Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Dilma desvia do entulho e esbarra no ‘por outro lado’

Sérgio Lima/Folha

No esforço para se livrar do entulho ministerial que herdou de Lula, Dilma Rousseff enfrenta a conspiração de uma convenção de linguagem.

Tornou-se impossível fazer um resumo dos primeiros dez meses de Dilma sem usar o “por outro lado”.

O “por outro lado” está para as ações políticas de Dilma assim como o ar condicionado do Planalto está para o seu sistema respiratório.

Nesta quarta (26), enquanto cuidava da sexta troca de ministro, Dilma guerreava, pela enésima vez, contra a rinite que a persegue.

Diferentemente de Lula, Dilma não parece afeita à idéia de passar a mão na cabeça de malfeitores.

Por outro lado, ela não age. Apenas reage ao noticiário que denuncia o déficit de polícia na política.

Em reação às manchetes, Dilma já se livrou de seis ministros –a maioria nomeada a pedido de Lula.

Por outro lado, nos casos de suspeita de corrupção, ela manteve a pasta conspurcada sob controle do partido do violador.

Ao trocar petê por petê, pemedebê por pemedebê, pecedobê por pecedobê, Dilma faz sua omelete ministerial sem quebrar os ovos do condomínio partidário.

Por outro lado, ela mantém intacto o modelo clássico do toma-lá-dá-cá. Não troca de ministros, troca de cúmplices.

Dilma parece sincera quando diz que, no seu governo, malandro não se cria.

Por outro lado, a intenção esbarra nos fatos. Além de nomear gente desqualificada, ela, como os antecessores, lida com pseudo-aliados que condicionam a aliança à perpetuação da malandragem.

Em resumo, foi alvissareiro o início da gestão Dilma. Por outro lado, não foi.

Houve muita mudança no primeiro escalão. Por outro lado, ficou a impressão de que tudo não passou de espirro.

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Escrito por Josias de Souza às 05h42

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Quanto à corrupção Dilma preside um ‘governo leitor’

Dilma Rousseff gostaria que Orlando Silva pedisse pra sair. Prefere limpar a grande área do Esporte sem ter de recorrer ao propalado talento de zagueira.

O problema é que o Orlando, diferentemente de incômodos anteriores –Alfredo Nascimento e Wagner Rossi, por exemplo—, não se dá por achado.

Nem mesmo a conversão do cipoal de suspeitas em inquérito formal, autorizado pelo STF, fez cair a ficha do novo ministro-problema.

“Quem solicitou a apuração fui eu. Não há nenhum fato que altere minha condição de inocente", deu de ombros Orlando.

Renato Rabelo, presidente do PCdoB, legenda à qual a encrenca está filiada, passou pelo Planalto na tarde desta terça (25).

Numa conversa com o ministro ‘faz-tudo’ Gilberto Carvalho, o capa-preta do comunismo do ‘B’ aferiu o tamanho da insatisfação que a teimosia provoca. E nada.

Orlando e seu partido agem como se desejassem emparedar Dilma. Quer livrar-se do contágio? Pois que use a caneta!

Nas crises anteriores, a presidente ganhara a simpática fama de “faxineira”. Fica entendido agora –mais do que antes— que o título era imerecido.

Em matéria de corrupção, Dilma preside um governo leitor. Comanda uma gestão, por assim dizer, pautada.

Dilma faz, em reação ao notíciario, o que deixou de fazer por convicção ou precaução. No caso de Orlando Silva, nem isso.

Ao esquivar-se de entrar de sola, a ex-faxineira desperdiça o seu tempo. Em vez de higienizar a área, atrai para si a sujeira.

A presidente já invocou o respeito ao sagrado princípio da presunção de inocência. Tolice.

Ninguém revogará o direito do ministro de exercer nos autos do inquérito recém-aberto o direito ao contraditório.

A questão é outra: o relógio da política não segue o ritmo dos ponteiros da engrenagem judicial.

Amanhã, se Orlando Silva for declarado inocente, erga-se uma estátua em sua homenagem.

