Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

O discurso de Marina Silva é um ‘convite’ à reflexão

Clayton

 

Candidata à presidência a bordo do minúsculo PV, Marina Silva injetou no debate sucessório o tema mais relevante já abordado até agora: a governabilidade.

 

Marina diz que, se fosse eleita, promoveria um “realinhamento histórico”. Governaria "com os melhores do PSDB e os melhores do PT".

 

Para ela, "enquanto o PT e o PSDB não conversarem, vai ficar muito difícil assegurar uma governabilidade”.

 

Corta para o ano de 1978. Fervilhava uma atmosfera de abertura política, conduzida pelo general Ernesto Geisel.

 

Na região do ABC paulista, a cena sindical era sacudida por um líder irrequieto: Lula. Um Lula diferente do atual, sem engajamento partidário.

 

Esse Lula de então espantava os líderes políticos tradicionais com seus desafios às estruturas ideológicas convencionais.

 

Naquele mesmo ano, um professor universitário de verniz esquerdista foi convencido a disputar uma cadeira no Senado: Fernando Henrique Cardoso.

 

Deu-se numa reunião na casa do amigo José Gregori. Presentes, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e Almino Afonso, ex-ministro de João Goulart.

 

Após duas horas, FHC topou ir às urnas. Precisou da ajuda do amigo Flávio Bierrenbach para descobrir onde funcionava o MDB, partido ao qual se filiaria.

 

FHC obteve 1,27 milhão de votos. Não foi eleito. Mas tornou-se uma novidade da política. Na campanha, fora cortejado por artistas e intelectuais.

 

Melhor: o professor construíra uma ponte entre a academia e o universo sindical comandado por Lula.

 

A despeito da ojeriza que nutria por políticos, Lula atuara como cabo-eleitoral de FHC na porta das fábricas.

 

Um dos coordenadores de boca-de-urna de FHC era um estudante de pós-graduação de economia: Aloizio Mercadante.

 

Corta para 1992. Sob Fernando Collor, o Brasil se preparava para um plebiscito. O eleitor decidiria entre o presidencialismo e o parlamentarismo.

 

Lula foi ao apartamento de FHC, no bairro paulistano de Higienópolis. Presente, além do anfitrião, Tasso Jereissati, então presidente do PSDB.

 

A trinca pôs-se a discutir os rumos plebiscito que poderia converter o Brasil numa nação parlamentarista já em abril do ano seguinte.

 

Decidiu-se que Lula e Tasso correriam o país em defesa da causa parlamentarista. Iriam às universidades e aos sindicatos. Visitariam os donos de jornais.

 

Fizeram segredo da segunda parte do plano: as viagens serviriam para preparar o terreno da sucessão presidencial seguinte.

 

O PSDB apoiaria a candidatura de Lula. Indicaria o vice. Juntos, PT e PSDB negociariam o nome do primeiro-ministro. Lula e FHC pareciam, então, fadados a fazer política juntos.

 

Na memória de Lula, estava fresca a imagem do tucanato no seu palanque, no segundo turno da sucessão de 1989, que perdera para Collor.

 

Na cabeça de FHC, permaneciam intactos os ideais do professor de 1978, que animara o líder sindical a fazer campanha para ele nas fábricas.

 

Retorne-se a Marina Silva e à cena de 2010: “Devíamos ser capazes de estabelecer uma governabilidade básica, onde o PT e o PSDB digam: 'Naquilo que é essencial para o Brasil, nós não vamos colocar em risco a governabilidade'. O Brasil é maior que essas picuinhas".

 

Difícil ignorar a verdade escondida atrás das considerações da candidata do PV. Escravos das picuinhas, tucanos e petistas tornaram-se inimigos irreconciliáveis.

 

Somando-se os dois mandatos de FHC ao par de gestões de Lula, PSDB e PT governam o país há 16 anos.

 

Naquilo que realmente importa, a gestão da economia, Lula manteve o que FHC iniciara. Preservou-se a estabilidade que permitiu ao Brasil dar um salto.

