Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Sob Bush, a Casa Branca virou Casa de Mother Joan

Sob Bush, a Casa Branca virou Casa de Mother Joan

El Roto/El Pais
 

 

Faltam 95 dias para George Bush trocar a Casa Branca pelo ostracismo do Texas. Parece pouco. Não para Bush, contudo.

 

O relógio do presidente dos EUA já não tem ponteiros. Tem espadas. Espetam o mundo. E o dono, que se dedica a matar o tempo, à espera do caminhão de mudança.

 

Aguarda-o um verbete acerbo na enciclopédia. Desce aos livros na condição de mandatário maldito. Fará companhia a Herbert Hoover, o presidente da crise de 1929. Republicano como ele, embora mais decente.

 

Quem dá as cartas na Casa Branca não é Bush. É Mother Joan quem segura o baralho. O pseudopresidente imaginou que poderia legar ao sucessor a ruína econômica que cevou. Mãe Joana não deixou.

 

A veneranda senhora levou ao freezer a tese de que o capitalismo pós-muro de Berlim conduziria o mundo ao Éden econômico. À medida que penetra o imponderável, o planeta é tomado pela sensação de que algo diferente precisa ser feito. O quê?

 

Não há ainda uma resposta clara e definitiva. Mas sabe-se que a coisa deve começar por um exame de consciência. Em certa medida, já começou a ser feito nas páginas de "A Crise do Capitalismo", um livro editado no Brasil pela Campus.

 

Escreveu-o o mega-investidor George Soros, visto na década de 90 como uma espécie de terrorista das finanças internacionais. No livro, Soros acusa seu país de praticar o "fundamentalismo de mercado". Anotou:

 

"Como única potência militar remanescente e potência econômica mais poderosa, os EUA estão dispostos a tomar parte de organizações -como a Organização Mundial do Comércio...”

 

Organismos “que abrem mercados e, ao mesmo tempo, oferecem proteção ao capital investido; no entanto, os EUA resistem energicamente a qualquer infração de sua própria soberania em outras esferas...”

 

“...Dispõem-se a interferir nos assuntos internos de outros países, mas não estão prontos a submeter-se às regras que procuram impor aos demais".


Soros prossegue: "Pode parecer chocante, mas creio que a atual postura unilateralista dos EUA constitui uma séria ameaça à paz e à prosperidade mundiais".

 

Para Soros, os EUA poderiam se converter em "poderosa força para o bem". Bastaria que adotassem uma mentalidade "multilateral". Ele prossegue:


"O sistema capitalista global gerou um campo de jogo muito desigual. A distância entre ricos e pobres está aumentando. Isso é um perigo, pois um sistema que não oferece alguma esperança e benefícios aos perdedores corre o risco de ver-se dilacerado por atos de desespero".

À reflexão econômica precisa somar-se um questionamento da mania dos EUA de estender os limites de sua segurança a localidades tão distintas quanto Coréia, Vietnã e Iraque.

 

Se conseguir juntar as duas pontas do problema, a sociedade americana pode não encontrar respostas instantâneas para o seu drama. Mas estará diante de um bom começo.

 

Um começo que o destino sonegou ao major John Paul Stapp. Selecionado pela Força Aérea dos EUA como cobaia de testes para medir a resistência humana a grandes acelerações, Stapp desafiou a velocidade pilotando um trenó com propulsão de foguete.


Em 1949, bateu o recorde de aceleração. Não pôde, porém, festejar o feito. Os acelerômetros do trenó-foguete não funcionaram. Stapp encomendou ao engenheiro que o ajudava, o capitão Edward Murphy Jr., diligências para identificar a falha.

 

Descobriu-se que um técnico ligara os circuitos do veículo ao contrário. No relatório em que informa sobre o malfeito, o capitão Murphy Jr. anotou: "Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então alguém fará o trabalho dessa forma".

 

Depois, em entrevista, o major Stapp batizou de "Lei de Murphy" o diagnóstico do auxiliar. Resumiu-o assim: "Se alguma coisa pode dar errado, dará".

 

Coube a Mãe Joana ligar os circuitos da gestão Bush ao contrário. Produziram-se desastres em velocidade de fazer inveja a Stapp.

 

A era Bush começou em fraude. Tendo perdido nas urnas por uma diferença de mais de 500 mil votos, foi à Casa Branca escorado numa decisão controversa da Suprema Corte.

 

Ao logro seguiu-se a ruína. Noves fora as indagações ainda pendentes de resposta, bóia na atmosfera caótica uma sólida certeza: George Bush vai à galeria de ex-presidentes como um dos retratos mais funestos que a Casa Branca já produziu.

 

Graças a Mother Joan, a Lei de Murphy foi levada às fronteiras do paroxismo. Se alguma coisa podia dar errado nos EUA, sob Bush, nada deu certo.

Escrito por Josias de Souza às 18h44

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A crise deve resultar numa fase de maior regulação

A crise deve resultar numa fase de maior regulação

Alan E. Cober
 

 

O futuro é como tela virgem diante do pintor. Sabe-se que, do branco brotará uma pintura. Entre um traço e outro, pode-se arriscar um palpite: vai ficar feia. Ou bonita.

