros teriam de ficar ilhados dentro do Palácio e dos ministérios. Inadmissível.

- A oposição exagera?

Vejo tudo com naturalidade. O raciocínio vale para os dois lados. Quando senadores como Sérgio Guerra e José Agripino criticam o governo, estão adotando uma atitude que, aos olhos deles, terá uma repercussão eleitoral. Tudo na vida pública tem repercussão eleitoral, negativa ou positiva. Nesta semana, vou formalizar, por escrito, um convite a todos os líderes da oposição para que me acompanhem numa viagem ao São Francisco.

- Consultou o presidente?

Comuniquei a ele, que me deu carta branca para fazer. Chegando a Brasília, na terça-feira, formalizarei o convite, por escrito, aos meus amigos Sérgio Guerra, José Agripino e a todos os líderes da oposição na Câmara e no Senado. Eu os convidarei a fazer o mesmo roteiro que o presidente fez. Três dias. Se aceitarem, pedirei à presidência da República que disponibilize os meios. Não há o que esconder.

- A presença da candidata Dilma na viagem, resultou em benefício eleitoral?

Todo ato público, administrativo, sempre vai gerar dividendo eleitoral. Vamos rasgar a fantasia da hipocrisia. Quem está na vida pública e participa de eleições, evidentemente deseja que seus atos administrativos caiam no gosto da população. É assim que se vence uma eleição. Do mesmo modo, quando os seus atos administrativos são reprovados pela população, perde-se uma eleição. Portanto, qualquer atitude das pessoas públicas cuja sobrevivência depende do voto tem apelo eleitoral. Vale para quem governa e também para quem faz oposição. Do contrário, teríamos de admitir como aceitável o paradoxo de trancar quem governa nos palácios e impedir a oposição de usar a tribuna do Parlamento.

- A participação da ministra Dilma na viagem foi administrativa ou eleitoral?

Ela é a chefe da Casa Civil, publicamente reconhecida como gestora do PAC. Ali está uma das obras mais significativas do programa. É absolutamente legítimo que lá ela estivesse. Em todo o roteiro, a ministra só se manifestou uma vez, já na despedida da viagem, em Pernambuco.

Escrito por Josias de Souza às 03h11

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Governo vai editar 'compêndio' dos direitos sociais

Fábio Pozzebom/Folha

 

O governo recolhe dados para editar uma obra destinada a conscientizar os brasileiros pobres acerca dos seus direitos sociais.

 

Será, nas palavras do ministro Tarso Genro (Justiça), um “vade mecum das leis sociais do Brasil”.

 

Vade Mecum é uma expressão latina. Siginifica “vem comigo”. No Direito, é usada para designar os compêndios de leis.

 

São, normalmente, obras de fácil consulta. Reúnem toda a legislação existentente sobre determinada matéria –direito trabalhista ou previdenciário, por exemplo.

 

Afora essa publicação, foi ao forno um lote de projetos. Destinam-se a transformar em lei programas sociais hoje escorados apenas em decretos e portarias.

 

Por último, prepara-se um roteiro para reunir todas as leis sociais num único diploma legal, a CSL (Consolidação das Leis Sociais).

 

Na última quinta (8), Lula delegou essas tarefas a dois ministros petistas. Além de Tarso Genro, Luiz Dulci (Secretaria-geral da Presidência da República).

 

Em entrevista ao blog, Tarso esmiuçou as iniciativas. Leia abaixo:

 

 

- O que pretende o governo?

O presidente Lula tem uma preocupação. Receia que alguns programas sociais do governo, ainda não fundamentados em lei, possam deixar de ser vistos como programas de Estado porque não tem a garantia de permanência. Então, ele fala em consolidação das leis sociais.

- Como será feito o trabalho?

Primeiro, estamos fazendo levantamento para identificar todos os programas sociais. Do nosso governo ou não, desde a Constituição de 88.

- Mas esses programas já não estão previstos em lei?

Alguns deles já são previstos em lei. Por exemplo: ProJovem, ProUni, Bolsa Familía, Minha Casa, Minha Vida, Pronasci e outros. Como já constam de leis, são programas de Estado, não de governo. Mas há outros que se baseiam em decretos ou portarias.

- Quais?

Nós ainda estamos fazendo o levantamento. Não tenmos a lista completa. Mas são programas criados por decreto ou portaria. Para esses casos, vamos propor iniciativas legislativas. Projetos que vão transformar esses programas sociais em obrigação legal para os próximos governos.

- É esse conjunto de leis que o presidente chama de CSL?

Não. Esse é outro estágio do nosso trabalho. Estamos verificando se há a possibilidade de constituirmos uma lei geral, para abrigar todos os programas sociais. A idéia é configurar um sistema de proteção social para as classes menos favorecidas. Não estamos tratando de trabalhadores formais, já protegidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

- Essa consolidação vai ao Congresso quando?

Esse é um estudo de fôlego, de mais longo prazo. Exige consultas à academia e a juristas das mais diversas formações.

- É coisa que possa ser feita antes do término do governo Lula?

Na minha avaliação, não. Vamos cumprir etapas, sem a preocupação de prestigiar qualquer governo. Vamos iniciar um processo, fixar um roteiro de consolidação de leis sociais que, em ultima análise, foram conquistas obtidas a partir da Constituição de 88. Deixaremos um roteiro.

- Não se está chovendo no molhado, uma vez que as leis já existem?

Não. Esse trabalho de longo prazo envolve a compatibilização das leis existentes, integrando-as numa visão de sistema de proteção social ampliado. Seria um plano infra-constitucional de tudo o que já foi produzido até agora. É uma iniciativa complementar, que não exclui as outras.

- Os senhores tem prazo para concluir o trabalho?

Sim. Em 45 dias apresentaremos um diagnóstico ao presidente. Estamos encarregados, eu e o Dulci, de consultar os outros ministérios. O Ipea vai trabalhar conosco. Nesse prazo, levaremos ao presidente o conjunto de iniciativas legislativas que se destinam a transformar em lei os programas hoje previstos em decretos e portarias. Caberá ao presidente decidir sobre a oportunidade de submetê-las à deliberação soberana do Congresso.

- Por que a CSL, mais abrangente, ficará só no esboço?

