Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Jobim deu o mote para si mesmo: Faça ou vá embora

Jobim deu o mote para si mesmo: Faça ou vá embora

  Valter Campanato/ABr
A nomeação de Nelson Jobim foi a primeira boa notícia produzida pelo governo desde que estourou a encrenca aérea, há dez meses. Primeiro porque marcou o despertar de Lula para uma crise que o governo negava existir. Segundo porque Waldir Pires foi demitido. Terceiro porque o petista Paulo ‘Motim dos Sargentos’ Bernardo não foi nomeado. Quarto porque Jobim é, desde a criação do ministério da Defesa, o primeiro civil a reunir credenciais para apresentar-se aos comandantes das três Forças Armadas com a uma cara de chefe.

Sob Lula, a pasta da defesa vinha oscilando entre o impensável e o inaceitável. O diplomata José Viegas demitiu-se do cargo depois de dois vexames: a tentativa de reescrever a história justificando as atrocidades cometidas contra o jornalista Vladimir Herzog e o lero-lero acerca dos documentos sigilosos da guerrilha do Araguaia. Nessa matéria, inovou: disse que, além de o papelório em si, foram à fogueira até os registros da incineração foram à fogueira.

A “solução” José Alencar soou esdrúxula desde o nascedouro. Nunca na história desse país um presidente da República ousara nomear um ministro que, por parceiro de chapa, era indemissível. No princípio, os militares enxergaram no vice-presidente a chance de abrir os cofres do Tesouro para os seus pleitos. Mas, assim como fazia com os queixumes do vice Alencar em relação aos juros, a equipe econômica continuou “escutando” a pregação do ministro Alencar com ouvidos moucos.

 

Com a saída de Alencar, Lula inaugurou uma brincadeira desnecessária. Achou que poderia entregar o comando das Forças Armadas a políticos cassados e militantes esquerdistas. Ensaiou a nomeação de Aldo Rebelo (PC do B-SP). Seria um prêmio de consolação à derrota na briga pela presidência da Câmara. Rebelo teve o bom-senso de dizer ‘não’.

 

Foi-se, então, de Waldir Pires. Em situação de normalidade, o ministro até poderia ter sido mantido na pasta, como um fantoche, até 2010. Mas sobreveio o caos aéreo. E a inapetência gerencial de Waldir, já entrado em anos, tornou-se evidente. No instante da demissão, o ministro encontrava-se em avançado estado de decomposição política. Não foi propriamente demitido. Apodreceu agarrado ao cargo.

 

Jobim assumiu falando grosso: “Quem manda é o ministro”. Uma boa declaração inaugural para alguém que se dispôs a chefiar um setor em que, fingindo falar a mesma língua, ninguém se entende. Acenou com a troca de comando na Infraero e com a reestruturação da Anac. Mira, com acerto, em dois descalabros que têm nome e sobrenome. Chamam-se Lula da Silva, o personagem que os criou, com a omissão cúmplice até dos partidos de oposição.

 

A força do “maestro” Jobim será medida, sobretudo, pelo ritmo que ele for capaz de imprimir à orquestra da Aeronáutica. Está claro, límpido como água de bica, que o aerocaos não nasceu em setembro de 2006, quando o jatinho Legacy pôs abaixo o Boeing da Gol. O acidente apenas transformou em notícia um descontrole que, dadas as proporções que assumiu, vinha sendo construído há décadas. Ainda que o brigadeiro Juniti Saito faça cara feia, é preciso lançar um facho de luz nos porões do sistema aéreo brasileiro. Uma providência que pode avariar a tese da infalibilidade da FAB, tratada como um dogma.

 

Por ora, Jobim sobrevoa o noticiário com ares de reconstrutor. A julgar pela atmosfera de caos que o circunda, matéria-prima para o renascimento não lhe faltará. Resta pôr mãos à obra. É como diz o próprio ministro: "Aja ou saia. Faça ou vá embora". Para além da devolução do sossego dos usuários de avião, o que está em jogo é a sobrevivência de uma boa idéia: o ministério da Defesa, sob controle civil.