 

Porém, a pretexto de assegurar a “governabilidade”, ambos ligaram-se ao que há de mais arcaico na política. Produziram escândalos em série.

 

Hoje, PSDB e PT dedicam-se a esfregar na cara um do outro as perversões que nutriram durante anos. Lula covida ao plebiscito: “Nós contra eles”.

 

Em artigo, FHC aceita o desafio. Mas parece mais empenhado em desqualificar a candidata oficial: “Boneca de ventríloquo”, “autoritária”, etc.

 

A julgar pelas pesquisas, o Brasil será presidido, a partir de 2011, por um tucano, José Serra. Ou por uma petista, Dilma Rousseff.

 

O “realinhamento histórico” de que fala Marina Silva tornou-se coisa utópica, irrealizável. Arma-se a continução da gincana de lama. Cedo ou tarde virá um novo mensalão.

 

- Em tempo: Ilustração via O Povo Online.

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Escrito por Josias de Souza às 18h45

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Estrelas de escândalos enfrentam tribunal das urnas

Submetido a escândalos em série, o brasileiro habituou-se a reclamar da impunidade que viceja no país.

 

Em outubro de 2010, o eleitor terá mais uma chance de provar que é um cidadão, não um nome inútil impresso no título eleitoral.

 

Se quiser, o brasileiro pode fazer justiça com as próprias mãos. Vão às urnas algumas das principais estrelas de novos e de antigos escândalos.

 

A lista é longa e suprapartidária. Eis alguns exemplos: Renan Calheiros, Jader Barbalho, Orestes Quércia, Paulo Maluf...

 

...Fernando Collor, Eduardo Azeredo, Marconi Perillo, Joaquim Roriz, Orestes Quércia, Roseana Sarney, Jackson Lago e um interminável etc.

 

São candidatos ao Senado, à Câmara e a governos estaduais. Disputas que costumam ser ofuscadas pela gincana presidencial.

 

Abra-se aqui um parêntese. Corta para fevereiro de 1996. Joguem-se os holofotes sobre um velho conhecido do eleitor: Lula.

 

Cruzava a região Sul, numa das incursões de sua Caravana da Cidadania. Dava aulas de civismo político. Dizia coisas assim:

 

1. "Temos que criar vergonha na cara e eleger pessoas dignas. Com uma parte do Congresso sob suspeita da população, ele tem pouca legitimidade".

 

2. "Quem colocou os ladrões lá? Não foi obra de Deus, foi o voto do povo. Ou o povo assume a responsabilidade de mudar este país ou vai ter mais ladrões no Congresso".

 

O Lula-1996 tinha algo em comum com o Lula-2010. Adorava fustigar o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso.

 

Ouça-se o que dizia: "Sempre desconfiei de que havia um grupo que fazia do Congresso um balcão de negócios...”

 

“...[...] O Fernando Henrique foi eleito com embalagem de novo, mas não inovou nem na fisiologia...”

 

“...[...] O Congresso está funcionando como uma bolsa de valores fomentada pelo Executivo. Precisamos investigar essa corrupção". Fecha parêntese.

 

Experimente reler o raciocínio acima. Troque o nome de Fernando Henrique pelo de Lula. Percebeu?

 

Decorridos 16 anos, o país está submetido, sob Lula, ao mesmo flagelo que azeitou a corrupção na era FHC.

 

Culpa dos eleitos? Claro que sim. Mas só um tolo poderia isentar o eleitor de suas próprias responsabilidades.

 

Em 2010, o brasileiro será submetido a mais um desses momentos mágicos. O poder está na ponta do seu dedo indicador.

 

A magia do instante está em poder recomeçar a partir de uma simples pressão exercida sobre o teclado da urna eletrônica. Chance igual, só daqui a quatro anos.

 

Assim, melhor não desperdiçar, de novo, a hora. Ainda não foi inventado melhor remédio contra o eleito inconsciente do que o eleitor impaciente.

