Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

Cadeias brasileiras reclamam prisioneiros 'chiques'

Cadeias brasileiras reclamam prisioneiros 'chiques'

Obtida sob FHC, a estabilidade da moeda se impôs a Lula. Do mesmo modo, os avanços sociais de Lula vão ao colo do sucessor como algo que veio para ficar.

 

Nos últimos anos, pelo menos 20 milhões de brasileiros pobres subiram o elevador. Migraram das classes “D” e “E” para o andar “C” da pirâmide social.

 

Captado pelo confiável Datafolha, o movimento converteu-se em algo que os cientistas sociais costumam apelidar de “dado da realidade”.

 

Arrisca-se a perder votos o candidato que for à campanha presidencial de 2010 esgrimindo ataques a iniciativas como Bolsa Família.

 

Um oposicionista que queira prevalecer sobre o candidato oficial terá de levar ao palanque agenda com a cara daquilo que o tucano Aécio Neves chama de “pós-Lula”.

 

O balaio do pós-Lula pode incluir temas variados. Por exemplo: saídas para a encrenca do SUS ou a resolução do teorema que condena o aluno da escola público a uma educação medíocre.

 

De permeio, insinua-se, assanhado, o flagelo da segurança pública. E, no miolo dele, o problema do descalabro dos presídios.

 

No Brasil, não há lista de temas que interessam à população que não inclua a criminalidade. É questão obrigatória.

 

Em matéria de insegurança, exausto de tanto debate, o brasileiro imagina-se diante de dilema sem solução. Engano. Na verdade, o país ainda nem enxergou o problema.

 

Pior: talvez não queira enxergar. Cabe aos candidatos iluminar a questão. Pede-se mais polícia e mais presídios. Como se a cadeia fosse o fim do problema. Bobagem.

 

É no cárcere que o problema começa. Desnecessário qualificar as cadeias brasileiras. Qualquer zoológico oferece estadia mais decente.

 

Tratado assim, como sub-bicho, o preso vira fera. E, como não há no país nem pena de morte nem prisão perpétua, o animal bravio está condenado a ganhar as ruas.

Documento elaborado pelo TCU e repassado às principais autoridades da República em janeiro de 2003 informa: 70% dos 295 mil presos brasileiros são reincidentes.

 

Os auditores do tribunal desceram aos cárceres. Analisaram dados disponíveis até 2002. Hoje, a população carcerária passa de 420 mil detentos. E a realidade não se alterou. Ao contrário. Agravou-se.

 

A violência no Brasil não é fruto de improviso. Bem ao contrário. Nossas cadeias são deliberadamente estruturadas como escolas do crime.

 

Na semana passada, o “Jornal da Globo” levou ao ar reportagens que atestam o aprofundamento do abismo carcerário.

 

Reiteram-se fenômenos que o brasileiro conhece à saciedade: celas superlotadas, agentes penitenciários corruptos e o drama dos filhos da delinqüência hospedados em cárceres femininos, junto com as mães.

 

Uma vez mais, restou demonstrado que a clientela dos três “Ps” –pretos, pobres e putas—é tratada como sub-raça, sobra do mercado.

 

O país ainda os vê como seres que não são, entes que já eram, espermatozóides que, por inviáveis, não merecem a chance de dar certo.

 

Os detentos são a prova documental da existência de algo que não existe. Números sem cara. O ócio à revelia. A queda sem fim. O caos levado às últimas conseqüências.

 

A fase do pós-Lula parece exigir a aparição de um bom lote de presidiários chiques. Corruptos e corruptores de alto calibre.

 

Gente que, recolhida ao calabouço, tenha voz para exigir o aprimoramento das instalações e dos serviços da hotelaria carcerária.

 

Imagine-se, por exemplo, os efeitos benignos que resultariam da eventual deportação do sem-banco Salvatore Cacciola, hoje recolhido a uma cadeia de Mônaco, com vista pro mar.

 

Submetido às condições inóspitas de uma carceragem do Rio, Cacciola decerto organizaria um motim de refeitório. Exigiria, além de uma quentinha decente, um cardápio que incluísse vinho de boa cepa.

 

“Um Borgonha, um Bordô!”, gritaria o ex-dono do Marka. Pode-se prever que, se não vier um habeas corpus relâmpago, as cadeiras brasileiras não tardarão a experimentar um súbito e sensível aprimoramento de gestão.

