Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Volta de Delúbio fez do PT um partido fácil de definir

Delúbio Soares está de volta. Sua refiliação tornou tudo mais simples.

Como o bêbado, o PT virou pronome oblíquo.

De longe, parece plural. Um PT pré-Delúbio. Outro pós-Delubiano.

De perto, é singular. Unifica-se num reencontro de linhas paralelas.

Qualquer criança de cinco anos consegue agora definir o PT.

Basta uma frase. Algo assim:

“O PT é o jóquei cego montando a mula-sem-cabeça, é a crítica reivindicando o direito aos próprios erros, é a gata borralheira invadindo a meia-noite, é o túnel sem uma luz pra pôr no fim, é a crença na vida antes da morte, é a caravana de virgens cruzando os portões de Sodoma e Gomorra, é a vaca sagrada trocando a ideologia por um par de asas, é Noé abrindo a arca pros micróbios, é o hábito que desfaz o monge, é a sensação de que não fazem mais futuros como antigamente, é a renovação da história por meio da repetição, é o paradoxo na fronteira da incógnita, é o absolutamente contra qualquer coisa convertido em a favor de tudo, é a admissão compulsória do inadmissível, é o pacto do abutre com o espantalho, é filme do cinema-novo-velho".

- Em Tempo: Foto de Alan Marques, da Folha.

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Escrito por Josias de Souza às 01h16

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Senado empossa Conselho de Ética feito de escárnio

      Angeli
 

 

Em mais uma demonstração de sua vocação suicida, o Senado dará posse, nesta quarta (27), a um Conselho de Ética autodesmoralizado.

Formou-se um colegiado feito de escárnio, apinhado de réus, investigados e suspeitos. Mas não se deve dizer isso em voz alta.

Quanto mais criticado, mais o Senado revela seus impulsos autodestrutivos. Melhor chiar baixinho, para evitar que a Casa ponha fogo às vestes.

Cabe ao Conselho de Ética advertir, censurar, suspender ou recomendar a perda do mandato dos senadores que quebrarem o decoro.

Se decidisse investigar o próprio umbigo, o “novo” Conselho teria matéria-prima demais para o curto período de quatro anos de uma legislatura.

Maior partido do Senado, o PMDB enviou ao Conselho senadores que são precedidos pela má fama. Entre eles Renan Calheiros, Romero Jucá e Lobão Filho, o Lobinho.

Renan é zombaria que desafia a velha tirada de Churchill sobre a democracia ser o pior regime imaginável com exceção de todos os outros.

No caso de Renan, já ficara entendido, desde 2007, que o Senado dá preferência a todas as alternativas piores.

Acusado de receber dinheiro de um diretor de empreiteira para sustentar o filho que tivera com uma ex-amante, Renan defendeu-se.

Virou, então, suspeito de simular negócios com gado para lavar dinheiro. E que usara laranjas para comprar rádios e um jornal.

Renan renunciou à presidência do Senado. Mas livrou-se da cassação. Uma, duas vezes. Agora, é Senhor da ética.

Jucá, líder do governo desde o tempo das Carevelas, carrega nas costas três inquéritos. Correm no STF, em segredo.

Sob Lula, foi ministro da Previdência. Pendurado nas manchetes em posição vexatória, teve de renunciar à pasta em 2005.

A notícia mais branda apresentava Jucá como titular de empréstimos no Banco da Banco da Amazônia que tinham como garantia fazendas fantasmas.

Lobinho, suplente do ministro Lobão (Minas e Energia), responde a inquérito no STF por ter usado uma empregada doméstica como laranja.

Para quê? Segundo a denúncia do Ministério Público, para fugir de dívidas de um empréstimo e do pagamento de impostos.

São três os crimes sob investigação: sonegação tributária, falsidade ideológica e formação de quadrilha. No Conselho, Lobinho se ocupará da ética.

Como suplente do Conselho, o PMDB indicou Valdir Raupp. É réu em duas ações penais no Supremo.

Numa, responde por gestão fraudulenta de instituição financeira. Noutra, crime contra a administração pública.

Acertou-se nesta terça (26), que o presidente do Conselho de Ética também será do PMDB: o maranhense João Alberto.

