Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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O ‘desarmador de adversários’ e o ‘ladrão de pipoca’

O ‘desarmador de adversários’ e o ‘ladrão de pipoca’

Deve-se a José Serra a melhor, a mais precisa definição de José Serra. Ao discorrer, em 2002, sobre sua infância, vivida no bairro paulistano da Mooca, Serra disse que era “bonzinho em casa, briguento na rua e barulhento na escola”. No futebol, “não era bom para driblar, mas para desarmar”.

 

O auto-retrato está assentado nas páginas de "O Sonhador que Faz." Trata-se de uma espécie de biografia consentida. Escreveu-a o repórter Teodomiro Braga. Serviu-se de sessões de entrevistas com o biografado.

 

Deve-se a Lula a melhor, a mais límpida qualificação de Orestes Quércia –o filho de uma lavradora com um balconista de mercearia, que fez da política trampolim para erigir um império.

 

Num debate televisivo ocorrido nas eleições de 1994, Quércia fustigou o rival petista: “O Lula nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca.” Ouviu uma resposta que, ainda hoje, ecoa: “É verdade que eu nunca dirigi um carrinho de pipoca, mas também nunca roubei a pipoca.”

 

Pois bem. O “ladrão de pipoca” é, hoje, uma nódoa de prontuário lavado. Depois de cortejado pelo próprio Lula, que o recebera em palácio, Quércia converteu-se, nas eleições municipais de 2008, em objeto de desejo dos principais candidatos à prefeitura de São Paulo.

 

Pelo apoio de Quércia, ajoelharam no milho os favoritos Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Também o governador tucano José Serra adotou a posição genuflexa. Com uma diferença: foi ao solo com meniscos alheios. Mandou aos grãos os joelhos do apadrinhado Gilberto Kassab (DEM).

 

Depois de saborear o assédio múltiplo, Quércia deu-se ao luxo de escolher a parceria que lhe pareceu mais conveniente, aquela que lhe dará a mais confortável candidatura ao Senado em 2010. Há coisa de dez dias, informara à direção do PMDB: “Vou fechar com a Marta.” Produziu-se, porém, uma reviravolta.

 

Entrou em cena o menino da Mooca, hoje um político “bonzinho” em público, “briguento” com os subordinados e “barulhento” nos subterrâneos de seu próprio partido. Na articulação política, como nas peladas de menino, Serra não é “bom para driblar”. Seu negócio continua sendo o “desarme.”

 

Serra opera com a sutileza de zagueiro de várzea. Prefere mandar os adversários à maca a receber bolas pelas costas. Foi driblado por Alckmin, que ousou se contrapor a Kassab. Foi fintado também por Aécio Neves, que se atrevera a meter o bedelho na seara paulistana. Súbito, tomado de impaciência inaudita, Serra foi às canelas.

 

Com as digitais de Kassab, o governador acertou-se com Quércia. De um só golpe, roubou o oxigênio de Alckmin e acercou-se de um pedaço do PMDB, partido que parecia flertar por inteiro com o projeto Aécio-2010.

 

É certo que Serra deu bom dia à incoerência. Mas zagueiro que é zagueiro importa-se com o resultado, não com o método. Em 1988, supostamente incomodados com a má fama do “ladrão de pipoca”, alguns ilustres dissidentes do PMDB –à frente FHC, Mário Covas, Franco Montoro e José Serra—enrolaram-se na bandeira da ética.

 

Fundaram o PSDB, uma legenda que se pretendia imaculada. Ontem, quando inquirido sobre a má fama que serviu de pretexto para que os tucanos criassem asas, Quércia exaltava-se. Num programa Roda Viva, quase saiu no braço com um jornalista que o inquiriu sobre o patrimônio (assista no vídeo lá do alto).

 

Hoje, munido do novo prontuário que lhe deram os acusadores do passado, Quércia já nem precisa se exaltar. Certa vez, referiu-se à revoada do tucanato histórico assim: "Eles não me atacavam por corrupção, mas porque eu dominava a política de São Paulo e não dava espaço pra eles.”

 

Noves fora os movimentos incongruentes, os últimos lances da partida de São Paulo deixaram no ar a sensação de que o PSDB, ao mesmo tempo em que se recompõe com o velho inimigo, volta a exercitar o seu esporte predileto: briga consigo mesmo, cobre a si próprio de pancadas.

