Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

2010 será decidido pela esperança, não pelo ódio

  Moacyr Lopes Jr./Folha
As pesquisas eleitorais servem basicamente para três coisas:

 

1. Orientar partidos e candidatos;

 

2. Orientar os grandes financiadores de campanha;

 

3. Desorientar o eleitorado.

 

Elas desnorteiam a bugrada porque pesquisa feita há mais de um ano da eleição vale tanto quanto nota de três reais.

 

Tome-se, por eloquente, o exemplo da São Paulo do ano passado. As primeiras sondagens atribuíam a Geraldo Alckmin a aparência de candidato imbatível.

 

Venceu, como se sabe, Gilberto Kassab. Um nome que, tomado pelas sondagens inaugurais, parecia fadado ao fiasco.

 

Pois bem, à medida que a folhinha se aproxima de 2010, governo e oposição intensificam a encomenda de pesquisas.

 

Os últimos dados que chegaram às mãos do petismo e do tucanato esboçam um cenário parecido com o que produziu o êxito de Kassab.

 

Considerando-se a máxima de que pesquisa não é senão um “retrato do momento”, pode-se afirmar que o favorito José Serra não está bem na foto.

 

Em contraposição, Dilma Rousseff, a candidata de Lula, vai assumindo no porta-retrato as feições de uma Kassab de saias.

 

Bem-posto em todas as sondagens, Serra é assediado pelo “efeito Kassab”. Parece, aos olhos de hoje, favorito a fazer do rival escolhido por Lula o futuro presidente.

 

A despeito da crise, o governo Lula amealha confortável índice de aprovação.

 

De acordo com dados recolhidos pelo Vox Populi, por encomenda do PT, a avaliação positiva do governo bate em 87%.

 

Inclui as menções “ótimo”, “bom” e “regular positivo”. Ainda que se considere imprópria a adição do regular na conta, o índice impressiona.

 

Na mesma pesquisa, uma Dilma fustigada pelo câncer sobe. E Serra cai. No embate direto entre ambos, o tucano amealha 48%. A petista, 25%.

 

Nada mal para uma ministra que jamais disputou eleições e que entrara na briga abaixo dos dois dígitos.

 

O PSDB serve-se de sondagens feitas pelo instituto Análise. Também registram o crescimento de Dilma –ao redor dos 17%— e a queda de Serra –nas cercanias dos 45%.

 

Não são levantamentos comparáveis entre si. Os universos pesquisados e as metodologias são diferentes.

 

A quantidade de entrevistas tampouco coincide. Mas as pesquisas convergem para uma mesma direção.

 

Vem daí a gritaria do DEM para que Serra leve a cara à vitrine imediatamente. O alarido ‘demo’ já contagia a cúpula do tucanato.


Dá-se de barato na oposição que, sem contraponto, Dilma está condenada ao crescimento.

 

João Santana, o marqueteiro do PT, avalia que a doença da candidata não prejudica. Melhor: pode ajudar.

 

Antes mesmo da doença, FHC, guru do PSDB, antevia a chegada da candidata de Lula à casa de 30% no alvorecer de 2010.

 

Refinando-se a análise, o drama dos rivais de Lula aumenta. A pesquisa manuseada pelo petismo informa que 67% dos brasileiros estão “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com os rumos que o Brasil tomou sob a gestão de Lula.

 

Para 60% dos entrevistados pelo Vox Populi, “o Brasil melhorou nos últimos anos”. Agarrado a esses percentuais, os governistas lançam no ar a fatídica pergunta: “Se melhorou, porque mudar?”

 

É uma pergunta que a trupe oposicionista ainda não logrou responder. O tucanato frequenta a cena como um aglomerado de cabeças a procura de idéias.

 

Volte-se à analogia entre Dilma e Kassab. O triunfo do prefeito ‘demo’ assentou-se sobre os pilares da continuidade.

 

Kassab pilotava uma administração bem avaliada. E teve o mandato renovado porque seus adversários não levaram ao palanque nada que se parecesse com uma mudança para melhor.

 

Retorne-se à cena pré-eleitoral de 2010. Além de não expor um projeto alternativo ao de Lula, a oposição adiciona raiva ao pudim. Ataca o presidente a esmo. E arrasta o governo para uma nova CPI, a da Petrobras.