É famoso não pelos pendores éticos, mas pela fidelidade canina que devota a José Sarney, o tetrapresidente do Senado.

O mesmo Sarney que, acossado por denúncias, celebrou o arquivamento de uma dezena de representações no Conselho de Ética da legislatura passada.

Em voz baixa: chama-se Gim Argello o representante do PTB no “novo” conselho. Sussurros: coleciona 38 processos por crimes eleitorais.

Murmúrios: responde a inquérito no Supremo por corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação de tributos e apropriação indébita.

Cicios: relator do Orçamento, Gim teve de renunciar ao posto depois que se descobriu que destinara verbas do Turismo a entidades fantasmas.

Pelo DEM, foi ao conselho Jayme Campos. Responde a inquérito nascido do escândalo das sanguessugas. Aquele em que se fraudavam licitações de ambulâncias.

Descoberto em 2008, o malfeito teria ocorrido em 2000 e 2001, na cidade de Várzea Grande (MT). Jayme era o prefeito. No STF, nega o malfeito. No Senado, virou juiz.

Esse texto foi escrito em voz baixa porque, a essa altura, é inútil tentar impedir que o Senado se mate. Não vale a pena se meter na vida –ou na morte— da Casa.

Se nem o pedaço “bom” do Senado se anima a levantar a voz, por que o repórter deveria fazê-lo?

O silêncio que se ouve nos corredores e no plenário do Senado fala alto. Grita que 80 senadores decidiram estimular a crença de que “são todos iguais”.

Chama-se Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) o único senador que se animou a votar em plenário contra a tropa indicada para o Conselho de Ética.

Sabe-se que o DNA desautoriza a igualdade absoluta. Mas a ausência de protestos vocifera: “Somos (quase) todos farinha do mesmo saco”.

Só o Senado poderia livrar o Senado do suicídio. E não se deve esperar tanto de uma instituição que já deu tantas provas de que a autocrítica não é o seu ponto forte.

Portanto, pisssssssssssssss, que ninguém nos ouça: se o eleitor já não se importa e eles se divertem, que siga a roleta-russa!

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Escrito por Josias de Souza às 05h53

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Ex-PSDB, atual PSB, Chalita vai às urnas pelo PMDB

Tudo na vida exige modos. Entre os verbos disponíveis no dicionário, a compostura, extraordinária conselheira, tem especial apreço por um: maneirar.

Na política, o conceito de maneirar sempre foi elástico. Hoje, porém, exagera-se na flexibilidade. A ponto de comprometer o recato.

Os atores políticos parecem todos, digamos, mal acomodados. Nunca foram de ficar sentados em suas legendas. Mas agora abusam.

A maioria está de pé, na frente da mesa. Alguns escoram a barriga no balcão. A atmosfera lembra a de um boteco.

Só pode dar em bagunça, não em reforma política. Encomenda-se um partido como se fosse uma tulipa de chope. Ou, pior, um novo tipo droga.

— Ô, Kassab, desce uma rodada de PSD pra galera. No capricho!

Nesta Sexta-feira Santa, enquanto o sistema partidário vai penetrando o caos, o vice-presidente Michel Temer saiu-se com uma novidade.

Informa que o deputado Gabriel Chalita foi convidado a disputar a prefeitura de São Paulo pelo PMDB.

Amigo do governador tucano Geraldo Alckmin, Chalita era, até bem pouco, filiado ao PSDB. Súbito, migrou da pseudo-social-democracia para o socialismo-de-faz-conta.

No ano passado, Chalita elegeu-se deputado federal pelo PSB. Depois de Tiririca (PR), foi o mais votado de São Paulo.

Em fevereiro, cobiçou a liderança do PSB na Câmara. Foi preterido por Ana Arraes (PE), mãe do governador Eduardo Campos (PE), presidente do partido.

De uns tempos pra cá, Chalita pôs-se a criticar o flerte de Eduardo com o prefeito Gilberto Kassab, o ‘ex-demo’ que se encantou por Dilma Rousseff.

De repente, o anúncio: Chalita vai às urnas com a camisa do PMDB. Junto com ele, deve migrar do PSB para o partido de Temer o ex-neosocialista Paulo Skaf.

