Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Sob Sarney, Senado volta a exalar um cheiro de m...

Ivan Cabral

 

Mudança? Mais ou menos. Madrigal made in Maranhão-Macapá. Maestro made in Maceió-Murici. Mais do mesmo.

 

Movimentação marota. Mapeamento minucioso. Mandingas. Manhas. Mumunhas. Mandracarias. Magnetismo. Maestria. Mutirão.

 

Matemática marota: maioria macilenta + minoria maleável = mandarinato do Marinbondo. Mausoléu. Múmia. Maldição.

 

Macacos-de-auditório. Marionetes. Malfeitores. Malas-sem-alça. Malandrões. Maganões. Matilha. Mutatis mutandis, mutantes.

 

Mídia maledicente. Manchetes malsãs. Mandachuva magnânimo. Mordomias mil. Mel aos meus. Mamadeiras. Mãos-bobas. Mancheias.

 

Mumunhas misteriosas. Mandonismo. Megalomania. Monstruosidades. Mau-caratismo. Mandril. Maçarico. Machadinha. Marreta. Maquinações.

 

Maçanetas mal-viradas. Mão-de-obra mutretada. Mufunfa malcheirosa.

 

Mãos molhadas. Mordidas milionárias. Mesadas. Maletas. Maços. Malversação.

 

Mandato mundano. Maculado. Manchado. Mancada. Malogro. Martírio. Mortificação. Marolão. Muvuca. Mafuá. Mexericos.

 

Madrugadas mal-dormidas. Mal-estar. Murmúrios. Morde-e-assopra. Malmequer, malmequer. Maceração.

 

Morubixaba manco. Manga-larga mancador. Malabarismos. Milícia militante. Molaqueiros movediços.  

 

Mudez. Meneios. Mentiras. Maquiagens. Má-fé. Manobras mais-que-(im)perfeitas. Manjadas. Macetadas. 

 

Maná. Muito milho-alpiste. Milk-shake. Marshmallow. Morosidade. Mutismos. Maneirismos. Máscaras.

 

Manicômio. Maloca maluca. Mãe-joana. Mangue. Macrocosmo mal-assombrado. Macabro. Mafioso. Maçante. Melancólico.

 

Maçaroca. Mingau. Marmelada. Mussarela. Moral minúscula. Malta mal-humorada, mas míope. Microcéfala. Mambembe. Manobrável.

 

Matula malformada. Manada mal-governada. Marmiteiros. Madalenas. Marias-moles. Marmotas. Mulatos. Mulatas. Máxima manemolência.

 

Multidão muda. Manifestações? Mal-e-mal. Moto-contínuo. Muxoxos. Mansidão. Mesma mousse marrom. Meio-mole, meio-dura. Malcheirosa.

 

M....................... 

 

-PS.: Ilustração via blog Sorriso Pensante.

Escrito por Josias de Souza às 18h37

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Sarney, os parentes e o bom ladrão do padre Vieira

Guto Cassiano

 

No discurso da última terça-feira, Sarney referiu-se, a alturas tantas, aos parentes admitidos ou exonerados do Senado por meio de atos secretos. Mencionou a sobrinha de sua mulher e um neto. Há outros. Mas ele se ateve a esses dois.

 

Indagou: “E, por isso, querem me julgar perante a opinião pública deste país? É, de certo modo, a gente ter uma falta de respeito pelos homens públicos [...] Extrema injustiça!”

 

Em tempo de São João, brincar com querosene à beira da fogueira não é coisa que o bom senso recomende. Mas já que partiu de Sarney a iniciativa de açular o fogo, não será o repórter que vai levar a mão ao extintor.

 

Afora a discussão sobre a natureza sigilosa dos atos, há densas suspeitas de que os parentes de Sarney mordiam a Viúva sem o dissabor do derramamento de suor.

 

Presume-se que Sarney tenha desejado dizer algo assim: ainda que seja verdadeira a acusação, ainda que o nepotismo tenha sido fulminado pelo STF, é uma honra para mim, que, ao malversar, malverso pouco.


Fosse Adão o presidente do Senado, decerto ainda estaríamos no Éden, eis a tese escondida atrás do argumento de Sarney. Que crime, afinal, cometeu o primeiro homem? Roubou uma maçã. Uma reles e inocente maçã.

 

A tentativa de defesa de Sarney ganha ossatura antropológica quando vista sob a ótica de um clássico: o "Sermão do Bom Ladrão", do padre Antônio Vieira. Recorre-se a Vieira porque se trata de autor admirado por Sarney.  

 

Deus pôs Adão no paraíso, anotou Vieira, com poder sobre todos os viventes, como senhor absoluto de todas as coisas criadas. Exceção feita a uma árvore. Súbito, com a cumplicidade da protomulher, Adão provou do único fruto que não lhe pertencia.


"E quem foi que pagou o furto?", pergunta Vieira. Ninguém menos que Deus, materializado na pele de Jesus. Condenado à cruz, pregado entre ladrões, ofereceu um exemplo aos príncipes. Um sinal de que são, também eles, responsáveis pelo roubo praticado por seus discípulos.