Essa parte do trabalho é de médio e longo prazo porque envolve uma proposta de maior abrangência. Note que a gênese da CLT começou em leis de 1930 e terminou com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho, já na década de 40. Avançaremos no estudo. É um degrau que não exclui os outros. Vamos propor ao presidente que determine, por meio de decreto, desde logo, a publicação de um volume em que estejam contidas as leis sociais mais importantes, inclusive as que precedem a Constituição de 88.

- Será uma cartilha?

Na verdade, será uma publicação de conscientização de direitos. Um compêndio, um vade mecum das leis sociais do Brasil. Serão publicadas como fundamentação dos direitos da cidadania. Algo que servirá para dar visibilidade às conquistas que vieram da Constituição de 88 e antes dela. O segundo movimento, que não exclui o primeiro, é conjunto de projetos de lei que teriam o objetivo de fundamentar legalmetne programas sociais que são de iniciativas de vários governos e que ainda não ainda estão abrigados em lei. E a terceira iniciativa, mais complexa, é a análise da consolidação das leis sociais, que, na formulação do presidente, visa dar um sentido de permanência às conquistas sociais que ocorreram no país, evitando-se eventuais retrocessos.

- Há um cheiro de getulismo nessas iniciativas, não acha?

Olha, não creio. A época é outra. A CLT foi produto de um projeto não democrático, ditatorial, que deu uma enorme força pessoal ao presidente. Isso numa época em que não precisava fazer consultas à sociedade ou articulações com os meios juridico e parlamentar. As leis sociais que resultaram na CLT começaram a surgir antes da Revolução de 30. Não acho que estejamos agora incorrendo em nenhum tipo de getulismo. O que move o presidente Lula é uma preocupação social-democrata moderna de fazer essa consolidação das leis sociais. Transformar políticas de governo em políticas de Estado. É essa a preocupação do presidente.

- É final de governo. Estamos na ante-sala da sucessão. Não receia que o movimento seja interpretado como algo meramente eleitoral?

Não receio isso porque estamos lidando com conquistas universais. Não são conquistas do presidente Lula ou do PT. Cito o exemplo do Pronasci. Foi aprovado por unanimidade na Câmara e no Senado. Portanto, é uma conquista de todos os partidos. Seria difícil vincular isso a um partido ou a um governante. Não creio que seja sensata uma análise que reduza tudo a um pretenso objetivo eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 06h45

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Quércia: ‘PMDB não vai entregar a mercadoria a Lula’

  José Cruz/ABr
Orestes Quércia classifica de “arbitrária” a decisão da cúpula do PMDB de firmar um pré-acordo nupcial com a presidenciável petista Dilma Rousseff.

 

“Estão fazendo uma pressão sobre os diretórios estaduais, de cima pra baixo, uma coisa arbitrária. Mesmo assim, eles vão perder na convenção”.

 

Presidente diretório do PMDB de São Paulo, Quércia falou ao blog. Disse que a direção do PMDB mercadeja algo que não está disponível na gôndola.

 

Fechado com a candidatura presidencial do tucano José Serra , Quércia declarou: “Eles estão vendendo para o Lula uma mercadoria que não vão entregar”.

 

Há 18 dias, Quércia reunira-se, em Brasília, com Michel Temer (SP), presidente da Câmara e presidente licenciado do PMDB.

 

Fora a Temer acompanhado de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Pregaram contra a formalização do “noivado” com Dilma.

 

Foram desatendidos. Estima-se que o acordo será celebrado dentro de duas semanas, com as bênçãos de Lula, padrinho da união.

 

Quércia atribui a pressa a dois grão-pemedebês: José Sarney e Renan Calheiros. Vai abaixo a entrevista:

 

 

- Michel Temer não atendeu ao vosso apelo. Por quê?

Estivemos com ele –o Jarbas, o Ibsen e eu. Dissemos que a antecipação do processo era um erro, uma precipitação. Ficou combinado que haveria outra reunião, mais ampla.

- Por que não houve a segunda conversa?

Eles estão fazendo uma pressão sobre os diretórios estaduais, de cima pra baixo, uma coisa arbitrária. Mesmo assim, eles vão perder na convenção. Não estão ouvindo a base do partido.

- Por que chama a decisão de arbitrária?

Isso nunca aconteceu no PMDB. Mesmo no tempo do doutor Ulysses [Guimarães]. Por isso conversamos com o Michel. Nós dissemos: ‘Michel, é preciso ouvir os Estados. Não se pode simplesmente fazer o jogo do governo’. Eu sou membro da Executiva do partido. A Executiva nunca discutiu isso. Mas há toda essa pressão.

- Quem faz a pressão?

Essa pressão é coisa do Renan e do Sarney.

- Temer lidera o movimento, não?

Sim, claro, porque ele está com a expectativa de ser o vice da Dilma. O Sarney e o Renan se aproveitam disso.

- Eles afirmam que a maioria da convenção é pró-Dilma.

Não podem dizer o contrário. Mas tenho sérias dúvidas disso. Eles estão vendendo para o Lula uma mercadoria que não vão entregar.

- O apoio a Dilma não virá por conta da dificuldade de decolar nas pesquisas?

Também por isso, mas não é só isso. O quadro de alguns Estados deverá se definir numa posição contra o PT.

- Que Estados são esses?

São Estados importantes, com muito peso na convenção nacional: São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pernambuco e outros do Nordeste. Há dificuldades no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais...

- Crê que será possível formar uma maioria pró-Serra?

Muitos companheiros acham que eles já perderiam na convenção agora. Pessoalmente, acho que, hoje, eles podem até ganhar. Mas esse quadro vai mudar. Vários diretórios ainda não querem mostrar a cara. Têm interesses a defender no governo. Acham que o Lula vai atender o que eles querem. Mais à frente essa coisa muda.

- Em que momento o PMDB deveria tomar uma decisão?

A decisão final só ocorrerá em junho, na convenção. Acho que tudo deve ser muito bem discutido. Deveríamos começar a preparar a convenção no início do ano que vem.

- O PMDB tem seis ministérios. Não deveria deixar o governo?

Se ficar decidido que o partido ficará com o governo, pode conservar os ministérios. Se o partido decidir apoiar o Serra, aí deve sair do governo. Isso a partir do momento da definição, que não é agora. É na convenção.

- Acha que o PMDB, dividido, pode não fechar com nenhum candidato?

