Josias de Souza

Bastidores do poder

 

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Previsões políticas infalíveis para o Ano-Novo

Previsões políticas infalíveis para o Ano-Novo

Sérgio Lima/Folha Imagem
 

 

A folhinha encontra-se em pleno trabalho de parto. Logo, logo dará à luz 2007, um ano novinho em folha. É hora de antever o futuro. Coisa muito fácil de fazer. Desconsiderado o inesperado, que, por imprevisível, é impossível de prever, tudo o mais pode ser antecipado. Vai abaixo um kit de previsões infalíveis.

 

Exceto pelo bordão “nunca na história desse país”, que repetirá à saciedade, o Lula de 1º de janeiro será um novo homem. Manterá o nome antigo apenas por comodidade, para não ter de trocar todos os documentos. Mas no fundo, no fundo passará a se chamar JK da Silva –um personagem à direita de Lula e à esquerda de Lula, dependendo da época.

 

Depois de um discurso de re-posse que exalará pompa, o governo cruzará o ano tropeçando nas circunstâncias. O presidente prometerá desenvolvimento econômico. O PIB pode mesmo experimentar vigorosa recuperação, desde que a economia não volte a registrar um desempenho pífio.

 

O primeiro ano do segundo mandato será um sucesso, caso não se revele um fiasco. Os jornais não voltarão a noticiar escândalos, bastando para isso que Brasília seja  varrida por uma onda de probidade.  

 

A despeito da nova identidade, JK da Silva continuará filiado ao PT. Porém, vai exacerbar o movimento iniciado em 2003. Levará o ecumenismo político às últimas conseqüências. Sua grande tacada será a “coalizão”, novo eufemismo para fisiologia.

 

Depois de anunciar o último nome do “novo” ministério, o presidente desfilará pelos salões de Brasília de mãos dadas com o PMDB, que lhe baterá a carteira na primeira oportunidade. O casamento correrá às mil maravilhas. O que parecia mera estratégia política ganhará ares de comunhão de estilos.

 

Distanciado dos principais cofres, o PT protagonizará cenas de ciúme explícito. Os queixumes serão pendurados nas manchetes dos jornais. Em meio à algaravia, o brasileiro voltará a ser assaltado (com duplo sentido, por favor) pela incômoda sensação de que a Esplanada voltou a ser ocupada por dois tipos de ministros: os incapazes de todo e os capazes de tudo.

 

O novo Congresso sofrerá um processo de envelhecimento precoce. Votações importantes serão condicionadas ao tilintar de verbas e cargos. O Planalto será compelido a negociar tudo. Inclusive os escrúpulos.

 

Desiludida, a esquerda vai se mudar para um grotão. Alugará um casebre vizinho ao barraco da social-democracia. Penduradas na rede de proteção social do governo, as duas velhotas usarão as migalhas do Bolsa Família para comprar aguardente. Viverão em porre eterno. Evitarão sair às ruas, com medo de ser apedrejadas. Passarão noites em claro relendo Karl Marx e Max Weber. Nas horas vagas, jogarão dardos. Como alvos, um retrato de Lula e outro de FHC.

 

Se o Apocalipse não vier, 2008 vai chegar no exato instante em que dezembro de 2007 acabar. Junto com o burburinho das eleições municipais, surgirão as primeiras notícias sobre a iminente troca de cúmplices. E virá outra reforma ministerial.

 

O Ano-Novo será, portanto, aquela coisa velha de sempre. Mas não se apavore. Você será muito feliz, desde que não seja acometido por um surto de desoladora infelicidade.

Escrito por Josias de Souza às 16h33

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O ‘Sr. Nada’ dá expediente no Ministério da Defesa

O ‘Sr. Nada’ dá expediente no Ministério da Defesa

 

Nunca na história desse país o Nada chegara tão longe. Sob Lula, o senhor Coisa Nenhuma virou ministro de Estado. Despacha no prédio da Defesa. Tem debaixo de si os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

 

Experimente-se alcançar o Nada com os olhos. Tente-se enxergá-lo em seu assento. Inútil. O olhar atravessa o Nada e vai bater no couro do espaldar da poltrona.

 

Sempre se disse que, para comandar as Forças Armadas, o ministro ideal seria um ser invisível. Quanto menos fosse notado, melhor. Com Waldir Pires, exagerou-se. Exagerou-se tanto que já nem o governo o nota.

 

O próprio Palácio do Planalto tratou de reduzir o Nada à insignificância do não-ser. Incomodado com a exuberância do caos aéreo, Lula pôs em cena Dilma Rousseff. Incumbiu a menina superpoderosa da Esplanada de restabelecer a ordem na seara do Nada.

 

Não será fácil. O descalabro aéreo, sabe-se agora, é coisa antiga. Vem de antes de FHC. Mas Lula, no poder há quatro anos, já não pode espetá-lo na conta da herança maldita. A menos que resolva culpar Santos Dumont.

 

Apresentado à encrenca ainda em 2003, o governo Lula optou por administrá-la à maneira do antecessor. Não usou a cabeça. Não, não. Absolutamente. Valeu-se da barriga.   

 

O setor aéreo está apinhado de problemas? Tudo bem. O governo os empurrará com a barriga. Os controladores de vôo queixam-se das condições de trabalho? Barriga neles. Os equipamentos estão definhando? Barriga. Faltam verbas? Tesoura. E mais barriga. Isso? Barriga. Aquilo? Barriga de novo.