 

Pegue-se uma carona no prestígio do Lula-2010 para ecoar o Lula-1996: "Temos que criar vergonha na cara e eleger pessoas dignas”.

 

"Quem colocou os ladrões lá? Não foi obra de Deus, foi o voto do povo. Ou o povo assume a responsabilidade de mudar este país ou vai ter mais ladrões”.

 

Na presidência, Lula esqueceu o que dissera do mesmo modo que FHC dera de ombros para o que escrevera. Você não precisa imitá-los.

Escrito por Josias de Souza às 17h29

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Evolui na avenida o Carnaval da Unidos do Plebiscito

Paixão

Esqueça Mangueira e Salgueiro. Dê de ombros para Beija-flor e Portela. Não perca o seu tempo com Vila Isabel e Mocidade.

 

A grande sensação do Carnaval de 2010 é o desfile da Escola de Samba Unidos do Plebiscito.

 

Em vez do enredo único, dois. Um par de puxadores divide o carro de som. O presidente-puxador grita:

 

“Olha a continuidade aí, geeeeeeeeeente!. A gente já fez muito. Mas vai fazer muito maisssssssss!”

 

Irrompe na avenida, abrindo o desfile, o carro alegórico do “Redescobrimento”. Uma imensa caravela.

 

No lugar da vela, um bigode de Sarney posicionado na vertical. Grudados no casco da embarcação, várias caras de papelão: Renan, Jucá, Jáder, Collor...

 

No alto do carro, acomodado numa plataforma rotativa, um boneco de Cabral estilizado. Ele acena para as arquibancadas. E os foliões: “Ohhhhhh!”

 

O neo-Cabral é barbudo. Veste um macacão de operário –feito de papel machê marrom e adornado com lantejoulas vermelho-sangue.

 

Acima da cabeça do Cabral pós-pós pisca um letreiro. Reproduz o refrão do samba que o presidente puxador despeja sobre o microfone:

 

“Nunca antes/na história do Brasil/Que os vacilantes/Vão pra ponta do funil”.

 

Girando em volta do carro, sertanejos banguelas aceleram motocas novas em folha. Os faróis piscam. Ao acender, expõem uma inscrição: “Sem IPI”.

 

Vestidos de baianas, mensaleiros com máscaras de Dirceus e Genoinos equilibram sobre a cabeça maquetes de obras do PAC. Hidrelétricas, ferrovias, barragens...

 

Atrás das baianas, a ala dos “coligados”. Pemedebês, pedetês, pecedobês e pepês sambam em círculo. No centro da roda, uma jaula com um boneco Ciro dentro.

 

Súbito, o boneco Cabral abre a bocarra. Salta de dentro dele o torso de uma boneca menor. “Olha a candidata aí, geeeeeente!”, berra o presidente-puxador.

 

Numa das mãos, a boneca-candidata traz um grande cartão de plástico. Traz escrito, em maiúsculas: BOLSA FAMÍLIA.

 

Movimentos mecânicos, a boneca-candidata recolhe no bolso do macacão do boneco Cabral a alegoria de um tucano.

 

Sacode-o. Arranca-lhe o bico. Depena-o, enfurecida. E o presidente-puxador: “Mata, esfola, deita e rola...” A arquibancada, em transe, repete: “Mata, esfola...”

 

Logo atrás, outro carro alegórico gigantesco. Desliza pelo asfalto revestido de notas de Real. Nas laterais, negros fortões com as vergonhas em riste.

 

Estão nus, os falos embrulhados em papel celofane. Erguem os braços, exibem os mísculos, como a realçar o vigor da velha nova moeda.

 

O desfile ganha atmosfera saudosista. Vestido de doutor honoris causa, um mulatinho pé-na-cozinha aciona o gogó:

 

“Olha a volta da estabilidade aí, geeeeeeeeeente!”

 

A essa altura, já familiarizada com o samba-enredo da “continuidade”, a bugrada canta, adaptando a letra:

 

“Nunca antes/na história do Brasil/Que os vacilantes/Vão pra pu...”