Escrito por Josias de Souza às 18h43

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Os verdadeiros culpados são os passageiros da TAM

Os verdadeiros culpados são os passageiros da TAM

Joel Silva/Folha
 

Parentes e amigos das vítimas da tragédia choram num protesto em Congonhas  

 

Os passageiros do vôo 3054 cometeram vários crimes que justificam sua responsabilização sumária. O primeiro foi o de existir. Não satisfeitos, existiram em número expressivo: 187. Num flagrante desafio à ordem, compraram bilhetes sem perguntar se os reversos do avião estavam em ordem. Pior: aterrissaram em Congonhas, sob chuva, numa pista sem ranhuras. Finalmente, abandonando qualquer tipo de escrúpulo, tornaram-se vítimas. Um acinte.

 

Tenta-se agora, veja você, acomodar nos ombros do governo e da TAM a culpa pelos crimes dos passageiros. Coisa inaceitável. O Estado e a empresa têm do seu lado a lei. Estão protegidos pela “Lei de Murphy”. Todo mundo já ouviu falar da “Lei de Murphy”. Mas pouca gente conhece sua origem. Foi descrita nas páginas de ''A Vingança da Tecnologia'', livro do norte-americano Edward Tenner (Editora Campus). Informa o seguinte:

 

O capitão Edward Murphy, da Força Aérea dos EUA, acompanhava, com vivo interesse, os experimentos de seu chefe, o major John Paul Stapp. Cobaia de testes de resistência a grandes acelerações, Stapp desafiava a velocidade num trenó-foguete. Em 1949, bateu o recorde de aceleração. Mas não pôde comemorar o feito. Os acelerômetros do veículo não funcionaram.

 

Engenheiro, Murphy foi investigar o que dera errado. Descobriu que um técnico ligara os circuitos dos aparelhos ao contrário. E concluiu: ''Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então alguém fará o trabalho desta forma''. Depois, em entrevista, o major Stapp referiu-se à frase do ajudante como ''Lei de Murphy''. Resumiu-a assim: ''Se alguma coisa pode dar errado, dará''.  A ''Lei de Murphy'' foi injetada no folclore da tecnologia. Hoje, aplica-se a todas as situações. Inclusive ao infortúnio aéreo do Brasil.

 

Apresentado ao aerocaos dez meses atrás, o governo tinha duas formas de gerir a encrenca. A mais banal seria assumir a tarefa de governar, adotando providências. Preferiu a tortuosa alternativa de empurrar os problemas com a barriga. Em Congonhas, entregou tardiamente uma pista inacabada, sem ranhuras. Diz-se agora que o grooving, nome técnico das fendas que facilitam a drenagem da pista, não é essencial. Simultaneamente, informa-se que serão apressadas as obras de abertura das frinchas no asfalto. É Murphy levado às últimas conseqüências.

 

Três dias antes da tragédia, a TAM detectara um defeito no reverso da turbina direita de seu Airbus. De novo, havia dois caminhos. O banal: recolher o avião ao hangar e reparar a avaria. O tortuoso: barrigar o conserto, mantendo o avião nos ares. Optou-se pela barriga. Informa-se agora que o reverso não é lá tão relevante na operação de frenagem. Fica-se sem entender porque o fabricante perde tempo incorporando nos aviões uma geringonça de tamanha inutilidade. Só Murphy explica.

 

Como se vê, tudo está perfeitamente claro. Mas os parentes das vítimas cobram explicações adicionais. E exigem pressa. Uma evidência de que a índole criminosa é fenômeno genético. A pressão é adensada pelo ânimo acalorado de toda sociedade. Buscam-se nas caixas pretas do avião novas revelações. Novidades capazes de pôr em xeque as boas intenções –públicas e privadas—, as melhores frases (Marta “Relaxa e Goza” Suplicy) e os gestos mais espontâneos (Marco Aurélio “Top-top” Garcia). Esse ímpeto subversivo é um inaceitável desafio à lógica da Lei de Murphy.

Escrito por Josias de Souza às 19h24

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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