Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Um país condenado a viver à beira do abismo eterno

Um país condenado a viver à beira do abismo eterno

Máximo/El Pais
 

 

Há anos que a política brasileira caminha em direção a um metafórico fundo do poço. Tem-se uma vaga visão do que seria uma democracia irremediavelmente conspurcada. Mas prefere-se não pensar nos efeitos da encrenca no cotidiano pacato dos brasileiros que financiam o funcionamento do Legislativo, do Executivo e do Judiciário.

 

Imagina-se o fundo do poço como algo parecido com o inferno. Um lugar que todos sabem insuportável. Mas que ninguém deseja conhecer para saber, em detalhes, como funciona. As pessoas se apegam ao fato de que a frágil democracia brasileira já roçou várias vezes o fundo do poço. E nem por isso o brasileiro médio deixou de tomar o café da manhã, almoçar, jantar e assistir à novela das oito antes de enfiar-se sob os lençóis.

 

Assim, o Brasil vai adiando, brasileiramente, o seu encontro com o fundo do poço definitivo. Quando se imagina que o lamaçal terminal e irremediável foi tocado, um novo escândalo irrompe em cena para informar à nação que o percurso rumo às profundezas do lodo ainda terá novas escalas.

 

Ao fundo do poço da fisiologia à Sarney, sobreveio o fundo do poço do Collorgate, que foi seguido pelo fundo do poço dos anões do orçamento, que foi anulado pelo fundo do poço das privatizações trançadas “no limite da irresponsabilidade”, superado pelo fundo do poço da compra de votos da reeleição, humilhado pelo fundo do poço da Sudam, vencido pelo fundo do poço da violação do painel do Senado, suplantado pelo fundo do poço do mensalão, derrotado pelo fundo do poço da quebra do sigilo do caseiro, sobrepujado pelo fundo do poço do dossiêgate, ultrapassado pelo fundo do poço do da compra de sentenças judiciais, enterrado pelo fundo do poço do propinoduto da Gautama, excedido pelo fundo do poço da suspeita de que um lobista de empreiteira bancaria as despesas do presidente do Senado...

 

A esperança de que o fundo do poço possa ser, convenientemente, adiado ao infinito faz do país o que ele é hoje, uma nação à beira do abismo eterno. Sonega-se o imposto sob o pretexto de que ele será roubado; reelegem-se corruptos sob a justificativa de que é tudo farinha do mesmo saco; desrespeitam-se as leis de trânsito sob o argumento de que ninguém as respeita; tolera-se o subemprego sob a falácia de que ele é conseqüência natural do processo econômico e, afinal, é preferível ao assalto a mão armada; etc, etc, etc...

 

A cada novo fundo do poço, ouvem-se as vozes do “corte na própria carne”, do “doa a quem doer”. A cada nova onda de lama, afirma-se que, dessa vez, a apuração chegará às “últimas conseqüências”. No fim, acaba-se chegando às últimas conseqüências. Há casos em que os culpados são identificados. Alguns chegam mesmo a virar réus em processos judiciais. E terminam rebatizados com nomes bem conhecidos. Todos pendentes da árvore genealógica da família Conseqüência. Os mais notáveis são o “Descaso Conseqüência dos Anzóis” e a “Impunidade Conseqüência dos Caracóis”.

 

Nesse interminável adiamento do fundo do poço apocalíptico, o brasileiro habituou-se a conviver com o inaceitável. Não se sabe ao certo se a nova crise política que revolve os subterrâneos da promiscuidade nacional empurrará o país, finalmente, para o abismo. De uma coisa, porém, não há dúvida: quem está cavando o buraco é a sociedade. Vale-se de uma enxada conveniente. A enxada da inércia.

Escrito por Josias de Souza às 17h54

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Pedido ao Guido: me deixe visitar o meu dinheiro

Pedido ao Guido: me deixe visitar o meu dinheiro 

El Roto/El Pais

 

Todo brasileiro em dia com suas obrigações fiscais deveria ter o direito de acompanhar o que é feito com o fruto do seu suor. Tomo por mim. Sempre que pago imposto, sou assaltado por dois sentimentos devastadores. O primeiro é a saudade. O outro é a incerteza. Dói-me não poder zelar pelo futuro do meu dinheirinho.

 

Fico a imaginar o que vai acontecer com o meu dinheiro depois de trancafiado nos cofres do Tesouro Nacional. Enquanto o deixam lá dentro, quietinho, tudo bem. Há, evidentemente, o risco de constrangimentos.

 

Imagino, por exemplo, um encontro fortuito do meu dinheiro, mirrado, com o dinheiro do Olavo Setúbal ou do Antonio Ermírio de Morais, mais taludos. A eventual humilhação, contudo, é a menor de minhas preocupações. O que me angustia é a falta de critério na saída. Ali, na boca do caixa do governo, meu dinheiro tanto pode ir para a merenda escolar como para as Ilhas Cayman.

