Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Lula planeja 'vender' Dilma como Bachelet do Brasil

Em conversa com um grão-petista, Lula revelou parte da estratégia que pretende adotar na sua sucessão.

Vai injetar na disputa presidencial de 2010 um debate de gênero: testosterona versus estrogênio.

Apresentará Dilma Rousseff como uma espécie de Michelle Bachelet brasileira.

O presidente identifica semelhanças entre o Brasil de Lula e o Chile de Ricardo Lagos.

Lagos conduziu um governo de "concertación". Lula tem sob si uma "coalizão". Como Dilma, Bachelet foi ministra antes de eleger-se presidente.

Michelle Bachelet foi, primeiro, ministra da Saúde de Lagos. Depois, a despeito de ser filha de um general morto nos cárceres da ditadura Pinochet, foi à pasta da Defesa.

Prevaleceu como candidata do governo à sucessão de Lagos numa prévia disputada com outra mulher: Soledad Alvear, então ministra das Relações Exteriores.

Para Lula, aliando a apregoada "competência técnica" ao sexo de Dilma, o governo levará à sucessão um nome muito competitivo.

Acha que o fato de a ministra ser mulher funcionará como diferencial positivo: "Chegou a hora de o Brasil ter uma presidenta", diz.

No momento, Lula empenha-se em convencer os partidos que o rodeiam a se unirem já no primeiro turno de 2010.

Espera dobrar as resistências até meados de 2009. Na impossiblidade de acomodar todas as legendas ao redor de Dilma, espera ter ao menos o apoio do PMDB.

Mantém a pretensão de pinçar do maior partido do consórcio governista um candidato a vice para compor a chapa com Dilma.

Depois de eleita sucessora de Ricardo Lagos, Michelle Bachelet abriu um discurso ao povo chileno assim:

"Boa noite, amigos e amigas. Quem pensaria? Quem pensaria, vinte, dez ou cinco anos atrás, que o Chile elegeria uma mulher para presidente?".

Lula sonha com o dia em que Dilma pronunciará uma frase semelhante.

Escrito por Josias de Souza às 02h16

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Lula de 2008 deveria recordar o Luiz Inácio de 1967

Tarsila do Amaral

A irreverência do carioca criou uma gíria para a demissão em massa: passaralho.

O professor Aurélio guindou a brincadeira à condição de verbete de dicionário.

O vocábulo voa macio no começo. Lembra a inocência de um passarinho.

É no timbre fálico das duas últimas sílabas que se insinua a encrenca.

Se a origem é aviária, a inspiração não há de ter vindo do canário. Nem do beija-flor.

O bicho guarda semelhança com o carcará, a ave que pega, mata e come.

No caso específico, come empregos. E voltou a lenvatar vôo neste finalzinho de 2008.

Para quem não sabe o que significa, vai abaixo o relato de alquém que viveu o drama:

"Eu sobrevivia fazendo bico para ganhar algum dinheiro. Eu comia o pão que o diabo amassou..."

"...Eu lembro que chegava na hora de comer e não tinha o que comer. Se tinha, era arroz e batatinha cozida no molho..."

"...Eu procurava trabalho nas empresas, fazia tudo a pé, não tinha dinheiro para ônibus..."

"...Tem coisa mais humilhante do que você sair com uma carteira profissional de manhã..."

"...E voltar com ela de tarde, com ela suadinha, sem arranjar emprego, meses após meses?..."

"...Eu às vezes parava no meio do caminho e chorava muito."

O depoimento é de um velho conhecido de Lula. Chamava-se Luiz Inácio da Silva.

Está disponível na biografia "Lula, o Filho do Brasil", da jornalista Denise Paraná.

Começa na página 83 e transborda para a folha 84. "Isso aconteceu na crise de 1965..."

"...Foi uma época muito difícil. Foi uma crise de desemprego muito, muito pesada".

O peso da crise iniciada em 15 de outubro de 2008 ainda não foi à balança.

Mas nada assegura que será mais leve do que a crise do marechal Castello Branco (1964-1967).

Na pele de gestor de marolas, o Lula-2008 deveria reler o Luís Inácio-1967.

Não vai resolver a crise. Mas talvez acione uma luz que parece apagada em Brasília.

Sob o ex-operário, o governo já socorreu exportadores e montadoras de automóveis.

Não levou à mesa, nem mesmo como cogitação, a contrapartida da manutenção dos empregos.

O Planalto mandou ao Congresso um par de medidas provisórias anticrise.

Numa, autorizou o BC a derramar dinheiro nas arcas de bancos ilíquidos.

Noutra, transformou o BB e a CEF em sócios potenciais da banca privada e de construtoras.

De novo, o candidato ao desemprego não freqüenta os textos senão como personagem longínguo.

O Lula de 2008 convida o trabalhar ao consumo. Não é mal que o faça. Porém...,

Porém, a vítima do passaralho talvez prefira a extensão do seguro-desemprego a um novo empréstimo consignado.

É o que se depreende das palavras de Luiz Inácio:

"Em 1965, eu fiquei parado um bom tempo. Era uma situação muito difícil, tinha muita miséria na minha casa..."

"...O cara desempregado, sem dinheiro, sem cigarro, sem poder tomar a sua cervejinha..."

"...É uma situação realmente de muita tristeza para um trabalhador".

Em tempo: No pior ano do marechal Castello, a economia brasileira cresceu 2,4%.

Escrito por Josias de Souza às 14h50

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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