Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Na despedida de Alencar, todos os tipos de ‘amores’

Dono de histórico luminoso, José Alencar desperta admiração até em pessoas cuja biografia carrega passagens nada admiráveis.

Reuniram-se em torno do esquife do ex-vice-presidente, exposto em velório no Planalto, todos os tipos de amores.

Do amor personalíssimo de Mariza, a mulher de toda uma vida, ao amor anônimo do brasileiro que viu na saga do morto razões para ter apreço à vida.

Lula Marques/Folha

Entre os extremos, imiscui-se o amor bandido. Vão abaixo, duas cenas emblemáticas.

Numa, José Dirceu, definido pelo Ministério Público como “chefe da quadrilha” do mensalão, despede-se da ausência de mácula com um gesto de continência.

Lula Marques/Folha

Noutra, Antonio Palocci, isentado pela benevolência do STF do malfeito da quebra de sigilo do caseiro, mimetiza o beijo da viúva.

Lula Marques/Folha

As imagens descem à crônica do velório como evidências de que, na política, nem o imaculado está livre das relações que desafiam o amor-próprio.

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Escrito por Josias de Souza às 19h27

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Planalto quer mandar na Vale, mas não diz para quê

Denis Balibouse/Reuters

 

A briga Planalto X Vale entrou no round derradeiro. Considerando-se as penúltimas informações, Dilma Rousseff está na bica de levar Roger Agnelli à lona.

Consumando-se o resultado, a companhia vai virar, depois de 14 anos de sua privatização, uma espécie paraestatal.

Deve-se o ataque bolivariano-petista à gestão Agnelli a um veneno que deu às privatizações da Era FHC uma aparência de leilões de fancaria.

A exemplo das telefônicas, a Vale foi ao martelo com os fundões de pensão das estatais e o BNDES no comando do cabo.

Dito de outro modo: empurrou-se dinheiro do Estado para dentro de uma operação que se pretendia privada.

Produziram-se encrencas esperando para acontecer. No caso da Vale, o governo controla, hoje, direta ou indiretamente, 61,51% da companhia. Mas não manda.

Na Vale, quem dá as cartas é Agnelli, um ex-executivo do Bradesco. Indicado pelo banco, ele preside a compahia desde 2001. Já lá se vão dez anos.

O diabo é que o Bradesco controla exíguos 21,21% do capital da Vale. A multinacional japonesa Mitsui detém outros 18,24%.

Considerando-se as regras do estatuto da Vale, o Planalto precisa levar à mesa 75% do capital da empresa para obter o escalpo de Agnelli.

Vem daí que, no curto intervalo de uma semana, o ministro Guido Mantega (Fazenda) reuniu-se duas vezes com Lázaro Brandão, o mandachuva do Bradesco.

O repórter Ancelmo Góis informa que o último encontro ocorreu nesta sexta (25). Segundo ele, o Bradesco concordou em levar Agnelli às cordas.

Participou da conversa Ricardo Flores, o petista que preside a Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) e que representa os demais fundos no conselho da Vale.

Com o Bradesco do seu lado, o Planalto ergue a luva. O mandato de Agnelli expira em maio. O cruzado de esquerda viria na reunião do conselho da Vale, em abril.

Briga como essa não é coisa trivial. Perto da “Operação Agnelli”, os lances que expurgaram Daniel Dantas do setor de telefonia viram petelecos.

As investidas contra Dantas, o investigado-geral da República, foram feitas sob aplausos. A rasteira em Agnelli deixa a platéia entre apreensiva e assombrada.

Nos seus dez anos de presidência, Agnelli colecionou êxitos e desafetos –não necessariamente nessa ordem.

De estatal combalida, a Vale tornou-se um portento global. É, hoje, a segunda mineradora do planeta, a número um na produção de minério de ferro. Está presente em 38 países.

As vendas da empresa multiplicaram-se por dez. Saltaram de U$ 4 bilhões, em 2001, para 46,4 bilhões, em 2010. As ações valorizaram-se 1.583%.

Num instante em que o jogo parece jogado em favor do governo, fica boiando na atmosfera uma certeza e uma indagação.

A certeza: depois da montagem do cadafalso, sob Lula, o governo Dilma Rousseff descerá a lâmina. A interrogação: para quê?

Na última metade do seu segundo reinado, Lula levou aos microfones meia dúzia de palavras que, juntas, compunham algo parecido com argumentos.