Hoje, ele não é senão um administrador temerário. E manda o bom senso que gestores suspeitos sejam mantidos longe dos cofres.

Assim, a presidente prestaria um favor a si mesma e renderia homenagens ao contribuinte se resolvesse presidir.

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Escrito por Josias de Souza às 05h42

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Rumo ao fundo do poço, a política chegou à garagem

A corrupção, não é de hoje, empurra a política brasileira em direção a um metafórico fundo do poço.

A cada novo escândalo, o brasileiro se pergunta: será que chegamos, finalmente, ao fundo do poço?

Logo surge outro escândalo para informar que a viagem às profundezas terá novas escalas. Pense no que já sucedeu em poucos meses de gestão Dilma.

O fundo do poço da fortuna do Palocci foi seguido pelo fundo do poço da roubalheira dos Transportes...

...Que foi superado pelo fundo do poço da Agricultura dominada por “bandidos”, que foi suplantado pelo Turismo convertido em centro de torrefação de verbas...

A imagem do ministro octagenário espetando na bolsa da Viúva do salário da governanta à conta da festinha no motel tinha cara de fundo do poço.

Súbito, o inacreditável é ultrapassado pelo inaceitável. Escala as manchetes o caso do ministro que recebeu propina no subsolo.

“Por um dos operadores do esquema, eu soube na ocasião que o ministro recebia o dinheiro na garagem”, relata o denunciante.

Ele dá nome ao repassador da verba, que, ouvido, capricha nos detalhes: “Eu recolhi o dinheiro com representantes de quatro entidades aqui do Distrito Federal…”

“[…]…Entreguei ao ministro, dentro da garagem, numa caixa de papelão. Eram maços de notas de 50 e 100 reais.”

O entregador prossegue: “[…] O ministro estava sentado no banco de trás do carro oficial. Ele abriu o vidro e me cumprimentou…”

“…O motorista dele foi quem pegou a caixa com o dinheiro e colocou no porta-malas do carro.”

Abalroado pelos relatos, o ministro com nome de cantor, Orlando Silva (Esportes), entoa um canto usual e algo desafinado.

Declara-se “chocado”, “estupefato, “perplexo”. Chama o denunciante, seu camarada de PCdoB, de “bandido”. Ao mesmo tempo, admite tê-lo recebido em audiência.

Pespega no detrator a pecha de chantagista: “Durante um ano esse sujeito procurou gente do ministério e fez ameaça, insinuação. E qual foi a nossa posição?...”

“…Amigo, denuncie, fale o que você quiser. Por quê? Porque, como nós temos convicção de que o que foi feito foi o correto, nós não tememos.”

Submetido a uma pergunta trivial –por que não denunciou o chantagista à polícia? –o ministro se enrola.

Orlando Silva afirma que “imaginou” que um de seus subordinados pudesse ter levado o assunto às autoridades competentes. “Chegamos a falar sobre essa hipótese.”

O ministro sugere aos repórteres: “Vale a pena olhar qual é a minha declaração de renda, qual é meu patrimônio, qual é minha conta bancária e qual é a dele.”

Enigmático, Orlando Silva indaga: “Qual é a [conta] dele e de outras pessoas que têm relação [com ele]?”

Ficam boiando na atmosfera outras interrogações incômodas: por que diabos o “bandido”, dono de ONG, beliscou verbas do Ministério dos Esportes?

Se o próprio ministro suspeita que a conta de seu companheiro de partido engordou além do razoável, por que não o denunciou?

Esse penúltimo escândalo ainda não leva a política brasileira ao fundo do poço. Mas chega mais perto. Já estamos no subsolo, na garagem.

Aos pouquinhos, vai-se dissipando aquela esperança de que o fundo do poço possa ser, brasileiramente, adiado ao infinito.

O modelo que expõe os governos ao canibalismo dos partidos morreu. O cadáver fede à beira do abismo eterno.