 

Voz firme, o mulatinho-puxador não se dá por achado. Ele entoa o novo refrão: “Tucano sim/não urubu/Melhor champanhe/Que cachaça com caju”.

 

Os foliões se animam. Cantam junto. Mas substituem a rima de urubu por um vocábulo menos doce que caju.

 

O multatinho-puxador, refinado, finge que não ouve. E segue na sua toada. No centro do carro do Real, ladeada pelos negões viris, uma grande cabeça calva.

 

A careca começa a rodopiar. Tem olhos de peixe morto, o olheiras tingidas de carvão. Não traz nenhuma identificação. É o não-candidato, todos imaginam.

 

O tampo da careca se abre repentinamente. Saltam de dentro dela índios pelados falando ao celular, mendigos sorvendo iogurte, operários devorando frangos...

 

No asfalto, tentando sambar, uma ala de economistas engomadinhos. Sacodem diplomas da USP, canudos da PUC do Rio, certificados de Harvard.

 

Mais atrás, na ala do “quanto pior, dezenas de figurantes. Estão fantasiados de esquerda raivosa. Carregam a alegoria de um grande pênis.

 

Traz duas letras ponta: PT. Os figurantes avançam em direção aos economistas engomados. Depois, recuam. Avançam. E recuam...

 

De acordo com a programação, o desfile seria encerrado com um carro batizado de “Alternativa”.  Um locutor avisa pelo alto-falante:

 

“Senhoras e senhores, a ala passadista da Unidos do Plebiscito manda avisar que não deu tempo de terminar o último carro. Assim, não teremos a prometida Alternativa”.

 

- Em tempo: Ilustração via Gazeta do Povo.

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Escrito por Josias de Souza às 03h47

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Lula ainda não enxergou a dimensão do caso Arruda

Sérgio Lima/Folha

 

Em dezembro do ano passado, no alvorecer do panetonegate, Lula desdenhara dos vídeos que esfregaram na cara do país os flagrantes de entrega de propinas.

 

“As imagens não falam por si”, dissera o presidente. Para ele, era preciso esperar pelo término das investigações.

 

“Aí você pode fazer juízo de valor. E mesmo assim quem vai fazer é a Justiça”.

 

Nesta quinta (11), ao ser informado de que o STJ decretara a prisão de José Roberto Arruda, Lula disse, segundo seus auxiliares, o seguinte:

 

“Essa situação não é boa para o país nem para a consciência política brasileira”. Lula acrescentou: “Ninguém é sádico, ninguém está feliz”.

 

O Lula de dezembro estava errado. Os vídeos do escândalo –meias, cueca, bolsa, as mãos de Arruda apalpando a grana— não falavam por si. Eles gritavam.

 

O presidente de agora está, de novo, equivocado. A prisão do governador ajuda, sim, na formação da consciência política do brasileiro.

 

Lula pode não estar feliz. Mas a platéia, mesmo o pedaço dela que não cultiva o hábito do sadismo, ri de orelha a orelha.

 

Pela primeira vez, o brasileiro que financia a bilheteria vê o Judiciário chutar o pau da lona do circo. A decisão do STJ teve o efeito de uma lavada de alma.

 

Sabe-se que Arruda não será hóspede do PF’s Inn por muito tempo. A prisão do governador, por preventiva, vai durar pouco.

 

Mas, ainda que que o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, devolva Arruda ao meio-fio nesta sexta (12), o pernoite do governador na PF não terá sido em vão.

 

No Brasil, como se sabe, o crime é nosso vizinho. Mas a Justiça mora muito longe. A prisão de Arruda, ainda que curta, serve como lenitivo diante do descalabro.

 

A desfaçatez de Arruda como que avisa ao eleitor: Pô, cara, vê se vota direito. Você não achou o seu voto no lixo.

 

De resto, o constrangimento imposto ao governador adverte aos políticos: A maré está virando, meu caro. Conte até dez antes de roubar.

 

No Brasil, acima de um determinado nível de renda, ninguém é culpado de nada.