Escrito por Josias de Souza às 21h13

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No Senado, honestidade vale mais morta do que viva

No Senado, honestidade vale mais morta do que viva

No ano da graça de 2001, a presidência do Senado foi disputada à maneira dos caiapós de Altamira: na base do facão.

 

Disputaram a cadeira o baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL, à época) e o paraense Jader Barbalho (PMDB).

 

Prevaleceu, como se sabe, Jader. Depois, descobriram-se “barbalhidades” que assentaram na história do Senado uma de suas páginas mais funestas.

 

Poderia ter sido diferente. Sob o ruído rascante dos facões, o senador José Jefferson Carpinteiro Péres (PDT) constituía uma alternativa mansa.

 

Ofereceu aos colegas o bom nome e a biografia impoluta como opções ao escárnio. Jefferson Péres era chamado, então, de “terceira via”.

 

O Senado preferiu a via de sempre, a tradicional, a “barbalha”. E arrastou para dentro do plenário as malfeitorias que levariam o Congresso à crise e Jader à renúncia.

 

Mais tarde, Jefferson Péres viu formar-se à sua frente uma barricada. Ergueu-a o ex-senador Ney Suassuna (PB), na ocasião líder do sempre majoritário PMDB de Jader.

 

Negaram à correção uma cadeira no Conselho de Ética do Senado. O vetado, em entrevista ao repórter Carlos Marchi, reagiu com o humor que lhe era próprio, corrosivo:

 

"Eu aceitei com humildade, porque o Suassuna, com seu espírito de modernidade, achou que estou superado, com meus 75 anos. Eu defendo umas teses que não são muito atuais – ética, moral, essas coisas. Para o Suassuna, isso é coisa superada."

 

Enrolado no escândalo das sanguessugas, Suassuna sucumbiu ao entrincheiramento do eleitor paraibano. Jader foi devolvido ao Congresso pelas urnas do Pará. Voltou rebaixado a deputado. Mas voltou.

 

Na manhã da última sexta-feira, um infarto apontou para Jefferson Péres (PDT-AM) a última, a inevitável, a inelutável via. O senador foi ao esquife com 76 anos. E converteu-se, aos olhos dos colegas, num santo instantâneo.

 

Seguiram-se à morte lamentações unânimes. “O Senado perde a sua referência moral”, lamuriaram muitos. “É uma perda irreparável”, choramingaram outros tantos.

 

No Brasil é assim. O cidadão nasce, cresce e vive sob a pele de homem. Mas fenece como santo. Entre nós, a morte é de uma eficácia promocional hedionda.

 

Os cemitérios brasileiros são hortas de virtudes. O morto com defeitos é uma utopia. A morte canoniza até os piores canalhas.

 

No caso de Jefferson Péres, todas as loas são justificáveis. Não era santo. Mas levou para a cova a ventura de ter cruzado o pântano da política incólume.

 

Em meio à impudência, escreveu uma biografia de decência. Compensava a miudeza do físico com o comportamento graúdo. 

 

Esquivava-se das nomeações políticas. Mantinha a mulher no gabinete, negando a ela o acesso ao salário da Viúva. Não punha a mão em verba de representação. Devolvia os presentes que aportavam sobre sua mesa.

 

Nas muitas crises do Legislativo –à de Jader sobreveio a de Renan Calheiros— Jefferson Péres nunca foi pilhado em gestos ou intenções suspeitas. Confrontado com tentativas de acobertamento, postava-se do lado dos que queriam arrancar a coberta.

 

Andava desiludido o senador. Falava em abandonar a vida pública. Havia uma dose de cálculo na fuga anunciada das urnas de 2010. Sabia que não eram negligenciáveis as chances de ser barrado pelo voto.

A morte, em sua nefasta sabedoria, poupou o eleitor amazonense de um desatino. E forçou os colegas do senador a pronunciarem um lote de hosanas que soam como expiação tardia de um pecado imperdoável.

 

Os senadores enxergam no cadáver de Jefferson Péres virtudes que não foram capazes de valorizar enquanto o virtuoso ainda equilibra-se dentro dos sapatos. 

 

No Senado, a honestidade vale mais morta do que viva, eis a revelação que José Jefferson, carpinteiro de um Péres raro, deixa como legado.

Escrito por Josias de Souza às 00h44

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Boa notícia: brasileiro já reconhece que é neguinho

Boa notícia: brasileiro já reconhece que é neguinho

Se você costuma freqüentar restaurantes chiques de grandes cidades brasileiras, já deve ter notado: não há sobre as toalhas das mesas cotovelos negros. A clientela negra é escassa, muito escassa, quase inexistente.  

