Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Devagarzinho, Dilma se livra de sua ‘lulodependência’

  Jorge Araújo/Folha
Saiu mais uma pesquisa do Ibope, a terceira da Era Dilma Rousseff. Revela que, aos pouquinhos, a presidente vai se livrando do seu maior vício.

Dilma tornou-se menos “lulodependente”, eis a principal novidade insinuada sob as estatísticas. Mais um pouco e poderá deixar o cercadinho da continuidade.

A valiação pessoal de Dilma supera a de Lula no nono mês de governo: 71% contra 69%. Ultrapassa também a de FHC: 57%.

O mesmo ocorre com a avaliação do governo: 51% de ótimo e bom para a gestão Dilma, contra 43% atribuídos à administração de Lula e 40% à de FHC.

Lula não “desencarnou” como prometera. A despeito disso, subiu de 11% para 15% a taxa dos que acham que a pupila governa melhor que o ex-soberano.

O índice dos que consideram Lula melhor do que Dilma (26%) ainda é maior. Porém, sem alarde, a distância encurta-se devagarinho.

Herdeira da megapopularidade do criador, que deixou a presidência flutuando numa nuvem de 87% de aprovação, Dilma agrega à sua imagem capital próprio.

Cresceu a popularidade dela, por exemplo, na região Sul –um pedaço do mapa em que o ex-rival José Serra prevalecera nas urnas de 2010.

Nas duas primeiras sondagens do Ibope (março e julho), Dilma experimentara uma queda.

Ruíra a aprovação pessoal –de 73% para 67%— e também a avaliaç!ão do governo –de 56% para 48%.

Entre uma pesquisa e outra, escalaram as manchetes a prosperidade patrimonial de Antonio Palocci e a roubalheira dos Transportes, então sob Alfredo Nascimento.

Por que os índices de Dilma subiram a 71% e 51% se o noticiário continuou monopolizado pelos malfeitos, dessa vez na Agricultura e no Turismo?

A resposta está na cara feia de Dilma. Ela não agiu, reagiu. Renegou o vocábulo “faxina”. Trocou seis por meia dúzia. Onde havia PMDB, manteve PMDB.

Dilma não produziu senão pantomima. Porém, diferenciou-se de Lula ao fazer cara de nojo. A platéia enxergou sinceridade no incômodo da presidente.

Sem querer, Lula Dilma ao dizer que político tem que ter “couro duro”. Ficou entendido que, se fosse ele o presidente, malfeitor não cairia com simples petelecos da imprensa.

O tema mais lembrado pelos pesquisados do Ibope foi a corrupção (19%). O segundo, as demissões de ministros (13%).

Quer dizer: ainda que empurrada pelas denúncias, meio a contragosto Dilma acabou fazendo limonada do limão.

No mais, a popularidade de Dilma manteve-se em patamares confortáveis graças sobretudo à atmosfera econômica, ainda benfazeja.

As ações do governo mais bem avaliadas pela população, acima dos 50%, foram o combate ao desemprego e à pobreza.

Mas o Ibope não serviu apenas purpirinas a Dilma. Mostrou a ela um par de luzes amarelas.

Continua alto o percentual de brasileiros que desaprovam a política de Brasília no combate à inflação 55%.

É mais alto ainda o índice dos que torcem o nariz para a voracidade com que a máquina coletora de impostos avança sobre os bolsos alheiros: 66%.

Dilma, obviamente, dispõe de sus própria pesquisas. Como não é boba, substituiu o lero-lero pró-recriação da CPMF pelo discurso da melhoria da gestão na Saúde.

Considerando-se o último relatório trimestral do Banco central, Dilma vai precisar de muito mais gogó para driblar a encrenca que se avizinha.

No documento do BC, a previsão do crescimento do país em 2011 caiu para 3,5%. Há três meses, previa-se 4%. No início do ano, a Fazenda falava em 4,5% e até 5%.

A estimativa de inflação para o ano, que era de 5,8%no penúltimo relatório do BC, agora subiu para 6,4%.

Trata-se de uma cifra otimista. Sobretudo quando se recorda que, no acumulado dos últimos 12 meses, a inflação oficial já rodava, em agosto, na casa dos 7,23%.

Materializada na gôndola do supermercado, a carestia tende a azedar o humor do brasileiro que responde à turma dos institutos de pesquisa.

