Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

A saída? Declare-se uma pessoa extinta e vire banco

A saída? Declare-se uma pessoa extinta e vire banco

El Roto/El Pais
 

Banqueiros constituem uma casta injustiçada. Nada satisfaz mais à alma de um mortal do que a crítica aos mercadores da pecúnia.

 

Natural. O sujeito costuma atacar tudo o que lhe foge à compreensão. E um banco é, acima de tudo, algo incompreensível.

 

Há um quê de inexplicável no fenômeno que uma legião a guardar no mesmo lugar o seu dinheiro, confiando-o àqueles que vivem de extrair lucro do suor alheio.

 

A crise global expôs a verdadeira face dos banqueiros. Não merecem os ataques que recebem. São, em verdade, dignos de pena. Exercem uma atividade ingrata.

 

Ganham dinheiro, é verdade. Muito mais dinheiro do que os negociantes de outros ramos. Mas é justamente na exorbitância que reside o infortúnio do banqueiro.

 

Viciado no exorbitante, ele já não consegue ter uma vida normal. A exposição ao risco do lucro apenas razoável, normal, tem sobre ele o efeito de um veneno mortal.

 

Louvável, portanto, que os governos do mundo inteiro saiam em socorro da categoria. Injustas as críticas que começam a fazer ao governo Lula, engolfado pela marolinha.

 

Em vez de maldizer a banca e o presidente, o brasileiro deveria enxergar as oportunidades que a crise lhe apresenta. Pode virar colega dos banqueiros.

 

Os sem-terra, os sem-teto, os sem-emprego, até mesmo os degredados do cheque especial têm agora uma chance de virar o jogo.

 

Basta que se declarem extintos como pessoas físicas e se reorganizem como bancos. Estariam automaticamente credenciados para desfrutar do espírito solidário do BC.

 

Seria o fim das invasões de terras, das passeatas enfadonhas, das greves infrutíferas. Tudo se resolveria em bons almoços. Ou em reuniões de final de tarde, na sede do BC.

 

O signatário do blog já decidiu. A partir de hoje, será banco. Por qualquer ângulo que analisem o seu drama, hão de considerá-lo um empreendimento à beira da crise sistêmica.

 

Não bastassem a falta de cabelos e o excesso de olheiras, há o nanismo crônico dos bolsos. Não há dúvida: está credenciado a requerer ao BC a sua carta patente.

 

Estréia no mercado como um banco pequeno. Miúdo o bastante para habilitar-se, imediatamente a um desses empréstimos de liquidez previstos na MP 442.

 

Se o governo achar conveniente, o repórter concorda em converter-se num ente estatal. Topa submeter as suas ações –inclusive as más ações— à análise criteriosa do BB e da CEF, enquadrando-se na MP 443.

 

O importante, para usar o jargão próprio, é que sejam adotadas, com a brevidade necessária, as medidas que assegurem a liquidação de posições vendidas, em face da rigidez que a crise global impôs aos mercados.

Escrito por Josias de Souza às 22h59

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Marta pisoteia biografia de Marta e desce à ‘sarjeta’

Marta pisoteia biografia de Marta e desce à ‘sarjeta’

 

O desespero, quando é muito, costuma produzir uma nudez pior do que a nudez. Veja-se o caso de Marta Suplicy.

 

Foi criada para viver num mundo de donzelas burguesas, matriarcas austeras e machos opressivos.

 

Traçaram-lhe um destino de horizontes curtos: estudaria em colégio de freiras, entregaria seus olhos azuis a um marido de boa cepa, teria filhos e administraria o lar.

 

Aproveitando-se das brechas que sua época abriu, Marta saltou da armadilha. Teve a ventura de estudar nos EUA na fase em que jovens como ela se faziam notar queimando sutiãs em praça pública.

 

Depois, quando as saias já se insinuavam no mercado de trabalho brasileiro, Marta ganhou fama na telinha da Globo, entre 1980 e 1986.

 

Ela invadia os lares, no matinal "TV Mulher", falando em masturbação, orgasmo e homossexualismo. Para a época, um espanto!

 

Pois bem, às voltas com uma desvantagem de 17 pontos percentuais na pesquisa, essa Marta de mostruário saiu de cena.

 

Tomou o lugar dela uma Marta toscamente preconceituosa. Uma candidata capaz de levar à propaganda eleitoral eletrônica insinuações acerca da sexualidade de seu rival.

 

A sordidez foi à TV na voz do locutor: "Você sabe mesmo quem é o Kassab? Sabe de onde ele veio? Qual a história do seu partido?...”

 

Nesse ponto, surge no vídeo a foto de Kassab. E o locutor: "Sabe se ele é casado? Tem filhos?"

 

Noutro comercial, uma pitada extra de vileza: “Será que ele esconde mais coisas?"

 

Deve a conduta sexual de alguém ser considerada no momento da escolha de um gestor público?

 

Pensando melhor, adie-se a pergunta. Prossiga-se de outro modo: informações de alcova sempre se imiscuíram no cotidiano da política.