 

No universo da política, costuma-se atribuir a culpa pelas grandes delinquências a Brasília.

 

O regime do "separa aí os meus 15%, os meus 30%" teria começado com a chegada das máquinas das grandes empreiteiras ao cerrado.

 

Sempre se disse que aquela ilha, rodeada de coisa nenhuma, daria errado. Era como se Brasília convidasse ao delito.

 

A ausência de multidões seria um estímulo à "propinocracia". Não haveria quem gritasse "pega ladrão". A falta de esquinas facilitaria a fuga.

 

Arruda reforçou o estereótipo, levando-o ao paroxismo. Mineiro, o governador fez-se politicamente em Brasília.

 

O comportamento bandido que revelara no caso da violação do painel do Senado já indicava que algo de muito errado se passava com ele.

 

Era como se o excesso de luz de Brasília lhe tivesse vazado os olhos. O ar seco da cidade invadira-lhe as narinas. E Arruda enlouquecera.

 

Eleito governador, Arruda não conseguiu administrar a própria loucura. Esqueceu de maneirar.

 

A prisão serviu para demonstrar que o problema não está em Brasília. Ou, por outra, a culpa é da Brasília que Arruda e seus comparsas trazem enterrada dentro deles.

 

A prisão talvez ajude a acordar o eleitor, levando-o a perceber que elegeu não um governador, mas um político que adota um estilo Brasília de vida.

 

Esse modo Brasília de viver pode ser encontrado em qualquer lugar. Às margens do Paranoá ou do Tietê. No Brasil ou nas Ilhas Fiji.

 

A novidade embutida na decisão do STJ é a interrupção da impunidade. Pode ser mero recesso. Mas faz um bem inominável.

 

Injeta na alma do observador cansado uma felicidade inaudita. Lula ainda não enxergou, mas, exceto pelos malfeitores, todo mundo está feliz.

Escrito por Josias de Souza às 05h52

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Ex-borboleta, o PT chega aos 30 com cara de lagarta

  Angeli

 

O PT completa três décadas nesta quarta (10). O aniversariante que soprará as velas do bolo não é aquele rebento nascido 30 anos atrás.

 

Os petistas fingem que não sabem, mas aquele PT de outrora morreu. O atestado de óbito foi emitido por uma legista insuspeita. Chama-se "Evidência".


A causa mortis, informa a responsável pela necropsia foi “suicídio”. Ao chegar ao poder, em 2003, o PT adotara uma conduta estranha, algo psicótica.

 

No curso da administração Lula, a legenda tanto fez que acabou por comprovar que também os partidos políticos podem ceifar a própria vida.


Seguindo as pegadas de outros suicidas da política, o PT viu-se enredado numa crise de auto-estima.

 

Passou a se comportar como um Narciso às avessas. Cuspiu na própria imagem. À medida que o governo avançava, a psicose partidária alçava níveis extremos.

 

O PT descobriu os encantos de uma personagem que rejeitava, a “Aética”. Na companhia dela, fez o pior o melhor que pôde.


Antes de morrer, o ex-PT escreveu um bilhete que o novo PT evita divulgar. Deixou anotados os termos de sua lápide:

 

"Aqui jaz a ética que, ao cair na vida, se esqueceu de maneirar". Pediu que não deixassem de acomodar sobre seu esquife uma cópia do inquérito do mensalão.

 

A morte do PT foi prematura. Experimentou os prazeres do poder ainda moço, no apogeu da juventude.

 

Por azar, tornou-se alvo da cobiça universal aos 25 anos. E entregou-se com avidez à nova aventura.

 

Sucumbiu às relações plurais sem zelar pela escolha dos parceiros. Não soube dosar as próprias pulsões.


Em meio à atmosfera de volúpia, o PT foi pilhado em novas e inusitadas poses. O partido da castidade deu preferência às posições ideológicas mais exóticas.

 

Aceitou gostosamente o assédio dos interesses mais contraditórios. Deu azo a perversões homéricas.