 

A tática é perigosa. A menos que ocorra um terremoto, parece improvável que alguém leve a melhor na próxima sucessão presidencial apenas falando mal de um governo que conserva a popularidade nas nuvens.

 

O jogo será definido pela esperança, não pelo ódio. Não é à toa que Serra demora-se em acomodar suas fichas sobre o pano verde.

 

Além de não ter se livrado, ainda, do pôquer das prévias, exigência de Aécio Neves, Serra talvez não saiba ao certo o que dizer.

Escrito por Josias de Souza às 20h00

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A dúvida do Itamaraty: ser ou não ser ‘brasileiro’

O brasileiro, ensinou Nelson Rodrigues, é um “Narciso às avessas”. Costuma cuspir na própria imagem. Sob Lula, o governo se esforça para desmentir o cronista.

 

Em 2004, com o apoio do Planalto, foi ao ar uma campanha embalada por uma frase simpática: “O melhor do Brasil é o brasileiro”.

 

Fora idealizada pela agência Lew, Lara. Destinava-se a açular a auto-estima dos patrícios, vendidos nas peças como pessoas que não desistem nunca.

 

Pois bem, em plena era do “nunca na história desse país”, o Itamaraty de Lula decidiu submeter o brasileiro Márcio Barbosa a um teste de resistência.

 

Barbosa trabalha na Unesco, o braço da ONU para as áreas de ciência, cultura e educação. Serve há oito anos como adjunto do diretor-geral Koitchiro Matsuura.

 

Abriu-se uma disputa pela cadeira de Matsuura, em fim de mandato. Barbosa candidatou-se ao posto. Tem chances reais de êxito.

 

Súbito, o chanceler Celso Amorim pôs-se a lançar cusparadas sobre o espelho. Quer acomodar no comando da Unesco um cidadão egípcio, não o brasileiro.

 

Chama-se Farouk Hosny o predileto de Amorim. É ministro da Cultura do Egito. Um personagem controverso, para dizer o mínimo.

 

Recentemente, Hosny pendurou nas manchetes uma inusitada declaração. Defendeu a queima de livros grafados em hebraico.

 

Despertou a ira da comunidade judaica. Vem tentando, desde então, relativizar a declaração de cunho antisemita. Não obteve, por ora, sucesso.

 

A despeito de tudo, o Itamaraty prefere Hosny a Barbosa. Eis a pergunta que bóia na atmosfera: Por quê?

 

Amorim ainda não se dignou a levar à balança meio quilo de explicações. Difunde-se a versão de que o Brasil estaria interessado em fazer média com os países árabes.

 

A alegação, por ridícula, não vale o peso que lhe atribuem. Quem quiser pode engolir. Mas arrisca-se a fazer papel de bobo.

 

Soaria mais honesto se Amorim assumisse que “planta” Hosny para colher apoios a uma futura indicação de seu próprio nome à Agência Internacional de Energia Atômica.

 

Para complicar, Barbosa parece ter incorporado o espírito da campanha ufanista de 2004. Tornou-se um desses brasileiros que não desistem nunca.

 

Arrastou para o pano verde apoios internacionais de peso. Flerta com a idéia de levar adiante a candidatura ao comando da Unesco com o endosso de outros países.

 

Diante do inexplicável, a diplomacia internacional testemunha o inacreditável: a postulação de um brasileiro à direção-geal da Unesco sem o apoio do Brasil.

 

O eventual triunfo de Barbosa descerá à crônica de insucessos do Itamaraty companheiro como gota que faz transbordar o copo.

 

Na petrodiplomacia, o time de Amorim levou um chapéu de Evo Morales. Na eletrodiplomacia, foi levado à marca do pênalti por Fernando Lugo.

 

Empurrou para dentro do Mercosul a irascibilidade delirante e ideológica de Hugo Chávez. Brigou pelas presidências da OMC e do BID. Perdeu ambas.

 

Esforçou-se para tornar real a cadeira perene no Conselho de Segurança da ONU. Lula terminará o mandato sem realizar o sonho, acalentado desde FHC.

 

Se fosse à briga da Unesco do lado do brasileiro Barbosa, o Brasil poderia perder ou ganhar. Comparecendo à refrega do lado de um egípcio condena-se à derrota.

 

Perdendo, Barbosa poderá levar ao caldeirão do infortúnio a oposição aberta que lhe fez o seu país. Vencendo, estará autorizado a dizer que triunfou a despeito do Brasil.