Seja como for, para o bem ou para o mal, Dilma já não está escorada em Lula. Será mais ou menos popular dependendo do modo como vai lidar com a crise.

Na proporção em que se livra do vício da “lulodependência”, terá de exibir virtudes próprias.

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Escrito por Josias de Souza às 18h11

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STF pode eternizar aspas que conspurcam a ‘Justiça’

Lula Marques/Folha

Certa vez, anotou-se neste blog: no Brasil, existe a “Justiça” e a Justiça. Existe o poder e tudo o que está implícito quando ele é invocado.

Pode soar como coletivo majestático ou pejorativo.
A Justiça sem aspas é igual para todos. Com aspas, vê mais igualdade em alguns do que em outros.

Dependendo do que fizer com o Conselho Nacional de Justiça, o STF pode livrar a Justiça das aspas ou eternizar o sinal gráfico que leva a “Justiça” à ruína.

O repórter Flávio Ferreira informa, na Folha, que correm no CNJ processos contra 35 desembargadores, autoridades máximas do Judiciário nos Estados.

Eles são acusados de malfeitorias variadas –de venda de sentenças a desvios de verbas públicas. Vinte dos acusados já sofreram algum tipo de punição.

Contra juízes de primeira instância, há na Corregedoria do CNJ cerca de 115 processos disciplinares. Desde a criação do CNJ, em 2005, puniram-se 49 magistrados.

O conselho levou à grelha inclusive um ministro do STJ: Paulo Medina, acusado de vender a pena a uma quadrilha que explorava máquinas de caça níqueis no Rio.

Pois bem. Todo esse incipiente trabalho de higienização pode ser convertido em poeira no plenário do Supremo, às voltas com o julgamento de uma ação antidetergente.

Movida pela AMB (Associação dos Magistrados do Brasil), a ação sustenta que a atividade correicional do CNJ afronta a Constituição.

Se o STF der razão à entidade corporativa, como parece ser a tendência da maioria dos ministros, o trabalho do CNJ vai virar essência de pó de nada.

Os condenados moverão ações para que as punições sejam revistas (muitos já protocolaram pedidos de revisão no STF). Os processos abertos descerão ao arquivo.

Entre eles uma investigação administrativa inaugurada no CNJ há escassas duas semanas, contra a desembargadora Willamara Leila de Almeida.

Presidente do Tribunal de Justiça de Tocantins, Willamara é investigada no CNJ sob acusação de participar de esquema de venda de sentenças.

Decidiu-se afastá-la de suas funções no tribunal até a elucidação do caso. Se a AMB prevalecer no plenário do STF, Willamara livra-se da grelha do CNJ.

O julgamento do Supremo deveria ter ocorrido nesta quarta (28). Acossado pela repercussão negativa, Cezar Peluso, presidente do STF, deu meia-volta.

Peluso, que também preside o CNJ, preferiu adiar a deliberação a arrostar o desgaste de uma tragédia anunciada nas páginas dos jornais.

Ao passar os poderes do CNJ na lâmina, o Supremo converteria em heroína instantânea a doutora Eliana Calmon, Corregedora do órgão.

Em defesa do CNJ, Eliana dissera que "bandidos escondidos atrás da toga" degradam a imagem do Poder Judiciário. Egresso da magistratura, Peluso rodou a toga.

Urdiu a divulgação de uma nota na qual 12 dos 15 conselheiros do CNJ desqualificaram Eliana, tachando as declarações dela de “levianas”.

O diabo é que o bom senso e a pauta de processos do CNJ dão razão à doutora. "Eu não tenho que me desculpar”, disse Eliana à repórter Mônica Bergamo.

Ela repisou: “Estão dizendo que […] ofendi todos os juízes do país. Eu não fiz isso de maneira nenhuma. Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados."

Louve-se a valentia da doutora. Sob as declarações da corregedora Eliana esconde-se uma evidência: sem aspas, a Justiça é cega. Com aspas, exibe um olfato notável.

A Justiça assegura direitos iguais para todos. Nos extremos da ação da AMB, a “Justiça” pode livrar os juízes indignos dos deveres mais elementares.

Dito de outro modo: A Justiça é a perspectiva de punição, mas a “Justiça” também é a possibilidade de eternização da impunidade.

Diz-se que as corregedorias dos tribunais cuidarão da limpeza. Conversa fiada. A história mostra que, nesse nível, o corporativismo dilui o detergente em água.