 

Diz o senso comum que “errando é que se aprende”. O tucanato adaptou o brocardo: “Errando é que se aprende... A errar.” O PSDB carrega sobre os ombros dois fracassos presidenciais: 2002, com Serra, e 2006, com Alckmin. Desponta no gramado de 2010, de novo, dividido.

 

Vai à peleja como candidato favorito a ser derrotado pelo adversário. Algo que, dessa vez, imporá vexame maior. Com Lula fora do jogo, os pássaros arriscam-se a tomar uma goleada de um “poste.”

Escrito por Josias de Souza às 20h14

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Reforma agrária virou o desnecessário irreversível

Reforma agrária virou o desnecessário irreversível

 

O vocábulo "revolução", como se sabe, tornou-se obsoleto. No passado, já saía dos lábios atirando. Era ouvir "revolução" e agachar, para escapar das balas. Com o ocaso da esquerda, depôs as armas. Hoje, inofensiva, a palavra pula amarelinha, de mãos dadas com a “ideologia”, uma companheira de arcaísmo.

 

Na nova era, marcada pelo sumiço da linha demarcatória que separava a esquerda da direita, Lula acordou no Planalto do lado de Sarney, Palocci incorporou Malan, Dirceu tricotou com Valdemares e outros azares.


Só numa repartição pública o passado não passou. No alvorecer de 2003, quando o primeiro reinado de Lula dava os primeiros passos, o Incra produziu um documento emblemático. No texto, "revolução" e "ideologia" compartilhavam a ilusão de que ainda conservavam o vigor dos velhos tempos.

O documento versava sobre a “reestruturação” da autarquia incumbida de gerir a reforma agrária. Tinha 31 páginas. Um latifúndio lingüístico. Improdutivo, dedicava-se à monocultura de abobrinhas. Pregava a necessidade de submeter a repartição a um novo "padrão político-ideológico".

Dizia coisas assim: "É imprescindível uma revolução organizativa. A grande maioria de nossas instituições públicas tem estado estagnada, sem mudanças significativas durante os últimos 50 anos [...] Requer-se [...] nada menos que uma revolução." Pregava uma burocracia em "convulsão intermitente".

Era o prenúncio de que a coisa desandaria. Aparelhara-se o Incra, segundo confissão expressa no documento, com pessoas selecionadas em processo que privilegiou "a militância política, sem avaliação quanto à experiência em gestão".

 

O avanço da reforma, anotava o texto de 2003, dependia da temperatura do caldeirão social. Quanto mais quente, melhor. "As manifestações de massa, de forma organizada, são o vetor central com vistas a atingir os objetivos."


Como se fosse pouco, o latinório “esquerdopata” do Incra de Lula investia contra o agronegócio. Afirmava que, mantida a tendência de "ampliação maciça de grandes propriedades rurais, com alto grau de mecanização", o êxodo para as cidades seria tonificado, gerando mais desemprego e concentração de renda.

 

Para o Incra, o próprio sistema político estava sob risco. O sufoco econômico poderia corroer "a arrecadação necessária à implementação dos programas sociais indispensáveis à manutenção do regime".

 

A solução, apregoava o texto, passaria pelo fortalecimento da pequena propriedade rural e pela mobilização da "sociedade civil" por "serviços básicos". Fortalecidos, os ruralistas miúdos produziriam alimentos para o consumo interno. Reunidos em cooperativas, exportariam a produção excedente.

 

Decorridos cinco anos e quatro meses, o que se vê? O agronegócio viceja. É a mola propulsora do crescimento do PIB. A arrecadação do fisco bate recordes sucessivos, mesmo depois do enterro da CPMF.

 

Os programas sociais foram à vitrine como grande diferencial da era Lula. Nacos das classes “D” e “E” ascenderam à letra “C”. O êxodo, segundo o IBGE, inverte-se gradativamente. O brasileiro vai agora da metrópole para o interior. O regime, noves fora o lero-lero do terceiro mandato, esbanja solidez.

 

Só o Incra não mudou. O mesmo esquerdismo "démodé". A mesma ineficiência. O caldeirão continua fervendo, em novo abril “vermelho”.

 

O MST, no passado, se distinguia por ter dado voz aos miseráveis dos fundões do Brasil, exibindo-os nas ruas das grandes cidades, em marchas épicas. Hoje, o movimento não passa de cáften daqueles que ajudara a içar do limbo social.

