Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Coalizão programática vira o velho toma-lá-dá-cá

Coalizão programática vira o velho toma-lá-dá-cá

   Angeli
Depois de reeleito, no ano passado, Lula acenara com a formação de um governo de “coalizão” escorado em princípios “programáticos”. O ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) deu-se ao trabalho de redigir, em 27 de novembro de 2006, uma nota de conjuntura para definir o “novo” modelo. O texto correu o governo. Foi distribuído também no PT.

 

Na tal nota (íntegra aqui), Tarso festeja a coalizão como “um avanço democrático”, uma “renovação da cultura política do país”. Diferentemente do tradicional toma-lá-dá-cá, o governo anteciparia “os seus objetivos fundamentais”. Ficariam “visíveis para a sociedade os compromissos entre os partidos.” E as legendas brindadas com representantes na Esplanada vinculariam “seu comportamento aos objetivos acordados” com o governo.

 

Ganha um cargo de ministro no segundo reinado de Lula o leitor que for capaz de enunciar meia dúzia de “objetivos acordados” pelo Planalto com os partidos que se acotovelam por cargos no ministério. O “avanço” descambou para mera briga partidária, tão arcaica quanto tradicional.

 

Ainda continua fresco o noticiário sobre os desvios praticados no ministério da Saúde. Num golpe iniciado sob FHC e mantido sob Lula, verbas públicas que comprariam ambulâncias escoaram para cofres particulares. Faltam remédios nos hospitais públicos, faltam médicos, brasileiros morrem esquecidos nas macas do SUS.

 

E o que se ouve nos gabinetes do Planalto e do Congresso? Só a algaravia que marca a disputa do governador Sérgio Cabral (Rio) e da bancada do PMDB na Câmara pela primazia na indicação do novo ministro da Saúde. Nada de “compromissos”. Nenhuma palavra sobre os “objetivos acordados.” Só nomes e disputa de poder.

 

O ministério das Cidades convive com o cinturão de miséria que rodeia os grandes aglomerados urbanos. Falta saneamento básico, escasseiam as moradias para a clientela de baixa renda. Premiada pelo PAC, a pasta tem um lote de investimentos a executar. Mas, de novo, o caos e os investimentos vão às calendas. Vai ao primeiro plano a arenga entre PT e PP pelo controle da pasta.

 

Lula ora promete conservar as Cidades nas mãos do PP de Márcio Fortes, ora admite entregar a pasta ao PT de Marta Suplicy. A ex-prefeita de São Paulo, aliás, já esteve nas Cidades, já migrou para a Educação, já voltou para as Cidades, já foi excluída da equipe ministerial e retornou, de novo, para as Cidades. Nem vestígio de “compromissos” ou de “objetivos acordados”.

 

Para onde o observador se voltar encontrará o rastro de um jogo de bancadas e de personalidades à cata de melhores e mais vistosas posições. PSB se engalfinha com PMDB pela Integração Nacional. PMDB de Temer briga com PMDB de Renan e Sarney. PT, julgando-se preterido, se indispõe com Lula. P isso queixa-se da demora. P aquilo ameaça retaliar. P aquilo outro diz que, pelo tamanho de sua bancada, mereceria mais um ou dois ministérios.

 

Espremendo-se as tratativas de Brasília, obtém-se um sumo amargoso. Tudo se resume às manobras dos partidos para prevalecer uns sobre os outros. Como não há programas sobre a mesa, resta a incômoda sensação de que estão à cata de vantagens. Vantagens de todo tipo –das eleitorais às pessoais.

 

Com a caneta cheia de tinta e o Diário Oficial à disposição, Lula poderia escrever o primeiro capítulo daquilo que Tarso chamou de “renovação da cultura política do país”. Preferiu entregar-se a um jogo que conserva a esfera pública como uma arena restrita ao jogo rasteiro. Nada a ver com o almejado espaço de discussão dos problemas que afligem a coletividade. Lula não há de ter lido a nota de seu ministro.

Escrito por Josias de Souza às 18h12

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Lula e PT tratam a Educação com falta de educação

Lula e PT tratam a Educação com falta de educação

 

Lula já chegou ao Planalto, em janeiro de 2003, decidido a dividir o governo em duas partes: uma “séria” e outra nem tanto. Nada diferente do que haviam feito seus antecessores. O naco bandalho da administração seria negociado no baixo mercado da política.

 

Aos exemplos: no Banco Central, acomodou-se Henrique Meirelles, um ex-banqueiro milionário. Acabara de eleger-se deputado pelo PSDB de Goiás. Mas era o técnico que Lula procurava para informar ao mercado que a economia seria tratada com “seriedade”. Para a Agricultura, foi o agro-negociante Roberto Rodrigues. Para o Desenvolvimento Industrial, o capitalista Luiz Fernando Furlan.