Existe essa possibilidade de ocorrer um impasse. É uma hipótese possível. Eu trabalho pela formalização do apoio ao Serra.

- Por que Serra e não Dilma?

O Serra tem condições de governar melhor o país. Tem um projeto de crescimento econômico para o Brasil, coisa que o Lula não fez. A continuidade desse governo não seria boa para o país.

- Por quê?

Porque é um governo que não fez nada.

- Como explica a popularidade do presidente?

A situação do Lula é muito boa não porque ele está governando bem, mas porque as coisas vão indo bem a despeito do governo. Aquilo que o governo tinha que fazer não fez. O PAC, a grande proposta do governo, eles só conseguiram fazer 7% até hoje. O governo não está investindo nada.

- Não vê méritos na área social?

Houve uma ampliação do orçamento social, uma coisa positiva. Mas a questão fundamental para o crescimento são as obras de infraestrutra. Qual é a obra importante que o Lula fez depois de sete anos? Nenhuma.

- O governo não se portou bem na crise?

O Lula teve muita sorte. O mundo inteiro cresceu, não foi só o Brasil. Depois, houve essa crise. O Brasil não foi muito atingido. Mas outros países também não foram. A China e a Índia, por exemplo.

- O bom desempenho veio por inércia?

Isso se deve à política econômica, que foi herdada do governo anterior. O mérito do Lula foi o de ter aproveitado essa política econômica. Manteve a macroeconomia, o combate à inflação. Isso foi positivo. Mas são coisas que ele apenas deu continuidade. Outras coisas, que o governo deveria ter feito, ele não fez.

- O que não foi feito?

As reformas política, tributária e previdenciária não foram feitas. Ele não melhorou os portos, os aeroportos, as estradas. Não fez nada na infraestrutura. É um governo completamente inábil. Não tem projeto. O Serra, por sua experiência, pela forma como vem governando São Paulo, por ter sido ministro, tem condições de fazer.

- Apoia o Serra por que deseja disputar uma cadeira no Senado?

Essa questão de ser candidato ao Senado é relativa.

- Não Há um acordo?

Tem um acordo de o PMDB lançar o candidato. O meu nome é o que mais surge. Mas o que eu quero mesmo é evitar a continuidade do PT no governo.

- Que candidato vai apoiar para o governo de São Paulo?

Sou amigo do Aloisio [Nunes Ferreira]. Me dou bem com o [Geraldo] Alckmin também. Mas quem vai decidir isso é o PSDB e o Serra. Aquele que for o escolhido nós estaremos junto. Por ora, existem duas candidaturas.

Escrito por Josias de Souza às 04h12

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Alencar: ‘Estou preparado para a morte como nunca’

Fábio Pozzebom/ABr

 

Às voltas com a 11ª tentativa de tratar o câncer que carrega na região abdominal, o vice-presidente José Alencar confessa: “Ando cansado”.

 

Ele lança mão de uma expressão mineira para resumir sua situação clínica: “O trem está ficando feio para o meu lado”.

 

Sem meias palavras, Alencar declara: “Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio”.

 

“Isso não significa”, Alencar esclarece, “que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive”.

 

O vice-presidente falou à repórter Adriana Dias Lopes. Em uma hora, chorou duas vezes. A entrevista foi às páginas de Veja. Pode ser lida abaixo:

 

 

- Como o senhor está se sentindo?
Está tudo ótimo: pressão, temperatura, coração e memória. Tenho apetite, inclusive – só não como torresmo porque não me servem. O meu problema é o tumor. Tenho consciência de que o quadro é, no mínimo, dificílimo – para não dizer impossível, sob o ponto de vista médico. Mas, como para Deus nada é impossível, estou entregue em Suas mãos.

- Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista médico, sua doença é incurável?
Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente, pois sempre pedi para estar plenamente informado. A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar. Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público – ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence.

- O senhor costuma usar o futebol como metáfora para explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado. E, agora, qual é o placar?
Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando faço um gol. Não tenho mais forças para subir no alambrado e festejar.

- Como a doença alterou a sua rotina?
Mineiro costuma avaliar uma determinada situação dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a mudar nos últimos meses. Ando cansado. O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro fato que mudou drasticamente minha rotina foi a colostomia (desvio do intestino para uma saída aberta na lateral da barriga, onde são colocadas bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza, e a Jaciara (enfermeira da Presidência da República) para me auxiliarem com a colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto. Sem drama nenhum.

- O senhor não passa por momentos de angústia?
Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia. Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento. Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a doença que vai mudar isso.

- O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão?
A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse, não teria construído o que construí e não teria entrado na política.

- É penoso para o senhor praticar a humildade?
Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Cutait e Miguel Srougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.

- Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte?
Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: "Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso? Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.

- O senhor tem medo da morte?
Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.

- O senhor se deu conta da comoção nacional que tem provocado?
Não há fortuna no mundo capaz de retribuir o carinho dos brasileiros. Sou um privilegiado. Você não imagina a quantidade de manifestações afetuosas que tenho recebido. Um dia desses me disseram que, ao morrer, iria encontrar meu pai, falecido há mais de cinquenta anos. Aquilo me emocionou profundamente. Se for para me encontrar com mamãe e papai, quero morrer agora. A esperança de encontrar pessoas queridas é um alento muito grande – e uma grande razão para não ter medo do momento da morte.

- O senhor se tornou mais devoto com a doença?
Sou de família católica, mas nunca fui de ir à missa. Nem agora faço isso. Quando a coisa aperta, rezo o pai-nosso. Ultimamente, tenho rezado umas duas, três vezes ao dia.

- Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro?
Abraçaria a Mariza e diria: "Muito obrigado por ter cuidado tão bem de mim".

Escrito por Josias de Souza às 03h15

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Jarbas: grupo anti-Sarney ‘pode ser reduzido a dez’

José Cruz/ABr

 

Dissidente do PMDB e ferrenho opositor de José Sarney, Jarbas Vasconcelos (PE) ruminava na noite passada “o gosto amargo da derrota”.

 

Em entrevista ao blog, revelou-se decepcionado com o esfriamento dos ânimos da oposição. “É claro que o arrefecimento é ruim. Pode levar à desmotivação”.

 

De sua parte, diz que vai “continuar falando”. Acha que não ficará só. Mas reconhece:

 

“Pode ser reduzido a algo como dez senadores” o grupo disposto a continuar deblaterando conta o bloqueio às investigações no Senado.