Disse, por exemplo, que a Vale exporta minério bruto quando poderia vender produtos beneficiados, agregando valor à matéria-prima.

Afirmou que a Vale importa navios em vez de encomendá-los no Brasil. Dá a coreanos empregos que poderia prover a brasileiros. Há quem discorde de Lula.

Gente versada na matéria diz que, rendendo-se a Lula, a Vale atenderia aos arroubos nacionalistas do petismo, não às suas conveniências negociais.

De todo modo, havia sob Lula teses que divertiam a audiência e convidavam ao debate. Sob Dilma, há apenas o bailado do ringue. Para quê? Ninguém diz.

Súbito, os debates sobre a Vale se transferem da Bolsa de Valores para a arena política. Bom para as manchetes, péssimo para os negócios. 

A oposição, capaz de tudo, menos de se opor, enxerga no episódio uma oportunidade para mostrar que ainda existe.

Guido Mantega, que distribui socos em nome de Dilma, é objeto de um par de convocações. Uma na Câmara, outra no Senado. Terá de dizer algo.

“Surpreende a forma desastrosa como a substituição foi feita na Vale”, diz o grão-tucano Aécio Neves.

“Não contente com o aparelhamento do setor público, o PT lança as suas garras no setor privado. Isso passou de todos os limites do respeito ao país...”

“[...] Vamos querer ouvir o ministro da Fazenda sobre esse péssimo exemplo ao mundo. É preciso explicar uma ação tão violenta. A partir de agora, quem assumir a Vale sabe que terá que se curvar aos interesses do governo”.

Agripino Maia, novo presidente do DEM, ecoa Aécio: “A operação Roger Agnelli é temerária. Na hora em que o Estado exige a saída de um gestor laureado é de ficar absolutamente perplexo com o que está para acontecer”.

Líder de Dilma na Câmara, o petê Cândido Vaccarezza dá de ombros: “Acho normal a substituição na Vale. Essa mudança era de interesse dos acionistas majoritários”.

Mesmo quem considera "normal" que o dono de 61,51% do capital queira mandar no negócio olha para os números da Vale e repete a pergunta: para quê?

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Escrito por Josias de Souza às 08h05

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Obama vira ‘cereja’ do plano de marketing de Dilma

Roberto Stuckert Filho/PR

A visita de Barack Obama ao Brasil desce à crônica dos primeiros três meses do governo Dilma Rousseff como “cereja” de um bolo levado ao forno em janeiro.

Dilma executa um plano de marketing concebido por João Santana. Responsável pela campanha do PT, ele se tornou conselheiro de imagem da presidente.

Desde a posse, age para converter traços da personalidade de Dilma num ativo político que a distinga de Lula.

A política externa é parte da estratégia. E a passagem relâmpago de Obama pelo país é celebrada como um divisor de águas.

Opera-se uma guinada que distancia Dilma do “terceiro-mundismo” de Lula. Sem renegar África e Oriente Médio, a nova gestão prioriza Amérca do Sul, EUA e China.

Sob Dilma, o Itamaraty iça à superfície o pragmatismo comercial que a ideologia da Era Lula havia soterrado.

Em movimentos calculados, Dilma tomou distância do ditador iraniano Marmud Armadinejad, personagem ao qual Lula se achegara.

No Planalto, atribui-se a visita de Obama ao reconhecimento dos gestos de Dilma. Em conversa com o blog, um auxiliar da presidente celebrou um detalhe:

“Sempre que um novo presidente assumia no Brasil, a primeira providência era agendar uma visista aos EUA. Agora, a Casa Branca veio ao nosso reino”.

O vocábulo “reino” orna à perfeição com o conceito que norteia a marquetagem de João Santana, um jornalista de formação.

O escultor da imagem de Dilma costuma dizer que Lula, dono de popularidade lunar, deixou no imaginário popular um “vazio oceânico”.

Acha que a eleição de uma mulher abriu espaço para acomodar na presidência algo inteiramente novo.

Santana chama a “cadeira vazia” de Lula de “cadeira da rainha”. Na campanha, Dilma era vista pelo eleitorado pobre como espécie de “esposa do rei”.

Tenta-se agora grudar nela a imagem de “soberana” com qualidades próprias –uma gestora capaz de combinar a sensibilidade feminina com o rigor administrativo.

Um rigor que a faz contrariar as centrais sindicais (salário mínimo), impor limites ao rateio de cargos (Furnas e Eduardo Cunha)...