Atônito, o Brasil espiou os primeiros laivos da orgia através de frinchas abertas no mármore do Palácio do Planalto.

 

Súbito, o país descobriu no imenso telhado de vidro do PT um posto de observação mais adequado. Dali, pôde-se acompanhar sem restrições o strip-tease da virtude.


Devagarinho, a legenda imaculada foi se integrando à baixeza comum a todos os partidos. O PT provou-se capaz das maiores abjeções.

 

Mal acordou do sonho presidencial e já foi dormir com o PL, o PP, o PTB e o naco mais assanhado do PMDB. Hipotecou a alma às conjunções mais impudicas.

 

Escorado na castidade presumida de Lula, o PT tornou-se a maior evidência de que, com o tempo, qualquer um pode atingir a perfeição da impudência.


No último ano do mandato de Lula, o neo-PT encontra-se na constrangedora posição de partido supostamente imaculado compelido a conviver com a esbórnia.

 

A morte do PT levou certo desencanto ao universo partidário. Foi como se a idade da ética houvesse terminado.

 

O país se deu conta de que Deus está em toda parte, mas é o Tinhoso quem controla as conjunções que animam a política brasileira.


Um fantasma assombra as noites do PT balzaquiano. Trata-se da assombração do velho PT, aquele partido puro, ingênuo e socialista.

 

A alma penada ronda os sonhos do PT, já velho aos 30, brandindo faixas com bordões inconvenientes.

 

Coisas como "Abaixo a corrupção". Costuma gritar também uma frase inspirada no Lula da década de 80: "Diga não aos 300 picaretas do Congresso".


Ex-borboleta da política brasileira, o PT chega ao seu aniversário como protagonista de uma inusitada volta ao casulo, túmulo da lagarta.

 

O partido vai às urnas de 2010 com chances reais de fazer da ex-pedetê Dilma Rousseff a sucessora de Lula.

 

Mas, caso se confirme, o triunfo eleitoral será creditado a Lula, não à legenda.

 

O PT, aquele velho PT, cavou na enciclopédia um verbete indigno de sua história. Desceu aos livros como larva.

 

Deixou para a posteridade um rastro pegajoso de perversões. Igualou-se aos que atacava. Irmanou-se a eles na abjeção.

 

- Em tempo: O texto acima é uma adaptação de artigo que o signatário do blog veiculou em agosto de 2005, no auge do mensalão.

 

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Escrito por Josias de Souza às 07h02

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PT de Minas revive cena de ‘Bonitinha, mas ordinária’

Numa de suas peças mais célebres, o dramaturgo Nelson Rodrigues pendurou no pescoço de Otto Lara Resende uma frase que não desgrudaria mais do escritor: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer”.

 

A peça é “Bonitinha, mas ordinária”. Ganhou os palcos e o cinema. Antes de morrer, Otto foi conferir, num teatro do Rio, em 1991. Narrou o fato numa coluna de jornal, reimpressa no livro “Bom dia para nascer”. Anotou: “Saí [do teatro] como se tivessem me pregado um rabo de papel”.

 

Assistindo ao vídeo lá do alto, você vai entender o porquê do “rabo de papel”. Na cena, dois personagens –Peixoto e Edgar— tramam um casamento. Na verdade, um golpe. A moça, “milionária”. O pretendente, “pé rapado”. A frase atribuída a Otto é repetida à exaustão.

 

Nelson Rodrigues injetou-a na cena como justificativa moral para a imoralidade urdida diante dos olhares da platéia:

 

— O mineiro só é solidário no câncer, é ou não é?

— Só no câncer.

— Portanto, já sabe. Eu arranjo tudo, certo? Ela entra com o dinheiro e você com o resto.

— Ôba.

— Ainda por cima é linda, linda rapaz, uma coisinha...

— Eu topo. Eu caso. Caso imediatamente, eu caso já...

— Mau caráter!

 

Corta para a cena política de Minas Gerais. Às turras, PT e PMDB disputam a honraria de levar à refrega pelo governo do Estado um candidato apoiado por Lula. O PMDB sugere Hélio Costa. No PT, medem forças Fernando Pimentel e Patrus Ananias.