 

Quando for de novo a uma casa de repasto elegante, experimente fixar os olhos no plantel de garçons. Ganha uma refeição grátis quem conseguir divisar um empregado de cútis escura. Não há.

 

Estendendo-se a pesquisa visual às batidas policiais, a coisa muda de figura. Nesse tipo de diligência, aí sim, os negros são encontradiços.

 

Na hora de exigir a exibição de documentos, os policiais, mesmo os de cor achocolatada, costumam dar preferência aos patrícios de tez escura. Por vezes, humilham-nos.

 

Não é à toa que vigora no Brasil, país da mestiçagem, uma certa bagunça étnica. Há pretos que se consideram mulatos. Há mulatos que se proclamam brancos. E há brancos que juram não carregar nas veias nenhuma gota de sangue africano.

 

Pois bem. A situação parece estar mudando. Quem informa é o Ipea. O instituto de pesquisa que pende do organograma da presidência da República divulgou, na semana passada, um estudo alvissareiro.

 

Revela o seguinte: ainda em 2008, a quantidade de brasileiros negros vai superar a de patrícios brancos. Mais: até o ano da graça de 2010, os negros serão maioria absoluta no Brasil.

 

O estudo do Ipea escora-se em dados extraídos da Pnad, a pesquisa nacional de domicílios. É feita pelo IBGE. O instituto subdivide os brasileiros em cinco matizes: “pretos”, “pardos”, “brancos”, “amarelos” e “indígenas”.

 

Eis a grande notícia: cresce o número de entrevistados do IBGE que enxergam o “preto” e o “pardo” ao olhar no espelho. "As pessoas, hoje, estão se reconhecendo mais como negros", festeja Mário Theodoro, diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea.

 

Em 1976, a Pnad contabilizara o pedaço retinto da sociedade brasileira em 40,1%. Os cidadãos que se declaravam brancos representavam, então, 57,2%. Decorridas três décadas, os negros (pretos + pardos) são 49,5%. Os brancos, 49,7%.

 

A ultrapassagem, calcula o Ipea, virá até o final do ano. A supremacia negra chega em dois anos e meio: "Se as tendências de fecundidade continuarem como nos últimos anos, a partir de 2010 o Brasil será um país de maioria absoluta de negros”, diz Mário Theodoro.

 

Chega-se, então, à má notícia embutida no trabalho do Ipea: a média salarial dos negros brasileiros representa 53% dos vencimentos dos brancos. Neste caso, não há ultrapassagem no horizonte.

 

Mantido o ritmo atual, o Ipea estima que a equiparação da renda de negros e brancos não chegará tão cedo. É coisa para 2040. Repetindo: os negros só terão contracheques equiparáveis aos dos brancos daqui a 32 anos.

 

Diz-se que, no Brasil, vigora a “democracia racial”. Bobagem. As estatísticas provam o contrário. A brancura que viceja nos restaurantes chiques e o negrume das batidas policiais também demonstram o inverso.

 

O racismo brasileiro, por cordial, é uma fratura que, embora exposta, as pessoas se negam a enxergar. Nega-se o que é inegável. Ao começar a se reconhecer como negra, a sociedade dá um primeiro passo para mudar a posição do quadro.

 

Difícil adotar políticas públicas de promoção dos negros sem saber quem é negro. Corre-se, porém, o risco de enveredar por trilhas simplificadoras.

 

Por exemplo: os líderes partidários decidiram levar a voto, nos próximos dias, projetos que criam cotas para negros e índios nas universidades federais. Erro.

 

É certo que o filho da família abastada, está a um passo do banco universitário. É certo também que, no Brasil, há mais brancos bem-nascidos do que negros.

 

Mas a idéia de colorir a política de cotas, além de desmerecer o mérito do estudante, impõe uma espécie de racismo às avessas. Parece mais razoável combater o privilégio no acesso às universidades fixando cotas por renda.

 

Ou, melhor ainda, o ideal é fixar cotas para estudantes provenientes de escolas públicas –sejam eles pretos, pardos, brancos, amarelos, vermelhos, azuis...

Escrito por Josias de Souza às 00h27

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Que mãe manda na Casa Civil, a Dilma ou a Joana?

Que mãe manda na Casa Civil, a Dilma ou a Joana?