 

O segundo reinado se encaminha para o terço final. Ainda é tempo, porém, de pôr ordem na desordem. A reforma agrária reclama um processo de despolitização. Pede um tratamento técnico. Suplica pela interrupção da política de distribuição de terras. Roga pelo socorro aos brasileiros já assentados.

 

Ajuda sincera, capaz de transformar os reféns do MST em produtores de verdade. Gente equipada para disputar fatias de um mercado interno em crescimento.

 

O atual modelo de reforma agrária faliu. Mais que isso: apodreceu. Não é de hoje, aliás. Com sua estratégia descolada da realidade, o Incra converteu o interminável processo de distribuição de terras numa espécie de desnecessário irreversível.

Escrito por Josias de Souza às 19h41

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Proposta do Senado para os suplentes é meia-sola

Proposta do Senado para os suplentes é meia-sola

Lula Marques/Folha
 

 

Tudo na vida é uma questão de hábito. O cidadão pode afeiçoar-se até ao inaceitável. Mais que isso: o inadmissível, quando aceito, passa a ser cultivado como um vício incontornável. Tome-se o exemplo do Senado. Mergulhado num mar de perversões, afeiçoou-se até ao cheiro de peixe podre.

 

Há, hoje, no baixio da Câmara Alta, 16 senadores sem voto. Fantasmas, por assim dizer. Suplentes, se quisermos homenagear o jargão oficial. Preenchem 20% dos 81 assentos do Senado. Repetindo: 20% dos senadores não dispõem de um mísero voto.

 

Na semana passada, a Comissão de Justiça do Senado debruçou-se sobre o flagelo.  Produziu uma proposta que cultiva, com zelo inaudito, o defeito. Chegou-se a uma meia-sola que forra os passos do vício.

 

Eis o que prevê a emenda: 1) em vez de dois, haveria apenas um suplente por senador; 2) não poderiam ser indicados para a suplência parentes até o segundo grau; 3) em caso de impedimento definitivo –por morte, cassação, renúncia ou eleição para outro cargo— o suplente assumiria um mandato tampão. Na eleição subseqüente, o povo escolheria um substituto.

 

Parece uma grande mudança. Mas não é. Oferece menos do que o Pacote de Abril. Baixado sob Geisel, em tempos de ditadura, o famigerado decreto militar previa que, no impedimento do titular, assumia a vaga de senador o segundo mais votado da legenda. E ponto.

 

Para virar lei, a emenda constitucional costurada na comissão de Justiça –foro, a propósito, apinhado de suplentes— ainda precisa ser aprovada pelos plenários do Senado e da Câmara. E o que é ruim pode ficar pior.

 

Arma-se uma resistência à idéia de preencher pelo voto as cadeiras de senadores eleitos para outros cargos executivos –prefeito, governador ou vice-governador, por exemplo. Nesta hipótese, só se recorreria ao voto nos casos de morte ou de renúncia por motivos não-eleitorais.

 

A comissão de Justiça do Senado deu de ombros para a ousadia. Mandou ao lixo proposta de Demóstenes Torres (DEM-GO) que proibia senadores de trocar o Legislativo pela Esplanada dos Ministérios. Arquivou outra idéia de Demóstenes: a ressurreição da regra que previa a posse do segundo mais votado.  Sepultou, de resto, proposta de Tasso Jereissati (PSDB-CE), que propôs a substituição do senador pelo deputado federal mais votado no Estado.

 

Restou demonstrado o seguinte: decorridos 23 anos do início da redemocratização, a maioria do Senado fará o que estiver ao seu alcance para preservar os seus senadores biônicos. Chamam-se, agora, suplentes. Mas conservam a mesma natureza antidemocrática. É gente sem voto.

 

Já ouviu falar em Carlos Dunga (PTB-PB)? Conhece Gilberto Goellner (DEM-MT)? Sabe quem é Virginio de Carvalho (PSC-SE)? Pois é. Suplentes! Decerto já notou a presença de Wellington Salgado (PMDB-MG). Há de tê-lo visto na milícia de Renan Calheiros. Há de tê-lo ouvido pedindo um “chinelinho novo” a Lula. Pois é. Suplente!