 

Agarrado a um dilema hamletiano –ser ou não ser brasileiro?— o Itamaraty como que remoça Nelson Rodrigues.

 

“Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima”, diria o velho cronista. “O brasileiro é muito impopular no Brasil”.

 

Ele acrescentraria: “O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro!”

Escrito por Josias de Souza às 19h53

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PSDB acorda, se olha no espelho e enxerga o ex-PT

Os repórteres estranharam. Sabiam que algo de muito estranho ocorrera com o PSDB. Mas não conseguiram escarafunchar o mistério. E nada saiu nos jornais.

 

O tucanato cruzou a semana exibindo um comportamento esquisito. Antes, era capaz de tudo, menos de fazer oposição. Súbito, foi à jugular de Lula.

 

Deve-se o abandono do oposicionismo de punhos de renda a um episódio ocorrido no início da semana. Deu-se o seguinte.

 

Numa dessas manhãs secas de Brasília, o PSDB acordou mudado. Espreguiçou. Esticou as pernas para fora do colchão. Procurou os chinelos sob a cama. Foi ao banheiro.

 

Abriu a torneira. Mãos dispostas em concha, recolheu a água. Lavou o rosto, erguendo-o em direção ao espelho. Espantado, deu um pulo pra atrás.

 

Sua imagem refletida não era a mesma. Ele, rosto escanhoado. Ela, barba desgrenhada. Ele, face limpinha. Ela, cara suarenta.

 

- Quem é você?

 

- Eu sou você ontem.

 

Lero vai, lero vem o PSDB se deu conta de que acabara de sofrer uma metamorfose. Sua imagem refletida no espelho era a do ex-PT.

 

Aturdido, saiu correndo do banheiro. Estava apertando o nó da gravata, no closet, quando percebeu que sua imagem o havia seguido. O ex-PT saltara do espelho.

 

- O que você está fazendo aqui?

 

- Serei a sua sombra. Vou com você ao Congresso.

 

O PSDB resistiu. O que diria aos que perguntassem quem era aquele barbudo ao seu lado?

 

- Diga que sou seu irmão.

 

- Mas eu não tenho irmão.

 

- Diga que sou um irmão que você não conhecia.

 

- Sei não... Você não se parece comigo. Tem língua presa, é feio, veste-se mal.

 

- Somos mais parecidos do que você imagina. Vai por mim.

 

Embora contrafeito, o PSDB assentiu. Levou o ex-PT para almoçar no Senado. Sim, era hora do almoço. O PSDB, você sabe, não acorda antes do meio-dia.

 

Na mesa do restaurante, o PSDB pediu água mineral. “Com gás ou sem gás?” A pergunta do garçom embatucou-o. O PSDB não é afeito a decisões rápidas.

 

O ex-PT interveio: “Com gás. E, pra mim, uma cachaça e uma cervejinha”. Completou o pedido: “Filé ao Chateaubriand pra ele. Buchada de bode pra mim”.

 

O PSDB passou o almoço escondendo o rosto. Receava que o DEM o visse com a sua imagem. O ex-PT falava de boca cheia. Manejava mal os talheres.

 

De sobremesa, o PSDB comeu “petit gâteau”. O ex-PT, outra dose de cachaça. “A saideira”. Na hora do cafezinho: “Com açúcar ou adoçante?”

 

O PSDB olhou para sua imagem. E o ex-PT: “Adoçante, ele precisa emagrecer. Neoliberalismo engorda. Pra mim, outra cachacinha. A penúltima!”

 

A rotina se repetiu ao longo de toda a semana. Sem perceber, o PSDB foi incorporando os hábitos do ex-PT. Quando caiu em si, trocara a água mineral pela cachaça.

 

Passou a exibir o comportamento estranho que chamou a atenção dos repórteres. Sem titubeios, pôs-se a atacar com virulência a mexida na caderneta de poupança.

 

Tergiversou no início: “Será? A medida é necessária. Sem ela o BC não pode baixar os juros”. O ex-PT radicalizou:

 

- Tolice. Lembra do Plano Real? Era bom. Mas nós fomos contra.

 

- Sim, mas o tempo provou que vocês estavam errados.

 

- Detalhe, detalhe... Você é um oposicionista ou um saco de batatas?

 

Meio tonto (efeito da cachaça?), o PSDB seguiu em frente. Rendeu-se integralmente à sua imagem que saltara do espelho.