Mal comparando, a política evolui num ritmo de marchinha de Carnaval antigo. Só que com menos pudor.

Campeã do Carnaval de 1949, até a Chiquita, que era bacana, tinha procedência e vestes bem definidas.   

Sabia-se que ela vinha lá da Martinica. Vestia-se com uma casca de banana nanica. Não usava vestido nem calção.

Dada a saçaricos, Chiquita era, por assim dizer, liberada. Mas mesmo ela respeitava certos limites. Embora considerasse o inverno pleno verão, jamais exibiu-se nua.

Existencialista, Chiquita fazia o que mandava o seu coração. Fisiologistas, os políticos brasileiros fazem o que manda a conveniência.

Com múltiplas camisas, terminam não tendo nenhuma. Desfilam o torso desnudo. E já nem se preocupam em oferecer certificado de origem.

Dito de outro modo: a turma caiu no samba. E esqueceu de maneirar.

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Escrito por Josias de Souza às 18h04

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Equipe econômica de Dilma virou um ‘saco de gatos’

Ninguém disse ainda, talvez por pena, quem sabe em respeito à curta duração do governo. Mas urge alardear:

Sob Dilma Rousseff, a equipe econômica converteu-se num vitoso saco de gatos. Os miados são dissonantes. As unhadas ocorrem sob refletores.

Na semana passada, falando a um grupo de 200 industrais, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, acionou as garras contra a política cambial do “seu” governo.

Disse que, a pretexto de conter a inflação, Brasília abandonou a ideia de segurar o câmbio. Algo que destrói a industria nacional. Convidou a audiência a reagir.

Mais: confidenciou à platéia que não está só. Acompanham-no na divergência os ministros Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia).

Pois bem. Nesta terça (12), Coutinho voltou a miar fora do tom. Deu-se na China, em meio à viagem oficial da “chefe” Dilma Rousseff.

O mandachuva do BNDES repisou a tecla: o governo precisa ser mais tenaz no esforço para conter a sobrevalorização do Real frente ao dólar. Soou assim:

"Temos que utilizar nossas ferramentas disponíveis para mitigar a apreciação excessiva"...

“...Eu creio que o BC e o Ministério da Fazenda estão tentando fazer isso e acho que eles deveriam intensificar esse tipo de ação para impedir apreciação excessiva".

Coutinho não foi o único a reincidir na rebeldia. Sérgio Gabrielli, o presidente da Petrobras, também fez ressoar seus miados na China.

A despeito dos desmentidos dos pseudosuperiores hierárquicos Guido Mantega (Fazenda) e Edison Lobão (Minas e Energia), Gabrielli repetiu: o preço da gasolina pode tomar o elevador:

"Se o preço do petróleo ficar nesse nível que está hoje [mais de US$ 120 o barril], estável nesse nível, você vai ter de alterar [o preço da gasolina]”.

Por quê? “Nós estávamos trabalhando com [a cotação do barril a] US$ 65 a US$ 85”, disse Gabrielli.

Ele prosseguiu: "Que o preço vai ficar alto, parece que sim. O problema é o grau de variação que esse preço está tendo em torno de determinado patamar...”

“...Enquanto estiver variando muito, não tem como tomar decisão". Comparou a Petrobras a uma casa de repastos:

"O preço no menu do restaurante não aumenta porque o preço da carne subiu no dia. Leva um tempo pra mudar o preço da carne no prato".

Num governo com 39 ministérios e uma infinidade de estatais, é natural que ocorram divergências.

O desencontro de opiniões, além de normal, é salutar. O problema está no método.

O local adequado para a exposição das desarmonias é a sala de reuniões, não a praça pública.

Do modo como vem sendo exposto, o pensamento do governo torna-se biangular. As ideias são trapezóides. O diálogo é multidimensional. A gestão é estroboscópica.

Ou dona Dilma engaiola os gatos e põe ordem na casa ou ficará muito parecida com uma velha senhora: a mãe Joana.

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Escrito por Josias de Souza às 18h26

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Oposição enxerga acertos em Dilma e se desnorteia

Angeli

Três meses de Dilma Rousseff foi tempo bastante para que Fernando Henrique Cardoso alterasse o conceito que fazia dela.

