Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Polícia e imprensa no Brasil de janeiro de 1900

Polícia e imprensa no Brasil de janeiro de 1900

O dia é 28 de janeiro de 1900, um domingo. Estamos folheando as páginas da “Gazeta de Notícias”, prestigioso diário do Rio, capital da novíssima Velha República. Súbito, nosso olhar estaciona na “Crônica” da semana. Até três anos atrás, era escrita por Machado de Assis. Hoje, é assinada por duas iniciais: O.B.

Logo diremos quem se esconde atrás do par de letras (caricatura ao lado). Antes, ocupemo-nos do artigo. Fala da polícia, da imprensa e de suas relações promíscuas. Alimentado pelas delegacias, o noticiário dos dias que correm deixou-se intoxicar pela informação de alcova. Já não distingue entre vida pública e privada, eis a preocupação do autor.

 

“Um rapaz solteiro, amando uma rapariga também solteira, acha que o casamento é uma tolice, e, sem recorrer a ele, leva o seu amor às últimas complicações”, escreve o nosso articulista. “A moça reconhece, então, que andou mal (...) e queixa-se à família. A família queixa-se à polícia. A polícia agarra o Don Juan por uma orelha, arrasta-o a uma pretoria, e obriga-o a reparar o mal que fez.” Restaurada a moral pública, tudo estaria bem, na opinião de O.B., não fosse pela deletéria indiscrição da imprensa. Ela “corre sofregamente à polícia.” E, no dia seguinte, “o universo fica sabendo que o sr. Fulano abusou da boa fé da menina Beltrana, e que só quando o delegado Sicrano o ameaçou de fazê-lo ir esfregar com as costas o chão duro do cárcere, se decidiu a receber a vítima como esposa legítima.”

 

“Mais absurda” ainda pode ser a curiosidade desmedida dos jornalistas. “Trata-se, às vezes, de escândalos de adultérios; e a polícia fornece à imprensa a relação minuciosa do caso, e os nomes de todos os comprometidos no escândalo e toda série de pormenores escabrosos.” O.B. indigna-se: “Com que direito a imprensa e a polícia, coligadas, levantam os cortinados de um leito, para mostrar dentro dele, à multidão embasbacada a gente que lá está ocupada em fazer cousas que pela sua alta e sagrada importância se querem bem escondidas?”

 

Corta para 2007. Polícia e imprensa continuam sendo irmãs siamesas. Mas, numa fase em que o Don Juan pós-pós “faz mal” à moça na casa dela, com o assentimento dos pais, num período em que adultério já não é lavado com sangue, o que envenena o noticiário são outros tipos de escândalos, bem menos inocentes. Ah, se Olavo Bilac ainda fosse vivo! Sim, o nome escondido atrás das iniciais da crônica de 1900 é o de Olavo Bilac. O príncipe da poesia parnasiana também teve seus dias de cronista do cotidiano. Ressuscitada pelo pesquisador Antonio Dias, sua produção jornalística foi reunida, no ano passado, nos dois imperdíveis tomos de “Bilac, o Jornalista”.

 

Retorne-se, por oportuno, àquele janeiro de 1900. Além de condenar a voracidade com que a imprensa ocupava-se das pulsões sexuais alheias, Bilac insurge-se contra a exposição de transgressores juvenis. “Um menor, uma criança, um caixeirinho de venda, seduzido pela tentação do jogo do bicho, abre a gaveta do patrão, surrupia algumas notas de 10$ e gasta-as. O patrão queixa-se à polícia, a polícia prende o pequeno e a imprensa publica o nome desse pobre diabo.”

 

Ah, se Bilac ainda fosse vivo! Veria em que novas modalidades de crimes meteram-se os “pequenos” –do tráfico de drogas aos assassinatos bárbaros. Perceberia como evoluíram os negócios do bicho. Já não seduz crianças. Suborna juízes. O jornalista decerto voltaria aos versos: "Ora (Direis) Ouvir Estrelas..."

Escrito por Josias de Souza às 22h16

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Ou a Justiça dá fim às aspas ou elas a consumirão

Ou a Justiça dá fim às aspas ou elas a consumirão

No Brasil, existe a “Justiça” e a Justiça. Existe o poder e tudo o que está implícito quando ele é invocado. Pode soar como coletivo majestático ou pejorativo.

A Justiça sem aspas é igual para todos. Com aspas, vê mais igualdade em alguns do que em outros. Sem aspas, A Justiça é cega. Com aspas, exibe um olfato invejável. 

 

A Justiça sem aspas assegura direitos iguais para todos. Com aspas, impõem mais deveres a alguns do que aos outros. Sem aspas a Justiça busca o restabelecimento da verdade. Com aspas, empresta legalidade à mentira.

 

Nos últimos anos, ao mesmo tempo em que a Justiça tornou-se mais acessível, a “Justiça” foi virando algo vago, impalpável.

 

Hoje, a Justiça é busca da justa reparação, mas a “Justiça” também é encontro com injustiças irreparáveis.

 

A Justiça é perspectiva de punição, mas a “Justiça” também é solidificação da impunidade.

 

A Justiça é a que tarda, mas não falha, mas a “Justiça” também é aquela que não chega e deixa prescrever.

 

A Justiça é justiça extrema, mas a “Justiça” também é extrema injustiça.