 

“O importante é que esse grupo, ainda que não chegue a uma dezena, vai fazer tudo para que as coisas não passem em branco”.

 

Abaixo, a entrevista:

 

 

- Houve acordo?

Até onde pude acompanhar o processo, não vi acordo. Até porque havia uma consciência de que isso levaria a oposição à desmoralização.

- Mas houve um recuo no discurso, não?

Houve. Atribuo esse recuo à desarticulação da oposição. Temos uma organicidade reduzida demais.

- Se não houve acordo, o que aconteceu?

A gente ficou na dependência do PT, que ziguezagueou o tempo todo. A vitória de Sarney deve ser creditada ao PMDB e a Lula. O PMDB fez ameaças a Lula, que interveio no PT.

- E quanto ao comportamento da oposição?

Ela continua tímida e desorganizada. Isso também influenciou muito. Essa onda de acordão não surgiu do nada. A oposição deu ensejo a isso quando arrefeceu e permitiu que fossem criados hiatos no processo. O esforço precisa ser contínuo.

- Que análise faz do resultado?

Com esse Conselho de Ética, estava claro que a gente não conseguiria nada. Tínhamos cinco votos num universo de 15. E do lado de Sarney havia uma tropa de choque agindo fora de todos os limites.

- A ação da tropa de choque levou à contemporização, não?

Tive essa impressão também. Mas a nossa desorganização contribuiu muito para o desfecho. E veio a tibieza do PT. Hora nenhuma o PT deixou claro que se insubordinaria às ordens de Lula. O PT jogou muito mal.

- Poderia ter jogado de outro jeito?

Claro que sim. Veja a situação da bancada do PT. Ficou em frangalhos. A manifestação do senador Flávio Arns [PT-PR], homem tradicionalmente moderado, diz tudo. Ele não suportou o quadro que viu.

- A crise vai murchar?

Não. Esse resultado expôs ainda mais as entranhas do Senado. A estratégia de Sarney pode dar a ele alguma sobrevida, não vida eterna.

- Por que não?

As denúncias não vão parar. Boa parte das notícias foi feita com base em investigação da Polícia Federal. Não foi a oposição que inventou. Mantendo-se esse quadro de denúncias, o Senado ficará em situação mais vexatória.

- Acha que a oposição está disposta a esticar a corda?

Não creio. O DEM, para chegar onde chegou, não foi fácil. O Agripino [Maia] fez das tripas coração. O partido tem muitas pessoas ligadas a Sarney.

- Não se sente frustrado?

Muito frustrado. É uma decepção profunda. Um gosto amargo de derrota. Mas tenho a consciência de que estamos contribuindo para expor o que é o Senado, uma Casa que clama por reformulação.

- Não receia ficar falando sozinho?

Vou continuar falando. Acho que sozinho eu não fico. Mas mesmo que fique com alguns poucos, acho que é importante a gente continuar falando. Isso não é ser cavalo do cão nem dom Quixote. É claro que o arrefecimento é ruim. Pode levar à desmotivação. Mas não creio que um pequeno grupo continuará na briga.

- Vai assinar o recurso contra o arquivamento das ações?

Já assinei. Seria muito importante que DEM e PSDB também assinassem. Mesmo que não fossem todos, mas a maioria das duas bancadas.

- Não acha curioso que a iniciativa do recurso tenha partido do PSOL?

O ideal era que não fosse comandado pelo PSOL. A iniciativa deveria ter sido de um grande partido.

- Fica claro o arrefecimento da oposição, não?

Sim, claramente. O que é uma pena. Sempre externei esse receio nas nossas minhas conversas. Disse que, se a leitura da imprensa fosse a de que tinha havido um acordo, isso nos desmoralizaria. Se a gente não tivesse jogado todas as fichas no PT, esse cheiro de acordão não teria chegado perto da oposição. Perdemos porque o PT, sob ordens de Lula, negou seus três votos no conselho.

- Não lhe parece que o cheiro de acordo se deve ao recuo da oposição diante das ameaças do PMDB de Renan Calheiros?

Ficou, de fato essa impressão. O próprio discurso de Tasso Jereissati, feito há 15 dias, deixou essa impressão. Ele foi à tribuna para pedir desculpas. Chegaram a noticiar que tinha se desculpado com Renan. Uma inverdade. Ele se desculpou à sociedade por ter se deixado envolver num episódio lamentável. A investida de Renan e Collor contra Simon também deixou amedrontada muita gente. Tudo isso somado à nossa desorganização e às intervenções antiéticas de Lula levaram a esse resultado desastroso.

- Sarney disse que o Senado voltará ao normal. Concorda?

O Sarney diz cada coisa! É claro que não vai voltar ao normal. Não creio que ele vá presidir a Casa como se nada tivesse acontecido. As denúncias não vão estancar.

- Que tamanho terá agora a bancada anti-Sarney?

Nesse ‘day after’, não podemos fingir que nada aconteceu. Pode ser que alguém desapareça do processo. Certamente teremos perdas. Mas não creio que haja recuo de pessoas como Demóstenes Torres, eu e Pedro Simon, Tião Viana, Cristovam Buarque, Álvaro Dias, José Nery e outros.

- Sua lista traz sete nomes. Não é pouca gente?

Torço para que o grupo seja maior, mas reconheço que pode ser reduzido a algo como dez senadores. O importante é que esse grupo, ainda que não chegue a uma dezena, vai fazer tudo para que as coisas não passem em branco. Insisto: Não se pode fingir que nada aconteceu.

Escrito por Josias de Souza às 04h44

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Mercadante: ‘Minha disposição é de sair da liderança’

  Fábio Pozzebom/ABr
Desautorizado pela direção do PT e sob críticas de Lula, Aloizio Mercadante é, hoje, um líder em litígio com a cadeira.

 

Em menos de 48 horas, pôs o cargo “à disposição” da bancada duas vezes. Acena com a hipótese de tomar uma decisão nesta quinta (20).

 

Na noite passada, falava como um quase-ex-líder. Em entrevista ao blog, Mercadante declarou:

 

“A minha disposição é de sair da liderança. Pra mim, o posto de líder tornou-se um sacrifício político e pessoal muito grande”.

 

Abaixo, a entrevista:

 

 

- Por que se recusou a ler a nota do PT no Conselho de Ética?

