Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Jobim enfeita biografia de Dilma com um ‘historicídio’

Antônio Cruz/ABr

Dias atrás, uma informação repassada pelo ministro Nelson Jobim (Defesa) a Dilma Rousseff ateou surpresa no noticiário.

As Forças Armadas, disse Jobim à chefe, não se opõem à ideia de acabar com o sigilo eterno de documentos oficiais.

Nesta segunda (27), Jobim levou aos microfones declaração que ajuda a entender o porquê da boa vontade dos militares.

Declarou que os documentos produzidos na época da ditadura já não existem. Sim, isso mesmo, você não leu errado. O papelório “desapareceu”.

Vem daí, insinua Jobim, o lavar de mãos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica quanto às regras do sigilo.  

"Não há documentos [sobre a repressão]. Nós já levantamos os documentos todos, não tem. Os documentos já desapareceram…”

“…Já foram consumidos à época. Então, não tem nada, não tem problema nenhum em relação a essa época."

Curioso, muito curioso, curiosíssimo. Jobim virou pregoeiro de um ‘historicídio’. Seria grave em qualquer circunstância.

Sob Dilma, uma ex-torturada que ganhou do eleitor o direito à continência dos militares, o inacreditável ganha ares de inaceitável.

Jobim não é o primeiro a anunciar o sumiço de papéis. Ministro inaugural da Defesa na Era Lula, o embaixador José Viegas soara em timbre parecido.

Em outubro de 2004, fustigado por uma decisão judicial que exigia a abertura dos arquivos do Araguaia, Viegas respondera que tinham sido “incinerados”.

"Imagino que isso tenha ocorrido nos anos 70 ou nos anos 80", dissera Viegas sete anos atrás. Jobim supera-o em desfaçatez.

Diz agora que sumiram todos os arquivos, não apenas os do Araguaia. De resto, fala do desaparecimento sem especificar o método.

Documento interno da contra-espionagem do Exército estabelece regras estritas para a queima de documentos.

Vigoram desde a década de 70. Constam de um manual que, atualizado ao longo dos anos, mantém a mesma política quanto aos arquivos secretos.

A última versão é de 1994. Dedica um tópico específico à eliminação de papéis. Anota:

"A destruição de documentos sigilosos deve ser centralizada, de forma a evitar desvios".

Meticuloso, o texto recomenda que "os documentos sejam triturados e depois queimados".

Anota ainda que a queima deve ser precedida da "lavratura de um termo de destruição".

Viegas falou de fogueira sem mostrar o “termo” que autorizou o fósforo. Jobim nem de fogo fala. Os papéis simplesmente “desapareceram”, “foram consumidos”.

O signatário do blog ajudou a preparar uma série de reportagens sobre o Araguaia. A coisa foi veiculada pela Folha em agosto de 2001, ainda sob FHC.

As notícias basearam-se em papéis oficiais, desses que Jobim vende como desaparecidos.

Num dos documentos, o Exército indicava que, ao desembarcar no sul do Pará, sua tropa sabia o que fazer com os corpos dos “subversivos” do Araguaia.

Os cadáveres não poderiam ser desovados a esmo na selva. Depois de identificados, teriam de ser depositados em covas previamente selecionadas.

Naquela ocasião, o repórter enviou um questionário ao Exército, que respondeu por escrito.

O texto repetia a pantomima da ausência de dados sobre o destino dos corpos da turma do PCdoB. Porém…

…Porém, o Exército admitia a existência dos arquivos que Viegas apresentaria como “queimados” e que Jobim agora declara “desaparecidos”.

Li-se na nota, datada de 7 de agosto de 2001: "Quanto aos desaparecidos nos combates travados naquela região…”

“…É importante salientar o que o Exército tem reiterado exaustivamente quando consultado a respeito do assunto…:”

“…Nos arquivos existentes, nada foi encontrado que pudesse indicar a localização de seus corpos".

Se não quiser que sua biografia também desapareça, convém a Dilma exigir de Jobim ao menos a apresentação dos “termos de destruição”.

Sugere-se conferir a idade dos papéis. Não ficaria bem trazer à luz "termos" que ruíssem à primeira análise tipográfica.

- Siga o blog no twitter

Escrito por Josias de Souza às 05h56

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Brasileiro vê ‘tutela’ de Lula sobre Dilma e acha bom

Alan Marques/Folha

Como se sabe, a democracia moderna é constituída por três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Sob Dilma Rousseff, emerge um quarto poder: Lula. Criou-se no imaginário popular uma espécie de puxadinhho do Planalto, de onde ex-soberano apita.