 

Angustia-me a sensação de que meu dinheiro, salubérrimo, possa estar, nesse exato momento, passeando numa ambulância superfaturada dos Vedoin. Aflige-me a impressão de que, podendo estar seguro no meu bolso, o coitado talvez tenha sido enterrado sob o mármore de um desses aeroportos da Infraero.

 

Soubesse do risco, teria eu próprio levado meu dinheiro para passear num aeroporto. Não iria para Congonhas, obviamente. Juntos, tomaríamos uma aeronave para a Europa, seguindo as pegadas da queda do dólar.

 

Nos últimos dias, minhas preocupações com o meu dinheiro aumentaram. Tem sido difícil conviver com a idéia de que o pobrezinho pode ter ido parar no bolso ou numa conta bancária de um sujeito que atende pelo nome de Zuleido, dono de uma construtora chamada Gautama.

 

Um frio correu-me a espinha. Imaginei para o meu dinheiro uma vida mais produtiva. Francamente, não esperava que um dia viesse a acudir empreiteiros recolhidos à carceragem da Polícia Federal sob a suspeita de fraudar obras públicas.

 

Sei que não é usual. Mas gostaria que o Guido Mantega me permitisse visitar o meu dinheiro. Ou o que restou dele. Seria coisa rápida, ministro. Juro que não o quero de volta. Não tentarei resgatá-lo. Desejo apenas identificá-lo e, na medida do possível, consolá-lo.

 

Sei que dinheiro público não tem carimbo. Mas o meu é fácil de identificar. É um dinheiro de fisionomia banal. Admito que, na pressa, eu poderia confundi-lo com outro dinheiro de cara honesta, suado, recolhido de um desses brasileiros usualmente espoliados pelo governo. Ainda assim, reivindico o direito de tentar.

 

Se conseguisse identificar o meu dinheiro, faria nele uma marca. Depois, escreveria às autoridades: "Esse aqui, senhores, prefiro que usem para custear o ensino básico, para acudir algum desgraçado esquecido numa maca do SUS... Nada de entregá-lo a um Zuleido qualquer. Meu dinheiro é pouco, bem sei. Mas ele é meu. Merece respeito”.

Escrito por Josias de Souza às 17h01

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Uma defesa de Deus ante a insensibilidade do papa

Uma defesa de Deus ante a insensibilidade do papa

 Máximo/El Pais
 

 

O repórter seria mal educado com o leitor que professa dogmaticamente a fé católica se não iniciasse o artigo com um aviso: interrompa imediatamente a leitura. Feito o alerta, vai um esclarecimento aos que continuam com o olho pregado no texto: o que se pretende aqui é fazer uma defesa de Deus, contra a pregação moralista do papa, seu pretenso representante nesta Terra de tantos diabos.

 

Diga-se, de início, em benefício de Bento 16, que é sua função defender os dogmas de sua Igreja. Acrescente-se que já houve coisa pior. Mencione-se, por eloqüente, um exemplo ocorrido no ano da graça de 1679. Muitos médicos da época prescreviam a pacientes aturdidos com pulsões sexuais desmedidas o “remédio” da masturbação. E o monge espanhol Juan Caramuel ousou defender a tese de que de que aliviar o corpo dos excessos de sêmen era uma prática médica saudável.

 

Pobre Caramuel! Levou uma carraspana do papa de então, Inocêncio 11º. O longínquo predecessor de Bento 16 apegou-se ao texto bíblico que, em Gênesis (38:4-10), dá notícia da desaprovação do Senhor ao gesto de Onan que, ao se deitar com a cunhada, interrompia o coito na hora “h”, derramando o sêmen sobre o solo. Hoje, o onanismo, com tantos adeptos nos seminários e nos conventos, já não está exposto na vitrine de preocupações do Vaticano.

 

Os papas da “modernidade” concentram suas atenções em “flagelos” mais “perniciosos” –a licenciosidade sexual e o aborto. Dão primazia à condenação da camisinha e à defesa da castidade –“dentro e fora do casamento”—, como fez Bento 16 na pregação aos jovens reunidos no estádio do Pacaembu, na última quinta-feira (10).

 

Uma das características da Igreja Católica é a aversão a mudanças. No começo do século 16, o Vaticano preferiu emagrecer, expelindo fiéis, a atualizar-se. Foi quando começaram a surgir as igrejas cristãs dissidentes. Pois a reforma tão rejeitada está sendo feita, não é de hoje, à revelia da cúpula da Igreja. Em setembro de 97, às vésperas de uma visita do papa João Paulo 2º ao Brasil, o Datafolha foi às portas de igrejas católicas do Rio e de São Paulo. Entrevistou os frequentadores. Reteve as opiniões daqueles que se declararam católicos praticantes. Verificou-se que, no Brasil, a Igreja já foi reformada num lugar que o olhar do papa não alcança: o interior da alma dos “fiéis”.