Queriam que eu lesse a nota. Poderia ter lido. Mas a nota está assinada pelo [Ricardo] Berzoini [presidente do PT] e não expressa a minha posição.

- Qual é a sua posição?

Minha posição é a da maioria da bancada do PT. Éramos contra o arquivamento de todas as ações em bloco. Defendíamos a apuração dos casos que dizem respeito ao Senado, como os atos secretos.

- Essa fórmula é endossada por quantos senadores?

Na reunião da bancada [realizada nesta quarta (20)], seis senadores sustentaram essa posição. Antes, havia também a Marina, que deixou o partido, e o Flávio Arns, que sinalizou a saída.

- Por que não renunciou à liderança?

Eu expus à bancada a minha avaliação política de que deveria deixar a liderança. A posição da bancada foi desconsiderada no final. O partido tinha apoiado o nosso encaminhamento. Depois, houve essa mudança importante.

- Por que permanece líder?

Eu disse à bancada: não quero mais ficar na liderança, não me sinto em condições. Os sete senadores presentes me pediram: Não faça isso, especialmente nesse momento de crise da bancada.

- Cedeu aos apelos?

Eu disse: meu cargo continua à disposição. Ficou em aberto. A minha disposição é de sair da liderança. Pra mim, o posto de líder tornou-se um sacrifício político e pessoal muito grande. O líder tem que pagar um preço pela situação criada. Sou responsável pela indicação dos membros do Conselho de Ética.

- Sente-se desautorizado?

Houve uma decisão partidária que se sobrepôs à bancada.

- É normal?

A bancada é uma instância partidária. Estatutariamente, ela é subordinada à direção partidária. E a direção tomou uma decisão diferente da nossa.

- Em nome da ‘governabilidade’, o governo interveio. Havia alternativa?

Acho que havia um risco grande para o governo, que tem maioria precária no Senado. Haveria abalos à base de sustentação. Mas havia uma saída, que lutei para construir. Durante um período, tive apoio de muitas lideranças da base do governo e do partido.

- Lula errou ao sair em socorro de Sarney?

Não falo do presidente. Digo que o governo tem uma coligação de 11 partidos. Precisa de estabilidade, que vem com os votos no parlamento. A correlação de forças é muito difícil. Mas a bancada do PT é uma instância do partido e precisa ser respeitada. Nem sempre a posição do governo tem que ser a posição da bancada. Nesse episódio não foi.

- Flávio Arns disse que o PT jogou a ética no lixo. Concorda?

Não concordo com essas expressões. Elas simplificam o problema. Estão motivadas por uma decisão política do Flávio Arns de sair do partido. Decisão que já estava sendo construída antes desse episódio. Do mesmo modo que a Marina [Silva] saiu hoje, mas a decisão não está vinculada a esse episódio.

- A oposição diz que o PT salvou Sarney. O que acha?

A oposição mudou de atitude ao longo da crise. Fez uma inflexão no comportamento. Alguns senadores sequer foram votar. Fizeram um entendimento em relação a encaminhamentos.

- Houve um acordo?

Lógico que houve um entendimento entre a oposição e o PMDB. As decisões do Conselho de Ética são resultado desse entendimento. Não conheço os termos. Não participei.

- Mas, efetivamente, os três votos do PT salvaram Sarney, não?

A oposição tenta fazer desse episódio uma luta político-eleitoral, para desgastar o governo.

- Está funcionando, não?

Há dificuldades. O DEM é parceiro do PMDB em toda a gestão do Senado. Nos últimos 14 anos, eles sempre estiveram ou na presidência ou na primeira-secretaria. A administração da Casa sempre esteve sob a responsabilidade do DEM e do PMDB. Além disso, o DEM elegeu o Sarney. Quem se opôs ao Sarney fomos nós e o PSDB.

- Faz uma distinção entre DEM e PSDB?

A oposição está dividida nesse processo, sempre esteve. A base do governo também está dividida. É preciso distinguir o PSDB do DEM em todo o processo.

- Qual é a diferença?

A diferença é que os tucanos não votaram no Sarney e nunca tiveram uma responsabilidade direta na administração do Senado.

- Mas o PSDB não fez também uma inflexão no discurso?

Sim. Aconteceu. Eles ficaram muito expostos e fragilizados.

- Que futuro antevê para o Senado?

Vejo um cenário de muitas dificuldades. A crise não será superada com esse encaminhamento. Por isso defendíamos que houvesse investigação daquilo que diz respeito ao Senado. Identificaríamos responsabilidades e construiríamos caminhos.

- Para Sarney, o Senado retomará a normalidade. Concorda?

Não. Arquivar todos os processos e imaginar que a crise passou é um grande equívoco. O tempo vai mostrar. Para resolver a crise precisava investigar, identificar responsabilidades, cortar despesas e reformar. A normalidade só vai voltar quando o Senado restabelecer as suas relações com o sentimento do povo brasileiro. Com essa decisão, a relação não está reconstituída.

- Receia que a crise do Senado lhe imponha custos eleitorais?

A crise impõe custos a todos os senadores. Mais para aqueles que defendem a saída que prevaleceu. Mas, como disse, a crise não acabou. É um processo em curso. Muita coisa vai acontecer.

- Mantendo-se na liderança do PT, o custo não aumenta?

Politicamente e do ponto de vista pessoal, o melhor caminho é me afastar da liderança. E essa não é uma hipótese descartada.

Escrito por Josias de Souza às 03h09

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Jarbas: ‘A presidência de Sarney não chega ao final’

José Cruz/ABr

 

Numa entrevista que concedera em fevereiro, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) vaticinara: “O Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão”.

 

Decorridos cinco meses, o senador acha que a realidade ultrapassou as suas previsões: “As coisas que afloraram são mais espantosas do que eu imaginava”.

 

Dissidente do PMDB, Jarbas acha que José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), mandachuvas de seu partido, estão “debochando do Senado e do país”. E faz uma nova previsão:

 

“A presidência de Sarney não chega ao final”. Acha que a gestão do atual presidente do Senado “será abreviada por estrangulamento”.

 

Vai abaixo a entrevista que o senador concedeu ao blog:

 

 

- O recesso parlamentar vai atenuar a crise?