...Passar a lâmina no Orçamento (corte de R$ 50 bilhões) e fixar prioridades (adiamento da compra dos caças da FAB).

Tudo isso sem descuidar do essencial (combate à miséria) e sem fechar os olhos para novas demandas (promesa de dar atenção à classe média).

Neste sábado, Lula deu uma inestimável contribuição à estratégia de sua sucessora. O ex-soberano faltou ao almoço em homenagem a Obama.

Melhor: à ausência de Lula somou-se a presença de FHC, inserido na lista de convidados como evidência da “vocação republicana” de Dilma.

Melhor ainda: ao discursar para empresários, em Brasília, Obama reconheceu o novo status que o Brasil adquiriu no mundo.

Atribuiu a nova condição de sétima economia do planeta ao trabalho dos brasileiros e à combinação das políticas implementadas sob FHC e Lula. Citou ambos.

E afirmou que, sob Dilma, a Casa Branca tem de dispensar ao Brasil um tratamento análogo ao da China e Índia, as outras nações emergentes.

De olho nas obras da Copa e da Olimpíada, atento às oportunidades do pré-sal, Obama abriu em Brasília a maleta de mascate.

Em termos práticos, a visita do presidente americano não produziu nada além de um comunicado conjunto com cara de carta de intenções.

No campo da simbologia, porém, injetou-se na atmosfera uma aura de prestígio que coroa a estratégia propagandística “da nova cara”, distinguindo-a do “ex-cara”.

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Escrito por Josias de Souza às 06h42

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No twitter, ministra propaga críticas a Sarney e Lula

  Sérgio Lima/Folha
O ser humano é um resumo das palavras que diz ou escreve. Por isso, impõe-se tomar cuidado. 
Com tantas palavras ao redor, pode-se tropeçar nelas. A internet tonificou o risco. As palavras ganharam fluidez caótica.

Noutros tempos, quem quisesse dizer palavras desabonadoras ou cruéis sem comprometer-se recorria a uma "muleta":

“Como diz o outro...”, diziam os que queriam se desresponsabilizar pelo dito. Por vezes, o autor do comentário era o Outro de si mesmo.

No twitter, o outro deixou de ser um. Escondido atrás de pseudônimos, virou muitos Outros. Vagos, indefinidos e desaforados.

Agora, em vez do tradicional “como diz o outro”, há o “RT”. Para propagar a sentença oportuna, basta pressionar o mouse sobre o “retweet”.

No domingo passado, um dos “seguidores” da ministra Helena Chagas (Comunicação Social) despejou no microblog dela um lote de oito mensagens.

Lourival Bonetti, eis o nome do Outro (será?). No twitter, assina @Bonettinterado. Como que a abonar um dos ditos do "interlocutor" virtual, a ministra semeou-o na web.

Helena Chagas repassou (ou seria retuitou?) aos seus mais de 7.700 seguidores a seguinte sequência de palavras:

"Ganhar menos que esta raça devoradora, políticos, como Sarney, Mubarak, Kadaf, Bush, Lula, Dirceu, Genoino, me envergonham, que nojo. Xau”.

Só nesta quarta (9), alertada por um amigo, a ministra se deu conta de que, considerando-se a cadeira que ocupa, endossara o impensável:

“Gente, o Zé veio me mostrar agora um suposto retweet meu sobre uma tal ‘raça devoradora’. Nunca tinha visto isso antes. Mas fui checar e...”

Penitenciou-se: “...Não é que estava lá a tal mensagem, retuitada por mim??!!! Tremenda bola fora, que só posso atribuir à minha total descoordenação motora”.

Autoflagelou-se: “Sou um perigo ao volante de um carro. Agora vejo que no de um blackberry também. Só pra ficar bem esclarecido: não retuitei o @bonettinterado”.

Tomou fôlego: “Ainda bem que alguém viu e me chamou a atenção. Podia passar para a posteridade xingando pessoas de quem gosto muito...”

No seu primeiro livro das Epístolas, Horácio ensinou: “A palavra, uma vez lançada, voa irrevogável”. No cristal líquido, a flecha ganha velocidade inaudita.

Depois de ecoar o Outro, Helena tentou, por assim dizer, chamar de volta as palavras postas fora do lugar. Fez bem em dar o dito alheio por não dito.

Como diria o Outro, a verdade não só é mais incrível do que a ficção como é muito mais difícil de inventar.

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Escrito por Josias de Souza às 06h42

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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