A cinco meses do término do mandato, Lula faz o inventário de seus oito anos e tenta montar uma agenda para preencher o ócio pós-governamental.

 

Sobre o arrolamento dos feitos, já disse que pretende registrá-lo em cartório. Quanto ao futuro, declarou que não se aposentará da política.

 

Tem, por ora, dois desejos declarados: rodar o Brasil e exportar para países da América Latina e da África sua estratégia de combate à pobreza.

 

Em entrevista ao Diário de Pernambuco, Lula revelou, numa das respostas, um novo detalhe do seu plano para contornar os riscos da ociosidade.

 

“Pretendo continuar a contribuir na política brasileira, não me metendo em questões do dia a dia, mas levantando bandeiras fundamentais para o Brasil”.

 

Não mencionou todos os estandantes que planeja desfraldar. Mas citou aquele que lhe parece prioritário. Vai “começar pela reforma política”.

 

Curioso, muito curioso, curiosíssimo. Lula se dispõe a fazer como ex o que não fez em oito anos de presidência.

 

Desde FHC, sempre que o governo ficou sem agenda, o Planalto retirou da gaveta dois projetos: a reforma tributária e a política. E nada.

 

Em sua defesa, Lula costuma dizer que enviou ao Congresso um projeto tributário e outro político. Não passaram? A culpa não é dele. Bobagem!

 

Faltaram ao governo empenho e método. Assim como FHC, Lula dispõe de maioria congressual. Nutre-a com cargos e verbas. Mas abesteve-se de acioná-la.

 

Quanto à proposta política, anunciada como “reforma fatiada”, o PT de Lula tentou servir apenas as duas fatias que lhe interessavam.

 

São elas: financiamento público de campanha e voto em lista para deputado. O primeiro pedaço é antídoto envenenado.

 

A instalação de um duto ligando as arcas de campanha à bolsa da Viúva não extinguiria o movimento dos envelopes de dinheiro por baixo da mesa.

 

O segundo remédio, as listas de deputados, foi à mesa como vitamina para os partidos. Na verdade, era anestésico para o eleitor.

 

As legendas comporiam listas de candidatos e serviriam aos donos do voto pratos (mal) feitos. Um acinte.

 

Dias atrás, José Serra contou, numa entrevista de rádio, que procurou FHC e Lula no alvorecer dos mandatos dos dois.

 

Sugeriu a ambos que aproveitassem o frescor das urnas recém-abertas para por de pé a reforma política. Foi rebarbado por um e por outro. Não havia interesse.

 

Agora, num instante em que se prepara para vestir o pijama de ex-presidente, Lula promete se converter num levantador de bandeiras.

 

Há sempre a possibilidade de alguma escola de samba convidar Lula para ser o porta-estandarte do Carnaval de fevereiro de 2011.

 

Fora disso, a promessa do quase-ex-presidente vale tanto quanto a “reforma fatiada” que, como presidente, depositou no Congresso: Nada.

 

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