Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

No palanque municipal, Batman e Coringa são iguais

No palanque municipal, Batman e Coringa são iguais

Andy Warhol
 

 

Quem é inimigo de quem na política? Quem apóia quem nas eleições de 2008? As perguntas vêm a propósito dos palanques municipais, uma das graças do momento.

 

Alguns deles conferem à expressão “coerência política” uma aparência de velha louca. Uma maluca que faz tricô com o novelo de suas próprias contradições.

 

O mapa brasileiro está apinhado de alianças esquisitas. Experimente-se, de saída, olhar para Natal.

 

Ali, há quatro anos, o tratamento mais cortês que o peemedebista Garibaldi Alves mereceu da petista Fátima Bezerra foi o de “ladrão”.

 

Pouco depois, no Senado, Garibaldi se tornaria relator de uma investigação cujo ânimo em relação a Lula e ao petismo rendeu apelido apocalíptico: “CPI do Fim do Mundo.”

 

Pois não é que agora Garibaldi está, junto com Lula, no palanque de Fátima Bezerra? Voltem-se os olhares agora para Salvador.

 

O PT local é representado pelo candidato Walter Pinheiro. Mas o governador petista Jaques Wagner flerta com Antonio Imbassahy (PSDB) e com João Henrique (PMDB).

 

Hoje tucano, Imbassahy alçou vôo na política agarrado às asas de um ACM cujas práticas o petista Jaques Wagner se propõe a varrer da Bahia.

 

Henrique é apoiado por Geddel Vieira Lima. Um amigo de FHC que, antes de tornar-se ministro de Lula, dissera o seguinte sobre a hipótese de o PMDB aceitar cargos:

 

“A meu ver, não é imoral. É aético, politicamente, que isso seja feito com partidos e parlamentares que não foram às ruas defender as bandeiras de Lula.”

 

Em São Paulo, José Serra (PSDB) prefere o ‘demo’ Gilberto Kassab ao tucano Geraldo Alckmin. Em Minas, Aécio Neves (PSDB) tricota com o petista Fernando Pimentel.

 

O mesmo PT que se insurge contra a amizade colorida de Pimentel com Aécio engole a proximidade do governador Marcelo Déda (PT) com o tucanato sergipano.

 

O espaço de um único artigo é pequeno demais para realçar todos os pontos do tricô da “coerência política”, essa velha louca. Assim, melhor encaminhar o texto para um arremate.

 

Diz-se que o eleitor brasileiro só dá atenção a nomes, não a partidos políticos. Seria uma distorção que não contribui para o bom funcionamento da democracia brasileira.

 

É verdade. Mas os políticos não ajudam a aperfeiçoar os costumes, eis o que se deseja realçar. A diversidade dos palanques como que acomoda os Batmans e os Coringas da política num mesmo saco.

 

Aos olhos do eleitor, super-heróis e bandidos tornam-se iguais. Os partidos e seus filiados viram um amontoado mal definido.

 

Algo que a sabedoria popular convencionou chamar de “farinha do mesmo saco”. Uns seriam a cara esculpida e escarrada dos outros.

 

É óbvio que ninguém é igual a ninguém. Mas, se os partidos, se os próprios políticos buscam de maneira tão frenética a indiferenciação, como exigir mais do eleitor?

 

Se são todos iguais, como pode o eleitor escolher conscientemente entre um e outro? Como decidir em quem votar? Pior: para que votar?

Escrito por Josias de Souza às 19h44

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Ausência de conteúdo transforma eleição em loteria

Ausência de conteúdo transforma eleição em loteria

Comece-se com um aviso. Vai-se tratar aqui de um assunto chato, enfadonho, aborrecido: o conteúdo –ou a falta dele—na campanha municipal.

 

As engrenagens da campanha foram postas em movimento. Porém, por ora, só veio à tona a politicagem.

 

Primeiro, a formação das composições partidárias. Normalmente, alianças com fins lucrativos.

 

Período em que cada candidato assume ares de compositor. Compõe com qualquer um. Passada a fase do quem leva o quê...

 

Veio o debate sobre os apoios individuais. Até onde Serra levaria o seu plano de converter Alckmin no candidato mais bem cotado para fazer de Marta a prefeita?

