Josias de Souza

Bastidores do poder

 

Colunas

O gênio do Palácio da Alvorada

O gênio do Palácio da Alvorada

 

Ponha-se, por um instante nos sapatos de outra pessoa. Suponha que você se chama Lula da Silva. Mora no Brasil. Cresceu em meio à privação. Foi à luta. Driblou as adversidades. Aprendeu um ofício. Aventurou-se no meio sindical. Liderou greves memoráveis. Vergou a ditadura. Fundou um partido político. Uma legenda ascética.

Suponha que você fracassou em três tentativas de tornar-se presidente. Tropeçou no preconceito. Foi vítima de uma farsa (Collor) e de duas decepções (FHC 1 e FHC 2). Sacudiu a poeira. Manteve-se na luta.

 

Suponha que, em 2002, caminhando displicentemente por uma rua de São Bernardo, você tropeçou numa lâmpada mágica. Dela saltou um gênio. Disse-lhe que poderia pedir qualquer coisa. A vida eterna, a mulher dos sonhos... Qualquer coisa.

 

Suponha que você pensou em pedir a 'ressurreição' de Brigitte Bardot, em sua fase juvenil. Mas acabou pedindo a presidência da República. Queria mudar o país. O gênio ajeitou as coisas. Deu-lhe o Alencar de vice, o Duda para o marketing e o Serra como adversário.

 

Suponha que você se elegeu presidente. Por um desses caprichos do destino, você não mudou grande coisa. Na economia, manteve a linha Malan. Para complicar, seu partido meteu-o em escândalos em série. Você perdeu o braço direito, o esquerdo...

 

Suponha que, no instante em que seu partido preparava-se para podar-lhe as pernas, o gênio ressurgiu na sua frente. Prontificou-se a atender um segundo desejo. Você não teve dúvidas. Sapecou: “A reeleição, quero a reeleição.”

 

Suponha que o gênio ajeitou as coisas. Tirou o dossiê do caminho. Iluminou o João Santana. Inspirou-o a realçar o Bolsa Família na TV. Orientou-o a jogar no caminho de Geraldo Alckmin a casca de banana da privatização. Você lavou a alma nas urnas.

 

Suponha que o gênio, numa noite fria e seca de Brasília, reapareceu na biblioteca do Alvorada. Ofereceu-lhe um terceiro e último pedido. Você entregou a ele uma papelada recolhida na escrivaninha. “O que é isso?”, perguntou o gênio. E você: “São as sete medidas provisórias e os cinco projetos de lei do PAC.”

 

Suponha que o gênio abespinhou-se: “PAC?!?!” Você tentou acalmá-lo. “Sim, o PAC, programa de aceleração do crescimento. É a aposta da minha vida, a redenção da minha biografia. Desejo que você me dê PIBs de pelo menos 5%.”

 

Suponha que o gênio impacientou-se. “Quer dizer que eu te dei a reeleição para isso? Mágica tem limites! Você não precisa de gênios. Procure o Sarney, o Renan... Entenda-se com o Temer. Agarre-se ao PMDB.” Enfiando-se de volta na lâmpada, o gênio balbuciou: “Ora, francamente.”

Suponha que você sabe que o gênio não volta mais. O que fazer? Rezar? Reforçar a cota ministerial do PMDB? Ou arrepender-se de ter perdido a Brigitte Bardot?

Escrito por Josias de Souza às 18h05

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Obama, um nome que merece um naco de atenção

Obama, um nome que merece um naco de atenção

  AP
Você talvez já tenha ouvido dele. Se não ouviu, convém prestar atenção aos movimentos de Barack Obama. Trata-se da mais vistosa novidade produzida pela política norte-americana nos últimos tempos. Cavalgando a impopularidade de George Bush, Obama tenta chegar à Casa Branca. Muitos o vêem como um azarão. Mas caminha a passos largos para deixar de sê-lo.

Obama tornou-se oficialmente candidato à sucessão de Bush na última terça-feira (16). Registrou seu comitê na Comissão Eleitoral Federal dos EUA. Deseja ir às urnas como postulante do Partido Democrata. O mesmo que obteve maioria congressual nas eleições legislativas de novembro de 2006, interrompendo uma supremacia republicana de 12 anos.

Para seguir adiante, Obama terá de bater no Partido Democrata a rival Hillary Clinton. Como ele, a mulher do ex-presidente Bill Clinton sonha com a presidência. Pôs-se em movimento neste sábado (20). Outros três candidatos disputam a vaga democrata: John Edwards, Tom Vilsack e Dennis Kucinich. São, no entanto, zeros à esquerda.