 

Pôs-se a coletar assinaturas para uma CPI. Tomado de coragem inaudita, decidiu virar do avesso a Petrobras. O ex-PT exultou: “Agora estamos falando a mesma língua!”

 

Na sexta-feira, o que parecia improvável tornou-se real. PSDB e ex-PT tornaram-se irmãos de fato. “Vocês são gêmeos?”, indagou um atônito Aloizio Mercadante.

 

Nem o DEM conseguia distinguir o velho parceiro de oposição do outro. Lula espantou-se. Viu o que ninguém conseguiu enxergar.

 

No jogo de espelhos em que se transformara Brasília, o presidente avistou no neo-PSDB a imagem do Lula do passado. Não gostou.

 

"Acho estranho que partidos que governaram o país por oito anos tomem uma decisão irresponsável como essa. Parece briga de adolescente...”

 

"...Com nervosismo ninguém ganha eleição. Perdi três eleições nervoso. Quando fiquei calmo, ganhei".

 

O PSDB deu de ombros. Está deixando a barba crescer. Passou a comer frango com a mão. Foi visto num brechó de Brasília comprando roupa de bicho grilo.

Escrito por Josias de Souza às 19h42

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Carta aberta da ‘Opinião Pública’ aos congressistas

Caros Congressistas,
 

Meu nome é Opinião Pública. Mas podem me chamar de OP. Vocês me conhecem. Somos íntimos, que diabo! Escrevo para pedir-lhes que me deixem em paz.

 

Dispenso a súbita notoriedade que me atribuem. Leio nos jornais, vejo na TV que vocês andam preocupados comigo.

 

Pergunto: Desde quando euzinha tive essa importância no Brasil? O que os governos ou o Congresso deixaram de fazer com medo de mim?

 

Que falcatruas, que manobras, que crimes foram adiados ou cancelados em meu nome? De onde vem esse meu prestígio tardio?

 

Prestem atenção no deputado Sérgio Moraes (PTB-RS). Mirem-se nele. Ouçam os ensinamentos dele. Tornou-se meu ídolo.

 

Vibrei quando vi a irretorquível verdade estampada no rosto de Sérgio Moraes. Tremi de contentamento quando ele disse que está se “lixando” pra mim.

 

Fiquei profundamente tocada quando Sérgio Moraes acomodou uma repórter no seu devido lugar.

 

Petulante, a jovenzinha perguntara a ele se não estava preocupado com a minha reação à absolvição do deputado do castelo.

 

“A Opinião Pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. Não me contive. Gritei três vivas a Sérgio Moraes.

 

Esqueçam a impresa, senhores. Alguém já disse, não me lembro quem, que não se deve confundir a Opinão Pública com a opinião publicada. Nada mais acertado.

 

Eu, OP, pobre ou rica, jamais passei procuração para a imprensa. Jornalistas gostam de dizer que falam em meu nome. É mentira. Desautorizo.

 

O que é um repórter no Brasil? É um sujeito que, sem competência para ser um Zola e sem talento para virar um Dickens, escreve abstrações em timbre rancoroso.

 

Essa gente vive querendo mudar o mundo. Tolice. Estou satisfeita, muito satisfeita, satisfeitíssima.

 

De minha parte, rogo que sejam mantidas as nossas velhas e briosas tradições.

 

A parte de mim que frequenta a base da pirâmide social não deseja senão receber o Bolsa Família no fim do mês.

 

Espera, ansiosa, pela oportunidade de vende-lhes o voto na próxima eleição. Aceita cimento, tijolos, dentadura, laqueadura, cadeira de rodas, qualquer coisa.

 

O naco de mim que se isola nos condomínios fechados e nos edifícios de luxo se sente plenamente atendida pelo novo Refis que vocês acabam de aprovar.

 

Portanto, senhores, dêem uma banana para a imprensa. Não tenham medo de mim. A OP, vocês bem sabem, não é o bicho-papão que os jornais pintam.

 

Vocês, brasileiros do Brasil oficial, esse país do vale-tudo, sabem o que fazer. Não acredito que terei de ensinar Padre Nosso a vigários escolados.

 

Agarrem-se às circunstâncias, invoquem os velhos motivos, recorram às costumeiras razões de Estado. Enfim, aquelas coisas de sempre.

 

Quando ouvirem dizer que estou irritada, não dêem crédito. Insisto: é mentira. Peço que me vejam como um espelho.