 

Mas nem ao artista é dado adivinhar os contornos finais da própria obra. Não antes dos últimos movimentos do pincel.

Assim também com a economia. Autoridades norte-americanas estão debruçadas, neste final de semana, sobre o rascunho da tela que será exposta nos próximos dias.

 

Por ora, há sobre o cavalete apenas um borrão. Analistas rufam nas páginas dos jornais previsões para gostos variados. Impossível, porém, desconsiderar a fluidez da cena.

 

De concreto, tem-se o seguinte: 1) Ainda não foi descoberta uma vacina para a maldição dos ciclos econômicos; 2) Vem aí uma fase marcada pelo aperto na regulação.

 

A atmosfera carregada da semana passada pairou sobre o sonho do capitalismo moderno como nuvem carregada em cima de casa destelhada.


Nuvens, como se sabe, são como os próprios ciclos econômicos. Vão e vêm. A estiagem que embalava a prosperidade dos EUA experimentou, há um ano, uma virada.

 

Deu-se uma tempestade de trovões anunciados. No início de 2000, Alan Greenspan já começara a prever, com antecedência de oito anos, que desceriam os raios.

 

Greenspan acumulava na época duas funções. Uma formal: presidente do Federal Reserve. Outra informal: oráculo da economia globalizada.

 

Do alto da autoridade dupla, Greenspan vaticinara: "É essencial que o atual período de relativa estabilidade internacional seja aproveitado da melhor forma possível para reduzir os riscos potenciais mais evidentes para uma crise".

 

"Não podemos prever com precisão a natureza da próxima crise financeira internacional. Mas que haverá uma é tão certo quanto a persistente imprudência financeira humana".

A crise chegou. E veio embalada pela “imprudência financeira” de um sistema cujos vícios Alan Greenspan viu avolumarem-se.

 

Respira-se agora, dependendo do ponto de vista, uma atmosfera de fim de ciclo ou de início de nova era. Na curva entre os dois conceitos, uma constatação unânime:

 

Junto com as instituições financeiras que micaram nos EUA foi à breca o postulado segundo o qual o sistema capitalista moderno, por auto-regulável, empurraria o mundo pós-Guerra Fria à prosperidade eterna.

 

Ruiu também o lero-lero de que ao Estado caberia apenas agir para atenuar os efeitos nocivos do sistema: pobreza, fome, desemprego... Exclusão social, enfim. Os pecados do mercado, o próprio mercado, livre de amarras, cuidaria de purgar.

 

Os fatos desmentiram, uma vez mais, as boas intenções. Noves fora o custo exportado para o resto do planeta, as perversões escondidas atrás da nova crise vão morrer no bolso do contribuinte norte-americano.

 

A analogia com o passado é inevitável. O colapso de 1929 interrompera um boom econômico que começara 33 anos antes, em 1896.

 

A mega-crise de 1974 repetira, 45 anos depois, a tremedeira de 1929. Agora, separado de 1974 por 34 anos, 2008 desce aos livros com cara de terremoto.

 

O diabo é que agora já não há nem mesmo o contraponto da visão marxista de uma sociedade voltada para o bem-estar, em detrimento do lucro. Faliram também as utopias.

 

Em meio à falência também das utopias, o capitalismo tampouco foi capaz de prover uma resposta a Marx. Espera-se, então, que o Estado providencie ao menos um feixe de mecanismos mais rigorosos de controle.

Algo que permita enxergar a tempestade antes que ela troveje sobre as arcas públicas. Ou, por outra, um sistema que pelo menos estique o intervalo entre um e outro ciclo de maturação da “imprudência financeira humana".

PS.: Ilustração via sítio Artist Gallery.

Escrito por Josias de Souza às 19h12

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Lula vira mito e PSDB entoa Noel: ‘Com que roupa?’

Lula vira mito e PSDB entoa Noel: ‘Com que roupa?’

Roberto Setton
 

 

Mais do que medir a popularidade de Lula, a última pesquisa do Datafolha, divulgada na sexta-feira, mensurou o tamanho do desafio da oposição para 2010.

 

Ao atribuir ao governo Lula 64% de aprovação, o instituto informou ao país e aos adversários do presidente que o eleitorado já não vê Lula como um político.

 

Tampouco o enxerga como uma pessoa. Avista-o como um mito. O mito do retirante nordestino que chegou lá.

 

O mito do ex-metalúrgico que, sem estudo, conseguiu cavar na enciclopédia um verbete mais vistoso que o do antecessor intelectual.

 

O fenômeno acomoda o sonho dos rivais de Lula sob um par de singelas e incômodas  interrogações:

 

O que fazer para se contrapor a um mito? Ou, por outra: Que manobras engendrar para derrotar um mito?

 

Antes de virar presidente, Lula amargara três derrotas. Encarnava, então, o exemplo vivo de que a política brasileira não parecia disposta a homenagear a lógica.