 

O Datafolha constatou que 64% dos entrevistados defenderam a renovação da Igreja. O católico revelou-se, de resto, seletivo na escolha dos dogmas que deseja seguir. A maioria (74%) não aceita a máxima da infalibilidade papal. Um naco próximo da unanimidade (96%) admitiu o uso da camisinha como método contraceptivo ou para evitar a Aids (90). Outro tanto (62%) posicionou-se contra o celibato e a favor do matrimônio informal, longe do altar (64%). Expressivos 55% disseram que a mulher não precisa casar virgem.

 

Faça-se, por último, a defesa de Deus, prometida no primeiro parágrafo do texto. Ao desaprovar todas as formas de aborto, o papa condena mulheres à convivência forçada com o indesejado filho do estupro. Ou, pior, impõe a elas o risco da própria morte, cientificamente detectado em muitas concepções. Sentencia, de resto, legiões de fetos mal formados a uma vida sem vida. Ao abominar o uso da camisinha, em nome de uma utópica castidade cristã, o papa flerta, de novo, com a imposição da morte por Aids. Deus não merece ser co-responsabilizado pela insensibilidade que praticam em Seu nome. Lá de cima, Ele deve estar gritando: “Por Deus, digo, por Mim, sejam mais cristãos.”

Escrito por Josias de Souza às 17h33

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Lula articula transferência de Aécio para o PMDB

Lula articula transferência de Aécio para o PMDB

Jorge Araújo/Folha
 

 

Lula desencadeou uma inusitada articulação política. Pediu a dirigentes peemedebistas que tentem convencer o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a trocar o PSDB pelo PMDB. Tratou do assunto em três oportunidades. Em todas elas insinuou que Aécio pode ser o candidato do consórcio governista à sucessão presidencial de 2010.

 

Impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo, Lula move-se para erigir um palanque no qual possa pisar como “eleitor”. Acha que não será um “eleitor” qualquer. Faz uma aposta: “Se o PAC der certo, o próximo presidente sairá da coalizão”, disse a um dos peemedebistas com os quais conversou.

 

Lula se diz “impressionado” com a “unidade” obtida pelo PMDB, conhecido pela conformação fragmentária. Afirma que o partido “jogará um papel central” em 2010. E estimula os dirigentes peemedebistas a “arranjar um candidato” ao Planalto. Cobre Aécio de elogios: “bom gestor”, “político hábil”, “popular em Minas”, o segundo maior colégio eleitoral do país.

 

O flerte com Aécio faz de Lula um presidente a procura de um sucessor. A julgar pelo que diz em privado, Aécio não é sua única aposta. Menciona pelo menos outras três opções: o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), a ministra petista Dilma Rousseff (Casa Civil) e o governador baiano Jaques Wagner, também do PT. Menciona também, num plano inferior, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

 

Entre todos, os que reúnem maiores chances de êxito, na opinião de Lula, são Aécio e Ciro. Nos diálogos que manteve com os dirigentes do PMDB, o presidente deu a entender que, entre os dois, Aécio leva vantagem sobre Ciro.

 

Lula começou a insinuar-se para Aécio no ano passado. Os dois conversaram, em segredo, nas pegadas da disputa presidencial em que o tucano Geraldo Alckmin foi batido. O presidente disse ao governador que desejava estabelecer com ele uma parceria. Apontou para 2010. Aécio manteve a porta aberta. Mas, delicadamente, disse que era cedo para tratar de uma data tão longínqua na folhinha.

 

Quando questionado sobre a hipótese de mudar-se para o PMDB, Aécio dá de ombros. Diz que seu projeto político está associado ao PSDB. Embora ninguém acredite, afirma que o Planalto não é uma “obsessão”. Acena com a hipótese de concorrer ao Senado. Estabeleceu com o colega José Serra um armistício. Acertaram que só abririam a caixa de ferramentas presidencial depois da eleição municipal de 2008.

 

Na opinião de Lula, Serra não vai despir a armadura. Avalia que, asfixiado em seu próprio partido, Aécio teria no PMDB, agora aparentemente “unificado”, um extraordinário balão de oxigênio. Uma corrida presidencial é prova de longo curso. Lula está com os pés na pista. Não sabe ao certo a quem entregará o bastão em 2010. Mas, pragmático, estende os seus horizontes para muito além dos muros do PT.

 

Em diálogo reservado, o presidente do PMDB, Michel Temer, disse a um amigo que pretende procurar Aécio Neves nas próximas semanas. Parece improvável que, neste início de jornada, o governador mineiro se aventure a gastar mais oxigênio do que o necessário. De todo modo, Aécio será informado de que o PSDB já não é a única raia à sua disposição. 

Escrito por Josias de Souza às 16h25

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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