Ao sobrepor a imagem do pequeno delito à do grande roubo, Sarney como que evocou outro trecho do "Sermão do Bom Ladrão".

 

Conta Vieira que, navegando em poderosa armada, estava Alexandre Magno a conquistar a Índia quando trouxeram à sua presença um pirata dado a roubar os pescadores. Alexandre repreendeu-o.

 

Destemido, o pirata replicou: "Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?".


Citando Lucius Annaeus Seneca, um austero filósofo e dramaturgo de origem espanhola, Vieira lapida o raciocínio: se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, todos -rei, ladrão e pirata- merecem o mesmo nome.


Assim, o parente contrabandeado na folha, o suborno recebido de prestadores de serviço e a pilhagem milionária dos empréstimos consignados do Senado são irrupções de um mesmo fenômeno.

 

O tamanho do furto importa pouco. De troco em troco também se chega ao milhão. E quem se desonra no pouco mais facilmente o fará no muito, já dizia o Cristo.


A bordo de uma armada cujo comando divide com Renan Calheiros, o velho morubixaba do PMDB recorre a um contorcionismo vocabular perigoso.

 

Volte-se, por oportuno, a Vieira. Diz o sábio padre que são companheiros dos ladrões os que os dissimulam; são companheiros dos ladrões os que os consentem...

 

...São companheiros dos ladrões os que lhes dão postos e poderes; são companheiros dos ladrões os que os defendem; são companheiros dos ladrões os que hão de acompanhá-los ao inferno.


Sarney cava a própria sorte. Pode acabar inspirando a criação de uma inusitada escala ética. A escala São Dimas, em homenagem ao bom ladrão do Evangelho. Quem investisse com parcimônia contra a Bolsa da Viúva –de sobrinha a neto- estaria instantaneamente livre da sanha persecutória.

 

Antes do arremate, ouça-se mais um pouco do Sarney de terça-feira: “Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto...”

 

“...O que pode ter [...] são irregularidades da entrada em rede ou não entrada em rede de determinados atos da administração do Senado...”

 

“...Mas isso tudo relativo ao passado; nada em relação ao nosso período. Nós não temos nada que ver com isso”.

 

Nesse ponto, é como se Sarney, do alto de seus 79 anos, 55 dos quais decicados à política, rogasse à platéia: Quero que me tomem por bobo, não por malfeitor.

 

O Sarney do discurso de ocasião, pronunciado num instante em que a suspeição toca-lhe os sapatos, não é o político experimentado que todos supunham.

 

Elegera-se três vezes presidente do Senado como um articulador de mostruário, exemplo de sagacidade e competência.

 

Descobre-se agora que, em 1995, em sua primeira presidência, Sarney nomeara Agaciel Maia para gerir o Senado à sua revelia. Dito de outo modo: Sarney alçara Agaciel à direção-geral para fazê-lo de trouxa.

 

- PS.: Ilustração via blog do Guto Cassiano.

Escrito por Josias de Souza às 02h06

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Candidatos sonegam à platéia o essencial: conteúdo

                                     El Roto/El Pais

 

Com um ano e quatro meses de antecedência, a sucessão presidencial de 2010 ganhou ares de fim de jogo.

 

O primeiro turno da eleição não é senão um ponto longínquo na folhinha. Mas a política pulsa num ritmo de 45 minutos do segundo turno.

 

Os institutos de pesquisa e o noticiário condenam o eleitor a optar entre o tucano José Serra e petista Dilma Rousseff.

 

No lado governista, nem Ciro Gomes se enxerga mais como alternativa. Na banda oposicionista, Aécio Neves é tratado como figurante de luxo.

 

As engrenagens da campanha já estão em movimento. Vive-se a fase da politicagem.

Esboçam-se as composições partidárias. Alianças com fins lucrativos. 

 

É um período em que os candidatos e seus prepostos percorrem as coxias com ares de compositores. Compõem com qualquer um.

 

Resumida a dois nomes e rendida à baixa política, a campanha prematura sonega ao eleitor o essencial: conteúdo.

 

A grande dúvida, a interrogação eletrizante é: Com quem vai ficar o PMDB? Ninguém pergunta: O que diabos Serra e Dilma pretendem fazer com o país?

 

Que idéias tem para arrancar a saúde pública da maca? Como planejam produzir o salto científico e educacional?

 

São perguntas moídas pelo moto-contínuo das pesquisas. Estatísticas que antecipam o nome do herói que os pára-choques de caminhão vão desancar depois da posse.

 

É como se, submetidos a um par de candidatos compulsórios, dois grupos de loucos se dispusessem a dirigir o hospício sem apresentar credenciais mínimas.

 

Munidos de pesquisas –quantitativas e qualitativas— os malucos governistas e os da oposição percorrem a cartilha do marketing.

 

Convertem a vontade difusa do manicômio em música. Conferem à forca a aparência inofensiva de um instrumento de cordas.

 

Recolhem a opinião alheia e a devolvem aos opinantes na forma de sentimentos rarefeitos e convenientemente difusos.