Mas quem é, afinal, Barack Obama? Se vivesse no Brasil, ele seria tachado de mulato. Deve a cútis escura à união de seu pai, um queniano, filho de cozinheiro, com uma norte-americana branca do Kansas, filha de operário. Seus pais, já mortos, conheceram-se no Havaí, onde Obama nasceu. O repórter William Finnegan farejou o potencial do rapaz em 2004. Produziu um belo perfil de Obama, publicado na The New Yorker.

Um detalhe distingue Obama de outros negros que se aventuraram na política dos EUA: não pendem de sua árvore genealógica os vestígios da descendência escrava. O pai dele deve o desembarque na América não aos grilhões, mas a uma bolsa de estudos. Bolsa que o conduziu aos bancos da Universidade do Havaí e de Harvard. Fez-se economista e voltou ao Quênia, deixando para trás mulher e filho.

A ascensão de Obama vincula-se à trajetória de outros milhões de americanos que lapidaram suas biografias nas frinchas abertas pela política de ação afirmativa, concebida para levar alunos negros às universidades. Com escassos 45 anos, Obama conheceu a privação. Mas também soube agarrar-se aos privilégios. Estudou em Columbia e Harvard, duas das mais prestigiosas fábricas de canudos do planeta.

Dono de um diploma de advogado que lhe assegura rendimentos anuais de mais de US$ 200 mil, Obama voltou-se para atividades sociais e para a política. Tem vocação para a coisa. Dono de um fino intelecto, ele se move com suavidade numa Washington tomada pela selvageria. Associada ao que se convencionou chamar de “sonho americano, a trajetória hollywoodiana levou-o a transcender os velhos rótulos ideológicos e raciais.

Os adversários acusam Obama de proferir discursos liquefeitos –tomam a forma do jarro mais conveniente. O “defeito” parece converter-se em virtude aos olhos do eleitorado. Norte-americanos brancos e negros enxergam em Obama um político moderado, capaz de produzir consensos. Opôs-se à guerra do Iraque antes que os EUA enviassem para o martírio as primeiras tropas.

Obama é, hoje, senador por Illionois –o quinto negro a escalar o Senado dos EUA, o único em atividade. As chances de que venha a ocupar a cadeira de presidente da última superpotência do globo são cada vez menos negligenciáveis. Portanto, convém seguir os passos de Obama.

Escrito por Josias de Souza às 19h16

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Lula faz de Rebelo uma Janet Leigh de Psicose

Lula faz de Rebelo uma Janet Leigh de Psicose

 

Aldo Rebelo perdeu a conta do número de vezes que Lula prometeu apóia-lo. Foram tantas e tão enfáticas as manifestações de simpatia que Rebelo imaginou-se imbatível. Deu-se, porém, o inexplicável. Mantido na frigideira há mais de um mês, Rebelo foi mandado, na semana passada, ao microondas. Poucas vezes na política a receita de um assado foi tão reveladora da frieza do cozinheiro.

 

Em meados de 2006, Rebelo foi a Lula. Disse-lhe que não cogitava renovar o mandato de deputado. Buscava desafios novos. Enfático, Lula respondeu que precisava dele na Câmara. Mencionou o plano de reconduzi-lo à presidência da Casa. Uma idéia que renovaria um sem-número de vezes ao longo da campanha eleitoral.

 

Rebelo foi às urnas. Reelegeu-se. Em dezembro, imaginando-se candidato único do governismo à presidência da Câmara, surpreendeu-se com a entrada em cena de Arlindo Chinaglia (PT). Sabia das pretensões do líder do governo. Mas imaginava que Lula frearia o ímpeto do PT. Ilusão. Começaria ali o banho-maria.

 

Em reunião com uma comitiva petista, Marco Aurélio Garcia à frente, Lula disse que queria Rebelo. Mencionou o “risco Severino”. Mas não pronunciou uma mísera palavra que pudesse ser interpretada como veto. O silêncio de Lula acomodou Rebelo numa trilha que o conduziria para um hotel sinistro de beira de estrada, com Anthony Perkins na portaria.

 

Antes de recolher-se ao refúgio do Guarujá, Lula renovou a suposta preferência por Rebelo em diálogo com o governador pernambucano Eduardo Campos (PSB). Alheio ao apoio retórico, Chinaglia tricotava com o PMDB. Encontrou matéria-prima para o conchavo no grupo de neogovernistas, ávidos por abrir uma fenda na couraça que se formara em torno de Renan Calheiros e José Sarney, até então interlocutores exclusivos de Lula no PMDB.

 

Chinaglia entendera-se inicialmente com Geddel Vieira Lima (BA), potencial candidato do PMDB à presidência da Câmara. Depois, lograra atrair Michel Temer, presidente do PMDB, para a negociação. Geddel e Temer sinalizaram para o ministro Tarso Genro que rumavam para a canoa petista. Ao menor sinal de contrariedade, teriam dado meia-volta. Mediante compensações, apoiariam Rebelo. Ou um poste, desde que Lula indicasse.

