Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Alto lá, Sarney não tem nada a ver com José Sarney

Fábio Pozzebom/ABr

 

O morubixaba José Sarney não tem nada a ver com a crise que carcome as entranhas do Senado. A crise, como Sarney já esclareceu, não é dele. A crise é do Senado.

 

Nas últimas duas décadas, Sarney fez. Nesse período, Sarney aconteceu. Mas Sarney não tem nada a ver com coisa nenhuma.

 

Sob Agaciel Maia, o Senado foi gerido por baixo da mesa. Editaram-se um sem-número de atos administrativos secretos.

 

Isso aconteceu porque Agaciel mandou e desmantou na direção-geral do Senado por arrastados 14 anos. Sarney nomeara-o em 1995, na sua primeira presidência.

 

Um prêmio a Agaciel que, como diretor da Gráfica do Senado, editara, às expensas da Viúva, peças de campanha de políticos. Entre eles Roseana Sarney.

 

Numa segunda presidência, Sarney manteve Agaciel. Amigos e aliados de Sarney –ACM, Jader e Renan, por exemplo— preservaram Agaciel.

 

Eleito presidente pela terceira vez, Sarney conservou a intocabilidade de Agaciel. Defenestrou-o depois. Por pressão, não por vontade própria.

 

A mansão de R$ 5 milhões, cuja propriedade Agaciel ocultara, tornara-se um fardo demasiadamente pesado. Mas Sarney não tem nada a ver com isso.

 

Sacudida pela imprensa golpista, a folha do Senado revelou-se um abrigo de frutos da árvore genealógica dos Sarney.

 

O neto, a mãe do neto, o irmão, o par de sobrinhas, a cunhada da filha, o diabo. Sarney, o patriarca, não tem nada a ver com isso.

 

A empresa de outro neto intermediou no Senado os interesses de casas bancárias. Operou no filão dos empréstimos a servidores.

 

Coisa segura e rentável. Entrega-se o dinheiro aqui e amarra-se o pagamento ali, no contracheque dos enforcados.

 

Os contratos foram firmados antes que o senador virasse tri-presidente. O neto é preparado, coleciona canudos internacionais. Sarney não tem nada a ver com isso.

 

A Petrobras borrifou nas arcas da Fundação José Sarney R$ 1,4 milhão. Grana de mecenato, trançada na grande área do Ministério da Cultura.

 

Até então, a fundação era uma pedinte malsucedida. Espetara na burocracia do ministério nove projetos. Coisa de R$ 3,4 milhões.

 

Noves fora um caraminguá de R$ 100 mil, pingado pela Telebras em 1996, na fase pré-privatização, só a Petrobras se animou a estender a mão para a fundação.

 

Sarney endereçou uma carta ao ministério. Pediu pressa na aprovação do projeto. Liberada a coleta, a estatal petroleira começou a contribuir no mesmo dia.

 

Levantaram-se dúvidas quanto à aplicação de um pedaço do patrocínio: R$ 500 mil. Contrataram-se empresas esquisitas.

 

Entre elas a da mulher de um tal de “Pipoca”, ex-assessor de Roseana, hoje auxiliar do ministro-companheiro Edison Lobão.

 

E Sarney: “Não participo da gestão da fundação”. Ou seja: não tem nada a ver com isso também. De modo algum. Absolutamente não!

 

O repórter acredita na tese. Ela guarda certa coerência. Ora, se Sarney não teve nada a ver com coisa nenhuma nos últimos 15 anos, por que teria agora?

 

A imprensa maledicente não vai parar, porém, de aborrecer o senador. Sugere-se a Sarney a adoção de uma providência que renderia homenagens à transparência.

 

Para evitar o incômodo de ter que dar uma explicação atrás da outra, Sarney poderia imprimir na testa uma tatuagem: “Não tenho nada a ver com isso”.

 

Se achar a frase grande demais, Sarney pode recorrer a uma abreviatura: NaV, “Nada a ver”. Com o tempo, o dístico lhe será tão característico quanto o bigode.

 

Ao avistar um ou outro, mesmo o mais desavisado dos transeuntes será compelido a concluir: Ali vai José Sarney, o político que não tem nada a ver com nada.

