Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Sobre Jucá, diretorias financeiras, Sodoma e Gomorra

Líder de todos os governos desde que as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportaram em Porto Seguro, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) não perde tempo. Ganha.

No tabuleiro em que é jogado o jogo dos cargos, é fácil identificar as peças movidas por Jucá. Normalmente, são as que estão mais próximas do cofre.

Na Conab, estatal de aba$tecimento da pasta da Agricultura, Jucá acomodara o irmão Oscar Jucá Neto, o Jucazinho, na diretoria financeira. Deu chabu.

No organograma de Furna$, Jucazão enfiou o “afilhado” Luiz Hamann. Onde? Ora, na diretoria financeira.

A predileção de Jucá pelos postos que vêm junto com o segredo do cofre é espantosa. Mais surpreendente, porém, é a facilidade com que o senador é atendido.

Fica-se com a impressão de que os presidentes, um após o outro, enxergam no líder eterno um político que, por altruísta, prioriza o saneamento das finanças de estatais.

Quem ouve o diagnóstico pronunciado por Jucazinho depois que sua cabeça foi apartada do pescoço –Na Agricultura “só tem bandido”— desespera-se.

A platéia começa a ter saudades dos tempos em que a humanidade era mais pura, como em Sodoma e Gomorra.

- Siga o blog no twitter

Escrito por Josias de Souza às 07h13

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Após mastigar PR, Dilma serve sapo com refrigerante

José Cruz/ABr

Após duas semanas da pseudocrise dos Transportes, Dilma Rousseff abriu as portas do Alvorada, na noite passada, para seus “aliados” no Congresso.

Na foto acima, o personagem que aparece na extremidade direita da primeira fila, quase escorregando para fora da rampa, é o deputado Lincoln Portela (MG).

Lincoln responde pela liderança do Partido da República na Câmara. Passara as últimas 48 horas ameaçando ausentar-se da confraternização. Por quê?

Lincoln abespinhara-se com Dilma porque ela confirmara Paulo Sérgio Passos na pasta dos Transportes sem a delicadeza de lher dar um telefonema.

A irritação do líder do PR foi diminuindo na razão direta da aproximação do encontro com Dilma.

Horas antes de cruzar os portões da residência oficial da presidente, Lincoln reuniu-se com Paulo Passos, o ministro que o PR dissera não reconhecer como seu.

Acompanhado do colega Luciano Castro (PR-RR), outro deputado que se dizia agastado com Dilma, Lincoln disse a Passos que o partido “está à disposição”.

Depois, Lincoln foi ao Planalto. Avistou-se com Ideli Salvatti, a ministra-chefe do balcão. Disse-lhe que o PR é e continuará sendo governo.

O deputado informou à ministra que jamais lhe passara pela cabeça cometer a descortesia de recusar o convite de Dilma.

À noite, Lincoln posava para a foto do Alvorada, ao lado de um Marco Maia (PT-RS) que fazia sinal de positivo. Com as duas mãos.

Ser político é, por vezes, engolir sapos sem deixar transparecer a indigestão. Para massagear a traquéia de Lincoln, Dilma mandou servir refrigerantes e vinho.

No curso do coquetel, a presidente justificou-se aos pêérres Lincoln e Luciano Castro. Disse que tivera de decidir sobre a efetivação de Paulo Passos rapidamente.

Em plena Era da comunicação, Dilma atribuiu à pressa a ausência do contato prévio reclamado pelos operadores do PR, no comando dos Transportes desde 2003.

Lincoln e Luciano deram-se por satisfeitos. Àquela altura, já devidamente mastigados por Dilma, haviam deglutido o batráquio.

Dilma dirigiu meia dúzia de palavras à platéia, que incluía, além dos líderes, o vice Michel Temer, 18 ministros e os presidentes do Legislativo: Maia e José Sarney.

Agradeceu o apoio que recebeu do Parlamento na primeira metade do ano. Entre os êxitos obtidos, realçou o projeto do salário mínimo.

Afirmou que, ao aprovar o valor proposto pelo governo, menor do que desejavam as centrais sindicais e a oposição, os aliados mostraram-se responsáveis.

Sem o Congresso, disse Dilma, o governo não teria alcançado o “equilíbrio fiscal” e o “controle da inflação”.

Como que decidida a adocicar o sapo, citou o PR. Pediu a “compreensão” da legenda. Mediante as compensações de praxe, terá o que deseja.

Dilma contou com um auxílio involuntário da seleção brasileira de futebol. A partida contra o Equador, pela Copa América, abreviou o coquetel.

A exemplo do time de Mano Menezes, que amealhou um 4 a 2 depois de dois empates, Dilma fechou o semestre com um triunfo.

Despachou dos Transportes Alfredo Nascimento. Nomeou um substituto mais leal a ela do que ao PR. Desativou Luiz Antonio Pagot, a falsa bomba do Dnit…

…E prevaleceu servindo sapo com refrigerante aos descontentes. Para uma presidente de perfil técnico, revelou-se já bem iniciada nas artes da política.

O problema de Dilma é que o governo mal começou. Seu consórcio ajusta-se ao novo estilo. Mas dispõe de três anos e meio para dar o troco.

Muitos dos “aliados” de Dilma, preocupados em salvar o país, não têm tempo de ser honestos. Novas crises virão. Nos Transportes e alhures.

O governo enfrentará, de resto, incontáveis embates no Congresso. Dilma pode organizar o balcão, jamais tem como lacrar a bodega.