 

Em que palanques subiria Lula ‘Eleições, tô fora’ da Silva? Foi o período do quem fica com quem.

 

Agora, vive-se o estágio do moto-contínuo das pesquisas. Estatísticas que antecipam o nome do herói que os pára-choques de caminhão chamarão de ladrão depois da posse.

 

Junto com os números, chega a propaganda eleitoral de TV. Xaropada em que um grupo de loucos apresenta suas credenciais para dirigir o hospício.

 

Rendida à baixa política, a campanha sonega ao eleitor o essencial: o conteúdo. Onde estão os problemas das cidades?

 

Onde encontrar as idéias dos candidatos que se dispõem a enfrentar as mazelas que atazanam o cotidiano dos municípios?

 

Antes de apontar o dedo para as culpas alheias, cabe uma autocrítica: a imprensa não dá ao conteúdo a atenção que ele merece.

 

Jornalista gosta de cobrar as “propostas” dos candidatos. Mas é da boca pra fora. No fundo, o noticiário privilegia a lama, o sangue, a baixaria.

 

São temas obrigatórios. Porém, quando apartados do conteúdo, deixam no ar a sensação de uma cobertura jornalística incompleta.

 

Feita a penitência, mencione-se agora a outra face do problema: a inanição mental da maioria dos candidatos.

 

Pretensiosos, gostam de dizer coisas definitivas sem definir as coisas. São mercadores de verdades que, por mentirosas, se esquecerão de acontecer.

 

Servem-se do marketing para devolver ao eleitor apenas aquilo que foi recolhido nas pesquisas quantitativas e, especialmente, nas qualitativas.

 

Convertem a vontade difusa da massa em música. Conferem à a aparência de um inofensivo instrumento de cordas.

 

Abandonado pela imprensa e enganado pelos candidatos, resta ao eleitor tentar distinguir por si mesmo o lamentável do impensável.

 

A eleição vira uma espécie de loteria. Sem prêmio no final. O voto transforma-se em mero equívoco. Um erro renovado de quatro em quatro anos.

Escrito por Josias de Souza às 18h44

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Lula impede filho de deixar firma beneficiada por tele

Lula impede filho de deixar firma beneficiada por tele

Mick Tsikas/Reuters
 

 

As negociações que conduziram à bilionária aquisição da Brasil Telecom pela Oi envolveram uma discussão doméstico-empresarial.

 

Fábio Luís, o Lulinha, cogitou abrir mão da participação que tem na Gamecorp. Seu desejo foi expresso numa carta.

 

Texto de elaboração esmerada. Escrito para ser divulgado. Visava livrar o presidente da República de um constrangimento que o persegue desde 2005.

 

Naquele ano, a Telemar (hoje rebatizada de Oi) borrifara R$ 5,2 milhões nas arcas da Gamecorp, uma produtora de TV e de joguinhos para telefone celular.

 

Desde então, a tele-generosidade freqüenta o noticiário como uma mal disfarçada operação de lobby.

 

Carlos Jereissati e Sérgio Andrade, os controladores da Oi, achegaram-se a Lulinha com o propósito de afagar o Lulão.

 

Com o tempo, o afago monetário à Gamecorp foi adensado. Estima-se que a tele de Jereissati e Andrade injetou na firminha de Lulinha algo como R$ 10 milhões.

 

É dinheiro de troco quando confrontado com os R$ 12,3 bilhões que passeiam pela fusão da Brasil Telecom com a Oi, a já afamada BrOi.

 

Mas a presença de Lulinha no noticiário funciona como uma espécie de BrOi numa linha que se pretendia livre de constrangimentos. Daí o gesto do primeiro-filho.

 

Levada ao Planalto, a carta que Lulinha se dispusera a assinar foi vista com bons olhos por pelo menos dois auxiliares do presidente. Submetido a Lula, a iniciativa desandou.

 

O presidente desautorizou o movimento. Disse que o texto iria ao noticiário como admissão de uma culpa que seu filho não tem. O documento foi à gaveta.

 

Na semana passada, aproveitando-se do palco que os deputados da CPI dos Grampos montaram para ele, Daniel Dantas tratou de devolver Lulinha às manchetes.

 

Em declarações estudadas, o investigado-geral da República disse ter ouvido do delegado Protógenes Queiroz que a BrOi era um de seus alvos. Mais: pretendia chegar a Lulinha.