 

Pode-se gostar ou não do trabalho de Meirelles, Rodrigues e Furlan. Mas é forçoso reconhecer que não foi sob nenhum deles que brotaram os escândalos do primeiro reinado. As encrencas nasceram do pedaço de governo servido aos lobos da fisiologia. O mensalão veio à luz como um revide de Roberto Jefferson à acusação de que o PTB montara nos Correios uma usina de propinas. Puxando-se a meada, chegou-se ao grão-petismo e às legendas valerianas.

 

Às voltas com a montagem do time do segundo reinado, Lula está na bica de tomar uma dessas decisões reveladoras do caráter de um governo. Envolve o ministério da Educação que, no gogó, é prioritário. Mede-se o tamanho da prioridade pela quantidade de ministros. Sob Lula, já foram três. Cristovam Buarque foi demitido pelo telefone. Tarso Genro trocou a pasta por uma interinidade na presidência do PT pós-delubiano. Fernando Haddad, o atual ministro, encontra-se na porta do microondas.

 

No cargo desde julho de 2005, Haddad tornou-se um dodói de Lula. No final do ano passado, discursando para uma platéia de educadores, o presidente deixou escapar que a presença dele na equipe do segundo reinado era pule de dez. Até que, há cerca de 20 dias, a Educação desceu ao balcão. O que fazer com Marta Suplicy? A pergunta deixou Lula embatucado. Ministra das Cidades? Impossível. O cargo era do PP. Conversa daqui, conchava dali, o PT mirou a cadeira de Haddad. E Lula tratou do assunto a sério. Haddad passou a exalar um incômodo cheiro de queimado.  

 

O curioso é que, em privado, Lula se que Marta fará de Brasília um trampolim para a eleição municipal de 2008. Mais curioso ainda é que o presidente está tomado de amores por um pacote educacional que Haddad acabou de formular. Ora, se é assim, por que mudar? Entregando a Educação a Marta, Lula mandará ao lixo um dos motes da campanha reeleitoral: “Não troque o certo pelo duvidoso.” Virará entulho também o lero-lero de que a Educação-companheira é coisa séria.

 

Haddad, um filiado do PT, não merecia ser tratado com tamanha falta de educação. Assim fica fácil entender por que o Saeb e o Enem revelaram que, de cada cem brasileiros de 15 a 20 anos, pelo menos cinco freqüentam o mundo dos iletrados.

Escrito por Josias de Souza às 16h29

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Brasil arrasta sua alma pelas ruas da insensatez

Brasil arrasta sua alma pelas ruas da insensatez

Ao decompor a trajetória do criminoso nazista Adolf Eichmann, a filósofa alemã Hannah Arendt deu de cara com um fenômeno que ela batizou de “a banalidade do mal.” Nada mais adequado para definir o comportamento de Eichmann. Ao ser julgado, em Jerusalém, apresentara-se como mero cumpridor de ordens.

Eichmann relatara detalhes da rotina maligna da Alemanha hitlerista. Contara como eram planejados os deslocamentos de levas de judeus para as câmaras de gás. Rememorara, em minúcias, uma das reuniões que mantivera com oficiais da SS, a polícia nazista.

 

Ele os havia convocado para acertar a execução de mais uma leva de judeus. Reunira-se com eles por uma hora e meia. Ao final, serviram-se de aperitivos. Depois, almoçaram. “Uma pequena e íntima reunião social”, no dizer de Eishmann. A mais pura representação da “banalidade do mal”, nas palavras de Arendt.     

 

Corta para o noticiário do Brasil da última semana. Quarta-feira. A TV derrama sobre o tapete da sala imagens inusitadas. Vídeo amador. Cenas de uma blitz policial de rotina, no centro de São Paulo. Brasileiros comuns, de costas, braços levantados, mãos contra a parede. PMs igualmente comuns distribuíam chutes, socos... Terminada a pancadaria, ninguém foi preso. Retiveram-se bolsas e mochilas. Empilhadas, viraram fogueira (assista ao vídeo acima).

 

Quinta-feira. Irrompe em cena um desses acontecimentos que produzem a sensação de que a vida fugiu ao controle. Ocorrera na noite da véspera. Os relatos estão por toda parte: rádio, TV, internet. Impossível não saber. Um grupo de marginais abordara, num subúrbio do Rio, a comerciante Rosa Cristina Fernandes. Queriam o carro dela.