Não. A crise é muito grave. Não é coisa que arrefeça em duas semanas. Ao contrário. O azedume vai se acentuar. Quando recomeçarem os trabalhos, em 3 de agosto, a crise volta com toda a dureza.

- De onde vem essa convicção?

Vem dos fatos que ocorreram antes do início do recesso. Houve muito deboche. Esse deboche vai ser exasperado, atiçando os ânimos.

- A que deboche se refere?

Eu me refiro à representação governista, especialmente a do PMDB, no Conselho de Ética e à pessoa escolhida para presidir o colegiado [senador Paulo Duque].

- O que achou da escolha de Paulo Duque (PMDB-RJ) para presidir o conselho?

É parte do deboche. O fato de ele ser segundo suplente diz muito sobre o que se passa no Senado. É um homem limitado, figura inexpressiva. Não tinha atuação nenhuma no Senado. Demonstrou todo o seu despreparo na sessão de instalação da CPI da Petrobras. No Conselho de Ética será pior. Não há outra palavra para definir o quadro. É um deboche.

- Quem está por trás do deboche?

O Renan, mas não só ele. Essa composição do Conselho de Ética tem o beneplácito de Sarney. Se ele tivesse bom senso, teria evitado isso. Foge do razoável que o Sarney queira ser protegido dessa forma.

- Renan e Sarney debocham de quem?

Eles debocham do Senado e, por consequência, do país. Até onde vai esse deboche eu não sei.

- Em entrevista à Veja, o sr. dissera que Sarney transformaria o Senado num grande Maranhão. Achava que chegaria a tanto?

Não. Nunca imaginei que as denúncias fossem se avolumar nessa proporção. Imaginava que não iríamos progredir na reforma do Senado. Achava que a estrutura permaneceria a mesma, que teríamos de continuar aturando o Agaciel [Maia]. As coisas que afloraram são mais espantosas do que eu imaginava.

- Mantém as ressalvas que fazia ao PMDB?

Minhas ressalvas se agravaram. Os atos praticados agora são muito mais debochados do que os que ocorreram na crise do Renan, há dois anos.

- A crise Sarney é pior do que a crise Renan?

Muito pior, mas muito mesmo.

- Por quê?

Os fatos agora envolvem o presidente da Casa de maneira mais avassaladora. E o exercício do deboche, há dois anos, era mais contido. Agora, passamos do deboche para o achincalhe. É como se eles quisessem pagar para ver. Estão esquecendo que a crise exerce efeitos sobre os senadores também durante o recesso.

- Que efeitos?

Não vai ser fácil percorrer as ruas ouvindo gracejos. Na antevéspera de uma eleição, isso obviamente terá efeitos.

- A crise contamina todos os senadores?

Sem dúvida. Todos pagam o pato. Mesmo os que não têm responsabilidade nenhuma. A aversão ao Senado e à classe política é transferida para todos.

- Quantos senadores vão às urnas?

Dois terços do Senado –54 senadores—estão na ante-sala da eleição. O desgaste pode não grudar em Lula, mas cola no PT e nos senadores governistas que defendem Sarney. O receio de todo mundo é o de que o eleitor decida não votar nos atuais detentores de mandato. Quanto maior o deboche, maiores as problemas dessa gente.

- Acha que há mesmo uma indignação popular?

Ela existe e é grande. Mas poderia ser muito maior. A mídia tem exercido um papel mais contundente do que qualquer partido ou parlamentar.

- Que desfecho prevê para a crise?

Não vejo disposição no Sarney para se afastar. Ele tenta atribuir normalidade a um quadro completamente anormal.

- Qual será o desfecho da crise?

A conjuntura aponta para o imponderável. Nada será favorável a Sarney. Ele esteve na bica de renunciar. Quem o segurou na cadeira foi o Lula.

- O apoio de Lula salvou a presidência de Sarney?

Não. Lula apenas deu uma sobrevida a Sarney. Não acredito na permanência de Sarney na presidência do Senado.

- Acha que a gestão Sarney não chega ao final?

Não. Ele se desconectou da realidade. Acha que as denúncias chovem no molhado. Acredita que, por ter sido presidente da República, está acima de tudo. Mas não há ambiente para a continuidade dele no comando da Casa. A presidência de Sarney não chega ao final.

- Como interromper a gestão de alguém que não se dispõe a renunciar?

Vamos chegar a uma situação de impasse total. Senadores independentes podem decidir não votar mais nenhuma matéria sob a presidência dele. Partidos como o DEM e o PSDB podem fazer o mesmo. Pode-se chegar a um impasse que tornará a saída de Sarney inevitável.

- É coisa para logo?

Não é possível dizer se ocorrerá logo. Mas vai acontecer. Dias atrás, o desfecho parecia uma questão de horas. O que ninguém esperava é que o Lula fosse fazer uma defesa tão contundente do Sarney. Adiou-se o problema. A presidência de Sarney será abreviada por estrangulamento, não por vontade dele.

- Não está exagerando?

Não creio. Vejo a perspectiva de chegarmos a um impasse tal que a saída dele será inevitável. Li no seu blog que Sarney deu graças a Deus pelo início do recesso. Imaginar que duas semanas vão amainar essa crise é de uma infantilidade inacreditável.

- Como avalia o papel do PT na crise?

O PT errou muito. Sua bancada convive com o incômodo de ter tomado a posição correta e depois ter mudado de rumo por conta da interferência de Lula.

- Continua achando que o PMDB quer mesmo é cavar negócios na máquina estatal?

Sem dúvida. Utilizam-se os mandatos para abrir caminho para negócios e safadezas no governo.

- Por que não deixa o partido?

Por falta de opção. Só posso pensar em mudar de partido se tivermos uma reforma política séria e decente. Até lá, prefiro ficar como dissidente no PMDB, sinalizando para a minha base e para a opinião pública do país que o meu PMDB não é esse. O meu PMDB é decente, correto, sem safadezas.

Escrito por Josias de Souza às 03h06

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Marina: Licença seria ‘gesto de grandeza de Sarney’

Elza Fiúza/ABr

 

Lula está reunido nesse instante com a bancada de senadores do PT. Vai pedir que apóiem José Sarney.

 

No carro, a caminho do encontro, a senadora Maria Silva (PT-AC) falou ao blog. Ela é uma das vozes que pedem que Sarney se licencie da presidência do Senado.