 

Lendo-se o relatório que Protógenes legou aos delegados que o sucederam na Operação Satiagraha, percebe-se que, de fato, ele levara a BrOi à alça de mira.

 

Em estilo vago, Protógenes anotou: “Convém mencionarmos que a fusão entre a Brasil Telecom e a Oi, efetuada recentemente, foi objeto de diversas tratativas entre os integrantes da organização criminosa.”

 

Organização cuja chefia é atribuída a Daniel Dantas. Personagem que, no tablado da CPI, tratou de confirmar também que contratara os bons préstimos advocatícios do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).

 

No relatório de Protógenes, Greenhalgh é retratado na incômoda posição de elo entre os interesses escusos do investigado-geral e um governo na bica de retirar as pedras do caminho da BrOi.

 

Noves fora os honorários de R$ 650 mil, emerge do texto de Protógenes um Greenhalgh enrolado em negociações financeiras de vultosas.

 

Ou seja: as luzes da CPI deram a Daniel Dantas uma oportunidade única. Empurrou a telebagunça do seu colo para dentro dos palácios do Planalto e da Alvorada.

 

Resta agora saber o que farão os delegados pós-Protógenes para afastar do inquérito as vagas suspeitas que o colega salpicou no relatório inaugural da Satiagraha.

 

Num cenário assim, tão envenenado, soa estranho que Lula continue imprimindo um ritmo de toque de caixa à “operação BrOi”.

 

Sobretudo quando se considera que o bololô será recoberto com o chantili de um decreto assinado pelo próprio Lula.

 

A despeito de tudo, o presidente continua decidido a mudar a lei que dará cobertura jurídica a um negócio que evoca o passado.

 

Passado recente, em que as telefônicas foram privatizadas, sob FHC, num ambiente que roçou “o limite da irresponsabilidade”.

 

Uma época em que os barões da Oi eram apelidados de “telegang”. Um tempo em que todos –inclusive Daniel Dantas—serviam-se à farta dos fundos de pensão das estatais da Viúva.

 

Uma temeridade!

Escrito por Josias de Souza às 18h25

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Vem de Recife o principal alerta ao eleitor de 2008

Vem de Recife o principal alerta ao eleitor de 2008

Todo brasileiro com direito a voto deveria voltar os olhos para Recife.

 

Vem de lá o mais importante sinal de alerta da cruzada eleitoral de 2008.

 

Há coisa de uma semana, a imprensa pernambucana dedica-se a esmiuçar um caso desalentador. Envolve a câmara local de vereadores.

 

A coisa estourou no instante em que veio à tona o resultado de uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco.

 

Servidores do tribunal esquadrinharam despesas dos legisladores municipais. Gastos custeados com a famigerada verba de gabinete: R$ 14,3 mil mensais.

 

Processo minucioso. Cobre os anos de 2006 e 2007. Os achados rechearam mais de 3.000 páginas, espremidas em 15 volumes.

 

Há na Câmara Municipal de Recife 36 vereadores. Não escapou nenhum. Repetindo: encrencaram-se todos, sem uma mísera exceção.

 

Pior: incluindo suplentes e vereadores licenciados, o número de suspeitos escala a casa dos 42. A tunga aos cofres do município é estimada em R$ 1 milhão.

 

Há entre os envolvidos 26 cuja situação é mais vexatória que a dos demais. Levaram à contabilidade da câmara notas e recibos de fancaria.

 

Há notas fiscais frias, documentos de empresas diferentes com caligrafia idêntica, recibos de firmas fantasmas, assentadas em endereços inexistentes, o diabo.

 

Chamados a dar explicações, alguns vereadores apressaram-se em devolver a grana. Outros, em cujas contas não foram farejados papéis inidôneos, não chegaram a tanto.

 

Do tribunal de contas, o caso escorregou para os escaninhos do Ministério Público, que decidiu, também ele, perscrutar os malfeitos.

 

Entre reembolsos apressados e explicações mal arrumadas, a cena eleitoral de Recife ferve. Natural. Uma parte dos vereadores pede votos nas ruas, em busca da reeleição.

 

Consagrado no Congresso Nacional, o modelo das “verbas de gabinete” é mimetizado Brasil agora pelas câmaras municipais.