 

O petismo de Dilma é vendido como a continuidade de Lula. O tucanato de Serra é a mudança que não diz o que será mudado.

 

Nas raras oportunidades em que se manifestam, os candidatos dizem coisas definitivas sem definir as coisas.

 

São, por assim dizer, mercadores de verdades que se esquecerão de acontecer. Noutras palavras: vendedores de ilusões.

 

A imprensa tampouco faz o seu papel. Jornalista gosta de cobrar as “propostas” dos candidatos. Agora, nem isso.

 

Privilegia-se a baixaria. Os ataques de parte a parte como que monopolizam os holofotes.

 

Vivo, Nelson Rodrigues diria: “Os repórteres esbarram, tropeçam no óbvio. Pedem desculpas e passam adiante, sem desconfiar que o óbvio é o óbvio”.

 

O óbvio, por ululante, começa a ser citado nos carros de praça, emerge das esquinas, irrompe nas mesas de bar.

 

A inanição mental dos candidatos à presidência, eis o óbvio que as manchetes se esforçam para não enxergar.

 

Desprezado pelos meios de comunicação e enganado pelos candidatos, resta ao eleitor tentar distinguir por conta própria o lamentável do lastimável.

 

O segundo turno de 2010 se imiscui em 2009 como uma espécie de loteria sem prêmio. O país se divide entre o seis e o meia dúzia.

Escrito por Josias de Souza às 19h27

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Sobre Minc, mula, asnos e os 'fardos' inevitáveis

El Roto/El Pais

 

Vem da Grécia antiga a história da mula de Tales. Representa a esperteza malsucedida. Sobreviveu ao tempo graças a Plutarco.

 

Com uma sobrecarga de sal sobre o lombo, a mula encontra um rio pelo caminho. Atravessa-o.

 

O sal derrete. O peso se esvai. E a mula, supondo que não era burra, não quis mais saber de outro caminho.

 

O dono da mula, que tampouco queria passar por asno, troca a carga do animal. Em vez de sal, sacos de lã.

 

A mula toma a picada do rio. Molhada, a lã pesa como sal seco. Por pouco o animal não se afoga. Chega à outra margem. Aprende a lição. E jamais se aventura no rio.

 

La Fontaine tratou de incorporar a história de Tales ao seu célebre fabulário. Deu-lhe novo colorido. Rimou-a. Metrificou-a.

 

Em vez de uma mula, serviu-se de dois asnos. Sobre o espinhaço de um, o sal. Sobre o lombo do outro, esponjas.

 

Nessa versão, os burriqueiros são personagens ativos do drama. Eles montam seus respectivos animais.

 

Pois bem, o par de burros mergulha no rio. O do sal, aliaviado do peso, sobrevive. O das esponjas morre afogado.

 

Quase leva junto o seu guia. Depois de lutar contra a morte, o infeliz é resgatado por um pastor.

 

Eis a moral lafontainiana: “Guiar por cabeças más/não é um bom portamento;/às vezes a dita de um/faz a desgraça de um cento”.

 

Corta para a Brasília dos dias que correm. Zoom na sala do ministro do Meio Ambiente. Ninguém disse ainda. Talvez por misericórdia. Mas Carlos Minc perde substância.

 

Carrega sobre os ombros o fardo das questões ambientais. Sentindo os joelhos vergarem, decidiu aventurar-se nas corretenzas da polêmica.

 

Foram tantas –e tão simultâneas— as encrencas compradas pelo ministro que elas passaram a pesar-lhe como a lã e as esponjas molhadas da mula e do asno.

 

Minc acomodou nas mãos de colegas de governo as “machadinhas” que tentam “esquartejar” a legislação ambiental no Congresso.

 

Mergulhando fundo na descortesia, pespegou nos produtores rurais –todos eles, indistintamente— a pecha de “vigaristas”.

 

O ministro, como se sabe, não é burro. Mas tornou-se candidato à extinção. Apelidaram-no de “Minc Leão Dourado”. Seu brilho, por gratuito, ofuscou o bom senso.

 

Salvou-se graças à condescendência de Lula. Na pele de pastor, o presidente resgatou o auxiliar das águas turvas de uma Brasília imersa em funda loucura.

 

Resta saber se o ministro aprendeu a lição. A julgar pelo que anda dizendo, não parece ser o caso.

 

Do matagal do ministério do Meio Ambiente não tem saído coelhos. Só cobras e lagartos. Uma pena.

 

Depois de décadas de descaso com o meio ambiente, o Brasil agora precisa cuidar do ambiente inteiro. E tem de fazê-lo compatibilizando produção e preservação.

 

Não é coisa simples. É tarefa para gente séria. Gente disposta a carregar o sal sem recorrer às espertezas do rio.

 

A menos que Minc tenha encontrado na polêmica o caminho de volta para o seu Rio de Janeiro natal.

 

A eleição de 2010 bate à porta. Deputado estadual pelo PT fluminense, o ministro terá de pedir votos.

 

A imagem do mocinho ambiental em luta contra bandidagem rural não ajuda o Brasil. Mas, na tribo de Carlos Minc, tem enorme apelo eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 21h03

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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