 

Nos EUA, Clinton viu-se enredado numa crise que nasceu de um suposto caso com uma ex-estagiária da Casa Branca.

 

Antes, houve Kennedy, que se dividia entre Jacqueline e Marilyn. Houve também Roosevelt, que oscilava entre Eleanor e uma secretária.

 

Na França, só à beira da morte Mitterrand trouxe à luz a amante Anne Pingeot, reconhecendo-lhe a filha.

 

Entre nós, histórias de alcova são injetadas na biografia de homens públicos desde o Império. Dom Pedro 1º impôs à imperatriz Leopoldina a marquesa de Santos, sua amante.

 

Livro de João Pinheiro Neto menciona o amor secreto de Juscelino por Maria Lúcia Pedroso. Os diários de Getúlio Vargas falam de uma "bem-amada."

 

Em 89, Collor trouxe para o centro da arena eleitoral Lurian, filha de uma aventura de Lula.

 

Logo se descobriria que Collor recusava-se, ele próprio, a emprestar o nome a um filho gerado fora do casamento.

 

Volte-se à pergunta: deve a conduta sexual ser levada em conta na hora da escolha de um candidato a cargo público? A resposta é um sonoro não.

 

O político, como o advogado, o jornalista, o operário ou qualquer outro, não está livre de seus impulsos biológicos.

 

É tolice associar a pulsão sexual ao desempenho funcional. Em São Paulo, busca-se um prefeito, não um santo. Ou uma santa.

 

O curioso é que a própria Marta, quando trocou o senador Suplicy pelo argentino Favre, foi vítima de odiosas insinuações.

 

Pena que o desespero momentâneo a tenha desnudado. Lamentável que o flerte com a derrota a tenha conduzido para a sarjeta eleitoral.

Escrito por Josias de Souza às 15h46

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2010 ganhou um personagem imprevisível: a ‘crise’

2010 ganhou um personagem imprevisível: a ‘crise’

El Roto/El Pais
 

 

Quem percorre o noticiário à procura de explicações simples e de previsões definitivas sobre o futuro da economia deve tentar a leitura do horóscopo.

 

É igualmente inútil. Mas dá menos trabalho e é mais divertido.

 

Desde que a ruína dos EUA ganhou as manchetes, o Brasil vem sendo perseguido por dois boatos. Num, o país é sugado pelo furacão.

 

Noutro, é salvo pela solidez de sua economia. O primeiro boato é macumba de quem quer ver a caveira política de Lula.

 

O segundo é quiromancia de quem quer afastar do debate político os efeitos da crise internacional sobre os planos que Lula esboçou para 2010.

 

Antes da crise, Lula enxergava a própria sucessão como um pudim. Agora, rumina o receio de chegar ao final do mandato numa situação análoga à do FHC de 2002.

 

Entre as poucas coisas farejáveis em meio à crise está a sólida e inescapável certeza de que a economia vai murchar. Vale para o mundo. E também para o Brasil.

 

Qual será o tamanho do tombo? Confira na seção de horóscopo. E ignore todas as convicções disponíveis nas páginas econômicas.

 

São tão confiáveis quanto as certezas extraídas da conjunção dos astros.

 

Mais fácil, por ora, prever o passado. Quando FHC fez o Plano Real, o Brasil dispunha de muitos problemas, inflação alta e algum patrimônio público.

 

Ao cabo de oito anos de tucanato, o Brasil debelara a inflação, torrara o patrimônio e continuava submetido a muitos problemas.

 

Os eleitores de 2002 se deram conta de que, embora a inflação já não os roubasse à noite, a carga tributária e a ruína do Real lhes tiravam o dinheiro do bolso à luz do dia.

 

A despeito do cenário ruinoso, FHC achou que poderia impor José Serra aos aliados de então. Deu na eleição de Lula.

 

Os impostos continuaram roendo o bolso do brasileiro. A ruína perdurou até meados de 2004.

 

Mas Lula fez parte do que FHC prometera e não entregara: distribuiu renda e tonificou o PIB. Daí a superpopularidade.

 

O planeta entrou, de novo, num período de instabilidade econômica. No passado, crises localizadas: Ásia, Rússia, México... Agora, uma crise de dimensões planetárias.

 

A despeito das encrencas vindas de fora, a decadência de FHC decorreu dos equívocos de FHC. Brilhante na concepção, o Real desandou graças aos erros do governo.

 

Lula pode alegar que não tem nada a ver com a ameaça de desordem que assedia o Brasil de hoje. É coisa integralmente importada. Verdade. Mas só até certo ponto.

 

Se FHC se perdeu pela ação, Lula perde-se por não ter agido mais e melhor enquanto durou a bonança internacional. Desperdiçou as oportunidades da sua hora.

 

Preferiu o vai ou racha às reformas. Agora, vai ter de ir mesmo rachado. Reage ao fato consumado. Volta a apelar, por exemplo, pela reformulação do sistema tributário.  

 

Lula ainda dispõe de alguma margem de manobra na seara econômica. Demorou, mas a ficha já lhe caiu. No campo político, ganha uma adversidade com a qual não contava.