Nesse interminável adiamento do encontro da política com o fundo do poço, o brasileiro, antes habituado a conviver com o inaceitável, esboça sinais de reação.

Organizando-se pela internet, à margem de partidos e entidades, a rapaziada já produziu um par de marchas anticorrupção.

Diz-se que 20 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios é pouca gente. Tolice. Todo grande movimento começa pequenininho.

A ficha da garotada começou a cair. A turma percebeu que quem está cavando o poço é a sociedade. Como? Com a enxada da inércia.

Ao ganhar o meio-fio, um pedaço da sociedade informa que prefere o cabo da vassoura ao cabo da enxada.

Quem não perceber a importância do gesto arrisca-se a perder a beleza do movimento.

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Escrito por Josias de Souza às 19h11

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Tem dúvidas sobre a política do BC? Delfim ‘explica’

João Wainer

Para o ex-czar da Fazenda Delfim Netto, o Banco Central acerta ao responder à crise com doses homeopáticas de redução dos juros.

Em artigo veiculado na Folha, Delfim atribui o “ruído” provocado pela flexibilização da política monetária à inconformidade de alguns analistas com “um fato elementar”.

“Quando as condições se alteram, altera-se também a resposta da política econômica”, ele anota.

Delfim considera “absolutamente natural” e “saudável” que exista “divergência”. Porém…

...Porém, ele acha que “talvez haja algumas críticas produzidas por puro desconhecimento”.

Um desconhecimento que conduz à avaliação errônea de que a redução dos juros açula a inflação e põe em risco o sistema de metas do governo.

A pretexto de levar esclarecimento aos desentendidos, Delfim acomoda no artigo ensinamentos de obscuro didatismo.

Vai abaixo o pedaço final do texto. Você talvez o considere enfadonho. Mas insista. Tente acompanhar o raciocínio de Delfim:


“No fundo, a versão básica do sistema de ‘metas de inflação’ se baseia num modelo novo-keynesiano de três equações simples, uma das quais é a chamada ‘regra de Taylor’.

Esta sugere que a taxa básica do juro nominal deve ser a soma da taxa de juros ‘real’ neutra (de difícil estimativa) somada à expectativa de inflação à qual se juntam, ainda, com pesos variáveis (cuja soma é cem) os desvios da taxa de inflação à meta e do PIB com relação ao PIB potencial (de difícil estimativa).

Desde a origem, a moda foi dar o mesmo peso aos dois desvios, ou seja, supor que um desvio de 1% com relação à meta é equivalente a um desvio de 1% com relação ao PIB potencial. Mas não há nada de destrutivo (dentro do próprio modelo) dar, por exemplo, o peso de 30% para o desvio inflacionário e de 70% para o desvio do PIB, lembrando que há uma relação relativamente estável entre o nível do crescimento e o do desemprego.

Significa, apenas, que se aceita alongar o cumprimento da meta de inflação para tentar manter um nível maior de proteção ao PIB e do emprego.


Quem lê fica com a impressão de que o professor quis dizer: reduzindo-se os juros, adia-se o cumprimento da meta de inflação. Mas, em compensação, atenua-se a queda do PIB e o risco de desemprego.

Não entendeu? Calma, não há motivo para desespero. Em economia, sempre que você não compreende os fatos e os números, basta seguir uma fórmula infalível. Faça o seguinte:

Leve a um mesmo balaio as antevisões do futuro, a conjuntura presente e as probabilidades estatísticas. Misture as previsões, a conjuntura e as estatísticas…

…Sirva-se do resultado para tecer um silogismo (argumento baseado em três proposições: premissa maior, premissa menor e conclusão).

Exemplo: economia não é para qualquer um (premissa maior), eu sou um qualquer (premissa menor), logo economia não é para mim. É coisa para delfins.

Pronto. Como todo bom economista, você já pode se considerar um ótimo ficcionista.

Agora, cruze os dedos, torça para que o BC não tenha escolhido o silogismo errado, engula a carestia e vê se não chateia.

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Escrito por Josias de Souza às 04h15

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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