Ou o Supremo demonstra que Justiça é justiça ou fará da “Justiça” um território de supremas injustiças. Está-se diante de um desses pontos volta.

Repita-se: Ou STF acaba com a “Justiça”, reafirmando os poderes do CNJ, ou as aspas levarão a Justiça à ruína.

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Escrito por Josias de Souza às 05h26

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Lula-2011 sobre Lula-1981: ‘Puta merda, que cara feio!’

Divulgação

Os participantes da 13ª Plenária Nacional da CUT, que ocorrerá entre 4 e 7 de outubro, receberão de presente um DVD com um filme.

Chama-se “Lula Relembra a 1ª Conclat 30 anos Depois”. Produziu-o a própria CUT, junto com a Tatu Filmes e a ViaTV.

Arthur Henrique, presidente da CUT, pendurou em seu blog um texto de apresentação. Ele conta que a fita é dividida em duas partes.

Na primeira, o Lula de 2011, postado do lado esquerdo da tela, reage a declarações do Lula de 1981, exibido à direita.

A certa altura, o neo-Lula espanta-se com a aparência do proto-Lula.

O novo: barba nevada e aparada, camisa e suéter alinhados. O antigo: barba negra e desgrenhada, blusa de lã azul em conflito com a camiseta vermelha.

“Puta merda, que cara feio! Se a Marisa vir isso aí, eu vou ter de agradecer a ela por ter se casado comigo.”

O Lula com barba à Fidel Castro estrelou, há três décadas, a Conclat (Conferência da Classe Trabalhadora). Um evento no qual foi fundada a CUT.

O Lula de pelos domesticados e trajes elegantes surgiu na campanha presidencial de 2002. Fabricado pelo marqueteiro Duda Mendonça, prevaleceu sobre José Serra.

De repente, a fita de 1981 exibe a leitura de resolução aprovada na convenção inaugural da CUT.

Lula sorri no instante em que o orador menciona a defesa da estatização do sistema bancário brasileiro. Riso sintomático.

Após três derrotas eleitorais, o velho Lula renunciou a esse lero-lero radical também em 2002. Beijou a cruz do mercado ao assinar a célebre ‘Carta ao Povo Brasileiro’.

Preparada pelo companheiro Antonio Palocci, a carta deu consistência programática às mumunhas propagandísticas de Duda Mendonça.

Eleito, Lula levou Palocci à Fazenda e o ex-tucano Henrique Meirelles ao Banco Central.

Manteve o tripé econômico lançado sob FHC: metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante. Em vez de estatizar, serviu juros aos bancos.

Na segunda parte, o filme da CUT exibe uma entrevista de Lula, o novo, ao repórter Daniel Brazil.

Ele discorre sobre as diferenças entre passado e presente. Fala, por exemplo, sobre o grupo que fundou a CUT:

“A gente tinha uma concepção de organização sindical de base que o outro pessoal não tinha.”

O “outro pessoal” era gente do ex-PCB, do MR8, que se recusou a participar da conferência inaugural da CUT.

“A tradição naquela época”, Lula declara, “era partido de trabalhadores dirigidos por intelectuais. E o PT nascia dirigido por trabalhadores.”

Mais adiante, Lula afirma: “A gente manteve a coerência e nossos princípios estão em pé.” Será?

Considenrado-se os fins, Lula descobriu que quem ele era 30 anos atrás não estava preparado para o sucesso.

Trocou a velha ideologia por outra, em alta no mercado e baseada num orçamento.

Considerando-se os meios, Lula mandou às favas os princípios. Desvirtuou-se na proporção direta da aproximação com o cofre.

Um mensalão, um Sarney e muitos Valdemares depois, Lula tornou-se uma espécie de fotografia de carteira de identidade velha.

A foto reflete o que Lula já foi. Mas ele não se incomoda com o que se tornou. Se ainda existisse, o Lula de 1981 ecoaria o atual: “Puta merda, que cara feio!”

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Escrito por Josias de Souza às 21h10

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Na defesa do STF, José Dirceu virou um ‘sub-Delúbio’

Ueslei Marcelino/Reuters

Protocolada no STF no prazo limite, a última peça de defesa do grão-petê José Dirceu não faz jus à biografia do líder nato.

Nas “alegações finais” que levaram aos autos do mensalão, os advogados de Dirceu contestam a acusação de que ele foi o “chefe da quadrilha.”