 

Rosa não opôs resistência. Desceu. Tirou do veículo a filha Aline, 13. No instante em tentava destravar o cinto de segurança do filho João, 6, os bandidos arrancaram. E lá se foi João, dependurado do lado de fora do carro. Arrastaram-no por sete inesgotáveis quilômetros. Abandonaram-no numa rua sem saída, ao lado do Corsa sujo de sangue, corpo dilacerado, sem cabeça, ossos à mostra.

 

Em meio à brutalidade, espocavam as últimas notícias recolhidas da cena política. O PSDB encomendara pesquisa para saber o que o eleitor pensa dele. O PFL decidira trocar de nome. O PT lavava roupa suja em público e tricotava a anistia do Zé Dirceu. O PMDB, em dúvida entre Temer e Jobim, inquietava-se com a demora de Lula em ratear os cargos.

 

Assim como na rotina de Eichmann, o que espanta na realidade brasileira não é propriamente a anormalidade. Espantosa é a normalidade que resplandece em torno do inaceitável. É como se todos os discos de Cazuza tivessem arranhado num único verso, repetido à exaustão: "o tempo não pára... e as idéias não correspondem aos fatos!" 

 

É como se o país tivesse sido condenado a assistir na TV a um vídeo sem fim, registrado por um cinegrafista nada amador. Mostra o Brasil oficial arrastando a alma do Brasil real pelas vias da insensatez. Exibe a banalização do mal levada às suas últimas conseqüências.

Escrito por Josias de Souza às 12h19

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Lula inicia fase ‘mercúrio’ de seu segundo reinado

Lula inicia fase ‘mercúrio’ de seu segundo reinado

Lula II está na bica dar o apito inicial. Vive-se aquele instante que antecede os grandes jogos. O time se ajeita para a fotografia. PT, PMDB e as legendas mensaleiras, braços cruzados, perfilam-se atrás, em pé. PSB e PC do B acomodam-se na frente, de cócoras. A torcida deve preparar o coração. Vêm aí fortes emoções.

A troca de caneladas começou na partida preliminar. Deu-se nos gramados da Câmara. Opôs dois times governistas: o de Arlindo Chinaglia e o de Aldo Rebelo. Houve fraturas. Algumas delas expostas. Antes do jogo principal, dessa vez contra o time da oposição, Lula divide-se entre o comando técnico e o departamento médico.

O presidente anunciou, em timbre jocoso, que vai curar os ferimentos com mercúrio. Embora não tenha especificado, sabe-se que não será mercúrio-cromo (ou, para alguns, mercurocromo). Utilizará “mercúrio-cargo”. A julgar pelos gemidos da equipe, a dosagem terá de ser cavalar.

A cena que se prenuncia não é dignificante. Mas representa um avanço em relação ao passado recentíssimo. Recorreu-se, no primeiro mandato, ao doping da remuneração pecuniária de consciências parlamentares. Tenta-se agora a velha terapia, iniciada sob Sarney, aperfeiçoada sob Collor e levada às últimas conseqüências sob FHC.

 

Está entendido que a torcida não aceita mais prescrições à mensalão. Reconheça-se, porque é de justiça, que Lula lida com uma base congressual fisiológica. Sem cargos, suas propostas empacarão no Legislativo. Mas o governo ofende a inteligência do torcedor ao vender o lero-lero de que compôs uma coalizão programática.

 

Lula está às voltas com uma aliança de feições problemáticas. Poderia entrar em campo com a disposição de um zagueiro à antiga. Do tipo que mira o calcanhar do adversário já nas primeiras entradas. Só para deixar claro quem manda nos arredores da grande da área. Mas o seu time só funciona à base de afago$.

Os partidos governistas não vêem no retrato presidencial que pende da parede de todas as repartições públicas um Rembrandt imaculado. Longe disso. Os “aliados” enxergam no retrato, debaixo da barba nevada, uma cara capaz de comportar-se com a mesma desfaçatez dos antecessores. Os remotos e os mais recentes.

O que fazer? Lula deveria condicionar a nomeação de ministros e gestores de autarquias e estatais à qualidade das biografias dos indicados. O problema não está na entrega de guichês e cofres públicos aos partidos. A encrenca reside nas segundas intençõe$ que se escondem sob currículos indefensáveis.

Recorde-se, à guisa de exemplo, que, sob Lula I, o PTB de Roberto Jefferson plantou nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil, com a anuência de José Dirceu, o técnico de então, apadrinhados de reputação duvidosa. Conforme ficou evidenciado, não estavam interessados em promover o bem público.

Lula não tem pressa para acionar o apito. Algo que deixa o time irrequieto. A depender da escalação que está prestes a anunciar, o presidente pode ser compelido a auto-escalar-se para o gol. O segundo mandato pode converter-se num novo escândalo esperando para acontecer.

Escrito por Josias de Souza às 19h00

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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