 

Ganha uma viagem a Recife, custeada com as verbas de um gabinete qualquer, quem adivinhar onde vai parar o maior bocado desse dinheiro.

 

Recheia os bolsos de espertalhões. Em Brasília, em Recife e alhures. Entre todos os desvios que infelicitam a política brasileira, este é, talvez, o menor.

 

É um vício que, por miúdo e comezinho, tornou-se tão insípido quanto a virtude. Daí a sua relevância. Quem se suja com tão pouco, o que não fará no muito?

 

Repise-se a frase lá do alto: Todo brasileiro com direito a voto deveria voltar os olhos para Recife. Vem de lá o mais importante sinal de alerta da cruzada eleitoral de 2008.

 

Numa disputa em que o STF deu carta branca a candidatos sujos, não resta ao eleitor senão a alternativa de fazer justiça com os próprios dedos. Na urna eletrônica.

 

Entre todas as casas de representação do povo brasileiro, as câmaras de vereadores são as mais antigas. Surgiram com as primeiras vilas.

 

De casas de distinção, converteram-se em algo que os cariocas apelidaram de “gaiolas de ouro.” De quem é a culpa? De muita gente. Mas o primeiro responsável é o eleitor.

 

Portanto, senhoras e senhores, olhem para a capital de Pernambuco. Depois, reparem no que se passa à sua volta. Por último, dê uma boa espiada no espelho. 

Escrito por Josias de Souza às 18h11

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Olavo Bilac já farejava a encrenca do Rio em 1907

Olavo Bilac já farejava a encrenca do Rio em 1907

Millôr
 

 

“Perco-me muitas vezes, por dever profissional, visitando escolas, no alto destes morros que intumescem de espaço a espaço a topografia do Rio de Janeiro.”

 

Assim começa o texto “Fora da Vida”. Escreveu-o Olavo Bilac. Foi publicado em 25 de setembro de 1907, nas páginas de um prestigioso jornal da época: o Correio Paulistano.

 

“Conceição, Pinto, Livramento, confusos dédalos [labirintos] de ladeiras íngremes em que se acastelam e equilibram a custo casinhas tristes, de fachadas roídas e janelas tortas.”

 

“É uma cidade à parte”, anotou Bilac. Apenas uma entre as várias cidades que formavam “a federação das urbes cariocas.” De todas as “subcidades” do Rio “a mais original.”

 

“...É onde vive a nossa gente mais pobre, denso formigueiro humano.” Lugar, já àquela época, desassistido.

 

“Algumas ladeiras desses morros não conheceram nunca, por contato, ou sequer de vista, uma vassoura municipal...”

 

“...Em muitas delas apodrecem lentamente ao Sol, durante semanas e semanas, sob nuvens de moscas, cadáveres de galinhas e de gatos...”

 

“...E as faces humanas que por lá se encontram têm quase todas esse ar de asiática indiferença que vem do largo hábito da miséria e do desânimo...”

 

“...Indiferença por tudo, pelo prazer e pelo sofrimento, pela vida e pela morte.”

 

Deve-se ao professor Antonio Dimas a “ressurreição” dos artigos deste brasileiro que se fez notável pelo verso. Dimas os reuniu em “Bilac, o Jornalista”, obra de quatro tomos.

 

Decorridos 101 anos, os morros de que falava Bilac em 1907 ainda constituem uma “cidade à parte.” Do alto, observam os outros Rios, mais bem-nascidos.

 

Suas ladeiras continuam padecendo da quase ausência da “vassoura municipal”. Nelas tampouco se vê muitas piaçabas estaduais e federais.

 

Sob a inação dos poderes oficiais, vicejou o pó, além de outras drogas. Com elas, surgiu o poder paralelo da bandidagem.

 

Os cadáveres continuam apodrecendo nas ladeiras cariocas, sob as mesmas nuvens de moscas. Com uma diferença: as carcaças que apodrecem não são mais de galinhas e gatos. São corpos de gente.

 

Súbito, na cruzada eleitoral deste 2008, escala as manchetes dos jornais um fenômeno que, embora conhecido, adormecia sob o silêncio da omissão.

 

Estima-se em 500 mil o número de eleitores cariocas submetidos ao assédio de traficantes e milicianos dos morros. Eles ditam os nomes de seus candidatos. E restringem os movimentos dos demais.