 

Não virou moda dizer que o Congresso é o reflexo da socidade? Pois então, como é que alguém pode ter medo do julgamento do espelho?

 

Ora, Excelências, o espelho é compreensivo. Tolera tudo. Aceita qualquer coisa. Ele sempre perdoa. Esqueçam essa campanha udenista da farra das passagens.

 

Todos no Congresso –do Gabeira e do Suplicy pra cima—ou pra baixo, conforme o ponto de vista— usaram.

 

Assim, prestem atenção no deputado Sérgio “Estou me Lixando” Moraes. Ouçam os ensinamentos dele. E me deixem em paz.

 

Devolvam-me à minha serena e tradicional insignificância. Recuso essa notoriedade que os falsos moralistas me atribuem.

 

A imprensa é irrelevante. Não vale o papel que pinta. Fiquem tranquilos, senhores. Eu vou reeleger vocês!

 

Atenciosamente,

 

OP

Escrito por Josias de Souza às 21h21

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No Brasil de anormalidades infinitas, tudo é normal

   Allan E. Cober
“É normal”. “É natural”. “Esse tipo coisa acontece há 50 anos”. “Não há crime”. “Não existe ilegalidade”. “Isso sempre foi assim”.

 

Endossada por Lula, a reação dos congressistas à utilização da coisa pública em benefício privado esfrega na cara do país uma revelação.

 

Geeeente, “sempre foi assim!”. Mais do que um raciocínio, é um bordão. Ou, por outra, é o lema de uma classe.

 

Os chatos que infestam o país, sobretudo os jornalistas, não dão o devido valor à tradição que está embutida na apropriação do alheio.

 

Os pessimistas não se dão conta da beleza que salta da prática transmitida pelos homens de bens, de geração para geração. “É normal”.

 

O belo está no sólido, no imutável. Quando um parlamentar voa com a família para Paris, ele dá um sentido hierárquico à vida nacional.

 

Põe a bugrada no seu devido lugar. Mostra aos deserdados da sorte que nem tudo é tristeza no Brasil. Alguém está feliz acima deles.

 

Há estabilidade na rotina brasileira. A pobreza –material e de espírito— é perene. Mas também o privilégio alcançou a vida eterna. “É natural”.

 

Nem tudo está perdido. A madame foi a Miami com os filhinhos. Refugiou-se na melhor hospedaria de Boca Raton. Comprou vestidos novos.

 

Que diabos, queriam o quê? Que a patroa do deputado se exibisse em trapos? Por acaso desejam socializar as mazelas da nação? E a tradição, como fica?

 

O ministro do STF foi à sala Vip? Livrou-se do aperelho de “raio X” da PF? Esquivou-se da revista na alfândega? E daí? Geeente, “sempre foi assim”.

 

A filha de FHC virou funcionária fantasma do Senado? “Não há crime”. Trabalhava no Planalto, sob o pai-presidente. Natural que obtivesse outra boquinha.

 

Quando a anormalidade é muita, tudo passa a ser “normal”. Os incentivos fiscais, os fabulosos lucros da banca, a rolagem das dívidas dos sonegadores eternos...

 

...O empreguismo estatal, o tilintar de verbas no Congresso. “Natural, sempre foi assim, é a tradição”.

 

Com sua implicância desmedida, a imprensa frangou a grande revelação: muita coisa melhorou no país!

 

Junto com a estabilidade da moeda, veio a solidez do modelo político. Mudar, sim. Mas tudo tem limites.

 

De resto, quem disse que o melhor está no novo? Será que não vêem o progresso que viceja nas franjas do privilégio? Às favas com a cegueira da moral protestante!

 

Viva a tradição secular do patrimonialismo que assegura aos miseráveis a visão pródiga dos brasileiros finos e bem-nutridos.

 

Há que ter orgulho desse Brasil regido por normas sólidas. É um país perpétuo, imutável. Uma nação que, por estável, oferece ao mundo exemplos de evolução.

 

Entre nós, o universo da política é feito à base de adaptações que asseguram a estabilidade do modelo.

 

Veja o caso do Maluf. Integrou-se ao consórcio que dá suporte congressual ao Lula. O Quércia, outro símbolo do Brasil estável, já se acertou com o Serra.

 

“É normal”. “É natural”. “Isso sempre foi assim”. Por que haveria de mudar?

Escrito por Josias de Souza às 18h07

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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