Anotou-se na peça: “A prova judicial assegurou que José Dirceu se dedicava exclusivamente ao governo [Lula]…”

“…Não comandava os atos dos dirigentes do PT, não tinha controle nem ciência das atividades de Delúbio Soares.”

Juntando-se a defesa de Dirceu com a de Marcos Valério, chega-se a um quadro tisnado pela excentricidade: a corrupção acéfala, a máfia sem capo.

Em seu derradeiro arrazoado de defesa, Valério estranhou a ausência de Lula no rol de acusados do mensalão. Agora, Dirceu alega que tampouco ele deveria constar dos autos.

Na época em que estourou o escândalo, em 2005, Lula reivindicara para si o papel de cego atoleimado, o presidente que “não sabia”.

Quanto a Dirceu, pede para ser tratado como animal de uma velha piada. Na anedota, o dono de um circo falido é acossado por um credor português.

Sem alternativas, o proprietário do circo sugere: "Não tenho dinheiro, mas pode levar o leão".

Negócio fechado, o portuga decide passar o leão nos cobres. Para “melhorar” a aparência do animal, passa-lhe a máquina zero na cabeleira.

Sem juba, o leão vira um reles cachorro amarelo, insignificante, sem valor aparente.

Dá-se coisa semelhante com José Dirceu. Seus advogados como que lhe tosaram a juba.

Tentam converter Dirceu de atração principal do circo em cachorro amarelo.  

No tempo em que Brasília ainda tentava fazer sentido, os valores pareciam mais nítidos.

Deus era Deus, o diabo era diabo, o PT era PT, o Delúbio era pau-mandado, o Lula era presidente e o Dirceu era primeiro-ministro.

Nas páginas do processo do STF, a nitidez perdeu a função. Nada é o que parece.

Não bastasse a ausência de Lula, Dirceu desce ao processo como o antilíder, uma espécie de sub-Delúbio.

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Escrito por Josias de Souza às 18h50

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Dilma: só demagogo diz que resolve saúde sem verba

No vídeo, uma cena de novembro de 2010. Corria o segundo turno da eleição. Dilma discorria sobre a saúde num debate televisivo. Seguiu a cartilha.

Primeiro, o reconhecimento: “Nós temos um problema sério de qualidade da saúde no Brasil.”

Depois, a promessa: “Eu assume o compromisso de melhorar a saúde. Primeiro, jogando o peso do governo federal na fiscalização da qualidade dos serviços.”

Antes da mão forte do Estado, chegariam as verbas: “Depois que a gente aumentar os valores do repasse para Estados e municípios.”

Nenhuma palavra sobre novas fontes de financiamento. Nada sobre novos impostos. Dava-se de barato que o dinheiro esperava nas arcas do Tesouro.

No arremate, Dilma trombeteou o sonho. Eleita, iria “completar” o SUS. Brotariam unidades atendimento emergencial, policlínicas especializadas, rede de maternidades…

O tempo passou. Dilma governa há oito meses. Não há vestígio do tônico monetário a Estados e municípios.

A fiscalização dos serviços do SUS sobrevive como lorota. O complemento do SUS não dispõe nem de um esboço que possa ser chamado de piada.

Súbito, Dilma pôs-se a conspirar contra a proposta que regumenta a Emenda 29, disciplinando os investimentos na saúde pública.

Tentou adiar a deliberação. Não colou. A Câmara anunciou a análise do projeto para 28 de setembro. Vencida, Dilma passou a desmentir Dilma.

A presidente mostra as garras que a candidata escondera. Regulamentar a Emenda 29, diz a nova Dilma, “não vai resolver o problema.”

"Você vai necessitar cada vez mais recursos para colocar na saúde, para ela ficar cada vez mais de qualidade", disse Dilma nesta quinta (1o).

Ela simula aversão à volta do imposto do cheque: "Por que o povo brasileiro tem essa bronca da CPMF? Por que não foi para saúde."

Fica subentendido que um novo tributo voltado exclusivamente à saúde viria a calhar.

Em timbre peremptório, a nova Dilma apregoa: "Quem falar que se resolve isso sem dinheiro é demagogo."

Difícil discordar de uma especialista. Observada em retrospectiva, a Dilma-2010 revelou-se demagoga de mão cheia.

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Escrito por Josias de Souza às 17h45

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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