 

Subitamente, uma novidade escalou as manchetes. Em desvantagem nas pesquisas, o petismo mineiro passou a nutrir jucunda solidariedade por José Alencar. O vice-presidente da República ganhou ares de alternativa do consórcio governista para o governo de Minas.

 

Em outubro, mês da eleição, Alencar terá 79 anos. Os entusiastas da candidatua evitam comentar, mas ele carrega no abdômen um sarcoma. É um câncer agressivo e recidivo, diagnosticado em 2006. Há pouco mais de dois anos, os médicos informaram a Alencar que sua doença é incurável.

 

O vice-presidente já passou pela mesa de cirugia várias vezes. Na última operação, realizada em julho do ano passado, Alencar ganhou a companhia incômoda de uma colostomia -desvio que liga o intestino a uma saída aberta na lateral da barriga, onde são acomodadas bolsas plásticas.

 

Cinco meses atrás, Alencar contou numa entrevista que a colostomia mudara “drasticamente” a sua rotina:

 

“Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza, e a Jaciara [enfermeira da Presidência] para me auxiliarem com a colostomia...”

 

“...Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto. Sem drama nenhum”.

 

Alencar leva seu drama à vitrine com galhardia incomum. “Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público. Ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence”.

 

Nos últimos meses, Alencar animou-se com a notícia de que o tumor que o atormenta reduzira de tamanho. Efeito da quimeoterapia.

 

O vice de Lula passou a cogitar a hipótese de comparecer às urnas de 2010. Almejava o Congresso, não o governo de Minas. Mas o PT mineiro cuidou de empurrá-lo para o epicentro da sucessão do tucano Aécio Neves.

 

Alencar iria à cabeça da chapa. Na vice, o petê Ananias. Para o Senado, o pemedebê Hélio Costa. E o outro petê, Pimentel, iria ao comitê de Dilma Rousseff.

 

Nesta segunda-feira (8), Alencar esteve em Belo Horizonte. Visitou Aécio. E degustou um par de homenagens. Do petismo mineiro, recebeu o título de “militante honorário”.

 

A Câmara de Vereadores brindou-o com um diploma de "honra ao mérito". Em discurso de saudação a Alencar, o petê Ananias evocou o samba “Andanças”, de  Beth Carvalho: “Mestre, por onde você for, quero ser seu par".

 

Dono de biografia respeitável, Alencar parece observar a cena de esguelha: Disse aos repórteres: "Peço sempre a Deus que as manifestações de apreço não me subam à cabeça, para que não me torne um besta...”

 

“...Se resolver me candidatar, prefiro um cargo no Legislativo, não necessariamente no Senado. Também há eleição para a Câmara dos Deputados".

 

Postergou a definição para 17 de março, quando se submeterá a nova avaliação médica. Ficaram boiando no ar duas frases. Uma do próprio Alencar, na entrevista de setembro: “Um homem público com cargo eletivo não se pertence”.

 

A outra, da peça de Nelson Rodrigues: “O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer”. O PT torna a assertiva atual, muito atual, atualíssima. Como nunca antes na história desse país.

Escrito por Josias de Souza às 04h15

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Impunidade rompe um silêncio secular em entrevista

Angeli

 

Deputados e senadores retornaram à atividade. Tudo voltou ao normal em Brasília. Inclusive as anormalidades.

 

No Congresso, José Sarney discursou em defesa da “ética” e da “modalidade”. Na Câmara Legislativa da Capital, foi lida a mensagem de José Roberto Arruda.

 

O governador dos panetones anotou no texto: “Toda crise passa”. Evocando o apóstolo Paulo, disse que trava o “bom combate”. Mais: “Não perdi a fé”.

 

Frequentemente apontada como culpada de todos os males que conspurcam a política brasileira, a Impunidade revoltou-se.

 

Em entrevista ao repórter, a nobre senhora disse que não podem mais ficar impunes os que a acusam impunemenete há anos.