  Orlandeli
Lula vende a chefe de sua Casa Civil como quinta-essência da correção, supra-sumo da competência administrativa. Os últimos fatos dão ao presidente uma aparência de hóspede do mundo de Alice. Os acontecimentos como que desmentem a personagem que ele tenta criar.

 

O episódio do dossiê FHC demonstra que, se há no Brasil uma casa-da-mãe-joana, ela fica no ministério supostamente gerido por mãe Dilma. Senão vejamos:

 

1. Descobriu-se que a tropa da Casa Civil organizara um dossiê. Empilharam-se, em 27 planilhas eletrônicas, despesas sigilosas e exóticas. Gastos atribuídos ao casal FHC-Ruth e a ex-ministros tucanos;

 

2. Mãe Dilma saiu-se com um sem número de versões. Desmentidos que, por inconvincentes, não lograram estancar a gosma que escorria pelas páginas de jornais e revistas;

 

3. Em 4 de abril, a Folha revelou que as planilhas haviam saltado dos computadores do terceiro andar do Planalto. Dera-se em 11 de fevereiro. Sob holofotes, Dilma recorreu a duas armas traiçoeiras: a negaça e a ironia. Insinuou que o próprio jornal montara as planilhas. E trouxe à baila a figura do “espião com crachá”;

 

4. Na semana passada, Dilma foi espremida na comissão de Infra-Estrutura do Senado. Lero vai, lero vem disse que, havendo dossiê, ela seria a “grande vítima”. Eventuais vazamentos não visariam senão prejudicá-la. Curiosamente, afirmou que os dados relativos à gestão FHC não eram sigilosos. A ministra já sabia, àquela altura, o nome do “espião com crachá”. Sonegou-o, porém, aos inquiridores. Lula se disse “orgulhoso” do baile que a auxiliar dera nos senadores;

 

5. Menos de 24 horas depois da contradança, a ministra foi chamada, de novo, à pista. O “espião” foi pendurado nas manchetes: José Aparecido Nunes Pires. Não é um qualquer. Traz na biografia o carimbo de petista. Carrega no peito um “crachá” vistoso: secretário de Controle Interno da Casa Civil;

 

6. Funcionário de carreira do TCU, alçado à presidência por requisição de José Dirceu e mantido sob Dilma, Zé Aparecido tornou-se protagonista do inimaginável: remetera o dossiê ao amigo André Eduardo da Silva Fernandes, um assessor do gabinete do senador tucano Álvaro Dias (PSDB-PR). O quindim eletrônico foi à caverna da oposição por e-mail, em 20 de fevereiro;

 

7. Súbito, confirmou-se que o dossiê que a ministra dizia inexistir existia de fato. Em entrevista, Zé Aparecido negou a mensagem. Mas reconheceu que a Casa Civil colecionara dados. Apontou para o alto. Disse que, em 11 de fevereiro, o secretário de Administração da Casa Civil, Norberto Temóteo Queiroz, encomendara-lhe a cessão de dois funcionários. Para quê? Era preciso levantar as despesas de suprimentos de fundos de 98 pra frente. Em privado, disse que a ordem viera de cima: Erenice Guerra, a segunda da pasta de Dilma;

 

8. Em 20 de fevereiro, nove dias depois de Timóteo, por ordem de Erenice, ter encomendado mão-de-obra especializada a Zé Aparecido, Dilma participaria de um jantar com três dezenas de barões da indústria paulista. Deve-se ao repórter Elio Gaspari a recuperação dos ruídos do repasto: “Quem ouviu a ministra [...] não teve a menor dúvida –ela informou que o governo estava coletando dados para incriminar o governo de FFHH na farra dos cartões corporativos”;

 

9. Sabe-se, por ora: a) o levantamento de informações foi supervisionado por Erenice Guerra; b) em jantar com a nata do PIB, Dilma disse quais eram os objetivos do Planalto; c) Antes que a revista Veja informasse sobre a existência do dossiê, os jornais já salpicavam notinhas sobre despesas exóticas da era FHC;

 

10. Há ainda uma penca de mistérios a elucidar. Trabalho para a Polícia Federal. Mas há também uma constatação que dispensa investigações: quem comanda a Casa Civil não é mãe Dilma. Deve-se aos caprichos de mãe Joana a atmosfera de desordem que se instalou no terceiro andar do prédio da presidência. Um ambiente em que os métodos heterodoxos se misturam ao descontrole. Um desgoverno que, por acentuado, permitiu que o filé bem passado de um Planalto petista fosse à boca de um senador tucano;

 

11. Salve a incompetência de mãe Dilma. Viva as artimanhas de mãe Joana. Graças a uma e a outra, a platéia pode exigir agora a elucidação integral do episódio. Que se expliquem todos –do assessor palaciano ao auxiliar do Senado, do senador tucano à ministra petista... Todos!