 

Na semana passada, em conversa com um amigo, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), constatou: “A crise devolve o PSDB ao jogo da sucessão”.

 

Se chegar a 2010 patinando na faixa de 2%, 3% de expansão do PIB, Lula oferecerá ao tucanato um discurso à Zé Kéti. Algo assim: Os próximos anos não serão iguais ao que passou.

 

Dias atrás, depois de avistar-se com Lula e com a futura adversária Dilma Rousseff, o tucano José Serra pôs-se a discorrer sobre a crise, na soleira do Planalto.

 

Era como se quisesse dizer aos repórteres: Eu sei como fazer. Confirmando-se o pior, Dilma, mais técnica do que política, também poderá dizer coisa parecida.

 

O fato é que, ao decidir entre um ou outro, os mais de "mil palhaços no salão" estarão de olho num novo e imprevisível personagem de 2010: a crise.

Escrito por Josias de Souza às 20h13

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Vai votar? Então, reflita: na política, a ruína é você

Vai votar? Então, reflita: na política, a ruína é você

Angeli
 

 

O eleitor brasileiro tem mania de olhar com distanciamento típico dos "scholars" o quadro de ruína de sua cidade.

 

Age como se nada fosse com ele. Cômodo. Muito cômodo. Mas desonesto.

 

Todos deveriam desperdiçar um naco deste domingo eleitoral para fazer uma introspecção.

 

Pode ser após o despertar, barriga colada à pia do banheiro, enquanto espalha o dentifrício pelas cerdas da escova.

 

Levando a experiência a sério, depois de bochechar e lavar o rosto, o portador de título eleitoral enxergará no espelho, ao se pentear, o reflexo de um culpado.

 

Indo mais fundo no processo de auto-exame, o eleitor enxergará o óbvio: prefeitos e vereadores não surgem por geração espontânea. Eles nascem do voto.

 

E o eleitor talvez levante da mesa do café da manhã convencido de que os dramas de sua cidade exigem dele uma atitude. Um gesto individual e consciente.

 

Os problemas, por abundantes, não admitem mais que o eleitor se mantenha exilado no conforto de sua omissão política. Intimam-no a retornar à história de sua cidade, consertando-a.

 

O primeiro passo é o abandono da tola retórica de que os políticos "são todos iguais". Não são.

 

A igualdade absoluta é uma impossibilidade genética. É papel do eleitor distinguir diferenças, não erigir desculpas que, na prática, o eximem de pensar.

 

O segundo passo é a caída em si, a descoberta de que se está diante de um desses momentos mágicos.

 

Circunstância única, em que o poder está ao alcance do dedo indicador, que dedilha o teclado da urna eletrônica.

 

A magia desse instante está na possibilidade de começar tudo de novo, do zero. Não é todo dia que se tem uma nova chance.

 

Lembre-se: para o eleito inconsciente, o eleitor impaciente é um santo remédio.

 

Assim, ao abrir o guarda-roupa, escolha um traje especial, à altura da ocasião. Leve a mão ao fundo do armário. Desencave aquela roupa empoeirada. Vista-se de cidadão.

 

Ao ganhar o meio-fio, apague por um instante de sua mente os megatemas que polvilham a primeira página dos jornais.

 

Esqueça George Bush. Risque de seus pensamentos a crise dos EUA e os reflexos dela no Brasil.

 

Abra o seu espírito para as miudezas que o cercam. Se estiver num grande centro, respire com vagar.

 

Absorva cada partícula de poluição a que tem direito. Aguce o tímpano. Deixe que os ruídos urbanos o invadam.

 

Dê uma boa olhada na feiúra à sua volta. Repare na sujeira das ruas e dos monumentos.

 

Fixe o olhar nos buracos da pista. Observe a ausência de transportes coletivos decentes. Note o lixo acumulado na quina do asfalto.

 

Eis a cidade diante dos seus olhos. É nesse pedaço de universo, vísceras à mostra, que você come e passa fome, dorme e perde o sono, trabalha e fica desempregado, ama e odeia, canta e chora, espolia e é assaltado. É aqui que você vive e morre a cada dia.

 

Entrando na cabine eleitoral, trate de pôr um ar solene na face. Não tenha pressa. Você é o dono desse momento. Aproveite-o. Deguste-o. Você é o protagonista do espetáculo.

 

Faça uma visita ao seu interior. Encontre-se consigo mesmo. Certifique-se de que não esqueceu a consciência em casa. Converse com ela. Questione-a. Depois, estique o dedo e vote com a alma.

 

Há sempre a alternativa de lavar as mãos e continuar entregando o caso à divina providência.

 

Se preferir esse caminho, tudo bem. Mas não reclame amanhã, quando descobrir que Deus está morto. Sua omissão o matou. Sente-se. Reze. Peça perdão. Expie os seus pecados. A ruína política é você.

 

PS.: O texto acima é adaptação de um outro, escrito pelo repórter nas eleições municipais de 2000. 

Escrito por Josias de Souza às 20h07

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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