Escrito por Josias de Souza às 19h24

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Sarney tem no rosto a ‘lama de não ser o que se quis’

 

Toda época tem uma trilha sonora que a caracteriza. Dias atrás, o doutor Agaciel Maia levou à vitrola uma boa sugestão.

  

Agaciel mandou tocar no casamento da filha dele a música-tema do filme "O Poderoso Chefão". Beleza.

 

Mas o repórter ousa sugerir uma alternativa para música de fundo. Uma notável peça de Aldir Blanc e João Bosco: Cabaré. Foi composta em 1973.

 

Naquele ano, o Brasil encontrava-se sob o general Médici. A Arena de José Sarney ajudava a disfarçar a ditadura que o PMDB de Ulysses Guimarães combatia.

 

O tempo passou. E a realidade, como que submetida aos efeitos especiais do vídeo clip Black and White, de Michael Jackson, foi mudando de cara.

 

No PMDB, a cara do Ulysses virou a cara do Quércia, que virou a cara do Sarney, que virou um semblante disforme: bigode do Sarney, boca do Renan, orelhas do Jáder.

 

Premiado pelos micróbios que tramaram contra a vida de Tancredo, Sarney foi ao Planalto. Sopesando-se méritos e defeitos, desceu aos livros como gestor medíocre.

 

A despeito disso, conquistara uma aposentadoria confortável. Seus erros foram suavizados por um acerto: completou a transição para a democracia.

 

De pijama, Sarney desfilava pelos corredores do Senado pisando nos atos secretos distraído. Súbito, decidiu voltar à liça.

 

Sentou-se na cadeira de presidente do Senado pela terceira vez. E reabriu o verbete da enciclopédia. Na voz de Elis Regina, a letra de Cabaré descreve o ambiente:

 

Na porta lentas luzes de neon

Na mesa flores murchas de crepon

E a luz grená filtrada entre conversas

 

Na sessão em que prevaleceu sobre Tião Viana, Sarney prometera o novo: "Desde que comecei como político, sempre procurei caracterizar-me como inovador...”

 

“...Nunca meus olhos ficaram como lanternas voltadas para trás. [...] Não me chamem de um homem retrógrado, como se fosse um velho que chega aqui sem querer renovar o Senado. Sempre tive esta vontade".

 

Ao assumir, manteve na direção-geral o mesmo Agaciel Maia que nomeara 14 anos antes. A atmosfera de cabaré adensou-se:

 

Inventa um novo amor, loucas promessas

De tomara-que-caia surge a crooner do norte

Nem aplausos, nem vaias: um silêncio de morte

 

No discurso de fevereiro, o crooner soara mavioso: "Nunca o nome de Sarney constou de qualquer desses escândalos ao longo da vida nesta Senado”.

 

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros

Quem sabe dos outros, das grades, dos muros

 

Os Sarney e os amigos irromperam no palco às pencas. Os netos e as sobrinhas secretas, o mordomo da filha, a filha do amigo, a viúva do motorista...

 

Ao triste strip-tease da agonia

De cada um que deixa o cabaré

Lá fora a luz do dia fere os olhos

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros

Quem sabe dos outros

 

As [falsas] intenções foram sendo conspurcadas pelos fatos. Até o DEM passou a demonizar Sarney, agora colado na cadeira graças ao apoio destemido de Lula.

 

Imaginava-se que o PMDB dispusesse apenas de seis ministérios no governo. O Planalto, descobre-se agora, é da cota pessoal de Sarney.

 

Entre os versos que Aldir Blanc compôs, João Bosco musicou e Elis Regina entoou, dois resumem à perfeição a incursão de Sarney no Cabaré do Senado:

 

No drama sufocado em cada rosto

A lama de não ser o que se quis

 

No mais, só “as luzes de neon” na porta, as “flores de crepon” na mesa. Lá fora “a luz do dia fere os olhos”. Lá dentro a “luz grená”.

 

As “loucas promessas”, o “triste strip-tease da agonia”. “Nem aplausos, nem vaias: um silêncio de morte”.

Escrito por Josias de Souza às 01h26

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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