Cedo ou tarde, todo político governista corresponde aos governos que não confiam nele. Sobretudo quando privado da ração regular de verbas e cargos.

Quer dizer: com diferenças de estilo, Dilma dança o mesmo bolero que embalou os presidentes que a precederam.

De raro em raro, ela pisa no pé de alguém. Depois, simula um pedido de desculpas, afaga o parceiro e reinicia o baile, 100% custeado pelo déficit público.

- Siga o blog no twitter

Escrito por Josias de Souza às 05h42

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Falta alguma coisa à corrupção brasileira: corruptores

Angeli

O noticiário das últimas semanas passa a impressão de que os corruptos são encontrados em várias partes do mundo. Quase todas no Brasil.

A corrupção voltou a ser tema obrigatório nas rodas de bate-papo. Por vezes, é impossível mudar de assunto. Muda-se apenas de corrupto.

O jornal tornou-se pé-de-vento. Arranca véus. Produz réus. Porém, falta algo ao noticiário: o corruptor.

Note-se o caso do Ministério dos Transportes. Foram à guilhotina um ministro e quatro integrantes do staff dele.

Derrubou-os a suspeita de cobrança propinas. Coisa entre 4% e 5% do valor total dos contratos.

Ganha um doce quem for capaz de citar o nome de um corruptor dos Transportes. Leva um cargo de direção no Dnit quem conseguir citar dois.

- Siga o blog no twitter.

Escrito por Josias de Souza às 07h17

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Sarney, Alfredo Nascimento e a falta que faz um vilão

Brasília precisa urgentemente de um vilão. Um vilão desses de novela, com os olhos a rutilar chispas de maldade.

Um vilão assim –caricato, pés sobre a mesa, charuto entre os dedos— ordenaria desvios e superfaturamentos sem pudores e ambiguidades.

Não há vilões assim em Brasilia. Ali, a eventual apropriação de verbas não é vista como coisa amoral. É parte do modelo, consequência do apoio de partidos a governos.

Nesta terça (5), o tetrapresidente pemedebê do Senado, José Sarney, saiu em defesa do ministro pêérre dos Transportes, Alfredo Nascimento.

Sarney enxergou acerto na decisão de Dilma Rousseff de manter Nascimento no cargo. Disse que não se pode exonerar o ministro “apenas por uma acusação publicada”.

Antes da publicação da denúncia, Dilma reunira-se com a cúpula dos Transportes. Queixara-se do descalabro das obras inflada$.

Nesse encontro, Dilma disse que o ministério, por descontrolado, precisava de babá. Teria três: ela própria e as ministras Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti.

A despeito disso, Nascimento permanece na cadeira de ministro, sob aplausos de Sarney.

Retorne-se ao início: Brasília precisa urgentemente de um vilão. Um vilão que trouxesse a maldade estampada na cara, sem ambiguidades.

- Em tempo: Foto de Fábio Pozzebom, da Agência Brasil.

- Siga o blog no twitter

Escrito por Josias de Souza às 16h40

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Sobre Dilma, Alfredo Nascimento e o papel da mãe

Angeli

Dilma Rousseff conversou com Alfredo Nascimento. Decidiu mantê-lo na poltrona de ministro dos Transportes.

Mandou dizer que Nascimento ainda dispõe da confiança da chefe. Vai coordenar a apuração das denúncias de corrupção na pasta.

A oposição pôs-se a salivar. Trama arrastar o ministro ao Congresso. Levará o caso ao Ministério Público e ao TCU. Tentará empinar uma CPI.

Dilma move-se no pantanoso terreno dos Transportes guiando-se por seus instintos e pelos conselhos de sua turma.

A presidente talvez devesse incluir sua mãe, Dilma Jane Rousseff, no rol de conselheiros.

Dona Dilma, como boa mãe, há de ter repassado à menina Dilma lições básicas de higiene.

Coisas assim: dinheiro é sujo. Tocou? Lave as mãos. Ou assim: corrimão de escada é criatório de micróbios. Melhor nem tocar!

As meninas costumam inspirar nas mães preocupações específicas. Tampa de privada, eis o grande terror.

Banheiro público? Convém evitar. Se for inevitável, forre com papel a privada. Ou, melhor ainda: equilibe-se acima da tampa e capriche na pontaria.

Ao chegar à Presidência da República, Dilma, a filha, expôs um risco que Dilma, a mãe, não levou em conta nem nos seus delírios mais anti-sépticos.

Dona Dilma jamais imaginou que a filha seria submetida à ameaça de contágio que vem junto com o PR de Alfredo Nascimento, Valdemar Costa Neto e Cia..

No sábado (2), Dilma mandou afastar quatro funcionários do Ministério dos Transportes acusados de cobrar dos fornecedores propinas de 4%.

Entre as cabeças levadas à bandeja estão dois auxiliares diretos do gabinete de Alfredo Nascimento. 

Se pudesse antecipar o futuro, a mãe da presidente decerto teria aconselhado:

“Filhinha, jamais confie cegamente num ministro do PR que não consegue farejar o que se passa sob o próprio nariz. Desconfie, tome distância, fuja”.

Por sorte, dona Dilma, a mãe, vive com Dilma, a filha, no Alvorada. Pode adicionar às velhas lições ensinamentos novos. PR? Nem forrandoa tampa!

- Siga o blog no twitter

Escrito por Josias de Souza às 17h15

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

BUSCA NO BLOG


Twitter RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.