 

PS.: Ilustração via sítio do Orlandeli.

Escrito por Josias de Souza às 20h59

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Para PSDB, presidenciável de Lula vai ao 2º turno

Para PSDB, presidenciável de Lula vai ao 2º turno

  Escada em Branco/Edu Enfeldt
Lula ainda não indicou o seu candidato à sucessão de 2010. Planeja fazê-lo só depois das eleições municipais de 2008. Mas a cúpula do PSDB passou a tratar como um dado da realidade algo que, até bem pouco, via como mera variável eleitoral: acha que o preferido de Lula estará no segundo turno da disputa presidencial.

 

A percepção do tucanato está escorada em números. Pesquisas feitas sob encomenda da maior legenda da oposição atestam uma súbita ascensão do prestígio da ministra Dilma Rousseff. O índice de intenção de votos da chefe da Casa Civil, que oscilava entre 2% e 3%, já roça a casa dos 10%.

 

Dilma escalou os dois dígitos mesmo depois de ter sido pendurada nas manchetes dos jornais em notícias que a associam à confecção do dossiê anti-FHC. Subiu mesmo sem ter sido formalmente apontada como candidata oficial.

 

Atribui-se a escalada à superexposição da ministra. Que foi tonificada pelo fato de Lula tê-la levado à vitrine do PAC. Exibiu-a em oito pa©mícios. Num deles, montado em Belo horizonte, a própria ministra, ao discursar, chamou pelo verdadeiro nome –“comício”— o ato que se pretendia administrativo.

 

Feita a constatação, alguns dos grão-duques que compõem a cúpula do PSDB passaram ruminar duas preocupações: a falta de unidade interna do partido e a ausência de um discurso sólido para se contrapor, até 2010, à mensagem oficial.

 

Avalia-se que a disputa entre os presidenciáveis tucanos José Serra e Aécio Neves, se mal administrada, pode custar caro à legenda. O PSDB for às urnas de 2002 e 2006 trincado. Nas duas ocasiões, foi surrado por Lula. Imagina-se que, reincidindo no erro, o partido flertará, de novo, com o insucesso.

 

As pesquisas feitas por encomenda do tucanato indicam que Serra mantém a condição de favorito. Coleciona índices superiores a 35%. Aécio tampouco caiu. Permanece ao redor dos 15%. O problema do PSDB é encontrar um discurso que lhe permita converter intenções de voto em votos.

 

Para usar expressão cunhada por Aécio, falta ao tucanato uma novidade que possa ser vendida ao eleitor na fase “pós-Lula.” Estima-se que a disputa de 2010 será marcada pelo signo da continuidade. O que dá ao candidato de Lula uma vantagem que não pode ser negligenciada.

 

Parte dos operadores tucanos já se deu conta de que xingar programas sociais como o Bolsa Família não dá votos. Ao contrário. Tira. De resto, a venda da estabilidade da moeda como um feito da era FHC já não surte efeitos eleitorais.

 

Combinada a um ambiente externo benfazejo, a estabilidade transformou-se, sob Lula, em transferência de renda. A classe “C” engordou. Escorada num mercado interno emergente, a economia cresce a despeito da crise que rói a economia dos EUA. O aumento do consumo das famílias (13,4%) levou mais comida à geladeira.

 

Numa atmosfera assim, tão favorável, o eleitor já não quer saber se o Plano Real foi concebido por um grupo de economistas escalados por FHC. A prosperidade como que empurrou a estabilidade para dentro da biografia de Lula.

 

Na próxima campanha, pode-se continuar martelando os defeitos da gestão Lula: o descontrole nos gastos públicos, a falta de reformas estruturais, a carência de investimentos em infra-estrutura...

 

Mas o velho e bom “choque de gestão” não é algo que os milhões de brasileiros que creditam a Lula o fato de terem saído da miséria decodifiquem com naturalidade. Para seduzir esse eleitor, que mantém a popularidade do presidente nas alturas, o PSDB terá de levar ao palanque de 2010 um sonho novo.

Escrito por Josias de Souza às 01h45

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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