 

Às voltas com uma crise que inviabiliza o uso da pança como ferramenta de gestão, o governo passou a usar a boca. Foi quando o ministro Nada teve de entrar em ação. Numa entrevista, disse que os controladores estavam sob controle. Noutra, disse que a crise fora vencida. Em seguida, prometeu solução até o Natal. Na seqüência...

 

Na administração do Nada é assim: o ministro recebe um certo salário. Em troca, deveria cumprir com suas obrigações. Não cumpre. E sua inação vira um problema, que é acomodado sobre os ombros de quem lhe paga o contracheque. Reconheça-se, porque é de justiça, que Waldir Pires não representa o Nada sozinho. Houve outros Nadas antes dele. Tantos que o contribuinte já começa a fazer uma reflexão. Algo assim: ''O caos deu as caras nos aeroportos porque o Senhor Nada e seus auxiliares são incompetentes. E a folha de salários da administração pública não é lugar para ineptos''.

 

Submetido à mesma reflexão, Lula talvez seja levado a tomar alguma providência em relação ao Nada. Ou não. Neste caso, o país será levado a supor que foi às urnas de outubro à toa. Entregou 58 milhões de votos a um outro Nada.

Escrito por Josias de Souza às 19h31

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Na ponta do lápis, Lula fica em minoria no Senado

Na ponta do lápis, Lula fica em minoria no Senado

Alan Marques/Folha Imagem
 

 

Já vai longe o tempo em que o Senado era visto como uma casa vetusta, abrigo de políticos que, por experimentados, se pautavam apenas pelo equilíbrio. No primeiro mandato de Lula, o Senado converteu-se em palco de controvérsias sanguinolentas. Sob Lula II, a situação não será diferente. O presidente inicia o segundo mandato em minoria na chamada Câmara Alta. Num universo de 81 senadores, há pelo menos 43 potenciais oposicionistas.

Às contas: PFL e PSDB reúnem uma bancada de 32 opositores. Embora o PDT flerte com o Planalto, há três críticos de Lula aninhados sob a legenda: Jefferson Peres, Cristovam Buarque e Osmar Dias. O PTB declarou apoio a Lula. Mas abriga um senador, Mozarildo Cavalcanti, cuja atuação não pode ser tachada de governista. O PSOL perde Heloisa Helena, mas ganha José Nery Azevedo. Há, de resto, seis peemedebistas que se declaram em oposição a Lula.

Para aumentar a encrenca, há o peemedebista Pedro Simon, que vai à conta como “independente”. Ninguém sabe como será a atuação de Fernando Collor. Petistas como Paulo Paim, Eduardo Suplicy e Flávio Arns são vistos pelo governo como senadores-problema. E há senadores governistas que, entrados em anos, flertam com o absenteísmo: Epitácio Cafeteira e João Durval, por exemplo, ambos na casa dos 80.

Vem daí o empenho de Lula para reacomodar na presidência do Senado o peemedebista Renan Calheiros. A hipótese de entregar o comando da Casa ao pefelista José Agripino Maia causa arrepios no Planalto. O presidente da República refere-se ao personagem com palavras de calão rasteiro. Não raro, inclui em suas referências ofensas à genitora do senador.

Lula receia que, assumindo o leme do Senado, a pefelândia não hesitará em atear fogo no Legislativo. Argumenta-se que o PFL perdeu para o petismo algumas de suas principais trincheiras estaduais: Bahia e Sergipe. De resto, terá de entregar ao tucanato uma São Paulo momentaneamente confiada ao pefelista Cláudio Lembo.

Afora o natural desejo de vingança, o PFL já não teria interesses administrativos a mediar com o governo federal. O partido está livre, acredita Lula, para desempenhar o papel de franco atirador. Nas palavras de um senador que desfruta da intimidade do presidente, o PFL pode tornar-se uma espécie de “PT da direita”, referência à oposição infatigável e intransigente que o petismo fez a Fernando Henrique Cardoso.

O “problema” será mencionado por Lula nas conversas que terá, ainda em dezembro, com os governadores tucanos José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas). O presidente fará um pedido a ambos: quer que eles ajudem a impedir que o tucanato embarque cegamente na canoa carbonária do PFL. Fará um apelo pela governabilidade.

É pena que Lula não cultive o hábito da leitura. O único modo de o presidente encontrar o Senado que procura seria recorrendo a uma velha crônica de Machado de Assis. Em “O Velho Senado”, Machado relata o que testemunhou como jovem repórter, destacado para a cobertura das atividades do Senado de 1860.

"Nenhum tumulto nas sessões. A atenção era grande e constante", anotou Machado. Os senadores da época “pareciam pertencer a uma família”. Dispersavam-se "durante a estação calmosa, para ir às águas e outras diversões”. Voltavam a se reunir depois, “em prazo certo, anos e anos". Havia controvérsias, "mas é próprio das famílias numerosas brigarem, fazerem as pazes e tornarem a brigar". Como se vê, já vai mesmo longe o tempo em que o Senado era visto como uma casa vetusta.

Escrito por Josias de Souza às 18h44

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Josias de Souza Josias de Souza, 46, é colunista da Folha da S.Paulo.

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