 

“Sou inocente”, disse a Impunidade, fronte alta. Vão abaixo os principais trechos da conversa:

 

 

- Por que ninguém é punido no Brasil?

Punidos há, meu rapaz. Mas só abaixo de um certo nível de renda. Ricos e poderosos escapam por por culpa do ilógico que nos cerca.

- A sra. está na origem dessa falta de lógica, não?

Negativo. Sou inocente. A origem está no Éden.

- Como assim?

Ao comer do fruto proibido, Adão e Eva nos roubaram o paraíso. Em troca, ganhamos o sexo e a indústria do vestuário. Passamos a parir milhões de corpos inúteis. E vieram as roupas, bolsos em excesso, as cuecas, as meias...

- A culpa, então, é da serpente?

Há também os portugueses?

- A sra. pode ser mais específica?

Raciocine comigo, meu rapaz: como seria o Brasil se os portugueses tivessem sido postos para correr naquele fatídico 22 de abril?

- Como seria?

Um país habitado exclusivamente por índios. No resto do mundo, políticos de terno, gravata e roupas de baixo. Aqui, todos nus, vergonhas à mostra.

- A culpa, então, é da indústria da moda?

Não podemos esquecer o fator genético.

- Quer dizer que...     

Permita-me concluir o raciocínio, meu rapaz.

- Por favor, vá em frente.

Se as caravelas tivesem sido expulsas, nós não estaríamos tendo essa conversa. Você não existiria.

- Mas, mas...

Sua cara denuncia a presença de sangue índio nas veias. O clareamento de pele veio com a mistura: portugueses, negros, italianos e todo o coquetel de que você é feito.

- Quer dizer que a culpa é minha? Ou, pior, da imprensa?

Não me entenda mal, rapaz. Você não existiria. Mas, em compensação, também não existiriam o Arruda, o Sarney, o Jáder, o Renan...

- A sra. está sendo racista...

Alto lá. Racista não, realista. Pense em como seria o Brasil se os holandeses tivessem derrotado os portugueses na Capitania do Maranhão, colonizando depois todo o país. O padrão nacional de beleza seria outro. Em vez do bigode do Sarney, uma legião de giseles, loiras, pernudas, longilíneas, lindas.

- A culpa, então, é da miscigenação?

Convém não esquecer a maldição do autodesprezo.

- Não entendi.

Somos a terra do malandro, do indolente. Respiramos um paradoxo: somos o país do jeito pra tudo e, simultaneamente, o país que não tem jeito. O mundo olha para os nossos canalhas e suspira: sabe como é... brasileiro...

- Isso soa a lero-lero de quem não quer assumir a própria culpa.

Não me onfenda, caro rapaz. Então o Lula, presidente que nada vê e nunca sabe, diz que o Sarney não pode ser tratado como pessoa comum e eu é que sou culpada?

- Entendo. A culpa, então, é do presidente?

Veja bem, não podemos esquecer o resto.

- O resto?

Exatamente. Refiro-me aos milhões de brasileiros comuns. Eles tem o poder. Mas se esquivam de exercê-lo.

- Como assim?

Ora, meu rapaz, não há marcianos na política. Eles são eleitos. Roubam, desviam, tripudiam, dançam, sapateiam... E são reeleitos.

- Mas, mas...

Em vez de mandar essa gente pra cucuia, o eleitor prefere se agarrar à crença de que é vítima de um conto-do-vigário eterno. Esse papel de vítima é coisa de otário, meu rapaz.

- Culpa do povo, portanto.

Não queira me comprometer. Ouça tudo o que e eu te disse. Você me parece um rapaz inteligente. Tire suas próprias conclusões. Mande seus 22 leitores olharem no espelho. Qianto a você, pare de encher a boca para pronunciar o meu nome. Esqueça a Impunidade, meu rapaz. De quem é a culpa? Eu te digo: Minha é que não é. Não, não e não!

Escrito por Josias de Souza às 21h23

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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