Acaba de sair do forno uma nova sondagem do Datafolha. Coletados na quinta (9) e na sexta (10), os dados estão frescos como quentes pão do dia.

Entre as novidades trazidas à luz, uma é especialmente inquietante: para 64% dos brasileiros, Lula deve, sim, imiscuir-se nas decisões da sucessora.

Mais: de cada cinco brasileiros, quatro acham que o ex-soberano já está metendo o bedelho na gestão da presidente que a popularidade dele elegeu.

Dito de outro modo: o grosso da população avalia que, sob a condução de Dilma, convém que Lula permaneça próximo do volante.

A imagem desse Lula tutor incomoda Dilma. Vem daí a decisão dela de aproveitar o expurgo de Antonio ‘Consultor’ Palocci para compor um Planalto à sua imagem.

O Datafolha mostra que, associado à alta da inflação, o ‘Paloccigate’ produziu danos apenas à imagem de Dilma. A avaliação do governo manteve-se intacta.

A grossa maioria dos 2.188 brasileiros ouvidos em todo país (60%) acha que o caso da multiplicação do patrimônio de Palocci prejudicou o governo.

A despeito disso, os entrevistados foram benevolentes com a administração Dilma: 49% aprovam a nova gestão. Em março, essa taxa era de 47%.

Porém, a crise roeu um naco do prestígio da presidente. Há dois meses, 79% viam em Dilma uma gestora “decidida”.

Hoje, confiam na capacidade decisória de Dilma 62% dos brasileiros. Uma queda de expressivos 17 pontos percentuais.

Os 23 dias de hesitação que precederam a demissão de Palocci têm muito a ver com isso. Por ironia, deve-se o prejuízo ao “custo Lula”.

Palocci foi à Casa Civil por imposição de Lula. Demorou a virar ex-ministro porque o ex-soberano quebrou lanças pelo ministro-milionário.

Os efeitos do equívoco foram como que tonificados pela facilidade de apreensão das informações que embalaram a crise.

Todo mundo sabe o que é multiplicar o patrimônio por 20. Qualquer criança de 5 anos entende que apartamento de R$ 6,6 milhões não é coisa para todo mundo.

Afora a elevação do contingente que duvida da capacidade de Dilma de tomar decisões, caiu de 85% para 76% a taxa dos que a consideram “muito inteligente”.

De resto, o Datafolha informa que, mesmo depois de tirar Palocci de seu caminho, Dilma tem diante de si outra pedra. Chama-se inflação.

A maioria absoluta dos patrícios (51%) crêem que os índices inflacionários continuarão subindo.

Quanto aos rumos da economia, 42% avaliam que vai melhorar nos próximos dois meses. Para 37%, a coisa ficará como está. Porém…

…Porém, subiu de 9% para 17% a taxa dos que esperam por dias piores.

Ruiu dez pontos percentuais –de 43% para 33%— o número de entrevistados que confiam no crescimento do poder de compra de seus contracheques.

Subiu de 27% para 32% o total dos que acham que o desemprego vai crescer nos próximos meses.

Os dados revelam, em essência, um início de reversão do cenário de bonança que marcou o final da Era Lula e azeitou o palanque de Dilma em 2010.

Dilma começa a pagar em índices de pesquisa a conta da atmosfera de gastança que lubrificou o seu triunfo sobre o rival tucano José Serra.

O governo vê-se diante de situação dicotômica: para segurar a inflação, tem de pisar no freio. A inevitável redução do PIB, envenena os humores da platéia.

Nem o mais histriônico oposicionista se anima a acusar Dilma de ser negligente com a sanha inflacionária.

Embora ela tenha alterado o método –tenta combinar alta de juros com as tais medidas “macroprudenciais”—, persegue o mesmo objetivo: deter a carestia.

O problema é que, tomada pelo Datafolha, Dilma convive com a pecha de presidente tutelada. Se acertar, dividirá o êxito com Lula.

Se errar, corre o risco de ouvir a "acusação" de que tomou distância de seu patrono, contrariando o desejo de quatro em cada cinco brasileiros.

Em campanha, Dilma escalou os ombros de Lula. Eleita, iniciou um movimento de descida ao remodelar o Planalto, na semana passada.

Ela dispõe agora de três anos e meio para provar que é capaz de governar o país sem o Lula que a maioria cética enxerga no puxadinho da Presidência.

- Siga o blog no twitter.

Escrito por Josias de Souza às 07h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Dilma-2010: ‘Investigarei Erenice até o fim’. E nada...

O vídeo acima mostra um pedaço do debate presidencial transmitido pela Rede Record em setembo de 2010.