 

Em férias no Guarujá, Lula foi informado, pelo telefone, da consumação do apoio da maioria peemedebista a Chinaglia. A essa altura Rebelo já estava bem passado. A “Psicose” que regia a articulação política do Planalto já o havia guindado à condição de uma Janet Leigh a caminho do chuveiro. No rastro do PMDB, o PSDB também decidiu associar-se a Chinaglia. Antes que o tucanato começasse a se auto-depenar, a candidatura de Rebelo foi passada na faca. Com o beneplácito de Lula.

 

Nesse instante, Rebelo cambaleia, ensangüentado, pelos meandros dos partidos. Sonha para si um final menos trágico do que o de Janet Leigh na fita de Alfred Hitchcock. Escorado no PFL, espera ser ressuscitado pelas mãos de uma incerta dissidência suprapartidária. E Lula, mercê de sua indecisão, está na bica de transformar-se num dos vitoriosos mais perdedores da política nacional. Prevaleça Chinaglia ou Rebelo, nenhum dos dois terá motivos para atribuir o triunfo à interferência de Lula.

Escrito por Josias de Souza às 19h51

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O grande nariz

O grande nariz

 

Drops de cocaína, lançado nos EUA em 1885, contra dor de dente; bons tempos!!!

 

Ao espalhar violência a esmo em São Paulo e no Rio, os dois centros urbanos mais vistosos do país, o crime organizado introduziu uma inusitada novidade na cena nacional: em vez de agir nos subterrâneos, como convém aos “negócios”, os delinqüentes decidiram mostrar a cara. Atacam instalações policiais, incendeiam ônibus, afrontam o Estado. É como se houvessem concluído que não há existência fora da mídia. Querem aparecer no “Jornal Nacional”. Roubam a cena, estebelecendo um caos que oferece ótima matéria prima para um recomeço, um convite à renascença. O caos intima o governo federal e as administrações estaduais à ação conjunta.

 

Sérgio Cabral, o novo governador do Rio, oferece a Brasília uma oportunidade única de mostrar eficiência. Diferentemente da administração paulista, Cabral aceitou tudo o que o governo federal tem a oferecer: Força Nacional, Forças Armadas e até o acesso às vagas disponíveis no presídio federal de Catanduvas (PR). Vai funcionar? Talvez não. Um descalabro de décadas não se resolve em semanas, meses ou no intervalo de um mandato. A repressão, de resto, não é o único remédio contra o câncer. É preciso limpar a polícia, humanizar os presídios, levar os serviços do Estado às comunidades pobres, hoje sob o domínio do tráfico.

 

A despeito da dúvida, Cabral acerta ao apostar na parceria com Lula. Se o crime é organizado, por que o Estado deveria insistir na desorganização? Espera-se que a colaboração se estenda ao aparato de inteligência e às engrenagens de controle da movimentação financeira. Impossível deter o crime sem mapear-lhe o patrimônio e os tentáculos financeiros.

 

Há, porém, uma grande ausência em todo esse debate. Falta ao enredo um personagem central: o grande nariz. O crime diversificou os seus negócios no país. Possui ramificações até no roubo de cargas. Mas a base de tudo continua sendo o comércio de drogas. Vende-se cocaína porque há no mercado quem se disponha a sorvê-la em grandes quantidades.

 

Cocaína é coisa cara. A sobrevivência do negócio está escorada num mercado de consumo de elite. Deseja-se combater o tráfico, mas tolera-se o consumo da droga. Fala-se em Marcola, em Fernandinho Beira-Mar, mas arma-se uma barreira de silêncio em torno do grande nariz. E por quê?  Simples: o nariz invisível não é mencionado porque, se fosse, não haveria investigação. Ele é empinado demais para ser exposto em boletins policiais.

 

O grande nariz não está nem favela do Rio nem na periferia de São Paulo. Ele trafega em ambientes mais sofisticados: coxias de shows, camarins de desfiles de moda, corredores do Congresso, redações de jornal... Nas festas onde há drogas, entre uma cafungada e outra, ternos Armani e decotes Versace se dizem chocados com o noticiário sobre as atrocidades praticadas por criminosos. Deseja-se combater verdadeiramente o crime organizado? Pois antes é preciso que a sociedade comece a enxergar o nariz invisível que cheira nos ambientes requintados das grandes cidades. O grande nariz sustenta o tráfico, paga o suborno à polícia, financia a matança e banca a gasolina que incendeia ônibus.

Escrito por Josias de Souza às 18h04

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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