Presidente de honra do PSDB e principal ideólogo da oposição, FHC pespegara em Dilma, durante a campanha de 2010, a pecha de “boneca de ventríloquo”.

Insinuara que, eleita, quem daria as cartas seria Lula, não ela. Hoje, em diálogos privados, FHC reconhece que Dilma o “surpreendeu”. Positivamente.

A avaliação de FHC se espraia por toda a oposição. Alastra-se pelo PSDB e também pelo DEM, seu parceiro de oposição.

Tornou-se consensual entre os adversários do governo a percepção de que, a menos que ocorram tropeços, não será fácil se opor a Dilma.

Avalia-se que a presidente revelou-se dona de personalidade própria. Distancia-se de Lula nos pontos que alimentavam as fornalhas da oposição.

Substituiu a histrionia pela parcimônia verbal. Trocou a ideologia pelo pragmatismo. Distanciou-se do Irã. Reachegou-se aos EUA. Anunciou cortes orçamentários.

Como se fosse pouco, revelou-se capaz de gestos como o convite a FHC para o almoço oferecido ao visitante Barack Obama.

Um gesto que, tonificado pela ausência de Lula, forçou FHC a derramar-se elogios sobre os microfones.

Afora a ausência de discurso, a oposição debate-se consigo mesma. PSDB e DEM são, hoje, os principais adversários do PSDB e do DEM.

O tucanato, agremiação de amigos 100% feita de inimigos, revolve suas divisões. Divisões internas e eternas.

No centro de todas as trincas está José Serra, o candidato que a ex-boneca abateu com a ajuda do ex-ventríloquo.

Serra mede forças com Aécio Neves por 2014. Digladia-se com Sérgio Guerra pela presidência do partido. Disputa com Geraldo Alckmin a hegemonia em São Paulo.

O DEM, depois de engolfado pela “onda Lula”, luta para que a lipoaspiração congressual não evolua para um raquitismo patológico.

Os ‘demos’ que não aderiram ao projeto de novo partido do prefeito Gilberto Kassab dividem-se em dois grupos.

Uma ala olha para o futuro com grandes dúvidas. A outra já não tem a menor dúvida: o futuro é uma fusão com o PSDB, uma espécie de inexorável à espera do melhor momento para acontecer.

Assim, dividida, dilacerada e sem norte, a oposição enxerga nos acertos da Dilma um entrave adicional para pôr em pé um discurso alternativo.

Vai-se buscar munição nos detalhes. O DEM faz um inventário das promessas de campanha de Dilma. Acha que não há como cumpri-las. E esboça a cobrança.

O PSDB fará do recrudescimento da inflação o seu principal cavalo de batalha. Enxerga na eletrificação do índice a oportunidade para reacencer a pauta antigastança.

Parte-se do pressuposto de que Dilma não conseguirá entregar o corte orçamentário de mais de R$ 50 bilhões que prometeu.

Vai-se atacar a inificiência do Estado “aparelhado” e realçar a herança tóxica deixada por um Lula que tinha em Dilma sua principal gerente.

À sua maneira, Aécio Neves, o grão-duque do tucanato de Minas, esgrimiu esses tópicos no discurso inaugural que pronunciou no Senado.

"Vemos, infelizmente, renascer, da farra da gastança descontrolada dos últimos anos, em especial do ano eleitoral, a crônica e grave doença da inflação", disse Aécio.

“Era o discurso que faltava”, festejou Sérgio Guerra, o ainda presidente do PSDB.

A despeito dos anseios de Serra, Aécio tornou-se o nome preferencial de tucanos e agregados para o próximo embate sucessório.

Com isso, guinda-se ao posto de principal líder da oposição um personagem que se definiu no celebrado discurso como “um construtor de pontes”.

Para Aécio, o êxito de seu projeto passa por duas variáveis: os eventuais erros de Dilma e a capacidade da oposição de beliscar pedaços do atual condomínio governista.

Assim, além de aprumar um discurso e torcer pelos tropeços da sucessora de Lula, a oposição teria de seduzir legendas como PSB, PDT, PP...