 

Na semana que termina, fez-se muito barulho em torno do tema. Reunião do TRE com a cúpula da segurança estadual. Encontro do TSE com autoridades da União.

 

Ao final, a algaravia pariu o silêncio. Tarso Genro pôs à disposição as polícias federal e rodoviária. A Justiça Eleitoral entendeu que ainda não há razão para tamanha mobilização.

 

Volte-se a Bilac: “Há nesses morros muita gente que nada sabe do que se passa cá embaixo, e cujo espírito só tem como horizonte vital o espaço limitado por duas ou três ladeiras tortuosas e sujas.”

 

É nos desvãos dessas ladeiras que, com receio de acabar sob a nuvem de moscas, muitos eleitores apertarão nas urnas eletrônicas de outubro as teclas ditadas pelos senhores do crime.

 

Graças à omissão secular do Estado, a delinqüência vai estendendo seus tentáculos às casas legislativas. Prepostos do ilegal são eleitos por cidadãos “fora da vida”, como os definiu Bilac no título de seu artigo.

 

Gente esquecida por autoridades que, a despeito de todas as evidências, insistem em se manter fora da realidade.

 

PS.: Ilustração via sítio do Millôr.

Escrito por Josias de Souza às 18h48

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Ganhou o debate o telespectador que não o assistiu

Ganhou o debate o telespectador que não o assistiu

Fernando Donasci/Folha
 

 

A Bandeirantes realizou os primeiros “debates” entre os candidatos a prefeito de seis capitais.

 

O repórter acompanhou o de São Paulo. Presentes oito (!) postulantes.

 

Começou às 22h de quinta. Avançou pela madrugada de sexta –40 minutos além da meia-noite.

 

O embate teve um grande, solitário e inquestionável vencedor.

 

Ganhou o telespectador que não perdeu um segundo do seu tempo assistindo à pantomima.

 

Sem desmerecer a meritória iniciativa dos organizadores, é preciso reconhecer:

 

No Brasil, o excesso de regras transformou esse tipo de evento numa xaropada inútil. Embromação.

 

Há um pouco de tudo. Publicidade, autopromoção, dissimulação... Só não há debate.

 

Deve-se aos marqueteiros de campanha e à Justiça eleitoral a conversão dos debates em perda de tempo.

 

Os publicitários erigiram um escudo de regras que elimina da cena o risco do inesperado, do incidente.

 

Vem daí, por exemplo, a ridícula seqüência de “perguntas” de candidato para candidato.

 

O que deveria ser a praxe –a exposição ao questionamento dos jornalistas—tornou-se exceção.

 

Ficou restrita a um mísero bloco. Ainda assim, sem direito à réplica, transferida a um candidato rival.

 

À esperteza marqueteira somou-se, uma eleição após a outra, a regulação intrusiva da Justiça.

 

Obriga-se a emissora a acomodar na bancada até os “debatedores” que não têm densidade eleitoral.

 

Noves fora o bálsamo visual propiciado pela presença de uma lúcida Soninha, ficou boiando no ar uma pergunta:

 

Por que diabos deve-se impor à audiência o lero-lero de candidatos com 1% das intenções de voto?

 

Os tribunais argumentam que agem para preservar a igualdade na disputa. Balela.

 

Para isso existe o horário eleitoral gratuito. Financiado, a propósito, pelo contribuinte.

 

A superproteção aos candidatos privou o eleitor do debate genuíno. Tudo se reduz à desconversa.

 

Em matéria de debates eleitorais, o Brasil tem muito a aprender experiências estrangeiras.

 

Nos países em que a coisa é pra valer, a regra é não haver muitas regras.

 

Sob mediação confiável, os candidatos são crivados de perguntas de jornalistas, de platéias especializadas ou de “simples” eleitores.

 

Na renga de São Paulo, vislumbrou-se apenas o óbvio: na dianteira, Marta e Alckmin preservaram-se. Em terceiro, Kassab tratou de alfinetar os dois.  

 

De resto, o encontro serviu como mera avant-première do lero-lero que será despejado sobre a cabeça do eleitorado na propaganda regular de rádio e TV.

Escrito por Josias de Souza às 01h39

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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