Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Está preocupado com a inflação? Não? Pois deveria!

Está preocupado com a inflação? Não? Pois deveria!

Imagens Banco do Brasil
Medida pelo IPCA, índice do IBGE, que o governo adota como oficial, a inflação dos últimos 12 meses (até maio) bateu em 5,58%.

 

Parece pouco quando comparado aos 31,79% registrados em agosto de 1993. Mês em que FHC, ministro da Fazenda de Itamar, dava formato final ao Plano Real.

 

É quase nada quando confrontado com os 84% de dezembro de 1990. Mês em que Maílson da Nóbrega se descabelava no ministério da Fazenda de Sarney.

 

Descabelava-se a ponto de sugerir ao chefe, em reunião ministerial tensa, que antecipasse a posse do sucessor Fernando Collor.

 

Os brasileiros mais jovens, na casa dos 20 anos, têm dificuldade para entender por que os 5,58% de Lula foram pendurados nas manchetes como um sinal vermelho.

 

Só quem viveu sob o país da superinflação alcança os riscos escondidos atrás da carestia que voltou a tonificar os índices que medem a inflação.

 

Houve um tempo em que o Brasil era um país monotemático. O desafio econômico sufocava os demais. As demandas sociais vinham no fim da fila de prioridades.

 

Sob Sarney, os preços eram remarcados nas gôndolas à velocidade de três vezes ao dia. O sujeito recebia o salário e corria ao supermercado.

 

Era o tempo dos pacotes econômicos. Dormia-se com uma moeda e acordava-se com outra. Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, novamente Cruzeiro, Real...

 

A certa altura, chegou-se a tamanho grau de degenerescência monetária, que o governo foi compelido a trocar o visual das cédulas.

 

Impunha-se a brasileiros ilustres um massacre metafórico. A pretexto de venerar-lhes a memória, o Banco Central estampava no dinheiro efígies de filhos ilustres da pátria.

 

Arrancado do túmulo, o homenageado era lançado no mercado com um determinado valor e, no minuto seguinte, enredava-se numa ciranda que o consumia até a morte.

 

Depois de humilhado, o homenageado era substituído por uma cara nova. A última vítima foi o educador Anísio Teixeira. Ilustrou a nota de mil na fase em que o dinheiro chamava-se Cruzeiro Real.

 

Mercê dos constrangimentos, optou-se por interromper os ''assassinatos em série.'' Passou-se a imprimir notas ilustradas com o índio, o beija-flor, a garça, a arara, a onça...

 

O Real interrompeu a fase de desmoralização. Um feito obtido sob Itamar, ameaçado pela aventura cambial de FHC e devolvido aos trilhos na gestão de um Lula que teve a sabedoria de mandar ao lixo a cartilha econômica do ex-PT.

 

O Brasil passou a cuidar de seus outros flagelos. Não faria sentido retroceder agora. Daí o alarido dos 5,58%. O índice é tímido. E convém zelar para que continue assim.

 

Dá-se de barato no governo que, até dezembro, a inflação deve ultrapassar a marca dos 6%, distanciando-se da meta de 4,5%.

 

Providências adotadas agora demoram a surtir efeito. Há, de resto, a preocupação com a dosagem no manuseio do freio da locomotiva.

 

Sabe-se que a elevação dos juros não é –ou não deveria ser—o único remédio. Há mais a fazer. Muito mais.

 

O ministro Guido Mantega (Fazenda) deveria adotar como única ferramenta de trabalho uma tesoura. Ele sabe disso. Diz que os gastos públicos estão sendo contidos.

 

Porém, a julgar pelos indicadores do IBGE, o ministro leva no bolso, se muito, um canivete. A novíssima geração não merece. Os brasileiros mais antigos muito menos.

Escrito por Josias de Souza às 20h20

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Obama aproxima-se da Casa Branca vendendo sonho

Obama aproxima-se da Casa Branca vendendo sonho

  Chris Carlson/AP
Ainda que não seja eleito sucessor de George Bush, Barack Hussein Obama já escreveu uma bela página na história política dos EUA.

É um erro medir o tamanho do feito que o candidato empurrou para dentro de sua biografia apenas pela cor de sua pele.

 

Relembre-se, por oportuno, uma passagem que, contada lá fora, foi reproduzida aqui pelo sempre atento repórter Elio Gaspari. Deu-se em 2004.

 

Bush recebia na Casa Branca um grupo de parlamentares. Na despedida, grudou os olhos num broche que a deputada Jan Schakowsky trazia na lapela do tailler.

 

O adorno continha um nome. Começava com “O”. Terminava com “ama”. Bush levou os dois pés atrás.

 

“É Obama, com B”, a deputada apressou-se em explicar. E Bush, com a alma serenada: “Bem, eu não o conheço.” “Vai conhecê-lo”, vaticinou a visitante.

 

Bem, Bush agora já sabe quem é Obama. Começaria a conhecê-lo naquele mesmo 2004, quando o político que confundira com o terrorista elegeu-se senador por Illinois.

 

Era, de fato, o início de uma escalada bombástica. Que explodiu como a mais vistosa novidade produzida pela política norte-americana nos últimos tempos. Há aqui um perfil do fenômeno.

 

Some-se, agora sim, a ascensão instantânea à cor da cútis de Obama. Tem-se, então, a exata dimensão do novo.

 

Para os padrões brasileiros, o candidato democrata é um mulato –filho de um negro queniano com uma branca norte-americana.

 

Aos olhos do mundo, porém, trata-se do negro que mais perto chegou da cadeira de mandachuva do Império. Já não é pouca coisa.

 

Mas, a julgar pelas pesquisas, a aventura de 2004 pode ir mais longe. Obama vai às urnas na condição de favorito a tornar-se o primeiro presidente negro dos EUA.

 

Prevalecendo o impensável, será no mínimo divertido observar as mãos brancas que se julgam superiores tendo que apertar, ao redor do mundo, a mão retinta de Obama.

 

Há um quê de poesia na trajetória do candidato. Obama cavalga a impopularidade de Bush vendendo sonhos. Entre eles o da união dos americanos de todas as raças e credos.

 

Orador fino, educado em duas das mais famosas fábricas de canudos dos EUA –Columbia e Harvard— Obama fala ao público no melhor estilo dos pastores evangélicos.

 

Ao discursar, dirige-se, primeiro, ao coração de suas platéias. Só depois tenta capturar-lhes as mentes. Diz-se, com certa razão, que sua fala carece de densidade.

 

Numa fase em que Hillary ainda alimentava a expectativa de prevalecer sobre Obama, Bill Clinton alfinetou o rival de sua mulher: “Você pode fazer campanha em poesia, mas governa em prosa.”

 

Pode ser. Mas é preciso reconhecer que falta à política, nos EUA e alhures, justamente uma dose daquele tipo de inspiração que conduz ao verso.

 

Assim, se o novato Obama conseguir furar o próximo obstáculo –a pedreira republicana chamada John McCain—, deve-se torcer para que ele produza uma administração iluminada.

 

Por duas razões: 1) fará bem não só aos EUA, mas ao mundo; 2) não se deve perder de vista que os famosos botões nucleares estarão a centímetros da mão escura de Obama.

Escrito por Josias de Souza às 19h17

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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