 

Acha que, se aceitasse a sugestão, Sarney protagonizaria um “gesto de grandeza”. Não acha que haveria prejuízos à “governabilidade”.

 

E se Lula fizer um apelo? “Não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula [...]. Vai ser um diálogo, não uma imposição”.

 

Vai abaixo a entrevista: 

 

 

 

- Por que acha que Sarney deve se licenciar?

É uma visão que construímos dentro da bancada. Para processar essa crise, uma das etapas é o afastamento do presidente Sarney.

- Acha que a licença resolve o problema?

É claro que o afastamento em si mesmo não resolve o problema. É uma parte do processo de resolução. Há também a proposta de constituição de uma comissão, todas as providências que devem ser tomadas do ponto de vista das investigações, punições quando houver comprovação e reforma do Senado. Chamo esse processo ‘instituinte’. É peciso responder a algumas perguntas: Qual é o Senado que a população brasileira se dispõe a bancar? Qual é o Senado que nós, senadores, juntamente com os servidores que honram a sua profissão, queremos construir? É preciso recompor o velho Senado, fazê-lo renascer das cinzas como uma Fênix.

- Quem é responsável pela crise?

A crise existe em co-responsabilidade. Sem querer diluir a responsabilidade dos que têm mais, é preciso dizer que a responsabilidade é compartilhada. Afinal de contas, há 81 senadores. A saída para a crise também é um processo que deve ser construído em co-autoria. Ninguém vai chegar a resposta definitiva isoladamente, só um partido, só um bloco... Não vai ser assim. Ou nos responsabilizamos todos ou não encontraremos a solução exigida pela soiedade e necessária à instituição.

- A presença de Sarney é um óbice às mudanças?

Se tratarmos assim, reduzindo tudo à presença de uma pessoa, a gente diminui o tamanho do problema. O que eu digo é que o afastamento dele faz parte do processo de encaminhamento da resolução dos problemas.

- Ele é parte do problema?

Justiça seja feita. As sugestões que vêm sendo dadas estão sendo adotadas pela Mesa [diretora do Senado]. Mas tem uma coisa que acontece na política e nos processos mais complexos: não basta ter a solução técnica dos problemas. Os processos são tão importantes que, às vezes, as pessoas não se sentem espelhadas neles, mesmo que conduzam a resultados bons

- Acha que a licença basta?

Até esse momento, nenhum partido ou senador sugeriu ao presidente Sarney que renunciasse. Todos têm dito que a melhor forma de encaminhar o problema seria um afastamento dele, até como um gesto de grandeza dele próprio. Diria: ‘Olha, já tomei todas as medidas, sabem que não estou criando obstáculos. Mas, como um gesto extremo desse meu distanciamento, para que as coisas sejam apuradas com toda a equidistância, estou me licenciando por um período’. Faz parte do processo.

- De que modo esse gesto ajudaria?

No meu entendimento, esse gesto levaria a novos atos em benefício da instituição Senado. A crise é muito grande. E o Senado, a democracia brasileira, a credibilidade das instituições, tudo isso é parte de um processo sempre em construção. São valores maiores do que cada um de nós individualmente. Maiores do que cada partido individualmente. Nesse momento, temos que ter um pouco de humildade. Todo mundo deve olhar de cima pra baixo, para ver o que está acima de nós: a democracia e as instituições públicas. Elas dependem de pessoas virtuosas, mas não só. Sem instituições virtuosas, não há como depurar os processos sociais. É obrigação de todos trabalhar pelos objetivos. Não é um esforço individual. Ninguém ganha no varejo. E todos perdem no atacado.

- A tese de que o afastamento de Sarney prejudicaria a governabilidade não a sensibiliza?

Não creio que o afastamento vá prejudicar a governabilidade. Até porque ninguém está dizendo que afastamento é para que tudo fique um caos, para que cada um faça uma política do deixa como está. É dentro de um processo de co-responsabilidade. Pode parecer ingênuo de minha parte, mas acredito que existem gestos de grandeza.

- Acha que a sociedade ainda conta com a grandeza do Senado?

Sei que a sociedade espera que alguma coisa seja feita. Não sei sei se ainda temos credibilidade para que as pessoas esperem grandeza de nossa parte. Mas talvez tenhamos que dar o primeiro passo. O Lacan fala que o sentido aparece só depois, mas a confiança tem que ser obtida antecipadamente. É preciso confiar na capacidade de homens e mulheres de bem, que não são perfeitos nem santos, mas que são capazes de dividir responsabilidades e autoria para a realização das grandes coisas. Não existe nada grande que seja feito por uma ou duas pessoas. É sempre um processo em co-autoria. Prefiro acreditar nisso. Tudo o que mudou significamtivamente foi assim.

- Diante de um apelo do presidente para que a bancada apóie Sarney, qual será sua posição?

Em primeiro lugar, não existe apelo sem argumento. Vou ter que ouvir os argumentos do presidente Lula. E não há argumento que não seja passível de uma contra-argumentação. Então, vai ser um diálogo, não uma imposição. O que vou sugerir é que a bancada se reúna novamente, para processar o que ouviremos do presidente e também o que diremos a ele. Só vou poder formar a minha opinião depois de ter todos os argumentos. Fizemos sugestões ao presidente Sarney, repetiremos ao presidente Lula. São coisas nas quais acredito profundamente. Acho que é a melhor forma de contribuir para resolver a crise. Não vai ter resposta mágica, é um processo. Não é uma cirse apenas política, mas também estrutural. A bancada vai ter de se reunir novamente.

Escrito por Josias de Souza às 21h39

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Diretor demitido culpa Agaciel Maia por atos secretos

  Sérgio Lima/Folha
Afastado da direção-geral do Senado, Alexandre Gazineo diz que não sabia que atos administrativos assinados por ele se tornariam decisões secretas.

 

Rubricou os papéis quando era adjunto de Agaciel Maia. Atribui os malfeitos ao ex-chefe. “Jamais partiu de mim nenhum pedido para que não fosse publicado”.

 

Em entrevista ao blog, Gazineo disse que analisa a viabilizade de uma ação judicial por danos morais contra Agaciel. Vai abaixo a entrevista:

 

 

- Como se deu o afastamento?

Na última sexta-feira, conversei com o presidente [Sarney]. Disse a ele, o que é natural, que o cargo era dele, que a conveniência da mudança pertencia a ele.

- Pôs o cargo à disposição?