Então presidenciável do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio inquiriu a antagonista Dilma Rousseff, do PT, sobre o escândalo Erenice Guerra.

Para realçar o fato de que Erenice assumira a Casa Civil depois de ter sido a segunda de Dilma na pasta, Plínio fustigou:

“A verdade é que a corrupção bateu na sala ao lado. De duas uma: ou você é conivente ou é imcompetente”.

Lembrou que, eleita, Dilma teria de escolher muitos ministros. E emendou: “Você tem competência para escolher ou vai escolher outras Erenices?”

Ao responder, Dilma disse que “todas as denúncias têm que ser apuradas de forma rigorosa”. Declarou que “ninguém está acima de qualquer suspeita”.

Em timbre peremptório, a candidata de Lula afirmou: “Eu queria te assegurar, Plínio, sem sombra de dúvida...”

“...Se até o momento em que, se eu for eleita, eu assumir a Presidência da República, o governo não concluir a apuração, [...] eu asseguro que irei investigar até o fim...”

“...Eu tenho 25 anos de vida pública. Não concordo, de forma alguma, que qualquer partido ou instituição estão livres de ter pessoas cometendo malfeitos...”

“...O que importa é que a gente tenha instituições que sejam capazes de fiscalizar, de apurar e de punir...”

“...É essa a única garantia que nós temos de assegurar que, em vez de as pessoas servirem ao Estado, como nós queremos, as pessoas se sirvam do Estado”.

Já lá se vão cinco meses de governo Dilma Rousseff. Não há, por ora, vestígio das conclusões da Polícia Federal sobre o inquérito aberto contra Erenice.

Pior: no caso do enriquecimento de Antonio Palocci, o escolhido de Dilma para chefiar a Casa Civil, virou pó o lero-lero de que “denúncias têm que ser apuradas”.

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), apressou-se em dizer que a consultoria companheira que tornou Palocci milionário não será esquadrinhada pela PF.

Ou seja: embora noviça nas artes da política, Dilma segue a tradição. Mais cedo do que se supunha, corresponde aos que não confiavam nela.

- Siga o blog no twitter.

Escrito por Josias de Souza às 06h47

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Debilidade ética de Palocci golpeia estética de Dilma

Fotos: Lula Marques/Folha

 

Colecionada pelo repórter Lula Marques, a sequência de fotos exibida acima mostra que, além do preço político, o ‘Paloccigate’ impõe a Dilma um custo estético.

Na primeira imagem, a Dilma da posse. Vestia branco. Nas orelhas e no pescoço, ostentava pérolas. No olhar, o brilho do triunfo.

Nas fotos seguintes, a Dilma dos meses inaugurais. Intercalava dois tipos de rosto: ora firme ora sorridente. Sempre sobranceira.

Súbito, a vacina contra a gripe. Remédio agourento. Sobrevieram a pneumonia e a revelação de que Antonio ‘Consultor’ Palocci multiplicara por 20 o patrimônio.

Alquebrada, Dilma tomou chá de sumiço. Fugiu de dos inimigos: o frio do ar-condicionado e o calor dos refletores.

Lula e os fatos intimaram-na a dar as caras. Reapareceu diferente. O cenho crispado, a mão fechada a proteger a tosse.

Nesta quarta (1º), Dilma era a cara da crise. Repare na foto em que ela aparece vestida de cor-de-abóbora, a última da série.

Foi clicada ao término da reunião-almoço de Dilma com os senadores do PMDB, convertidos em heróis da resistência. Exibe outra presidente.

Penteado descuidado, as rugas em franco litígio com a maquiagem, o semblante a denunciar as noites maldormidas.

No caminho entre o cargo de ministra e o de presidente, Dilma subvertera a máxima segundo a qual uma mulher nunca é tão bonita quanto já foi.

A foto ao lado comprova que o acúmulo de poder fez bem à aparência da ex-ministra.

Já na fase de pré-campanha, Dilma havia trocado os óculos pelas lentes de contato. Uma plástica remoçara-lhe os arredores dos olhos.

Na campanha propriamente dita, sob orientação de especialistas, modernizara o guarda-roupas, trocara os cosméticos e remodelara o penteado.

Agora, considerando-se a involução delatada pela sobreposição de imagens, Dilma talvez tenha de trocar de chefe da Casa Civil.

A debilidade ética de Palocci submete a face do governo e o rosto de Dilma a um implacável déficit de estética.

- Siga o blog no twitter.

Escrito por Josias de Souza às 04h25

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

BUSCA NO BLOG


Twitter RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.