Tudo isso contra um pano de fundo marcado pela crise do “de repente”. Numa Era pós-revolucionária, o brasileiro afeiçoou-se à evolução econômica e sociail lenta.

Ao reconhecer os méritos de Lula, Aécio realçou dois: a manutenção dos pilares econômicos erigidos nas gestões Itamar e FHC e o viés social.

O problema é que o cidadão tende a associar os benefícios resultantes da combinação ao mandatário de plantão, não aos gestores do passado.

Significa dizer que, se conseguir debelar o surto inflacionário e manter a cozinha relativamente em ordem, Dilma vai a ante-sala de 2014 bem posta.

Foi-se o tempo em que o eleitor acreditava em salvadores e em milagres. Já não há o “antes” e o “depois”. Só há o “processo”, vocábulo caro ao PSDB.

Escolado, o dono do voto agarra-se à força das continuidades. Olha para a mudança com ceticismo. De novo: vive-se uma crise do “de repente”.

Sem vocação para fazer uma oposição ao estilo do ex-PT, PSDB e DEM foram como que condenados à tocaia. Rezam baixinho por um tsunami que destrua a perspectiva de poder longevo que Dilma passou a representar.

Até a torcida exige comedimento. Uma arquibancada barulhenta poderia soar impatriótica.

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Escrito por Josias de Souza às 07h03

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Assassino do Rio injetou a realidade no faz-de-conta

O maior crime do maluco que matou 11 crianças e feriu 18 no Rio de Janeiro foi o de ter injetado realidade no faz-de-conta nacional.
 

O assassino inesperado conspurcou o último templo sagrado da classe média: a escola, espécie de reserva ambiental urbana (no vídeo acima, o instante em que o atirador entrou na sala de aula).

Ao disparar dois revolveres contra alunos da escola que já frequentara, o jovem sem antecedentes criminais criou a neochacina, uma tragédia inclusiva.

Vem daí, sobretudo, o frêmito de horror que eletrifica a nação. Isso era coisa de filme, era coisa de birutas norte-americanos, era coisa de Primeiro Mundo.

As chacinas brasileiras só ocorriam nos fundões da periferia. Os mortos eram estatísticas que a rotina confinou no rodapé das páginas de jornal.

O sangue que escorre na escola pública de Realengo é diferente. Poderia manchar o piso de escolas chiques de Higienópolis, de Ipanema, do Plano Piloto.

Nas velhas chacinas, o país assistia ao genocídio em conta-gotas como uma espécie de processo de auto-regulação da criminalidade e da pobreza.

A neochacina da escola violou a regra do jogo. Os cadáveres são palpáveis. Têm nome e sobrenome. São brasileiros como nós.

São crianças como nossos filho. Despejados no tapete do living pelo noticiário da TV, os corpos tocam os bicos dos nossos sapatos.

O tubo de imagem da TV, refúgio sempre tão seguro, suga o país para o centro da cena, num hediondo processo de inclusão.

Antes que o telespectador possa zapear, vira parte da cena. Percebe-se dentro daquela escola. Súbito, a tragédia somos nós.

Dilma Rousseff, avó recente, chorou. No Congresso, não se fala em outra coisa. “Temos de tomar providências”, diz uma senadora. “É preciso deter o tráfico de armas”, ecoa um deputado.

Da tribuna do Senado, Cassildo Maldaner (PMDB-SC) lembra que costuma buscar a neta na escola. E se fosse ela?

O sentimento de inclusão não é propriamente novo. Coisa semelhante já havia ocorrido em novembro de 1999.

Um jovem estudante invadiu, em São Paulo, um cinema de shopping, outro templo da classe média. Metralhou três e feriu cinco.

Exibia-se na tela o violento “Clube da Luta”. A audiência queria ver Brad Pit, estrela da fita. Deparou-se com um inesperado Freddy Krugger.

Passado o susto, o cinema do shopping paulistano trocou o filme. Pôs para rodar a comédia idiotizante “American Pie”. E a vida seguiu o seu curso.

A mortandade na escola dificulta a virada de página. Não há comédia capaz de apagar as marcas da neochacina.

- Atualização feita às 20h35 desta quinta (7): Subiu para 12 o número de mortos na tragédia.

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Escrito por Josias de Souza às 19h59

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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