 

Sabe-se que, no Brasil, o defensor dos direitos humanos é um reacionário que ainda não foi assaltado. Sabe-se que o político progressista é um conservador que ainda não chegou ao poder.

 

Pois descobre-se agora que o juiz, o desembargador e o ministro do tribunal superior pode ser o incorruptível que ainda não foi submetido à sedução de um bicheiro ou ao flerte de um bingueiro.

 

Súbito, a Justiça vê-se compelida a expedir mandados de prisão para recolher a “Justiça” ao xilindró. A Justiça concede autorização para que os telefones da “Justiça” sejam grampeados.

 

A Justiça ordena à polícia que faça operações de busca e apreensão nos gabinetes e nas casas da “Justiça.” A Justiça bloqueia os bens da “Justiça”.

 

Quem observa a cena à distância fica confuso. A perspectiva de uma definição desse emaranhado que se convencionou chamar de Justiça –ou de “Justiça”— é cada vez mais remota.

 

Chegou-se a um ponto sem volta. Ou a Justiça acaba com as aspas, punindo exemplarmente eventuais malfeitores da “Justiça”, ou as aspas acabarão com o que resta dela.

Escrito por Josias de Souza às 19h48

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O Rio pós-Donga é uma cidade imersa no insolúvel

O Rio pós-Donga é uma cidade imersa no insolúvel

Em 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, deitou sobre o papel uma ordem aos seus comandados. Antes da apreensão de roletas e outros equipamentos de jogos de azar, os contraventores deveriam ser avisados “pelo telefone.” No ano seguinte, Donga registrou na Biblioteca Nacional os versos de “Pelo Telefone”. Uma composição que desceria às páginas dos compêndios musicais como o primeiro samba gravado no país.

À versão original, o povo tratou de acrescentar os seus próprios versos. Ficou assim: "O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta /Para se jogar /Ai, ai, ai /O chefe gosta da roleta,/ Ô maninha / Ai, ai, ai / Ninguém mais fica forreta / É maninha. / Chefe Aureliano, / Sinhô, Sinhô, / É bom menino, / Sinhô, Sinhô, / Pra se jogar,/ Sinhô, Sinhô, / De todo o jeito, /Sinhô, Sinhô, / O bacará / Sinhô, Sinhô, / O pinguelim, / Sinhô, Sinhô, / Tudo é assim" (Ouça aqui, na voz de Almirante, a versão que foi ao acetato).

Há quem diga que outros sambas foram gravados antes de “Pelo Telefone” –“Descascando o Pessoal” e “Urubu Malandro”, por exemplo. Há de resto, uma controvérsia envolvendo a autoria da peça. Fez-se muito barulho. Em meio à algaravia, Mauro de Almeida cavou uma co-autoria. Outros reclamaram, inclusive a gloriosa Tia Ciata. Mas essa é outra história. Uma história que Sérgio Cabral, o pai, autoridade em música popular, há de ter contado ao outro Sérgio Cabral, o filho. Eleito governador de um Estado conflagrado, o Cabral mais moço deve sonhar com esse Rio idílico, em que a transgressão ainda podia acabar em samba.

O Rio pós-Donga, que o eleitor confiou a Sérgio Cabral Filho, convive com uma normalidade homicida, eis o ponto que se deseja realçar. Mata-se o segurança do governador. Arrasta-se o país pelo asfalto, junto com o menino João Hélio. Rende-se na Linha Vermelha a própria suprema corte da nação. Ellen Gracie (presidente) e Gilmar Mendes (vice) experimentam um horror que, por disseminado, torna-se, por assim dizer, democrático.

Sucessor de desastres que vão de Chagas Freitas a Antony Garotinho, passando por Leonel Brizola, Cabral é a mais alvissareira novidade que a política fluminense foi capaz de produzir nos últimos anos. Traz nos olhos o brilho da sinceridade. Arrisca-se, porém, a arder nas chamas das boas intenções.

Cabral teve o mérito de atrair o governo federal para o centro do insolúvel. Não hesitou em requisitar uma ajuda que Lula dizia ser capaz de prover. Veio a Força Nacional. E nada. Virá agora o Exército. Vai resolver? Claro que não. A tática do mata-e-esfola é uma falsa solução. É um expediente vigarista. A repressão precisa vir acompanhada de um mutirão governamental que inclua o combate aos narizes empinados que consomem a cocaína que financia o morro e a reforma dos matadouros imundos em que se transformaram as prisões de adultos e os reformatórios de adolescentes.

Como se fosse pouco, vem agora à tona o óbvio. A operação Furacão, deflagrada pelo Ministério Público e pela PF na última sexta-feira, mostra que o maior flagelo do Rio não  está nos morros. Encontra-se assentado num aparato judicial e policial que aloja braços do crime que deveria combater. É uma calamidade que não se resolve com tanques do Exército.

Num ambiente assim, a idéia de “solução” soa como uma utopia tão remota quanto a figura folclórica do comissário Aureliano Leal. A solução ficou perdida em algum ponto do passado. Um tempo em que o telefone, inclusive o de Donga, era preto. E a geladeira, branca. O Rio de hoje, rendido por uma realidade multicor, não combina com o vocábulo solução.

Escrito por Josias de Souza às 18h48

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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