 

Você deve ter reparado também a chegada de Edison Lobão Filho (MA), o Lobinho. Já sentou na cadeira do pai sob ordens do DEM: “Pede pra sair.” Saiu. Mas só da legenda. Sem partido, sumiu em meio ao mar de suplentes que inunda o Senado. Só tem visibilidade na folha de salários. Pois é. Mais um suplente!

 

Tampouco Gim Argello (PTB-DF) deve ter escapado à sua percepção. Foi à vaga de Joaquim Roriz, que renunciara para livrar-se da cassação, carregando, ele próprio, um pegajoso rastro de suspeições atrás de si. Pois é. Outro suplente!

 

Nessa matéria, não há partido imune. Há os suplentes parentes. Há os suplentes financiadores de campanha. Há os suplentes amigos. Só não há suplentes com voto. A perversão dos suplentes, por interminável, não cabe num artigo. Exige espaços generosos, que só o Senado, ermo de bom senso, pode prover.

 

PS.: A Transparência Brasil levou à rede um estudo sobre a encrenca dos suplentes. Vale a leitura.

Escrito por Josias de Souza às 19h17

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Lula abre baile sucessório e oposição entoa Noel

Lula abre baile sucessório e oposição entoa Noel

El Roto/El Pais
 

 

No Brasil, são três as evidências que permitem a um presidente da República detectar a chegada da síndrome do fim do mandato: 1) súbito, o inquilino do Planalto começa a beber cafezinho frio; 2) descobre que os aliados estão desembarcando; e 3) vê brotar à sua volta um irrefreável burburinho acerca da sucessão presidencial.

 

Sob Lula, tudo acontece às avessas. O cafezinho que chega da copa do Planalto queima-lhe a língua. Legendas como o PMDB o bajulam como nunca. Quanto à gafieira sucessória, o presidente animou-se, ele próprio, a convidar os adversários para a contradança.

 

Surpreendidos com a movimentação do rival, PSDB e DEM levam Noel Rosa à vitrola:

 

“Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
Pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru.....ta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

A estratégia de Lula deu um nó na cabeça dos rivais. Uma parte do PSDB já se deu conta de que precisa “refinar” o discurso. Sob pena de o excesso de ódio converter a legenda em escrava do inimigo.

 

O núcleo partidário capitaneado por Aécio Neves, leva a calibragem retórica às fronteiras do paroxismo. É como se o governador de Minas buscasse um timbre que não o faça corar se o inimigo vier a se tornar um pós-amigo.

 

Mesmo o DEM –ou parte expressiva dele— já se deu conta de que pode estar injetando veneno demais no pudim. Sua banda de música executa uma partitura à UDN. No Congresso, dá trabalho. Ajudou, por exemplo, a fulminar a CPMF.

 

Longe de Brasília, porém, os ‘demos’ levam uma sova de Lula. No papel de neo-Getúlio, o presidente roubou do ex-PFL o grosso do eleitorado dos fundões do Brasil, seduzido pelo Bolsa Família. O fenômeno é mais nítido no Norte e, sobretudo, no Nordeste.

 

Além de deixar atônicos os inimigos, Lula confunde os amigos. Com dois anos e meio de antecedência, levou mãe Dilma ao pa©lanque. Fez de uma boa ministra uma péssima candidata. Transformou-a em alvo instantâneo. E a chefona da Casa Civil arde na fogueira do dossiê.

 

O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), compadre do presidente, freqüentador do Alvorada, promete para esta semana a apresentação da emenda-companheira do terceiro mandato. Vai à prateleira como alternativa. Nos subterrâneos da Câmara, avolumam-se os adeptos. No Senado, insinuam-se as barricadas.

 

O PSDB, partido de amigos integralmente composto de inimigos, freqüenta as pesquisas como a mais vistosa alternativa de poder. Mas, sem rumos, pode virar a legenda mais bem cotada para a derrota de 2010.

 

Com a popularidade nas nuvens, Lula sonha com o momento em que os tucanos vão ter de cantar, com pequenas adaptações, a parte final do samba de Noel:

 

“Agora, eu não ando mais fagueiro,

Pois eleição não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapacei.....ro, não consigo voto pra levar
Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa eu vou pro samba que o Lula me convidou?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo,

Pra ver se escapo desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa eu vou pro samba que o Lula me convidou?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

Escrito por Josias de Souza às 19h44

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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