Sim.

- O que Sarney respondeu?

Do meu ponto de vista, a mensagem foi entregue na sexta. Nesta segunda, nós voltamos a conversar e foi uma coisa muito tranquila. A imagem do presidente Sarney junto a mim continua a mesma. Ele tem respeito pelo servidor. E eu fui brindado com respeito e consideração. Sigo a minha vida funcional com a cabeça erguida.. Sou servidor de carreira, fiz o primeiro concurso para advogados da Casa, em 1995.

- Que análise faz da crise?

Essa crise envolvendo o ex-diretor-geral Agaciel Maia começou no final de janeiro, início de fevereiro. No dia 3 de março, eu era diretor-geral-adjunto. Atuava mais na área técnica.

- Quais eram as suas atribuições como adjunto?

Era uma atuação basicamente técnica. Aplicava penalidades a empresas, orientava gestores de contratos. Servia como uma espécie de filtro, para que nem tudo precisasse chegar à diretoria-geral.Além disso, substituía o diretor-geral na ausência dele.

- Na análise dos contratos, não detectou irregularidade?

Eu não fazia a supervisão de contratos. Entrava nas questões quando os gestores desses contratos me traziam problemas e era preciso impor alguma sanção, aplicação de multas. O que detectei eram contratos que tinham crises, execução problemática, empresas [de mão-de-obra terceirizada] que às vezes não pagavam aos servidores. Mas eu não tinha como detectar irregularidades. Nunca participei da formação dos contratos, da celebração deles e das tratativas com as empresas.  

- Por que assinou atos secretos?

Esses atos eram mandados para mim porque a competência do diretor-geral-adjunto é a de substituir o diretor-geral. Isso ocorria mesmo em circusntâncias em que o Agaciel não estava de férias. Ou estava fora da Casa ou estava viajando.

- Como se dava a tramitação?

Esses atos tramitavam junto com os processos respectivos, com os pedidos dos gabinetes dos senadores ou das lideranças dos partidos. São basicamente nomeações de comissionados. Nunca nomeei servidor efetivo.

- Comissionados são os funcionários de confiança dos senadores?

Exatamente, da estrutura dos gabinetes. Vinham devidamente instruídos, com os pedidos dos senadores. Eu assinava. Muitas vezes até colocava a letra pê e uma barra sobre o nome [p/] do doutorAgaciel.

- O que queria dizer esse ‘p/’?

Muitas vezes era uma substituição tão transitória que eu nem sequer colocava o meu nome. Ia com o ‘p/’, que significa que estava assinando no lugar de Agaciel, como se fosse ele. É algo que se usa na administração.

- Depois de assinado, o que acontecia com o ato?

Retornava para a diretoria-geral e se dava o andamento.

- Participou da decisão de não publicar?

Nunca participei ou tive qualquer influência na decisão de publicação ou não desses atos. Jamais partiu de mim nenhum pedido para que não fosse publicado.

- Tem como provar?

Posso comprovar a qualquer instante. Nunca fui ao gabinete do [João Carlos] Zoghbi [ex-diretor de Recursos Humanos]. Não conheço o Franklin [Albuquerque Paes Landim, chefe do serviço de publicação do boletim de pessoal do Senado]. Nunca conversei com ele nem por telefone. Nunca participei dessa rotina de publicação. Há atos que são de épocas em que eu nem no Senado estava.

- Mas sua entrada no Senado não ocorreu em 1995?

Fiz o concurso em 1995. Mas só fui nomeado no segundo semestre de 1996. E só virei diretor-geral-adjunto no final de 2004 ou início de 2005. Não há ato assinado por mim antes disso.

- Tinha conhecimento da prática de não publicar determinados atos?

Não tinha conhecimento. Nunca me foi dito. Se eu tivesse ciência disso, teria adotado uma postura pró-ativa. Ia pedir para não me mandar mais ato nenhum ou me tirar da função. Não assinaria mais nada.

- O princípio constitucional da publicidade foi ferido, não?

Sim, claramente. Mas reafirmo que nunca tive ciência. Cumpria uma rotina que era administrativa. Eram atos que vinham acompanhados dos pedidos das autoridades competentes.

- Acha que os senadores têm responsabilidade?

Não digo que eles tenham responsabilidade porque, na vardade, o que eles faziam era correto. Pediam a nomeação de assessores.

- Não pode ter havido ciência dos senadores que solicitaram as nomeações?

Não acredito.

- Depois da revelação do caso, tomou satisfações com Agaciel?

Conversei com ele. E ele apenas me disse o que tem dito: não considera que os atos sejam secretos. Diz que os atos teriam sido publicados em boletins, que nomeações não têm como ser secretas. É a versão que ele tem dado.

- Acha que a explicação aceitável?

No meu entendimento, qualquer ato administrativo tem que ser publicado.

- Quando assumiu a direção-geral dizia-se que seria a continuação de Agaciel. É amigo dele?

Nunca fui à casa do doutor Agaciel. Sabia que morava no Lago Sul. Mas não sabia nem o endereço. Só quando surgiu o caso da mansão é que eu soube que a casa tinha as dimensões e as características que a imprensa mostrou. Doutor Agaciel promovia um futebol na residência. Jamais fui a esse futebol. Tinha relação profissional, era meu superior hierárquico.

- Mas o Sr. foi ao casamento da filha de Agaciel, não?

Estive no casamento. Ele me enviou um convite e eu fui. Gosto muito da esposa dele, a doutora Sandra, uma pessoa boa.

- Pretende tomar alguma providência contra Agaciel?

Estou examinando se há a possibilidade de tomar alguma medida de dano moral. Seria uma medida particular. Estou trocando idéia com alguns advogados. Seria contra quem me causou o prejuízo de ter meu nome vinculado a tudo isso. Em princípio seria contra o ex-diretor-geral. Preciso ver se é cabível.

- Considera que foi traído por Agaciel?

Sim. E mais: minha preocupação principal é a minha biografia. Fui da Caixa Econômica Federal por muitos anos. Trabalhei no governo da Bahia. É uma biografia clara, não tenho nada que me desabone.

- O sentimento de traição decorre da não publicação dos atos?

Exatamente isso. Eu não tinha ciência. Não tinha como interferir para preservar o meu nome.

Escrito por Josias de Souza às 03h42

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha de S.Paulo.

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