 

Num país em que os excluídos compõem grossa maioria, só a ilógica explicava as derrotas de um proto-excluído para super-incluídos como Collor e FHC.

 

A exclusão social não parecia disposta a votar em si mesma. Eleição, para o Lula dessa época, era sinônimo de sinuca.

 

O ex-retirante jogava contra os donos da mesa. Quando estava em jogo a bola sete –ou a bola 13 do PT—, todos se juntavam do outro lado, derrotando-o.

 

Para subverter a ilógica, Lula teve de render-se à lógica dos adversários. Na célebre “Carta aos Brasileiros”, prometeu que, eleito, não promoveria viradas de mesa.

 

Acomodado no Planalto, entregou o prometido. Beneficiado por um cenário externo benfazejo, manteve em ordem a economia. E injetou dinheiro no bolso dos pobres.

 

Agora, convertido em mito, vai a 2010 como dono da mesa e dos tacos. Exorcizada a macumba do terceiro mandato, chegará à disputa em condições de levar à caçapa a bola –ou o poste—que lhe parecer mais conveniente.

 

Esboça-se uma eleição presidencial guiada pelo signo da continuidade. Lula e Dilma –o poste por ora mais bem-posto— chegam com o discurso pronto: fazer mais e melhor.

 

Provável adversário do lulismo, o tucanato, ainda em dúvida quanto à roupa que vai usar na festa, continua levando à vitrola o mestre Noel Rosa:

 

Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
Pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru.....ta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

Escrito por Josias de Souza às 19h40

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Nome da crise não é Abin, mas Palácio do Planalto

Nome da crise não é Abin, mas Palácio do Planalto

Em outubro de 2003, realizou-se no quarto andar do Planalto uma entrevista curiosa.

 

A estrela era o general Jorge Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

 

Como coadjuvantes, alguns dirigentes da Abin.

 

Entre eles o então secretário de Planejamento e Coordenação da Agência, Athos Irigaray.

 

O governo decidira tonificar os poderes da Abin.

 

Convocara os repórteres porque queria desintoxicar a imagem pública da sucessora do SNI.

 

A Abin, disse o general Félix, desempenhava nobres atividades de Estado. Merecia apoio e prestígio.

 

Lero vai, lero vem foi ficando claro aos presentes que, sob Lula, desejava-se erigir uma superabin, com poderes até para requisitar à Justiça grampos telefônicos.

 

Athos Irigaray apertou nervo: "Nosso trabalho é muito legalista. Isso dificulta a atividade da Agência...”

 

Isso “...nos cria problemas em relação à velocidade de obtenção de informações..."

 

"...A agência tem sido ineficiente por agir dentro dos parâmetros legais".


Cinco anos depois de informar ao país que a lei atrapalhava a Abin, o governo do PT sente as dores que a suspeita de uma ação fora dos “parâmetros legais” pode causar.

 

A oposição (PSDB, DEM e PPS) compareceu à crise com nota acerba.

 

Chamou o grampogate de “atentado”. E Lula de “frouxo”. Decerto contam com a amnésia da platéia.

 

Ninguém gosta de lembrar, mas, sob FHC, a Abin grampeou mais e melhor.

 

O “atentado” de hoje produziu, por ora, a transcrição de uma conversa insossa do presidente do STF com um senador.

 

O “atentado” de ontem, pendurado nas manchetes de 99 como “Grampo do BNDES”, tinha áudio farto (46 fitas), diálogos apimentados e personagens mais graúdos.

 

Numa das fitas, ouve-se o próprio FHC. Pérsio Arida pergunta ao presidente se o nome dele podia ser usado na montagem de um dos consórcios que disputavam a Telebrás.

 

E FHC, peremptório: "Não tenha dúvida, não tenha dúvida." Pronto. Lá estava o presidente metido nos negócios da privatização.

 

Negócios trançados sob atmosfera de risco ("no limite da irresponsabilidade"), com linguagem vulgar ("se der m..., estamos juntos") e métodos truculentos ("temos de fazer os italianos na marra").

 

FHC teve uma reação de sub-frouxo. Deve-se à pertinácia de um grupo de jovens procuradores da República a descoberta de que o grampo do BNDES fora obra da Abin.

 

Em 2000, o Ministério Público denunciou à Justiça três agentes e dois ocupantes de cargos de chefia da Agencia.

 

A despeito disso, o general Alberto Cardoso, espécie de Jorge Félix de FHC, continuou sustentando uma versão da carochinha:

 

As fitas do BNDES, diz o general, chegaram à Abin graças a um telefonema anônimo. Foram recolhidas, veja você, debaixo de um viaduto de Brasília.

 

Tudo considerado, tem-se o seguinte flagelo: a Abin grampeava anteontem, quando ainda atendia pelo nome de SNI; grampeou ontem...

 

...E, suspeita-se agora, continua grampeando hoje. O problema, portanto, não está na existência do monstro, mas na falta de um dono.

 

O nome da encrenca não é Abin, mas Palácio do Planalto.

Escrito por Josias de Souza às 19h12

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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